[CRÔNICA]
VEM AÍ A FESTA ANOS 90
Posted: março 5th, 2009 | Author: Patrício Júnior | Filed under: TELESCÓPIO | Tags: anos 90, crônica, música | 12 Comments »
A cada década, resgatamos algo de 20 anos atrás. Comecei a esboçar essa teoria quando me deparei, no início dos 2000, com as Festas Anos 80. Previ, então, num comentário perdido em um dos reboots do blog de Marlos Ápyus, que logo mais estaríamos mergulhando nos revivais dos anos 90. Eu mesmo não levava a previsão muito a sério. Até que chegamos em 2009.
Talvez você não tenha percebido, mas uma silenciosa conspiração vem sendo articulada meticulosamente desde que a primeira Festa Anos 80 não bombou. Naquela noite de pouca gente e muito prejuízo, os mestres do revival começaram a pensar em como trazer os anos 90 de volta. Suas ações covardes incluíam renascer a calça corsário, fazer um remake de Barrados no Baile e, covardia das covardias, renascer das cinzas do ostracismo a boyband Backstreet Boys. Todas as etapas do plano maquiavélico, como você pode ver, foram executadas com sucesso.
A calça corsário voltou disfarçada de legging, com a moderninha cantora Kate Perry sendo a embaixatriz da nova velha moda. O canal Warner já exibe desde fevereiro o remake de Barrados no Baile, rebatizado nesses tempos de internet com o superbadalado nome de “90210” (em alusão ao título em inglês do original, “Beverly Hills 90210”). Por fim, o Backstreet Boys está de volta, inclusive com turnê pelo Brasil (dois shows, um no Rio e outro em São Paulo, ainda esta semana). O terreno, perceba, está preparado para a década de 90 voltar com tudo.
O meu temor vem do fato de que esses revivais sempre resgatam o mais pobre da produção cultural da época pseudo-homenageada. Vide Festas Anos 80. Você realmente acha que naquela década só se ouvia Menudos e Balão Mágico? Ora bolas, eu que era criança já ia além disso. Tinha Depeche Mode, R.E.M., U2; tinha Plebe Rude, Capital Inicial, Paralamas. Ah, e Legião Urbana tinha mais músicas que “Ainda é cedo” e “Que país é esse?”. Não posso sair desse parágrafo sem agradecer a meus irmãos mais velhos. Graças a eles não me resumi a um acéfalo fã de Xuxa.
Porém, vivi bem mais os 90. Com o grunge sujando a cena rock que andava bem mulherzinha no final dos 80. Com a eletrônica quebrando os paradigmas da forma de desfrutar a música. Com o underground vindo à tona como há anos não acontecia. Eu ouvia – e temo que ainda ouço – Nirvana, Stone Temple Pilots, Pearl Jam (“Ten” continua sendo um dos melhores discos de todos os tempos), Blur, Green Day, Radiohead (e como eu rasgava a garganta no refrão de “Creep”). Eu ouvia Cramberries, Garbage, No Doubt (“Tragic Kingdom” está todinho no meu iPod), Smashing Pumpkins, Björk (quem delirou com a primeira audição de “Debut” que levante o braço). Eu ouvia O Rappa, Planet Hemp (“quem é que joga a fumaça pro alto?”), Chico Science, Cássia Eller, Raimundos (“foi num puteiro em João Pessoa, descobri que a vida é boa, foi minha primeira vez”). Mas nem se anime: com exceção de um hit ou outro que tocou até a exaustão nas rádios, pouca coisa desse pessoal será resgatada. Ao invés disso, teremos, isso sim, uma enxurrada de música muito ruim – que sim, eu também ouvia, não vou bancar o erudito; mas nunca pensei que iria pagar tão caro por esse crime sendo atormentado por um resgate delas anos depois.
O primeiro grito de “uhuuuuu” que você vai ouvir ao entrar na Festa Anos 90 vai ser quando o DJ (algum ex-locutor da Transamérica, com certeza) colocar “Barbie Girl” da – graças a Deus –esquecida banda Aqua. Vai ser um tal de meninas com calça corsário cantando umas pras outras “I’m a Barbie girl, in a Barbie world” que não tá no gibi. Depois desse começo efusivo, claro, o DJ vai encaixar algum sucesso pegajoso do Ace of Base (que foi uma espécie de ABBA dos anos 90). Pra resgatar em grande estilo o início da década, teremos ainda Double You (implorando “Please, don’t go, don’t goooooooooooooo”), o gaguinho Scatman (e a primeira música pleonástica da história da cultura pop, “I’m a scatman”) e Vanilla Ice com seu “Ice ice baby”. Em seguida, como de praxe, dois itens que não podem faltar em nenhuma Festa Anos 90: Hanson (“mmmmm bop”) e Spice Girls (“I wanna ha, I wanna ha, I wanna ha, I wanna zig zig zig zig zig zig ah”). Pra finalizar a noite, depois que todo mundo perder a vergonha e se entregar ao saudosismo nosso de cada dia, o DJ dará seu golpe de misericórdia: É O Tchan, Negritude Jr. e Molejo animarão a noite de grandes clássicos da década até o sol raiar.
É preciso dizer que não estou inventando moda. A tão temida balada já acontece prematuramente desde o ano passado em algumas cidades do Brasil sob a alcunha de “Festa Barrados no Baile”. Pra vocês terem idéia da gravidade real dessa ameaça, o termo “festa anos 90” tem 296.000 ocorrências no Google, quase metade das ocorrências para “festa anos 80” (que soma 759.000).
Mas ainda é só o começo. A Warner já anunciou um remake de “Melrose Place”, série derivada de “Barrados no Baile” que também fez um sucesso danado naqueles tempos. O xadrez, mesmo tendo sido a estampa do Santo Sudário de Kurt Cobain, voltou com tudo para as lojas. A Globo fez a séria ameaça de trazer de volta pra sua grade de programação o extinto “TV Colosso”. E Fernando Collor de Melo – aquele que tinha aquilo roxo, lembra? – foi eleito essa semana presidente da Comissão de Infra-estrutura do Senado, responsável pela organização da pauta de votação das solicitações de verbas a serem incluídas no PAC. Os anos 90 estão mesmo de volta. E, como toda década, não traz apenas boas lembranças.





E mais duas previsões “malígrinas”:
o Dj da festa vai ser o Flavio Leandro! (credo!) e o Second Life vai ser invadido por uma legião de caras-pintadas que vão querer o impeachment do Pedro Bial. Vejo o fim dos tempos!!!
Rapaz, já faz uns anos que eu conversava com Márcio Nazianzeno sobre como seria legal uma festa dos anos 90. Nirvana, Chico Science, Offspring e muita coisa boa que tocou numa década inspirada e inspiradoras. Só que agora, depois de ler esta crônica, eu vi que os agentes da mediocridade conseguem estragar absolutamente tudo! Que foda.
Ah,outra coisa: esse texto ficou muito bom, bicho. Vale a pena tentar publicar em alguma revista. Vou tentar indicar pra alguém.
Quando terminei de ler esse artigo, me perguntei o que te leva a escrever sobre essa festa que não é do seu interesse, mas que é de um número bem razoável de pessoas. Se você quer uma Festa Anos 90, com a sua cara, por que não faz?
Roberta, o mundo seria bem simples se pudesse ser resumido à sua ótica: se você não concorda, faça sua versão. Infelizmente, a vida não é bem assim. E a resposta à sua pergunta é: o que me leva a escrever sobre essa festa (que vai virar moda, pode apostar) é que vivi intensamente os anos 90, sei que aconteceram coisas maravilhosas e não gostaria de revivê-los dessa maneira que exponho aqui. Só isso.
Hm, não da pra reviver uma época se você nao tiver o espírito dela, mas até que uma sessão nostalgia seria legal, sem excluir a parte trash que também deve esta bem viva na memória de todos. Quando rolar essa festa aí to dentro hehe. Mas adianto que to pensando em botar o bloco na rua e realiza-la.
Mas to feliz que esse ‘inferno’ chamado festa anos 80 ja está passando.
Vamo fazer? Na moral?
Sempre é bom um revival, mas tem que ter qualidade. O que a gnete pode fazer é nadar contra a corrente. Enquanto eles tocam É o tchan, Backstreet Boys e outras coisas, nós tocamos o que tinha de melhor nos anos 90. Se quiser pode contar comigo, srsrs
E é incrível como as pessoas não aceitam críticas ao seu ponto de vista. Essas coisas sempre acontecem.
Sempre é bom um revival, mas tem que ter qualidade. O que a gnete pode fazer é nadar contra a corrente. Enquanto eles tocam É o tchan, Backstreet Boys e outras coisas, nós tocamos o que tinha de melhor nos anos 90. Se quiser pode contar comigo, srsrs
E é incrível como as pessoas não aceitam críticas ao seu ponto de vista. Essas coisas sempre acontecem.
Parabéns pelo post, muito bom!
[...] bem escritos e na pior das hipóteses você vai aprender umas boas posições novas. 10º Lugar: VEM AÍ A FESTA ANOS 90 O primeiro grito de “uhuuuuu” que você vai ouvir ao entrar na Festa Anos 90 vai ser quando o [...]
vou fazer uma festa anos 90 com o que rolou de melhor da dance music, pois queiram ou não, a década foi marcada por esse estilo de musica e dezenas de discotecas abriram em toda cidade até mesmo as pequenas do interior do Brasil, onde milhares de pessoas dançavam ouvindo, La Bouche, Double You, Le click, Corona e tantos outros….
Abraços a Todos.