[CRÔNICA]
OS HÓSPEDES

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Cadê todo mundo? Aquele ruído logo cedo, banhado pela luz dourada que vazava das persianas, de conversas baixas porque ainda tem gente dormindo? Onde foram parar os pedidos de silêncio pra não incomodar os vizinhos, a correria na hora de sair porque tem muita gente pra usar o banheiro ao mesmo tempo, o cheiro de comida para muitos? Ah, aquela comida para muitos, que cheira tão diferente do sanduíche solitário com os olhos vidrados no jornal da tarde. Cheiro de quê? De vida, será?

Na sala, ainda tem o perfume da vó. Sentadinha no sofá, esperando a novela das oito sem atentar que estava no canal errado. E de vez em quando sorrindo das pornografias dos mais jovens, como se finalmente pudesse permitir-se, livre que está do fardo de ser a mãe. Porque esta sim, a mãe, vai e vem pela casa recolhendo os cacos da bagunça deixados pelos demais, sempre tentando pôr ordem num caos que ela mesma ajudou a criar. Como consegue a mãe fazer tantas coisas ao mesmo tempo? A comida, o banho, as roupas, um drinque pra relaxar enquanto diz que hoje está quente como nunca.

Onde estão aqueles dois casais? O mano com sua escolhida, a mana com seu escolhido. Onde foram parar os beijinhos rápidos depois das piadas, como dissessem: eu falei isso mas não significa isso o que falei. E de repente, somem para beijos mais caudalosos longe dos olhos dos outros, sabendo que os outros sabem de seus beijos, mas ignorando esse saber porque o amor é assim: só sobrevive quando ignora o mundo.

Cadê a tevê alta demais porque todos falam ao mesmo tempo? Cadê aquele que pedia para abaixar a tevê porque tinha que falar alto demais para ser ouvido? Cadê o volume da tevê e das vozes subindo e descendo como se tivessem vida própria? E a ameaça sempre iminente de que os vizinhos reclamem do barulho, cadê? Os vizinhos que existem mas nunca são vistos, personagens de todas as conversas que sobem de tom, alguém sempre saltando no meio do diálogo que extrapola decibéis para alertar com um gesto de silêncio: olha os vizinhos.

No quarto, não tem mais aquela temperatura de muita gente junta e nem mais existe a desconfiança de que não é o verão que está mais quente: somos nós, todos juntos nesta casa, que alteramos o clima. Então alguém sugeria ir tomar um ventinho lá fora, mas ninguém se movia do lugar: mesmo com o calor, mesmo com o barulho, mesmo com a imposição de falar baixo, todo mundo queria ficar do lado de dentro: porque juntos, porque felizes.

Onde foram parar as malas espalhadas pela casa, a cozinha trabalhando a todo vapor para servir o almoço, o controle remoto da tevê que já naqueles dias ninguém encontrava? Onde foram parar todos? Como podem não estar aqui agora se antes éramos como um organismo único que respirava as mesmas gargalhadas?

Ainda posso ouvir a porta abrindo e fechando a toda hora, porque sempre tinha alguém chegando ou saindo. À praia, da praia, para jogar o lixo, para receber a pizza. Ainda posso ouvir a polêmica que gerava a simples sugestão de trocar o itinerário. Então era um tal de todo mundo opinar pra qual praia ir, em qual shopping almoçar, em qual padaria comprar o jantar. Como posso hoje ir a qualquer panificadora desta cidade e pedir apenas quatro pães quando saía dali com dois sacos de dez? Como posso sobreviver com apenas quatro pães?

Pra onde foi a mãe e sua força em sorrir mesmo atulhada de afazeres, a vó e seu paninho que recendia alfazema, o mano sempre disposto a assumir a churrasqueira, a mana gargalhando de tudo num despudor que só vendo, o cunhado perguntando se ainda tinha cerveja, a cunhada passando receitas de bolo, a sogra sem entender muito bem o que estava acontecendo? Pra onde todo mundo foi? – que se transformou, depois daqueles dias, o mesmo que perguntar: pra onde eu fui?

08. janeiro 2009 by Patrício Júnior
Categories: TELESCÓPIO | Tags: , | 5 comments

Comments (5)

  1. pois é
    pois é
    como sempre tudo mto profissional aqui…

  2. Patricio,

    Exelente crônica, conseguiu expressar perfeitamente tudo que vivemos nessa zona total, ou melhor, nesse “caos organizado” foram estes dias ai…
    Foi muito bom mesmo, eu e Evelyn ja estamos planejando um retorno a este hotel improvisado que foi o apartamento de vocês.
    Um abraço e obrigado pela estadia.

    Fernando.

  3. Que é isso, Fernando. A porta está aberta e vocês são sempre bem-vindos. Principalmente se trouxerem 51 Ice Maracujá. He he he

  4. Tudo estava muito bom.
    Ótima crônica.
    Nós Lembramos com muita saudade e comentamos que foram dias bem aproveitados tudo na simplicidade de cada um.
    E tornou um encontro nobre de família
    um abraço e obrigado por tudo de coração.

  5. a saudade ficou aqui tb, fabrício!
    e a porta está aberta!

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