Sou escritor, jornalista, publicitário e um dos fundadores da Editora Jovens Escribas. Já publiquei dois livros: o romance Lítio e a coletânea de contos A Cega Natureza do Amor. Aqui no PLOG escrevo sobre tudo. E até sobre nada.

[NA ARTE] PEDRO, O TERÇO E UMA DÚVIDA: POR QUE ESTÃO CHAMANDO ISSO DE ARTE?

Posted: março 30th, 2010 | Author: Patrício Júnior | Filed under: CALEIDOSCÓPIO | Tags: , , , , , , , | 18 Comments »

Essa semana, finalmente, caiu na rede a polêmica performance do artista Pedro Costa. Dentro do Salão de Artes de Visuais de Natal, organizado pela Funcarte, o artista tirou a roupa, ajoelhou-se e retirou um terço de dentro do ânus. Lentamente. Sob o olhar de toda a platéia. E tudo devidamente registrado pela curadoria do evento.

Depois, com a polêmica que a performance gerou, Pedro Costa explicou em matéria publicada no site Revista Catorze: “É uma forma de expressar a descolonização do corpo através da excretação do terço, um dos símbolos do domínio colonialista. E, ao mesmo tempo, expurgar a interdição católica sobre o prazer anal e afirmar o prazer da sodomia”.

Performance de Pedro Costa:

Há muito tempo – muito mesmo, pra lá de 10 anos – que eu não via meus companheiros de trabalho discutindo arte contemporânea. Veja bem, discutindo – apaixonadamente, defendendo seus pontos de vista, concordando e discordando. E olha que trabalho num meio que, teoricamente, tem alto nível cultural. A provocação da discussão, a meu ver, foi a grande contribuição de Pedro Costa para a – combalida – cultura local. A performance dele despertou opiniões iradas no Twitter, gerou discussões em mesas de bar, foi contada como piada, como episódio bizarro, como absurdo. Mas ninguém ficou indiferente. Isso é bom.

A parte ruim – e sim, sempre há uma parte ruim – é que é difícil enxergar arte na tal performance, por mais legendas e explicações e sobrescritos que se coloquem nela. Peço desculpas a meus amigos e leitores que, por ventura, tenham se solidarizado com Pedro Costa. Mas, sinceramente, de arte a coisa toda tem muito pouco. Talvez protesto. Arte, meus amigos, é um pouco mais.

Não estava em Nalva Melo no dia da performance, por isso esperei pacientemente ver o vídeo antes de emitir qualquer opinião. Não esperava que a performance fosse essa coisa seca de sentidos, recheada de aplausos nervosos, desprovida emoções. Quando soube do terço descomido, imaginei algo mais elaborado. Talvez o ponto culminante de um poema sobre sodomia. Ou, quem sabe, o gran-finale de coreografia visceral que revelava um erotismo velado. Mas não. Foi – como se pode ver no vídeo – simples assim: em dado momento, ele tirou a roupa, se prostrou de joelhos e retirou um terço do ânus.

E eu fiquei com essa cara de trouxa que estou até agora, pensando que passo mais de dois anos escrevendo um romance, suando em noites de insônia, cansado em minhas lesões por esforço repetitivo, para ver algo tão pobre ser chamado de arte.

(Arte, pra mim, é a confusão mental e o embrulho no estômago que dá quando encaramos de frente o quadro “Guernica”, de Pablo Picasso, que retrata a matança da Guerra Civil Espanhola num cubismo embasbacante – pessoas mutiladas, sangue, carrancas diabólicas, tudo misturado e tão harmônico que se torna lindo. Perfeito. Numa tela gigante, que mede mais de 7m x 3m. Que nos mostra como somos pequenos em relação aos gênios.

http://geometricasnet.files.wordpress.com/2009/04/guernica.jpg

Arte é a sensação de completude que a gente sente quando sai de um Clarice Lispector, após sermos arrebatados pelo talento mágico da escritora em trabalhar seu texto como se fosse um organismo vivo, tudo tão perfeitamente encaixado para soar bem, fazer sentido, ser esteticamente agradável na página. Como quando no romance “Perto do coração selvagem”, ela compôs: “Ainda não se cansara de existir e bastava-se tanto que às vezes, de grande felicidade, sentia a tristeza cobri-la como a sombra de um manto, deixando-a fresca e silenciosa como um entardecer.”

A gente sai dessas coisas sem dúvida de que viveu arte. E pra mim, em minha pouquíssima experiência artística, a arte não deixa dúvidas de que é arte. Contestadora, sim. Gratuita, jamais.)

Parabenizo Pedro Costa pelo ato de coragem, pela polêmica que gerou, pelo choque elétrico de realidade que deu numa cidade acostumada a nunca ser perturbada em seu eterno sono de final de tarde. Mas não pela arte. É preciso mais que um terço excretado para provocar meu aplauso.


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