[CRÔNICA]
O DIA MAIS LONGO DA MINHA VIDA
Posted: janeiro 15th, 2010 | Author: Patrício Júnior | Filed under: TELESCÓPIO | Tags: baile funk, copacabana, crônica, literatura, rio de janeiro, tiroteio | 6 Comments »

O dia mais longo da minha vida começou à meia noite de 26 de dezembro de 2009, quando estava no Bob’s do Aeroporto Augusto Severo, em Natal, cheio de férias dentro da mala, e a moça da Infraero falou macio que o embarque para o vôo 3523 com destino ao Rio de Janeiro havia começado. Eu e mais quatro amigos nos apressamos em finalizar aquele saudável jantar para seguir nosso destino. Já dentro da aeronave, sentindo o aperto característico das minipoltronas, não pude deixar de exclamar: “Acho que cliquei em ‘promo’ sem querer”. Pra completar, com o apagar das luzes, um porco disfarçado de ser humano passou a roncar profundamente na poltrona de trás. No início, foi engraçado. Mas depois de 2h45 de guinchos animalescos, tão altos que mal dava pra diferenciá-los de uma turbulência, torci pra que aquele suíno dos infernos se engasgasse com o próprio ranho e nos deixasse em paz. Mas pensei: ah, que nada, um porco roncador não vai estragar minhas férias.
Chegamos ao Rio de Janeiro por volta das 6h da manhã, horário local, acabados como se voltássemos de uma rave. De 72h. Nossas olheiras podiam ser vistas desde o saguão de entrada do Aeroporto Santos Dumont, independente de estarmos desembarcando no Galeão. Nos separamos, então, em dois grupos: metade se hospedaria comigo na casa do meu sobrinho, em Copacabana; a outra metade, com seus parentes na Tijuca. Neste momento, tomamos a decisão crucial de ir num ônibus executivo pra Copa em vez de pegar um táxi. Quando subi no ônibus, que tinha ar, bagageiro para malas e bancos acolchoados, pedi ao motorista – seguindo instruções de meu sobrinho – que me avisasse quando chegássemos à parada da Santa Clara. Pra minha surpresa, o motorista respondeu: “Quando chegar perto você me lembra, tá?” Qual a parte do “Eu sou turista e não conheço o Rio” esse imbecil não entendeu? À minha frente, atrapalhado, um gringo rodou a roleta ao tentar passar sua mala por baixo. Em seguida, rodou a roleta de novo ao passar. Transformando-se de repente numa espécie de nazista, o motorista vociferou: “Vai ter que passar por baixo pra descer, viu, gringo?” Fato que, pasmem, aconteceu: ao encaminhar-se pra descer numa parada do Centro, o pobre do gringo teve que passar por baixo da roleta. Fiquei imaginando os relatos dele sobre o Rio ao voltar pros States: “No Brasil têm o costume de passar por baixo da roleta na hora de descer, achei super-estranho”. Liguei o GPS do meu celular e prometi que não perguntaria nada mais ao motorista.
O caminho do Galeão até Copacabana é a coisa mais feia que eu já vi na minha vida. O Rio, em sua entrada, se mostra uma cidade escura, pichada, suprafavelizada. Juro que pensei em pedir ao motorista que retornasse ao Galeão para eu pegar um vôo diretinho de volta pra casa. Mas, sei lá, tive medo de ter que passar por baixo da roleta e então fiquei na minha. O Rio, enfim, se mostrou maravilhoso com a aproximação da praia. Chegamos ilesos à casa de meu sobrinho e ele, animado por nos recepcionar em seu apartamento, nos chamou para um passeio. Ignoramos o fato de que havíamos passado a noite sem dormir ao lado de um suíno roncador e embarcamos nesse passeio. A pé. De Copacabana ao Arpoador. Dá mais ou menos 5km – que se transformaram em 5 hectares com o sol escaldante e a ausência de brisas. Cheguei ao topo da pedra do Arpoador com princípio de insolação. E meu parente ainda queria seguir a maratona até o Leblon! O Rio de Janeiro continua lindo, mas eu estava um lixo.
Ao chegar em casa, a outra metade da excursão (que estava hospedada na Tijuca) chegou coladinho com a gente, cheia de vontade de conhecer Copacabana. Fiquei por ali enrolando, tentando desmaiar de verdade pra não ter que sair, mas nessas horas o metabolismo da gente não ajuda, né! Tive que sair pra dar outro passeio.
Caminhávamos displicentemente pela Av. Nossa Senhora de Copacabana quando um carro do BOPE passou cantando pneus, parou no fim da calçada que estávamos e fez ecoar estouros muitos semelhantes a fogos de artifício. Não sei se foi o fato de ver todo mundo na rua correndo na direção contrária ao carro do Bope, ou se foi por perceber que era muito cedo para fogos de artifício em Copacabana, ou se foi porque um dos meus amigos gritou “É tiro!” e correu pra dentro de uma loja: só sei que segui o fluxo e corri pra dentro da loja junto com os outros. Enquanto os tiros continuavam, e a caixa grávida desmaiava, e as mulheres berravam como se vissem uma barata gigante, e a gerente intercalava aos gritos as frases “Todos pro provador” e “Desce a porta, desce porta”, só conseguia pensar que havia esquecido o celular em casa e que não poderia tuitar ao vivo sobre meu primeiro tiroteio.
A porta da loja finalmente desceu e todos se acomodaram dentro do provador. De onde uma jovem senhora saía do biombo com uma saia dourada e dizia: “Meu deus, eu não posso morrer com essa saia ridícula!” Passado o susto inicial, me choquei ao ver que as clientes já não gritavam mais: elas simplesmente voltaram às compras, passeando tranquilamente entre as araras de roupas, enquanto da rua continuava vindo aquele som de guerra. Foi quando percebi que a preocupação da gerente em juntar todo mundo no provador e fechar a porta da loja não era pela segurança dos clientes: era pra evitar roubos mesmo. De certa forma, o carioca se acostumou com os tiroteios do dia-a-dia. Nos momentos de tensão, cheguei a cogitar ir embora daquela cidade maluca imediatamente. Mas pensei: ah, que nada, um tiroteio entre o Bope e alguns traficantes em pleno dia em Copacabana não vai estragar minhas férias!
Quando vimos que já não passavam carros de redes de TV e que o barulho do Globocóptero havia cessado, concluímos que estava tudo seguro. A porta reabriu e voltamos à rua. Nesse momento, todos refletiam acerca da difícil arte de viver numa metrópole onde um complexo jogo sociológico vitima a população diariamente. Foi quando decidimos tomar uma cerveja urgentemente. Deve ser por isso que os botecos do Rio vivem lotados, né?
Sentamos todos no Butskina, um boteco simpático que fica quase em frente à casa do meu sobrinho. Lá, curtimos esse fim de tarde como se fôssemos, sei lá, sobreviventes de um Holocausto. E quer saber: consigo entender como os cariocas conseguem voltar à rotina cinco minutos após testemunhar um tiroteio. Já estávamos nós ali, paulistas e potiguares, rindo de nossas reações ao ouvir os disparos. Pra acompanhar esse chopinho, pedimos a famosa batata com cheddar e bacon do Butskina, um clássico local. E entre uma piada e outra, já quase esquecidos por completo da violência urbana, um de nós perguntou: “Gente, bacon tem antenas?”
Devo confessar que a pergunta foi como um tiro em minha testa: eu estava justamente mastigando um bacon quando fixei os olhos no prato e vi que entre batatas e cheddars repousava recém-tostada uma barata…
Eu já estava quase concluindo que o Rio de Janeiro queria me sacanear mesmo, mas aí pensei: ah, que nada, uma barata no tira-gosto não vai estragar minhas férias! Então, me limitei a dizer “argh”, cuspir a batata que tinha na boca exagerando no nojo – pra ninguém achar que sou anormal – e sugerir que procurássemos outro boteco. Mas o chope estava gelado, mas todos estavam cansados, mas o medo de encontrar outro tiroteio era grande: então, seguimos no Butskina até dez da noite.
Foi exatamente nessa hora que meu irmão, de passagem pelo Rio, chegou no apê do meu sobrinho na maior pilha pra ir pra Lapa. Eu ainda pensava em tirar um cochilinho que durasse até duas da tarde do dia seguinte, mas puxa, fazia dois anos que não encontrava meu irmão e ele já zarparia do Rio no dia seguinte. Ok, vamos pra Lapa. Tomei banho, troquei de roupa e quando saí do banheiro todos estavam na janela acompanhando a prisão de um meliante na calçada do prédio do meu sobrinho. Que, entre envergonhado e apaziguador, sorria amarelo enquanto dizia: “Puxa, que coincidência, né?” Senti vontade de perguntar: “Vai dizer que você nunca tinha visto duas mostras de violência urbana gratuita em um só dia?” Mas calei.
Chegamos à Lapa cerca de uma hora depois, ávidos por chopes e bolinhos de bacalhau. Passeamos por vários botecos, mas ficamos mesmo foi no que uma das clientes brigou com o garçom, juntou uma cadeira, berrou que não iria sair dali porque era seu ponto e que completa era cem real! O segurança até tentou retirá-la do estabelecimento, mas nesse momento um bêbado seminu – que já havia deitado no meio da avenida e provocado um engafarramento são-paulino na Lapa – tropeçou na calçada, voou sobre os arbustos que separavam o bar da rua e se estabacou bem em cima da mesa da nobre cliente. Nessa hora, notei que estávamos num estabelecimento de respeito! Mas pensei: ah, que nada, um bêbado seminu voando sobre a mesa de uma prostituta xiliquenta não vai estragar minhas férias! Então, decidimos entrar numa boate que anunciava em sua porta “Forró”. Não sou de forró, apesar do sotaque nordestino saltar com orgulho dos meus lábios, mas quando estou de férias gosto de sair da minha zona de conforto. Além do mais, foi a única boate para a qual conseguimos cortesias, né?
Lá dentro, notei a ausência total do ritmo nordestino e a presença maciça do funk carioca. A menos que tenham lançado um forró que entoa “vem tchutchuca linda, vem aqui pro seu tigrão”. Já era quase meia noite quando pensei: ah, que nada, um porco roncador e uma motorista ignorante e uma zona favelizada e uma pré-insolação e um tiroteio em Copacabana e uma barata com cheddar e uma puta ensandecida e um bêbado seminu não estragaram minhas férias, não vai ser um funk que vai conseguir. Então, fui até o chão. E deu meia noite.


de tudo, o pior foi o funk, certamente!!
Chão chão chão, até o chão!
Sensacional. Rachei o bico, PJ…embora nao tenha gostado (ou não tenha entendido?) esse tal de engarrafamento são-paulino…
By the way…minhas férias em São Paulo foi massa!
Abraço!
Miltown (é, eu sou são-paulino!)
kkkkkkkkkkk..racheiiiiiiiiiiii!! Oh retrato fidedigno desta linda cidade. =**
Obs: com certeza você parou em mais de um boteco que tinha o melhor bolinho de bacalhau e o melhor chopp da cidade.
E aí, plogueiro! Que andanças maluquetas hein? ganhou para mim, que vivo me metendo em situações engraçadas. Cheirão.
Hahahaha! Muito bom! É por isso que nos últimos 4 anos, já estive umas 5 ou 6 vezes no Rio, uma cidade surpreendente em todos os sentidos. Bjs