TRECHO DE LÍTIO

Uma vez, eu queria ir pro colo da minha mãe. Era só isto que eu queria: trocaria todos os anos da minha existência por uma breve existência de cinco minutos no colo dela. Não era bem no colo, mas sim no braço. Estávamos andando pela rua, voltando de um mercadinho, e o sol queimava-me o couro cabeludo, e eu me sentia cansado, e ainda faltava muito pra chegar em casa, e eu tinha apenas uns cinco anos, seis no máximo. Implorei pelo colo dela: primeiro pedindo normalmente, depois pedindo de maneira chorosa, mais depois quase realmente chorando. E ela negou-se. Sem dores. Apenas negou-se. Cruelmente. A cada imploração minha, uma negação dela. Pergunto-me hoje em dia como alguém pode ser tão frio com uma criança e negar o que ela pede chorando. Uns disfarçam esta frieza, enganam a si mesmos e aos outros dizendo que é pelo bem dos filhos que destacam este iceberg da própria personalidade. Duvido que seja. Não tenho filhos, não posso falar por experiência própria, mas sei o que é ter ante nossos olhos secos um par de olhos chorosos implorando por uma banalidade que, pelo amor de Deus, não custa nada fazer. Se alguém conseguir me provar que custaria algo a minha mãe carregar-me naquele dia uns cinqüenta metros que fosse, só pra me calar a boca – mesmo que em seguida ela alegasse uma dor de coluna e me recolocasse no chão –, ao invés de negar-se terminantemente a realizar meu pedido, eu juro, juro mesmo, se alguém me provar isto eu dou tudo que tenho a este alguém. Porque o estrago que ela me provocou naquele dia com o descaso disfarçado de cuidado foi muito maior que qualquer mimo exagerado conseguiria me causar. Chorei tanto, ali mesmo, no meio da rua, pra todo mundo ver, pra todo mundo achar que eu era uma criança mimada e insuportável, quando na verdade eu era apenas uma criança dilacerada pelo sentimento de rejeição que minha mãe ajudou, dia após dia, com minúcia e crueldade, a se incrustar nas paredes do meu peito. Nunca vou esquecer do estado que eu cheguei em casa naquela manhã: a cabeça doía como se mil bigornas houvessem despencado sobre ela, e o peito era um solo de Sertão de tão rachado, e o sol me ferveu o couro cabeludo e deixou meus fios em chamas, e minhas mãos tremiam por eu ter perdido as esperanças de ser amado, e meus olhos desidratavam meu corpo por vazarem mais que cisternas mal-acabadas, e… como ainda me dói, Deus!… e minha mãe não se abalou, porque esta sempre foi uma qualidade única dela: não se abalar. Mandou-me apenas calar a boca, sem gritos, sem estardalhaços, apenas mandou-me calar a boca, só isso, com aquele jeito dela: seca, rígida, impassível. Engoli o choro, então. E minha alma se despedaçou. Se eu soubesse que ela me entenderia hoje, contaria tudo dessa forma: com emoção, com detalhes, com lágrimas; faria ela entender que tanta crueldade vestida de amor materno não me levou a lugar nenhum. Mas ela não mudou, ela continua a mesma, ainda me nega as coisas mesmo depois de tantos nãos ininterruptos. Estas negações todas me deixaram tão frágil, tão exaurido, tão borderline, que assistir mais uma vez ao não-se-abalar da minha mãe para com as necessidades que coloco como prioritárias seria, sem exageros, um tiro em minha testa.

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