[OPINIÃO]
CLINT EASTWOOD E “GRAN TORINO”: O PONCHO, O CHAPÉU E UM FORD 1972
por Milena Azevedo

31 março 2009 § 2 comentários

gran-torino-poster

Clint Eastwood é um dos nomes mais “up” em Hollywood nessa primeira década do século XXI. Apesar de ter começado sua carreira cinematográfica em faroestes spaghetti e se popularizado como o policial durão Dirty Harry, na maturidade é que tem se mostrado como artista completo, pois se permitiu deixar aflorar o seu lado mais sensível – mesmo assim não perdendo nunca a pecha de machão –, fosse atuando ou dirigindo seus próprios filmes.

A aventura atrás das câmeras começou na década de 1970, mas Eastwood teve que esperar alguns anos para ser reconhecido como diretor. O primeiro passo foi Bird (Bird – 1988), uma cinebiografia do saxofonista Charlie Parker, depois veio a consagração com Os Imperdoáveis (Unforgiven – 1992), quando Eastwood revisitou o gênero faroeste, e Menina de Ouro (Million Dollar Baby – 2004), drama sobre uma mulher cujo sonho era ser boxeadora profissional. Mas ele queria mais.

Em 2006, Eastwood dirigiu dois dramas históricos, revisitando a Batalha de Iwo Jima, um sob o ponto de vista norte-americano (A Conquista da Honra/Flags of Our Fathers) e o outro sob o ponto de vista japonês (Cartas de Iwo Jima/Letters from Iwo Jima). O Oscar praticamente ignorou ambos os filmes, mas a crítica foi justa e soube valorizar o trabalho do diretor que já ostentava cabelos brancos, muitas rugas e marcas de expressão, porém que tinha um porte físico de fazer inveja aos garotões de hoje em dia.

Seus dois filmes mais recentes são: A Troca (The Challeging – 2008) e Gran Torino (Gran Torino – 2008), esse último em cartaz nos cinemas brasileiros nesse mês de março.

Gran Torino marca a despedida de Eastwood como ator, e no filme ele interpreta um velho chato, quadrado e preconceituoso, chamado Walt Kowalski, que guarda velhas feridas da Guerra da Coreia e não consegue se aproximar dos dois filhos e dos netos. Após a morte de sua esposa, passa os dias conversando com amigos ou sentado em sua varanda, tomando cerveja e observando a rua, lastimando a “invasão” asiática e latina ao outrora pacato bairro em que vive.

O bem mais precioso de Kowalski é um Ford Gran Torino, modelo 1972, bem cuidado e conservado em sua garagem – simbolizando o seu apego aos valores do passado. Uma noite, o vizinho Thao (descendente da etnia Hmong), tenta roubar o Gran Torino, como uma prova de iniciação à gangue de seu primo, mas é surpreendido por Kowalski e seu rifle. A família se sente humilhada pelo gesto do rapaz e passa a encher Kowalski de presentes, mas esse rejeita tudo o que recebe. A aproximação entre Kowalski e a família Hmong só acontece através da irmã de Thao, Sue, que enfrenta com bom humor a antipatia do velho ranzinza e ainda lhe diz umas verdades. Aos poucos, o gelo vai se quebrando e Kowalski tem a chance de fazer boas ações e se livrar dos fantasmas que o perseguem há tanto tempo.

gran_torino

A trama pode ser previsível, a história pode ser clichê, mas o que torna Gran Torino um filme marcante é justamente a atuação de Clint Eastwood, cujo timing é preciso tanto em momentos cômicos (Kowalski enfrentando três rapazes negros que estavam incomodando Sue) quanto em instantes de emoção intensa (Sue chegando em casa após ter sido estuprada pela gangue do seu primo).

Em Gran Torino, Kowalski (e a América do Norte como um todo) reconhece o valor dos imigrantes, quando se dá conta de que são apenas seres humanos, e assim percebe que há imigrantes de boa índole e imigrantes mal caráter. No entanto, na hora do “vamos ver”, quem parte pra briga e resolve a parada é o heroi/mártir estrategista e individualista norte-americano, bem ao estilo John Wayne.

Em sua despedida da frente das câmeras, Clint Eastwood faz uma volta ao seu começo, ou seja, um valentão que defende com unhas e dentes o seu quinhão, fazendo valer os ensinamentos da velha escola, da velha América, frente às ressignificações culturais, étnicas, políticas e econômicas que vem ocorrendo no mundo todo; embora dê algum crédito ao novo, deixando que ele siga o seu caminho, sob algumas concessões, é claro.

close_milenaMilena Azevedo é Mestre em História pela UNISINOS (RS), empresária, poeta, contista e roteirista de HQ. Tem dois livros de poemas publicados: O Perfil da Águia (1999) e Prometeu Livre – um outsider no Olimpo (2005), já ganhou prêmios no Rio Grande do Sul e no Rio de Janeiro (participando inclusive da coletânea com os 100 melhores poemas dos anos de 2003/04 e 2004/05, além de estar presente também no Livro de Ouro da Poesia Brasileira Contemporânea/2005, todos da Câmara Brasileira dos Jovens Escritores). Tem contos e poemas publicados aqui e acolá nessa imensa teia eletrônica que é a Internet, além de participar de antologias da Câmara Brasileira dos Jovens Escritores e da AGEI – Associação Gaúcha dos Escritores Independentes.

Post to Twitter

Tagged: , ,

2 Comentários

  • At 2009.03.31 23:22, leo seabra said:

    O personagem caiu para Clint como um terno sob medida.

    Gosto de histórias centradas em um personagem,o ser humano é um bicho interessante de se observar.

    • At 2009.04.01 18:17, Milena Azevedo said:

      Pois é, o Walt Kowalski foi uma homenagem ao Clint Eastwood, com certeza. Quem assistir verá.

      (Required)
      (Required, will not be published)

      What's this?

      You are currently reading [OPINIÃO]
      CLINT EASTWOOD E “GRAN TORINO”: O PONCHO, O CHAPÉU E UM FORD 1972
      por Milena Azevedo
      at PLOG.

      meta