[NO LIVRO]
GRANDES SÍMIOS: WILL SELF E SEU MUNDO DE MACACOS
Posted: julho 21st, 2009 | Author: Patrício Júnior | Filed under: CALEIDOSCÓPIO | Tags: alfaguara, grandes símios, literatura, livro, resenha, romance, will self | No Comments »
Sabe aqueles livros que partem do famoso “e se acontecesse tal coisa” (que, inclusive, são os pressupostos preferidos de José Saramago)? Foi isso que me atraiu em Grandes Símios (Editora Alfaguara – R$ 59,90), romance do inglês Will Self. Minha experiência com o escritor se resumia à sua participação na Flip – Festa Literária de Paraty, que tive a oportunidade de conferir em 2007 quando estava cobrindo o evento para a Tribuna do Norte. Desde então, hesitei em mergulhar em sua literatura. Mas o enredo de “Grandes Símios” é saramagueano demais para resistir.
O livro resume-se a uma pergunta: e se o mundo fosse dos macacos e não dos humanos? E as semelhanças com Saramago terminam aí. Self constrói um romance baseado numa incrível pesquisa que representa em detalhes um mundo dominado por macacos. E bem diferente do que vimos nas várias versões e continuações de Planeta dos Macacos.
A história começa quando Simon Dykes, artista plástico emergente no competitivo mercado de artes de Londres, acorda após uma noitada de sexo e drogas e percebe que sua namorada se transformou em um símio. Não obstante, toda a humanidade se transformou em macacos e agora se chama “chimpunidade”. Aterrorizado pela desagradável surpresa, Simon acaba nas mãos de Dr. Busner, um psiquiatra que se sente atraído pela perturbação do pintor – um macaco que pensa ser um humano!
O tratamento de Simon é então conduzido por Dr. Busner numa espécie de readaptação ao mundo dos símios. E com este pretexto, Self nos conduz por uma realidade paralela absurda, constrangedora e incrivelmente plausível, visto que todas as mudanças mostradas nesse novo mundo dominado por símios são baseadas em pesquisas com macacos reais. Ou seja, o autor mergulhou fundo no universo dos grandes símios e não saiu soltando teorias ao léu.
O que mais me chocou na leitura – e olha: é difícil que eu me choque – foi justamente essa nova realidade tão bem embasada numa realidade tangível. Por exemplo, a organização social no mundo dos símios criado por Self não é como a dos humanos. A família é substituída por grupos, com um macho alfa no lugar do pai, fêmeas que procriam com todos quando estão no cio e uma bizarra tendência à coprofagia. A saber: comer cocô, literalmente. A prática é comum em alguns macacos reais e no mundo de Self tem até gente viciada nisso.
Enfim, o cara é muito doido e consegue colocar ordem em sua loucura através de uma história que prende o leitor do início ao fim. A sede por descobrir esse novo mundo e a forma como o enredo vai se desenvolvendo, com Simon lentamente descobrindo sua humanidade e sua “chimpunidade”, é incrível. E num mundo em que fêmeas trepam com qualquer um, machos entram em brigas sangrentas para manter o respeito, chimpanzés bonobos são vítimas do preconceito racial e seres humanos são pouco mais que primatas subdesenvolvidos presos num zoológico, Simon Dykes descobre lentamente que pouca coisa mudou com o seu colapso. O mundo de “Grandes Símios”, enfim, não é tão diferente do nosso.
Grandes Símios
Autor: Will Self
Editora: Alfaguara
Gênero: Romance
Preço: R$ 59,90
Cotação: 9,5


