[RESENHA] PEÇA “AQUELES DOIS” DA CIA LUNA LUNERA, por Larissa Gabrielle Araújo
Posted: abril 7th, 2010 | Author: Patrício Júnior | Filed under: TELESCÓPIO | Tags: aqueles dois, caio fernando abreu, cia luna lunera, larissa gabrielle, literatura, mossoró, resenha, teatro | 3 Comments » “Num deserto de almas também desertas,uma alma especial reconhece de imediato a outra.”
Caio Fernando Abreu no conto “Aqueles dois”
Esteticamente não é correto começar uma resenha entre aspas, mas quando se fala em Caio Fernando de Abreu a estética é um detalhe íntimo de um casamento de palavras pontual.
Bem, perdoem os detalhes, não sou critica literária, nem teatral, logo não dêem o desconto se eu deixar transpirar a minha idolatria de fã por cada ponto e vírgula que Caio Fernando de Abreu escreve – escreve, no presente.
O SESC, dentro do seu projeto do Palco Giratório, criado em 1998 com o objetivo de difundir e descentralizar as artes cênicas do Brasil, trouxe ontem ao Teatro Dix-huit Rosado, em Mossoró, o espetáculo “Aqueles dois”, adaptado do conto homônimo de Caio Fernando Abreu, escritor que, com sua escrita fragmentária e dramática, já contribuiu muito para o teatro contemporâneo. Contemporâneo. É isso.
Ao entrar no Teatro Dix-huit Rosado, que já é charmoso por si só, o impacto das cortinas abertas, causando o efeito contrário do frisson, abriu-se as portas, entrou o público. O Teatro claramente iluminado, o cenário detalhadamente aconchegante, o público que nem estava concentrado porque luzes acesas não acalmam e não foi ocasional – Caio agita mesmo – parou. Parou quando os quatro atores jovens – e vou frisar, SARADOS – entre 30/40 anos, entraram para se aquecer diante dos olhares perplexos.
1ª chamada – A arrumação dos LPs, o conhaque, as réplicas de Van Gogh.
2ª chamada – Arquitetura, Audrey e Shirley, Gene Kelly, Almodóvar.
3ª chamada – Tú Me Acostumbraste.
Raul e Saul, até rimar, rima. No conto, um amor desenvolvido de laços de cumplicidade entre dois colegas de trabalho. No palco, duelos improvisados por quatro personagens que viviam um, que viviam dois.
Emoção.
Monólogos.
Solidão.
Diálogos.
Uma coreografia de improviso. Um ensaio sem adornos. Simples. Limpo. Um exagero clássico, eu diria. Talvez, quem não conhece Caio, não entenda a agonia.

Aqueles Dois – Aqueles Quatro – Sem diretor. Cada ator realiza a sua proposta de direção acumulando edição de roteiro. Com música e ações vocais claras, o elenco consegue simplesmente dar gestos ao processo mental de Caio Fernando de Abreu.
A entrega do público foi sincera e honestamente total.
A trajetória da Companhia Luna Lunera, formada de atores do Curso de Teatro do CEFAR – Centro de Formação Artística do Palácio das Artes, de Belo Horizonte, merece flores. Ontem, na madeira do Teatro Dix-huit Rosado, comemorou sua 172ª apresentação. Até o fim do Circuito 2010 do Palco Giratório, completará 200.
Eu queria que o mundo visse. Mas o futuro do pretérito é um verbo cheio de vontade.
Larissa Gabrielle Araújo é publicitária/marketóloga, pós graduanda em Gestão da Comunicação Empresarial e uma amante de Caio Fernando de Abreu. Atualmente está Gerente de Marketing do Jornal de Fato e Assessora da Prefeitura Municipal de Mossoró. Também tem um blog.


Belo Larissa, belo texto. Me arrependi mais ainda de não ter ido, após ler o que vc escreveu.
Parabéns.
Uma das minhas maiores curiosidades quando soube da adaptação do Aqueles Dois, peça que esperei ansiosamente em Mossoró, era ver como trechos tão marcantes e pontuais do conto de Caio Fernando Abreu seriam materializados no teatro sem apelar para o clichê de alguns temas; sem apelar para o vulgar de algumas forma prontas.
E eles, os trechos do texto, vieram de forma tão singela! Nem um pouco perturbadora pelo fato dos dois (Raul e Saul) serem quatro e os quatro serem apenas dois. Numa visão mais profunda, na verdade, os dois não passam de apenas um… Cena a cena, uma sinestesia (a luz que permitiu a atmosfera de Caio, as músicas que não deixavam perder o envolvimento, a pele cedendo por um contato despretensioso) foi dando lugar ao que poderia me parecer previsível pela leitura antecipada (e sempre de praxe).
O vinil de Berrê foi o primeiro impacto; as cores, aliás, a cor de Almodóvar foi o segundo. Depois a primeira xícara de café, a segunda, a terceira… e, enfim, o inicio da história. Sim, porque me ficou mais nítido que a historia só se inicia depois que o táxi virar a esquina! Até ali, nada passava de um prefácio, tecendo uma das generosidades da vida: a possibilidade do encontro.
amo caio f. e esse conto é um dos meus preferidos.
já tinha visto a adaptação em Natal mas não me contentei: queria mais daquilo. fiquei mesmo chateado quando soube só depois que a peça já tinha se apresentado! acho lamentável o fato de haver pouca divulgação.