Sou escritor, jornalista, publicitário e um dos fundadores da Editora Jovens Escribas. Já publiquei dois livros: o romance Lítio e a coletânea de contos A Cega Natureza do Amor. Aqui no PLOG escrevo sobre tudo. E até sobre nada.

[OPINIÃO]
ENTRE OS MUROS DA ESCOLA: E A EDUCAÇÃO Ó
por Milena Azevedo

Posted: abril 6th, 2009 | Author: Patrício Júnior | Filed under: TELESCÓPIO | Tags: , , , | No Comments »

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Educar é uma tarefa árdua, principalmente educar a quem não recebe educação em casa. Como consolo, fica a máxima “quem educa sempre aprende”. Os professores, sejam eles do ensino fundamental, médio, superior, aprendem que paciência é a palavra-chave para contornar todos os problemas pelos quais perpassam a educação hodierna, incrivelmente pós-moderna, centrada nos “direitos” dos alunos, buscando assim concertar erros do passado, os quais privavam os discentes de voz dentro da sala de aula.

De uns anos pra cá, as novas teorias pedagógicas apontam que o ensino deve ser mais “humano”, ou seja, que o professor deve procurar compreender e estimular os seus alunos, facilitando o processo da aprendizagem, além de respeitar e lidar com as diferenças intelectuais, étnicas, culturais e socais de cada aluno. A voz do professor precisava diminuir para que a dos alunos começasse a ser escutada. Foi uma conquista e tanto dos estudantes, pois se antes temiam os castigos físicos e psicológicos que os professores empregavam, agora já podem denunciar abusos de quaisquer tipo, praticados pelos seus mestres.

Entre os Muros da Escola (Entre Les Murs – 2008), filme do diretor politizado Laurent Cantet (Recursos Humanos, Em Direção ao Sul), ganhador da Palma de Ouro em Cannes ano passado, dramatiza escancaradamente o que acontece numa sala de aula de uma escola pública francesa nos dias de hoje. Essa visão tão próxima do real ocorre porque o filme é uma adaptação do romance homônimo, escrito pelo professor François Bégaudeau que, além de assinar o roteiro junto com Cantet, interpreta o professor François Marin.

O início do filme mostra a reunião dos professores antes de começar o semestre letivo. Todos os professores se apresentam e recebem seus horários, os professores “da casa” aconselham os novatos, informando sobre os alunos bem comportados e sobre os mais trabalhosos. A partir de então, Cantet nos conduz às aulas do professor de francês François Marin.

Marin é um professor bacana, empenhado em fazer com que seus alunos assimilem o conteúdo das aulas de forma dinâmica, seguindo à risca a cartilha da pedagogia do século XXI. O mínino que Marin exige dentro da sala de aula é respeito, tanto de aluno para professor quanto de aluno para aluno e de professor para aluno.

entre-os-muros-da-escolaDesde o início das aulas já se pode notar o clima tenso (disfarçadamente descontraído) que vai aumentando até chegar ao ponto de Marin perder a cabeça e insultar duas alunas. Esse incidente termina por gerar uma grande confusão quando um aluno negro se revolta e sem querer acerta a mochila no supercílio de uma colega, fazendo o seu rosto ficar ensangüentado, e termina saindo da sala sem a permissão do professor. Tal incidente vai parar em um Conselho Disciplinar, que é o único resquício de poder que a escola tem.

Ao final do semestre, Marin questiona seus alunos sobre o que cada um aprendeu nas disciplinas que cursaram, fazendo-os perceber como é prazeroso conhecer um pouco sobre algum assunto, mostrando porque eles precisam da escola para crescer tanto intelectualmente quanto como seres humanos.

A realidade mostrada em Entre os Muros da Escola, apesar de enfocar o ensino público francês, não é muito distante da nossa. Lá, pelo menos, os professores ainda recebem um salário digno, enquanto aqui receber o contra-cheque no fim do mês equivale a ganhar na loteria para o corpo docente das escolas públicas municipais e estaduais.

Filmes como esse servem para abrir os olhos da sociedade.

Ser professor no século XXI é para poucos abnegados, porque a velocidade e a democratização da informação trazidas pela internet estão aí, fazendo com que o valor da transmissão do conhecimento dentro da sala de aula seja menosprezado, o que afeta diretamente o status de poder do professor. Mas é justamente aí que a figura “humana” dos docentes é requisitada, embora as modernas teorias pedagógicas ainda não enxerguem isso. Haja paciência.

close_milenaMilena Azevedo é Mestre em História pela UNISINOS (RS), empresária, poeta, contista e roteirista de HQ. Tem dois livros de poemas publicados: O Perfil da Águia (1999) e Prometeu Livre – um outsider no Olimpo (2005), já ganhou prêmios no Rio Grande do Sul e no Rio de Janeiro (participando inclusive da coletânea com os 100 melhores poemas dos anos de 2003/04 e 2004/05, além de estar presente também no Livro de Ouro da Poesia Brasileira Contemporânea/2005, todos da Câmara Brasileira dos Jovens Escritores). Tem contos e poemas publicados aqui e acolá nessa imensa teia eletrônica que é a Internet, além de participar de antologias da Câmara Brasileira dos Jovens Escritores e da AGEI – Associação Gaúcha dos Escritores Independentes.


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