Sou escritor, jornalista, publicitário e um dos fundadores da Editora Jovens Escribas. Já publiquei dois livros: o romance Lítio e a coletânea de contos A Cega Natureza do Amor. Aqui no PLOG escrevo sobre tudo. E até sobre nada.

ANA AMÉLIA AMBRÓSIO DELLA FLEUR DE LYS: LE BARBECUE

Posted: julho 21st, 2011 | Author: Patrício Júnior | Filed under: TELESCÓPIO | 1 Comment »

Ana Amélia Ambrósio Della Fleur de Lys perdeu tudo, menos a pose. Tanto que fazia questão de ensinar a pronúncia correta do seu último sobrenome aos novos vizinhos da favela Rosa de Pedra ― comunidade na qual passou a morar depois que seu marido foi preso por corrupção. “Você tem que falar ‘Dê Lá Flôr Dê Lís’, semicerrando os lábios na letra ‘O’ e prolongando a fricção do ‘R’…”, dizia ela para a vizinha enquanto beliscava deliciosos canapés de pão dormido e patê de Kitut de Boi. “Aceita mais uma chávena da infusão, Dona Rildete?”, acrescentava levantando-se, comentando que o gosto da carne em conserva lembrava vagamente, bem lá no finalzinho, um caviar que havia comido em suas últimas férias em Mônaco.

Foi da própria Dona Rildete, inclusive, que partiu a ideia do churrasco. “Um barbecue? Que pitoresco!”, exclamou Ana Amélia Ambrósio Della Fleur de Lys. “É um excelente approach para um open house, mon amour”, disse ela diante da testa franzida da sua vizinha.

Foram juntas ao açougue barganhar um desconto na carne de segunda. “Que boucherie mais interessante o senhor mantém, Dr. José Amâncio”, disse ela quando encarou Zé das Carne e seu avental ensanguentado e encardido. “Onde estão os cortes nobres?”, perguntou, ao que foi prontamente conduzida ao balcão onde acém com osso e retalhos de carne disputavam espaço com moscas-varejeiras. “Esses retalhos são perfeitos para fazer finger foods”, concluiu com um sorriso radiante.

Dona Rildete alertou para a necessidade de servir uma travessa de farofa de ovo já no início da festa, a fim de que a carne rendesse o dia todo. “Servir uma entrada é realmente uma atitude sensata”, respondeu Ana Amélia Ambrósio Della Fleur de Lys enquanto seu salto afundava nas ruas de barro da comunidade. “Onde fica o empório mais próximo?”

No domingo, o céu cintilava num turquesa idêntico ao do verão em Paris. Ana Amélia Ambrósio Della Fleur de Lys pediu que Chico Milonga montasse a roda de carro que serviria de churrasqueira no quintal, não sem antes observar o quão rústico era aquele réchaud. Deu instruções a Dona Rildete para que a mesa do buffet ficasse o mais perto possível da área de bebidas ― e como não entendeu nada, a vizinha dispôs a mesa de plástico com vinagrete e farofa ao lado do isopor grande de tampa quebrada.

Cada convidado que chegava era alertado por Chico Milonga que as cervejas deveriam ser depositadas no isopor. E Ana Amélia Ambrósio Della Fleur de Lys achou elegantíssimo que todos trouxessem uma beverage a seu open house (o gesto carinhoso lembrava quando seus convidados levavam uma garrafa de Veuve Clicquot aos jantares que oferecia no Solar Fleur de Lys).

O pagode começou exatamente ao meio dia. “Optei por música mecânica”, ela afirmou a Zé das Carne, apontando para um microsystem de 1992 cedido pelo pessoal da rádio comunitária, “A discotecagem está em alta nos grandes salões da Europa, Dr. José Amâncio”, completou dando uma suave reboladinha ao som de “A Dança da Vassoura”.

Sacolejando com bastante cuidado para não quebrar o salto do último Yves Saint Laurent de sua finada coleção de 839 pares, Ana Amélia Ambrósio Della Fleur de Lys pedia que Chico Milonga abastecesse de vez em quando sua taça de cristal. As borbulhas da cerveja — em parte recolhida de um caminhão que tombou na BR ― subiam suavemente até a superfície do cálice, enquanto ela afirmava com veemência: “Eu abro mão do prosecco, mas da taça jamais”.

No meio da festa, já de pilequinho, acabou deixando-se seduzir pelo cheiro másculo de acém com osso que exalava de Zé das Carne. “Você é mesmo encantador, Dr. José Amâncio”, flertou ela, abrindo um sorriso luminoso que só não ofuscou o pedaço de cheiro verde no incisivo superior. O amor berrou mais alto e deu-se ali mesmo no banheiro, que tinha um péssimo isolamento acústico por ser vedado apenas por uma cortininha de chita. Não demorou para que fosse fotografada em poses nada elegantes através do cobogó da toilette.

No dia seguinte, Ana Amélia Ambrósio Della Fleur de Lys descobriu que um ensaio fotográfico de suas peripécias com Zé das Carne fora postado no blog Comunidade News. Com o rímel Lancôme derramando-se em rios de desolação, prostrada na chaise longue que improvisou com uma cadeira de plástico e uma caixa de laranja, tomou uma aspirina que conseguiu no posto de saúde e concluiu: aquela festa não tinha sido tão diferente das que costumava oferecer na terraza do Solar Fleur de Lys; mas naquela época, ao menos, a pia era de mármore de Carrara.


VEM AÍ: OS COLUNISTAS

Posted: julho 20th, 2011 | Author: Patrício Júnior | Filed under: TELESCÓPIO | 1 Comment »

http://www.patriciojr.com.br/wp-content/uploads/2011/07/Os-Colunistas1.jpg

Mês passado recebi um convite que muito me honra: ser um dos 4 colunistas fixos da Revista Versailles. Para mim, um prazer duplo.

Participei de diversas edições da revista, como redator e membro do conselho editorial, desde o seu lançamento até o décimo primeiro número. Compromissos profissionais e o crescimento da revista, entretanto, me forçaram a deixar a equipe. É um prazer poder voltar.

Também me senti muito estimulado pela ideia de Larissa Borges, editora da revista. Cada colunista tratará de uma área específica. A mim, coube ficção. Fialho fica com crônicas, Gladis com moda e Paulo com cultura. Fazer parte desse time me enche de orgulho. E tome texto bom!

Só pra concluir: a foto foi clicada pelo talentosíssimo Ramon Vasconcelos, num ensaio cheio de gargalhadas que ficou pra história.

Então, a gente se vê em agosto na Revista Versailles.


A MÚSICA MAIS BONITA DA BANDA MAIS BONITA DA CIDADE

Posted: julho 9th, 2011 | Author: Patrício Júnior | Filed under: CALEIDOSCÓPIO | Tags: , , | No Comments »

Não é “Oração”. É “Lobotomia”. Dá play.


MENININHA PEDANTE QUE CONHECI EM 1997

Posted: julho 8th, 2011 | Author: Patrício Júnior | Filed under: TELESCÓPIO | Tags: , , , , | 1 Comment »

Eu gostaria de dizer, menininha pedante que conheci em 1997, que nem sempre é necessário entender a letra da música para que possamos desfrutar do barato que ela propõe; e se eu raciocinasse da mesma forma com que você teimosamente raciocinava em 1997 – sempre raciocinando, sempre tão racional — jamais teria na memória, guardado com todas as pompas e circunstâncias dos grandes momentos, aquela noite em que fui te deixar em casa e cantei bem alto uma do Stone Temple Pilots, apesar de você insistir covardemente em desdenhar da letra dizendo que When the dogs do find her era uma frase sem sentindo e claramente infantilóide. Você repetia em português, com aquele jeito arrogante de dizer as sílabas, “Quando os cachorros realmente a encontram”, e você gargalhava, “O que isso significa?!”, e você ria com escárnio, “Como você pode cantar com tanta emoção uma frase que não entende?”, você perguntava. Eu aumentei o volume, tomei mais um gole da minha cerveja quente e abafei o seu cérebro com berros, me esgoelando, sangrando o refrão que não entendia. When the dogs do find her passou a significar Um jeito de calar sua grande boca. E como eu fui feliz silenciando suas certezas com uma frase sem sentido.

Eu gostaria de dizer, menininha pedante que conheci em 1997, que em 98 estava perdidamente apaixonado por você, da maneira mais sincera e brutal que já estivera apaixonado até então, mas aquele primeiro “Eu te amo”, ajoelhado aos seus pés numa festa à fantasia — você de cigana, eu de marinheiro — aquele “Eu te amo” foi mentira. Foi apenas porque não sabia definir o que pulsava no meu peito querendo explodir pela boca, e que não era amor: uma paixão, um encantamento, uma empolgação. Eu estava empolgado com você. Seu sorriso comedido, sua forma de sentar de pernas abertas, seus seios fartos que pareciam sempre tão dispostos a me alimentar. Virou paixão em 98, amor em 99, amizade em 2000, tédio em 2001, aversão em 2002. Não foi responsabilidade exclusivamente sua, mas 18 meses de psicoterapia me ensinaram a te culpar.

Eu gostaria de dizer, menininha pedante que conheci em 1997, que não foi sua beleza, mas sim minha feiúra. Ou mais que isso: foi o meu sentimento de feiúra. Porque não sei se naquela época, com a adolescência brotando tão violentamente por todos os meus poros, eu era mesmo muito feio ou apenas me sentia muito feio — o que, no fim das contas, dá no mesmo, visto que o efeito nas outras pessoas é o mesmo: ninguém me olhava, ninguém me tocava, ninguém me queria. Você notou essa alma livre em meio a tantas prisões, a minha mente inquieta cheia de ideias. Não foi sua beleza, mas sim minha feiúra. Era você ou a casa de drinques que meu irmão andava doido pra me levar.

Eu gostaria de dizer, menininha pedante que conheci em 1997, que aquele jeito com que você afundava os olhos na Constituição de 88, comentando sobre a inaplicabilidade do ECA numa realidade social tão caótica — esse gesto, apenas esse gesto: ler a Constituição e de vez em quando comentá-la — foi o que nos afastou abissalmente em 2001. Minha mente vagava por poemas, músicas, filmes; digladiava-se com a impossibilidade de ser dândi e grunge concomitantemente; fixava-se em coisas impalpáveis mas valiosas, de um valor que os dinheiros não pagam — enquanto você empregava todo o seu intelecto em entender o ECA. Naquele tempo, não pude prever que acabaríamos, inevitavelmente, da forma como acabamos: machucada, ressentida, vingativa; apático, silencioso, inacessível. Não pude prever que chegaríamos a 2002 daquele jeito: você berrando, arrancando do olvido todas as vezes em que não te amei de verdade, dizendo com suas sílabas perfeitas que até percebia quando eu topava o sexo apenas pela possibilidade de fumar um cigarro ao final. Não pude prever que continuaria calado diante de todas as ofensas, e não transpareceria nenhum resquício de emoção, e me limitaria a destravar a porta do carro para que você descesse enquanto acendia mais um cigarro como se tivesse acabado de fazer sexo. Naquele 2002, fui pela primeira vez 100% cínico.

Eu gostaria de dizer, menininha pedante que conheci em 1997, que nada do que você fez me machucou tanto quanto desdenhar do Stone Temple Pilots. Nem quando você me chamou de broxa, nem quando insinuou que eu tinha um caso com um dos meus melhores amigos, nem quando você teve um caso de três meses com um dos meus melhores amigos. Lembro de você dizendo com escárnio, os olhos lacrimejados pela maligna completude que a humilhação alheia proporciona: “Essa música não faz o menor sentido, querido, e você só gosta dela porque é moda ser grunge”. Nem quando você ligou para minha mãe em 2003 e disse estar preocupada com o quanto eu bebia; nem quando você me enviou flores no aniversário do nosso namoro dois anos depois que rompemos; nem quando você acabou casando com uma versão mais feia de mim mesmo, mais magra, mais drogada, mais vagabunda, mais grunge, uma versão bizarra e mais compatível com você; nem quando você batizou seu filho com o nome que eu alardeava que meu primeiro filho teria; nem quando você encheu a cara no meu aniversário e não segurou a onda de me ver com outra e acabou tentando beijar uma das minhas amigas e berrou que eu estava te matando lentamente e foi embora a pé, desgrenhada, descompensada, destruída, me transformando no vilão da sua pornochanchada. Eu não te perdoo por desdenhar do Stone Temple Pilots.

Era isso, menininha pedante que conheci em 1997. Tava meio que engasgado.

Era isso, menininha pedante que conheci em 1997. Tava meio que engasgado

Essa foi demais: Mulher que entregou flores em manifestação pró-Micarla é a mesma que coordenava jovens infiltrados para sabotar o #ForaMicarla

Posted: junho 17th, 2011 | Author: Patrício Júnior | Filed under: TELESCÓPIO | 12 Comments »

http://www.patriciojr.com.br/wp-content/uploads/2011/06/tumblr_lmy6i3Pr7Y1qkcdvfo1_1280.jpg

Via @halanpinheiro


#ForaMicarla: Manifestantes cantam Hino Nacional para comemorar habeas corpus do STJ

Posted: junho 15th, 2011 | Author: Patrício Júnior | Filed under: TELESCÓPIO | Tags: , , , , | 1 Comment »

O clima era de festa na Câmara Municipal de Natal no início desta noite. Centenas de pessoas tomaram a rua para comemorar o habeas corpus do STJ para oos manifestantes do #ForaMicarla. O movimento, democraticamente, segue acampado na Câmara. E eu cheguei bem no momento em que todos tomavam a rua para cantar o Hino Nacional. Foi de arrepiar.


#ForaMicarla: fotos e vídeo

Posted: junho 15th, 2011 | Author: Patrício Júnior | Filed under: TELESCÓPIO | Tags: , , , , , , , , , , , | 1 Comment »

Hoje passei mais uma vez no acampamento do #ForaMicarla na Câmara Municipal de Natal. Não vi violência, nem agressividade, nem baderna. Vi apenas tensão.

A ordem judicial para que a PM invada o local e expulse os manifestantes havia acabado de ser expedida. O prazo para iniciar a desocupação começa às 18h de hoje.

Nesta segunda visita, notei mais algumas coisas:
- Todos os banheiros do térreo estavam trancados. Nenhum funcionário da CMN sabia onde estavam as chaves e ficava aquele clima de “Não vejo, não ouço, não falo” quando alguém tentava descobrir.
- Não havia água nas torneiras.
- Não havia internet wi-fi.
- Mesmo com as apresentações culturais, o silêncio imperava nos corredores da Câmara. A explicação: os manifestantes estão no pátio central, no térreo, e os gabinetes ficam no primeiro e segundo andar. Dessa forma, o protesto em nada impede o trabalho dos vereadores e de seus assessores.
- Havia mais jornalistas, incluindo um repórter da InterTV (afiliada Rede Globo).
- Fecharam a porta principal. Para entrar, era necessário ir pela lateral da Câmara. Não há uma explicação lógica para isso, apesar do fato gerar uma imagem impactante: a casa do povo fechada para ele.

Apesar do clima tenso, recebi um presente. Um dos manifestantes me entregou um DVD que continha o vídeo “A prefeita mais picareta da cidade”. Nem sabia se poderia compartilhar, mas não resisti: tão logo deixei a Câmara, postei o vídeo no Youtube.

Vídeo “A prefeita mais picareta da cidade”

Conforme prometi na outra visita, tirei algumas fotos do local. Como vocês poderão ver na galeria abaixo, aqueles que afirmaram haver um clima de insegurança e violência estão completamente enganados. O protesto seguia pacífico até o meio dia de hoje. Não sei como as coisas ficarão após a chegada da PM.

#ForaMicarla: 16/06/2011

De toda forma, independente do desfecho de hoje à noite, todos do movimento #ForaMicarla devem se considerar vitoriosos. Entraram para a história com esse protesto. Deixaram claro para os vereadores que o povo ainda tem voz. Ganharam a mídia nacional. E ainda despertaram a oposição para a necessidade de se articular melhor.

Parabéns a todos que foram à Câmara lutar por uma cidade melhor.


Íntegra da entrevista coletiva de Micarla de Sousa

Posted: junho 14th, 2011 | Author: Patrício Júnior | Filed under: TELESCÓPIO | Tags: , , , , , | No Comments »

Abaixo segue a íntegra da entrevista coletiva da Prefeita de Natal Micarla de Sousa.

Parte 1:

Parte 2:

Parte 3:

Parte 4:

Via Tribuna do Norte


Fui ver de perto o #ForaMicarla

Posted: junho 10th, 2011 | Author: Patrício Júnior | Filed under: MICROSCÓPIO | 10 Comments »

Acabo de voltar da Câmara Municipal de Natal. Fui ver de perto o acampamento do #ForaMicarla. Apoio o movimento, sou a favor do impeachment da Prefeita, mas mesmo assim quis conferir in loco. Sugiro que os críticos ao movimento façam o mesmo antes de saírem disparando asneiras sem fundamento, como tem feito a tuiteira profssional Thalita Moema (@thalitamoema).

Passei cerca de 40 minutos na Câmara. Andei pelo acampamento, conversei com alguns manifestantes e também com jornalistas que cobrem o fato. A conclusão é: o movimento é pacífico sim; é democrático sim; é suprapartidário sim; é legítimo sim.

OPOSIÇÃO MARCA PRESENÇA

No momento em que estava na Câmara, a deputada federal Fátima Bezerra (PT-RN), acompanhada de Hugo Manso, discursava para os manifestantes. A questão do suprapartidarismo é essa: não é apartidário, é supra; o que significa dizer que o apoio de partidos que se alinhem ao pensamento dos manifestantes é bem-vindo. O PT é um deles. Fátima declarou apoio e pediu parcimônia. O medo é que o movimento degringole, deixe de ser pacífico e acabe perdendo legitimidade.

Perguntei pelos vereadores. Vários manifestantes afirmaram que à exceção do presidente da casa, Edivan Martins, apenas os de oposição têm aparecido. Notadamente, Julia Arruda e Sargento Regina, que já apareceram até num twitcam ao vivo declarando o seu apoio.

A JOGADA DE EDIVAN MARTINS

Contra o presidente da Câmara, inclusive, a queixa é geral. Um  manifestante relatou que ontem, ao descer no pátio e conversar com integrantes do #ForaMicarla, o vereador pediu que o movimento mantivesse a paz, garantiu que a ocupação iria continuar até quando eles quisessem e prometeu se empenhar em convocar uma audiência pública para discutir a CEI dos Aluguéis e o Impeachment de Micarla.

Quem leu os jornais hoje sabe que Edivan adotou uma postura bem diferente em relação ao movimento: ao apagar das luzes, extinguiu a CEI que investigaria Micarla de Sousa e seus contratos milionários de locação de imóveis, aceitou que a guarda da Câmara deixasse o local e convocou a Polícia Militar para retirar os manifestantes.

O medo que a PM realmente invada o local é impossível de esconder. Todos demonstram apreensão. Sabem que a partir do momento em que a polícia entrar para retirá-los à força, manter a paz será praticamente impossível. “Só quem vai perder se isso acontecer é a própria prefeita”, garantiu um dos manifestantes, “Nós vamos fotografar, filmar e espalhar para o mundo”. A internet continua sendo o maior aliado do movimento.

DE ONDE VEM A COMIDA?

Passava de uma da tarde e chamou minha atenção que muitos manifestantes comessem marmitas quentinhas. Procurei saber de onde estavam vindo. Fui apresentado ao quadro de prestações de contas: doações chegam dos mais diversos locais (do DCE da UFRN ao gabinete do vereador Fernando Lucena). Todo o dinheiro que entra e sai é anotado neste quadro, aberto para que qualquer um possa consultar. O jantar de ontem, por exemplo, foi um sopão organizado por professores da UFRN.

De doação em doação, o #ForaMicarla vai provando que não é apenas uma ação isolada de uniões estudantis  insatisfeitas com a perda do dinheiro da carteira. A insatisfação é geral.

TERROSIMO CONTRA O MOVIMENTO

O acampamento tem um clima de Fórum Social. Mas ações torpes cometidas por grupos que não concordam com o #ForaMicarla tem tirado a paz dos manifestantes. Ontem camisinhas abertas e um pacote de maconha foram encontrados no banheiro da Câmara. Os próprios manifestantes trataram de chamar a Guarda da casa, que se recusou a receber os objetos. Um dos integrantes do #ForaMicarla acabou tendo que ir à delegacia prestar queixa e entregar a droga.

Ainda no quesito “Vamos desestruturar esse movimento”, algumas barracas foram quebradas quando todos se reuniram para conversar com vereadores de oposição.

O terrorismo em cima dos manifestantes é flagrante. Antes de chamar a PM, o presidente deveria tomar medidas para garantir a segurança de quem está ocupando a CMN num protesto pacífico e totalmente dentro das normas da democracia.

A CASA DO POVO

Saí da Câmara por volta das 14h30 para voltar ao trabalho. Vi de perto que não são jovens acéfalos e baderneiros que estão engajados nesse movimento. São jovens politizados, fartos de ver desmandos na política, ávidos por transformar a realidade em que vivem.

São jovens que estão fazendo o que você, que lê este texto agora, deveria fazer. Levantaram de suas cadeiras, berraram a sua vontade e, dentro das leis da democracia, estão se fazendo ouvir.

Não esqueçamos que a atual Prefeita tem 80% de desaprovação, segundo pesquisas. Defendamos, portanto, os jovens do #ForaMicarla que estão nos representando na Câmara Municipal de Natal. Por mais irônico que isto possa parecer.

Ps.: Infelizmente, usei uma configuração errada no meu celular e as fotos que tirei ficaram minúsculas. Preferi não postá-las aqui, mas prometo voltar à Câmara com uma digital.


Carta aberta à população de Natal do Movimento #ForaMicarla

Posted: junho 8th, 2011 | Author: Patrício Júnior | Filed under: TELESCÓPIO | Tags: , , , , , , , , | No Comments »

O movimento #ForaMicarla, que pleiteia o impeachment da Prefeita de natal Micarla de Souza (PV-RN) emitiu hoje uma carta aberta direcionada a toda população natalense (em especial, aos vereadores e ao Ministério Público).

O texto é contundente, mas em nada lembra “um movimento pueril organizado por jovens sem ocupação” — como alguns partidários da Prefeitura de Natal quiseram fazer parecer.

A carta lista as motivações do movimento, traz uma pauta de reivindicações e deixa um recado bem claro: a ação partiu do povo sim.

Leia carta abaixo, na íntegra.

Natal, 07 de Junho de 2011

Hoje, em mais uma manifestação promovida pelos e pelas integrantes do movimento #ForaMicarla, diversos grupos de atuação política (formais e informais, partidários e apartidários, todos unidos pela consciência do seu dever cívico para com a cidade onde vivem) ocuparam o pátio interno da Câmara Municipal de Natal. Esse é mais um ato que expressa o repúdio à péssima administração que vem sendo realizada pelo atual governo do município. Um grupo que tem como símbolo maior a própria prefeita, Micarla Araújo de Sousa Weber, mas que é composto também pela vice-prefeitura e pela maioria dos vereadores.

Nós defendemos não apenas uma simples retirada da prefeita do cargo que ocupa, mas também, impreterivelmente, que tanto a própria Câmara Municipal quanto o Ministério Público do Rio Grande do Norte ajam para investigar as ações da prefeitura e do poder legislativo com maior afinco. Que essas instituições se coloquem ao lado do povo, em uma defesa intransigente dos direitos das cidadãs e dos cidadãos. Nós do movimento #ForaMicarla acreditamos que fazemos a nossa parte ao provocar as autoridades da cidade para que tomem o rumo da moralização e do fortalecimento do poder público em benefício da sociedade natalense.

Se algumas dessas autoridades alegam que “não existem provas” para que o curso de uma ação mais contundente seja tomado, nós podemos certamente listar muitas evidências para nortear o caminho dos trabalhos que estamos exigindo.

Eis algumas das causas da nossa justa raiva, entremeadas por questionamentos e sugestões:
•    Aluguéis e compras vêm sendo efetuadas com notório superfaturamento dos preços; há necessidade de uma CEI dos aluguéis isenta, que não esteja sob domínio da bancada situacionista (a relatoria e a presidência estão ocupadas por vereadores micarlistas).
•    Descaso com o Transporte Público: buracos em inúmeras ruas e avenidas da cidade; sucessivos aumentos da passagem de ônibus; falta de licitação para a prestação do serviço de ônibus; falta de ampla discussão acerca de uma reforma ou cancelamento do Termo de Ajustamento de Conduta que regulamente os aumentos na tarifa.
•    Descaso com o Meio Ambiente: derrubada de centenas de árvores sem que haja uma contrapartida satisfatória na criação de áreas verdes; caos administrativo na Urbana, afetando a coleta de lixo e abalando o vínculo empregatício dos garis que trabalham para a sociedade.
•    Descaso com a Educação: merenda estragada nas escolas municipais; péssimas condições de trabalho e estudo, além da falta de vagas ofertadas para o ensino fundamental.
•    Descaso com a Saúde: terceirização injustificada (ou justificada pela confissão de incompetência) do atendimento à população; propaganda enganosa acerca da real relação custo/benefício que ocorre na implementação de AMEs e UPAs, além da privatização do setor.
•    Falta de canais de participação popular no processo orçamentário, o que resulta em absurdos como os R$200.000,00 destinados para um inexistente “Zoológico” da cidade.
•    Ocorrência de nepotismo na administração pública; ocupação de cargos comissionados, estágios e secretarias por parentes e cabos eleitorais de políticos que estão no governo.
•    Falta de transparência nas contas públicas; a dispensa de licitação (recurso emergencial) tornou-se a norma nos processos de contratação de serviços e na compra de materiais de custeio (como exemplo podemos citar o caso da compra de 2.500 copos descartáveis por R$3.765, informação que está no Diário Oficial).
•    Falta de projeto de governo: daí decorre a substituição constante de secretários; além de diversas obras paralisadas ou atrasadas.
•    Falta de fiscalização do Plano Diretor: verticalização excessiva em áreas onde a lei não permite que isso aconteça; aumento do IPTU sem que a população usufrua de maiores benefícios custeados pelo imposto.
•    Falta de pagamento aos artistas que prestaram serviços à Funcarte, e proibição das manifestações artísticas de rua e demais locais públicos que não sejam previamente autorizadas pela administração municipal.
•    Falta de pagamento a diversos fornecedores e prestadores de serviços, o que tem prejudicado, entre outras coisas, a manutenção da infra-estrutura e da qualidade do ensino nas escolas do ensino fundamental;
•    Gasto excessivo e imoral com publicidade e propaganda, enquanto áreas essenciais estão sendo prejudicadas por falta de recursos; propaganda enganosa custeada com dinheiro público, que não condiz com a realidade que observamos no município.

Os pontos acima listados são uma parte dos motivos que tem feito milhares de pessoas saírem às ruas nas últimas semanas. Queremos pressionar e dialogar com o poder público para que as devidas averiguações e cabíveis providências legais sejam tomadas. Não vamos desistir dessa luta! Continuaremos vigilantes, empenhadas e empenhados em conscientizar e mobilizar a população de Natal contra governos como o da prefeita Micarla de Sousa.

Ass.: Coletivo Popular #ForaMicarla e #XoInseto

É, o coro está engrossando…