[CRÔNICA]
MEU MELHOR QUASE AMIGO
Posted: dezembro 23rd, 2008 | Author: Patrício Júnior | Filed under: TELESCÓPIO | Tags: amizade, crônica | 4 Comments »
A gente é quase amigo. Quase mesmo. Falta pouco pras coisas mudarem e então estamos curtindo essa fase boa dos começos. Sempre conversamos horas e horas, num animado jogo de duplos sentidos, mas apenas quando nos encontramos por acaso no bar ou na praia ou na livraria. A gente já tem o telefone um do outro, mas quase não nos ligamos. É estranho pensar nisso, mas é exatamente assim que acontece. Até agora, sem uma razão muito forte, não nos ligamos. Da última vez, eu que liguei. Por engano.
A gente vai pras mesmas festas e conhece as mesmas pessoas. Nos comportamos naturalmente quando nos vemos e de repente é aquele estouro de brindes, gargalhadas, felicidade. Amigos de infância que não se viam há 20 anos: mas a gente não se conhece nem há dois. E quer saber? É bom ter alguém assim. Que não faz tão parte da sua vida como os outros; não forma nem deforma a sua identidade; não define, com a presença, quem você é. Apenas está ali. Disponível na medida do possível.
A gente encerra em si, um para o outro, a gênese de algo muito bom, muito grande. Quem sabe um dia não vamos mochilar pela Europa com apenas 100 euros no bolso? Quem sabe um dia, bêbados e falantes, não fazemos um brinde silencioso após contar coisas perdidas da infância? Quem sabe quando velhos, enrugados, rotos, não lembramos de como éramos inocentes e verdadeiros na segunda idade?
Por hora, entretanto, apenas falamos dos assuntos correntes. Política, religião, entretenimento. De vez em quando, descobrimos um traço da personalidade do outro sem querer. Percebi que ele é um falso calmo no dia em que sua namorada ligou, ele respirou fundo e atendeu com um suave “oi, amor”. Deixei escapar que sou emocionalmente imaturo no mesmo dia: ele reclamou que ela é do tipo grudenta e eu sem saber o que responder. Pedi outra cerveja.
A gente curte os mesmos filmes, mas isso não quer dizer que gostamos dos mesmos filmes. Significa que temos um interesse comum pelo mesmo tipo de cinema e nem sempre concordamos com a qualidade do que vemos. Eu gostei de “Dogville” e ele classificou como um filme chatíssimo. Nossa amizade vai crescendo nessas diminutas diferenças.
Lembro que quando nos conhecemos, me bateu lá dentro aquela certeza de que seríamos próximos. Ainda me refiro a ele como “meu colega”, mas desde já tenho como certo que um dia, quem sabe, quando distantes, possa sentir saudades e fazer uma ligação interurbana para dizer que tudo que mais queria era dividir uma gelada com ele. A saudade de um amigo é das coisas mais puras que podemos sentir.
A gente é quase amigo e se trata assim. Não se abraça, apesar do aperto de mão caloroso. Não se liga, apesar da felicidade ao se encontrar. Não falamos de nossos problemas e isso torna tudo agradável e cheio de leveza, muito embora subsista certa superficialidade. Mas já ensaiamos ultrapassar o limite do quase. Semana passada, perguntei por que estava tão calado e meu quase amigo hesitou, começou a falar, mas calou. Eu não insisti.
Tenho muitos colegas, mas é ele que guarda as maiores chances de um dia estar comigo na final da Copa de 2014. É ele que provavelmente vai disputar com outros o título de padrinho do meu primeiro filho. É ele, certamente, dentre os quase amigos que tenho, que logo mais perderá o quase. A não ser que eu o conheça tão completamente que perceba não valer a pena. Ou vice-versa.



Guarde essa crônica e leia a cada cinco anos… Aproveitando: Feliz Ano Novo, Feliz Casa Nova, Feliz Plog Novo.
Valeu, Fortunato.
E seja bem-vindo.
Puxa…
Um texto muito bacana.
Brigadão, Maria. E volte sempre.