[CRÔNICA]
HÁ LUZES EM MINHA JANELA
Posted: dezembro 13th, 2008 | Author: Patrício Júnior | Filed under: TELESCÓPIO | Tags: crônica, natal | No Comments »
Há luzes em minha janela. Elas sinalizam muito mais que brilhos, um pouco menos que concretudes. São coloridas e minúsculas, piscam e parecem dançar, disfarçam de belo o que há dois dias (nem três, meu Deus!) era cinza. Agora, brilham em minha janela. Embaladas por uma música que parece não ter fim, já que nunca têm fim essas melodias de realejo que imitam sinfônicas. Há luzes em minha janela.
Meu descontentamento – se é descontentamento, porque é mais um misto de alegria forçada e tristeza por forçar – meu descontentamento vem do fato de saber que não é belo o que está belo. A rua, a cidade, o mundo. A recepção do meu trabalho e a sala de estar da minha casa. O shopping. Nada disso é belo como está. É preciso disfarçar o mundo, imitar outro que não existe, para sentir alguma magia, alguma ilusão de felicidade, algum resquício que seja de sorriso.
Olho através do vidro, acendo um cigarro, tento não ser mal humorado. E é tentando que mergulho nessa beleza de brilhos automáticos, sorrisos com exagero, abraços sem alma. Solicitudes forçadas pelo especial de Roberto Carlos. Beleza construída no Projac.
Há luzes em minha janela. Azuis, vermelhas, verdes, amarelas. Intercalam-se num balé que me remete a tantos outros que já assisti, imberbe e diminuto, sentado ao pé de uma árvore de plástico, metido em roupas novas, aguardando com o coração pela boca a chegada de um certo senhor de barbas. Agora, revendo tudo, sei que não esperava este ou aquele de gorro vermelho. Não era a presença, não era o presente. Esperava uma prova. Uma evidência. Que fosse além da maquiagem exagerada da minha mãe, e das tias que não se suportavam enfim se abraçando, e da inevitável cidra que todos bebiam fingindo champanhe, e das bolas de vidro fino que se partiam tão facilmente quanto as esperanças de que aquela festa fosse real. Desde criança já não existia mais em mim a tal da fé. E a chegada brilhante pela chaminé imaginária da minha casa seria a comprovação de que eu estava errado. A redenção.
Mas não. Nem existia, nem existe, tampouco existirá. Chega mais um dezembro e eu luto para não ser amargo, mas é sempre isso de luzes piscando, promoções pipocando, doces melodias espocando, um gerúndio de lugares-comuns que acontecem gradativamente ao meu redor, enquanto eu afundo cada vez mais numa descrença aterrorizante em relação ao belo. Não somos belos. Eu, você, nós que nos forçamos humanos. Não somos.
Há luzes em minha janela. Até lá, vou fumando meu cigarro, tentando ser mais doce, mantendo em mim não a esperança, mas a espera de que tudo isto seja real. Esperanças já não tenho. Porque são anos chorando antes da ceia sem que ninguém veja (e sem motivos, pensariam, e sem razões), anos vestindo roupas novas que foram compradas em infernais últimas horas, anos brindando a uma magia que não mais acredito, que a mim não se revela, que nunca efetivamente acontece. Há luzes em minha janela. Então, o cigarro acaba e eu fecho a cortina.


