Sou escritor, jornalista, publicitário e um dos fundadores da Editora Jovens Escribas. Já publiquei dois livros: o romance Lítio e a coletânea de contos A Cega Natureza do Amor. Aqui no PLOG escrevo sobre tudo. E até sobre nada.
Eu gostaria de dizer, menininha pedante que conheci em 1997, que nem sempre é necessário entender a letra da música para que possamos desfrutar do barato que ela propõe; e se eu raciocinasse da mesma forma com que você teimosamente raciocinava em 1997 – sempre raciocinando, sempre tão racional — jamais teria na memória, guardado com todas as pompas e circunstâncias dos grandes momentos, aquela noite em que fui te deixar em casa e cantei bem alto uma do Stone Temple Pilots, apesar de você insistir covardemente em desdenhar da letra dizendo que When the dogs do find her era uma frase sem sentindo e claramente infantilóide. Você repetia em português, com aquele jeito arrogante de dizer as sílabas, “Quando os cachorros realmente a encontram”, e você gargalhava, “O que isso significa?!”, e você ria com escárnio, “Como você pode cantar com tanta emoção uma frase que não entende?”, você perguntava. Eu aumentei o volume, tomei mais um gole da minha cerveja quente e abafei o seu cérebro com berros, me esgoelando, sangrando o refrão que não entendia. When the dogs do find her passou a significar Um jeito de calar sua grande boca. E como eu fui feliz silenciando suas certezas com uma frase sem sentido.
Eu gostaria de dizer, menininha pedante que conheci em 1997, que em 98 estava perdidamente apaixonado por você, da maneira mais sincera e brutal que já estivera apaixonado até então, mas aquele primeiro “Eu te amo”, ajoelhado aos seus pés numa festa à fantasia — você de cigana, eu de marinheiro — aquele “Eu te amo” foi mentira. Foi apenas porque não sabia definir o que pulsava no meu peito querendo explodir pela boca, e que não era amor: uma paixão, um encantamento, uma empolgação. Eu estava empolgado com você. Seu sorriso comedido, sua forma de sentar de pernas abertas, seus seios fartos que pareciam sempre tão dispostos a me alimentar. Virou paixão em 98, amor em 99, amizade em 2000, tédio em 2001, aversão em 2002. Não foi responsabilidade exclusivamente sua, mas 18 meses de psicoterapia me ensinaram a te culpar.
Eu gostaria de dizer, menininha pedante que conheci em 1997, que não foi sua beleza, mas sim minha feiúra. Ou mais que isso: foi o meu sentimento de feiúra. Porque não sei se naquela época, com a adolescência brotando tão violentamente por todos os meus poros, eu era mesmo muito feio ou apenas me sentia muito feio — o que, no fim das contas, dá no mesmo, visto que o efeito nas outras pessoas é o mesmo: ninguém me olhava, ninguém me tocava, ninguém me queria. Você notou essa alma livre em meio a tantas prisões, a minha mente inquieta cheia de ideias. Não foi sua beleza, mas sim minha feiúra. Era você ou a casa de drinques que meu irmão andava doido pra me levar.
Eu gostaria de dizer, menininha pedante que conheci em 1997, que aquele jeito com que você afundava os olhos na Constituição de 88, comentando sobre a inaplicabilidade do ECA numa realidade social tão caótica — esse gesto, apenas esse gesto: ler a Constituição e de vez em quando comentá-la — foi o que nos afastou abissalmente em 2001. Minha mente vagava por poemas, músicas, filmes; digladiava-se com a impossibilidade de ser dândi e grunge concomitantemente; fixava-se em coisas impalpáveis mas valiosas, de um valor que os dinheiros não pagam — enquanto você empregava todo o seu intelecto em entender o ECA. Naquele tempo, não pude prever que acabaríamos, inevitavelmente, da forma como acabamos: machucada, ressentida, vingativa; apático, silencioso, inacessível. Não pude prever que chegaríamos a 2002 daquele jeito: você berrando, arrancando do olvido todas as vezes em que não te amei de verdade, dizendo com suas sílabas perfeitas que até percebia quando eu topava o sexo apenas pela possibilidade de fumar um cigarro ao final. Não pude prever que continuaria calado diante de todas as ofensas, e não transpareceria nenhum resquício de emoção, e me limitaria a destravar a porta do carro para que você descesse enquanto acendia mais um cigarro como se tivesse acabado de fazer sexo. Naquele 2002, fui pela primeira vez 100% cínico.
Eu gostaria de dizer, menininha pedante que conheci em 1997, que nada do que você fez me machucou tanto quanto desdenhar do Stone Temple Pilots. Nem quando você me chamou de broxa, nem quando insinuou que eu tinha um caso com um dos meus melhores amigos, nem quando você teve um caso de três meses com um dos meus melhores amigos. Lembro de você dizendo com escárnio, os olhos lacrimejados pela maligna completude que a humilhação alheia proporciona: “Essa música não faz o menor sentido, querido, e você só gosta dela porque é moda ser grunge”. Nem quando você ligou para minha mãe em 2003 e disse estar preocupada com o quanto eu bebia; nem quando você me enviou flores no aniversário do nosso namoro dois anos depois que rompemos; nem quando você acabou casando com uma versão mais feia de mim mesmo, mais magra, mais drogada, mais vagabunda, mais grunge, uma versão bizarra e mais compatível com você; nem quando você batizou seu filho com o nome que eu alardeava que meu primeiro filho teria; nem quando você encheu a cara no meu aniversário e não segurou a onda de me ver com outra e acabou tentando beijar uma das minhas amigas e berrou que eu estava te matando lentamente e foi embora a pé, desgrenhada, descompensada, destruída, me transformando no vilão da sua pornochanchada. Eu não te perdoo por desdenhar do Stone Temple Pilots.
Era isso, menininha pedante que conheci em 1997. Tava meio que engasgado.
Era isso, menininha pedante que conheci em 1997. Tava meio que engasgado
O clima era de festa na Câmara Municipal de Natal no início desta noite. Centenas de pessoas tomaram a rua para comemorar o habeas corpus do STJ para oos manifestantes do #ForaMicarla. O movimento, democraticamente, segue acampado na Câmara. E eu cheguei bem no momento em que todos tomavam a rua para cantar o Hino Nacional. Foi de arrepiar.
Hoje passei mais uma vez no acampamento do #ForaMicarla na Câmara Municipal de Natal. Não vi violência, nem agressividade, nem baderna. Vi apenas tensão.
A ordem judicial para que a PM invada o local e expulse os manifestantes havia acabado de ser expedida. O prazo para iniciar a desocupação começa às 18h de hoje.
Nesta segunda visita, notei mais algumas coisas:
- Todos os banheiros do térreo estavam trancados. Nenhum funcionário da CMN sabia onde estavam as chaves e ficava aquele clima de “Não vejo, não ouço, não falo” quando alguém tentava descobrir.
- Não havia água nas torneiras.
- Não havia internet wi-fi.
- Mesmo com as apresentações culturais, o silêncio imperava nos corredores da Câmara. A explicação: os manifestantes estão no pátio central, no térreo, e os gabinetes ficam no primeiro e segundo andar. Dessa forma, o protesto em nada impede o trabalho dos vereadores e de seus assessores.
- Havia mais jornalistas, incluindo um repórter da InterTV (afiliada Rede Globo).
- Fecharam a porta principal. Para entrar, era necessário ir pela lateral da Câmara. Não há uma explicação lógica para isso, apesar do fato gerar uma imagem impactante: a casa do povo fechada para ele.
Apesar do clima tenso, recebi um presente. Um dos manifestantes me entregou um DVD que continha o vídeo “A prefeita mais picareta da cidade”. Nem sabia se poderia compartilhar, mas não resisti: tão logo deixei a Câmara, postei o vídeo no Youtube.
Vídeo “A prefeita mais picareta da cidade”
Conforme prometi na outra visita, tirei algumas fotos do local. Como vocês poderão ver na galeria abaixo, aqueles que afirmaram haver um clima de insegurança e violência estão completamente enganados. O protesto seguia pacífico até o meio dia de hoje. Não sei como as coisas ficarão após a chegada da PM.
#ForaMicarla: 16/06/2011
De toda forma, independente do desfecho de hoje à noite, todos do movimento #ForaMicarla devem se considerar vitoriosos. Entraram para a história com esse protesto. Deixaram claro para os vereadores que o povo ainda tem voz. Ganharam a mídia nacional. E ainda despertaram a oposição para a necessidade de se articular melhor.
Parabéns a todos que foram à Câmara lutar por uma cidade melhor.
O movimento #ForaMicarla, que pleiteia o impeachment da Prefeita de natal Micarla de Souza (PV-RN) emitiu hoje uma carta aberta direcionada a toda população natalense (em especial, aos vereadores e ao Ministério Público).
O texto é contundente, mas em nada lembra “um movimento pueril organizado por jovens sem ocupação” — como alguns partidários da Prefeitura de Natal quiseram fazer parecer.
A carta lista as motivações do movimento, traz uma pauta de reivindicações e deixa um recado bem claro: a ação partiu do povo sim.
Leia carta abaixo, na íntegra.
Natal, 07 de Junho de 2011
Hoje, em mais uma manifestação promovida pelos e pelas integrantes do movimento #ForaMicarla, diversos grupos de atuação política (formais e informais, partidários e apartidários, todos unidos pela consciência do seu dever cívico para com a cidade onde vivem) ocuparam o pátio interno da Câmara Municipal de Natal. Esse é mais um ato que expressa o repúdio à péssima administração que vem sendo realizada pelo atual governo do município. Um grupo que tem como símbolo maior a própria prefeita, Micarla Araújo de Sousa Weber, mas que é composto também pela vice-prefeitura e pela maioria dos vereadores.
Nós defendemos não apenas uma simples retirada da prefeita do cargo que ocupa, mas também, impreterivelmente, que tanto a própria Câmara Municipal quanto o Ministério Público do Rio Grande do Norte ajam para investigar as ações da prefeitura e do poder legislativo com maior afinco. Que essas instituições se coloquem ao lado do povo, em uma defesa intransigente dos direitos das cidadãs e dos cidadãos. Nós do movimento #ForaMicarla acreditamos que fazemos a nossa parte ao provocar as autoridades da cidade para que tomem o rumo da moralização e do fortalecimento do poder público em benefício da sociedade natalense.
Se algumas dessas autoridades alegam que “não existem provas” para que o curso de uma ação mais contundente seja tomado, nós podemos certamente listar muitas evidências para nortear o caminho dos trabalhos que estamos exigindo.
Eis algumas das causas da nossa justa raiva, entremeadas por questionamentos e sugestões:
• Aluguéis e compras vêm sendo efetuadas com notório superfaturamento dos preços; há necessidade de uma CEI dos aluguéis isenta, que não esteja sob domínio da bancada situacionista (a relatoria e a presidência estão ocupadas por vereadores micarlistas).
• Descaso com o Transporte Público: buracos em inúmeras ruas e avenidas da cidade; sucessivos aumentos da passagem de ônibus; falta de licitação para a prestação do serviço de ônibus; falta de ampla discussão acerca de uma reforma ou cancelamento do Termo de Ajustamento de Conduta que regulamente os aumentos na tarifa.
• Descaso com o Meio Ambiente: derrubada de centenas de árvores sem que haja uma contrapartida satisfatória na criação de áreas verdes; caos administrativo na Urbana, afetando a coleta de lixo e abalando o vínculo empregatício dos garis que trabalham para a sociedade.
• Descaso com a Educação: merenda estragada nas escolas municipais; péssimas condições de trabalho e estudo, além da falta de vagas ofertadas para o ensino fundamental.
• Descaso com a Saúde: terceirização injustificada (ou justificada pela confissão de incompetência) do atendimento à população; propaganda enganosa acerca da real relação custo/benefício que ocorre na implementação de AMEs e UPAs, além da privatização do setor.
• Falta de canais de participação popular no processo orçamentário, o que resulta em absurdos como os R$200.000,00 destinados para um inexistente “Zoológico” da cidade.
• Ocorrência de nepotismo na administração pública; ocupação de cargos comissionados, estágios e secretarias por parentes e cabos eleitorais de políticos que estão no governo.
• Falta de transparência nas contas públicas; a dispensa de licitação (recurso emergencial) tornou-se a norma nos processos de contratação de serviços e na compra de materiais de custeio (como exemplo podemos citar o caso da compra de 2.500 copos descartáveis por R$3.765, informação que está no Diário Oficial).
• Falta de projeto de governo: daí decorre a substituição constante de secretários; além de diversas obras paralisadas ou atrasadas.
• Falta de fiscalização do Plano Diretor: verticalização excessiva em áreas onde a lei não permite que isso aconteça; aumento do IPTU sem que a população usufrua de maiores benefícios custeados pelo imposto.
• Falta de pagamento aos artistas que prestaram serviços à Funcarte, e proibição das manifestações artísticas de rua e demais locais públicos que não sejam previamente autorizadas pela administração municipal.
• Falta de pagamento a diversos fornecedores e prestadores de serviços, o que tem prejudicado, entre outras coisas, a manutenção da infra-estrutura e da qualidade do ensino nas escolas do ensino fundamental;
• Gasto excessivo e imoral com publicidade e propaganda, enquanto áreas essenciais estão sendo prejudicadas por falta de recursos; propaganda enganosa custeada com dinheiro público, que não condiz com a realidade que observamos no município.
Os pontos acima listados são uma parte dos motivos que tem feito milhares de pessoas saírem às ruas nas últimas semanas. Queremos pressionar e dialogar com o poder público para que as devidas averiguações e cabíveis providências legais sejam tomadas. Não vamos desistir dessa luta! Continuaremos vigilantes, empenhadas e empenhados em conscientizar e mobilizar a população de Natal contra governos como o da prefeita Micarla de Sousa.
A primeira coisa que haviam comprado juntos tinha um metro e sessenta por um metro e oitenta. Não eram dados que ficassem martelando todos os dias em suas cabeças, mas estavam escritos muito legivelmente com caneta esferográfica azul na nota fiscal novinha em folha, fadada a amarelar-se com o acúmulo de dias na pasta colorida que usavam como arquivo. Uma cama de casal. Obrigava que seus corpos grandes ficassem colados nas noites longas e geladas do inverno, quando dormiam de meias, calças de moletom e camisetas de malha. Metiam-se sob as colchas grossas, grudavam-se no calor das peles congeladas e esquentavam-se naquele amor que era como uma lareira. Os pés às vezes sobravam para fora da cama, dançando no ar gelado do quarto hermeticamente lacrado pelo silêncio do prazer saciado. Sonhavam com camas maiores, aquecedores, geladeiras que vertessem água por um dispositivo acoplado à porta. Com TVs que tomassem toda a parede com suas mais de trinta mil cores. E dormiam felizes na cama de um e sessenta por um e oitenta.
O verão invadiu todos os cômodos do apartamento, obrigando a abrir janelas, esconder agasalhos, reaver o hábito de andar de bermudas. As colchas foram substituídas por lençóis diáfanos, que deixavam transparecer através dos seus fios leves as peles queimando muito mais de amor que de calor. O costume de estarem colados sobre aquele colchão permaneceu à guisa de qualquer temperatura alta. Deixavam que seus suores se misturassem em seus peitos, alternando simpatias que aplacassem o fervor da noite. Sopravam-se as nucas, ondulavam os lençóis para produzir brisa, se abanavam com os lábios colados como peças de plástico que derretidas acabassem por se mesclar em uma só. E dormiam felizes na cama de um e sessenta por um e oitenta.
Resistiram a mais um inverno no espaço diminuto daquele colchão, mas logo o décimo-terceiro, o aumento, o um terço de férias, a rescisão, a bonificação, a promoção. Passaram a cama para o quarto de hóspedes e em seu lugar veio aquele tatame gigantesco, em tecido ecológico e hipoalergênico, com espuma indeformável devido sua tecnologia espacial e lençóis com mais fios que seus cabelos. Tinha dois e dez por dois e quarenta.
Naquela primavera, quando foram obrigados a abrir o apartamento para que a luz se derramasse pelos cômodos retirando numa lenta evaporação toda a umidade herdada do inverno, nem perceberam que o pólen das lindas flores que se abriam por todos os jardins da cidade se espalhava pela casa. Nem perceberam que o novo colchão se enchia de ácaros porque mantinham o quarto fechado o dia inteiro tentando impedir a entrada das partículas primaveris. Nem perceberam que na noite do solstício de verão, displicentes e sem assunto, foram dormir sem se dar um beijo de boa-noite, cada um virando-se em silêncio para uma extremidade do imenso colchão tão logo o telão se apagou na parede. Dormiram na cama de dois e dez por dois e quarenta.
Mais uma vez o verão e seu calor sufocante, os dois ligando ventiladores por todo o apartamento e rezando por rajadas de vento e muito mais concentrados em ficar imóveis para baixar a temperatura do que em trocar quaisquer calores. Resolveram comprar um ar-condicionado. Não importava que lá fora da bolha de proteção a 18 graus as pessoas asfixiassem enquanto diziam que nunca tinham sentido tanto calor. Dentro do quarto, escuro como placenta, gelado como túmulo, os dois deitavam-se palidamente felizes, cada um do seu lado da cama; cobriam-se com lençóis, colchas, edredons; davam-se o mais simpático dos boas-noites; dormiam. Sempre naquele dois e dez por dois e quarenta.
Não estranharam quando veio o outono e as malas prontas na sala, as despedidas desajeitadas, as partilhas de bens amigáveis e a morte de todos os planos despencaram sobre suas cabeças como folhas secas que anunciassem não o início de uma nova estação, mas sim o fim da anterior. Agora um alugava apartamento pequeno perto do centro enquanto o outro se mudava para uma casinha longe confusão da metrópole. E dormiam felizes em suas camas de solteiro, muito embora persistisse a eterna pequena saudade daquele um e sessenta por um e oitenta.
Sobre a Prefeita de Natal Micarla de Sousa (PV-RN) e sua administração, escrevi algumas crônicas em tom jocoso. Renderam-me muitos acessos, sessões impagáveis de gargalhadas e centenas de comentários. Após os acontecimentos dos últimos dias, pensei que era hora de continuar a série. Mas percebi que não era mais o caso. Ultrapassamos o limite do “é rir para não chorar”, meus amigos. Brincar com essa situação seria, no mínimo, falta de sensibilidade.
Micarla e seu governo sem rumo, com ingerências que vão da proliferação de buracos pela cidade por pura falta de manutenção até as desastrosas substituições de secretariado, conseguiu despertar na cidade o sentimento de guerrilha. A população está armada com gritos de “Fora Micarla” e todo o poder que as redes sociais dão. Não é mais o caso de fazer piada, pois esse sentimento vai evoluir. Vai se tornar realmente perigoso.
O dia 25 de maio de 2011 ficará para sempre na memória dos natalenses. Foi o dia em que a população saiu de sua habitual inércia e foi às ruas protestar. Claro que alguns criticarão as ruas bloqueadas (“E meu direito de ir e vir?”), tentarão taxar de baderna estudantil a revolta popular. Claro que toda esta movimentação vai dividir opiniões e gerar ainda mais discussões nas redes sociais, nas conversas de bar, nas horas do jornal após o jantar. Mas nada apaga o que aconteceu ontem: o povo se uniu, foi às ruas e gritou em alto e bom som o seu desejo. Natal quer Natal de volta.
O que me preocupa agora é o que está por vir. Não tardará para que os protestos se tornem ainda mais violentos e as palavras de ordem sejam substituídas placidamente por atos de vandalismo. Não tardará para que a revolta evolua e se transforme no superlativo da revolta: o anarquismo. Não tardará para que algo realmente violento aconteça. É assim o comportamento da massa. Uma hora a euforia coletiva se transforma em algo primitivo e incontrolável.
Nos protestos de ontem, duas amostras dessa iminente evolução foram dadas: um pneu queimado no cruzamento da Bernardo Vieira com a Prudente de Moraes e um outdoor da Prefeitura de Natal derrubado por manifestantes no final da Romualdo Galvão.
Outdoor da Prefeitura é derrubado por manifestantes:
A culpa pelo vandalismo, entretanto, não é dos manifestantes. A má administração, o descaso com as necessidades da população, a irresponsabilidade com o dinheiro público: todos esses pequenos pecados que Micarla de Sousa vem cometendo há mais de dois anos incitaram o comportamento violento. Finalmente, o caos da administração contaminou a população.
A culpa, meus amigos, não é de quem vai às ruas gritar pelo que tem direito. A culpa é de quem foi eleito para garantir esses direitos, mas parece se importar mais em retocar as raízes do cabelo.
Há uma luz no fim do túnel. Blogs já noticiam que uma pesquisa comprovou que apesar da campanha publicitária milionária, orquestrada há semanas pela Prefeitura de Natal, a avaliação da administração de Micarla continua ruim. O Ministério Público está atuante, impedindo que desmandos ainda maiores sejam cometidos. Hoje mesmo, por exemplo, o MP ganhou na justiça ação que impetrou contra a Prefeitura na qual alega que a terceirização dos serviços de saúde é inconstitucional. A CEI dos Aluguéis, que vai investigar suspeitos contratos de imóveis da Prefeitura, já está constituída. Espera-se que investigue de verdade. Há rumores que vereadores já articulam um pedido de impeachment.
Mas até lá?
Manifestantes continuarão nas ruas. Atos de vandalismo inevitavelmente ocorrerão. Mais e mais propagandas da Prefeitura tentarão negar o óbvio. E eu seguirei me perguntando: quem, além de Micarla e sua prole, seguirá de braços cruzados?
Era uma manhã de sábado chuvosa e preguiçosa, mas eu e Carlos Fialho (@cfialho) não desanimamos. Fomos ao Nalva Café Salão para dar a entrevista que havia sido marcada naquela semana com o pessoal do Programa 360, da SimTV. Era 16 de abril de 2011. Lembro como se fosse ontem.
Ao chegar lá, a primeira surpresa: Nalva Melo, proprietária do local, amiga do peito de alma elevada com poucas, havia deixado um cenário prontinho pra gente, com o carinhoso gesto de colocar uma máquina de escrever sobre uma de suas mesas. Carinho assim só dá pra retribuir com um abraço muito apertado. Como ela não estava por lá, resolvi agradecer tuitando:
Outra grata surpresa foi a simpatia da equipe: repórter e câmera foram extremamente pacientes com nossas caras de sono, estavam muito bem informados sobre nosso trabalho e acabaram extraindo de nós uma das melhores entrevistas que já demos. Além de momentos divertidíssimos que acabaram, claro!, de fora da edição final da matéria.
O resultado do encontro está no vídeo abaixo. Com vocês: Jovens Escribas na SimTV.
Pra começar, um feliz ano novo pra todo mundo. E antes que você argumente que o ano já não é tão novo assim, afirmamos que não faz a menor diferença. Afinal, nós também já não somos tão jovens assim e nos autodenominamos Jovens Escribas. Não é verdade? Então, feliz 2011 pra todos vocês.
# JOVENS ESCRIBAS
Para começar, vamos voltar a publicar ficção. E em altíssimo estilo. Logo depois do carnaval o escritor Pablo Capistrano estreia pela editora com o livro “É preciso ter sorte quando se está em guerra.” Uma honra para nós e um belíssimo cartão de visitas para começar bem os trabalhos.
Por falar no livro de Pablo, estamos vendendo camisas dos Jovens Escribas para cobrir as despesas gráficas. O primeiro modelo (o branco) foi um sucesso de vendas. Restam apenas 3 unidades nos tamanhos P (Feminino) M (Feminino) e M (masculino).
E já está a venda também o novo modelo (verde) nos modelos feminino e masculino e em todos os tamanhos pela pechincha de R$ 35.
Comprando nossas camisetas vocês estarão ajudando este escritor a lançar seu novo livro.
Pablo Capistrano
# BONS COSTUMES
Junto ao livro de Pablo Capistrano também publicaremos “Pés no caminho, campo de estrelas – O caminho de Santiago pela Galícia”. Esta obra da professora Ana Célia Cavalcanti resultou num relato leve, divertido e muito útil a todos aqueles que pretendem percorrer o tradicional Caminho de Santiago de Compostela, na Espanha. Será o segundo lançamento do nosso selo de não-ficção, o “Bons Costumes” e devido à abrangência do assunto ganhará distribuição inclusive em outros Estados.
# DISTRIBUIDORA DAGOTA
Este ano também estamos resolvendo um problema histórico que aflige as editoras independentes há vários anos: a (falta) de distribuição. Para isso nasce a Distribuidora Dagota que levará os livros dos Jovens Escribas, Bons Costumes, Flor do Sal, Sebo Vermelho e Não Editora (RS) para os Estados da Paraíba, Pernambuco e Ceará. Também iniciamos as vendas dos livros em bancas de revistas e no decorrer do ano, diversificaremos mais ainda os pontos de venda para chegarmos a um público mais amplo.
# ESCRIBAS DE BOLSO
Também serão lançados até maio as primeiras edições de bolso dos Jovens Escribas. É a coleção Escribas de Bolso que vai oferecer ótimos livros a preços mais acessíveis.
# EM BREVE MAIS NOVIDADES.
Estas são as notícias que temos para começar o ano. Mês que vem voltaremos com mais. Um feliz ano não tão novo assim. São os votos dos já não tão Jovens Escribas.
Mais uma semana em que não cumpri totalmente meu objetivo.
“A ponto de explodir”, do autor mineiro Sérgio Fantini, apresenta contos ágeis e por vezes bem curtos, daqueles que a gente lê em uma sentada. O efeito dessa concisão é devastador. E foi devastador também para minha meta: livros de conto dão a chance de pular algumas partes e ler só o que realmente interessa naquele momento. Não era minha intenção e por isso estou sendo honesto: pulei alguns contos, mas li quase todos.
Tive a oportunidade de conhecer Fantini em outubro de 2011, quando ele veio a Natal a convite do Jovens Escribas para ministrar uma oficina de contos dentro da Ação Potiguar de Incentivo à Leitura. Sua fala tranquila e seu jeito sem afetações destoa totalmente da linguagem que exibe em seus contos: direto, por vezes violento, sem meneios desnecessários, Fantini exibe personagens fortes e controversos, que nos dão uma boa visão sobre os tipos urbanos mais comuns dos dias de hoje.
A leitura é recomendadíssima por dois motivos. O primeiro: a linguagem livre, sem editorialismos, permite mergulhar fundo no universo do autor a cada nova história. O segundo: Fantini sabe contar histórias. E mesmo naquelas mais pós-modernas, em que o conto passeia apenas por uma cena, sem nos dar muitas informações sobre os personagens, não deixa a sensação de incompletude. Suas histórias, por mais pós-modernas que sejam, sempre têm começo-meio-fim. O cara sabe o que está fazendo.