[CRÔNICA]
E DEUS DISSE: ME ADD AE

19 maio 2009 § 2 comentários

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O Vaticano lança nesta quinta, 21 de maio, uma rede social integrada ao Facebook para aproximar os jovens da Igreja. O portal Pope2you (algo como “o Papa para você” escrito de forma moderninha) é um esforço da Santa Sé em se adaptar aos novos tempos, buscando através da interatividade um aumento de sua participação junto ao público jovem. Mais ou menos como a Coca-cola, o McDonald’s e o Marlboro já fizeram há algum tempo. Só que desta vez é tudo em nome de Deus.

Pensando bem, faz todo o sentido a Igreja usar do benchmark para tentar voltar a ser competitiva. Eles já vêm fazendo isso há anos. A saber: benchmark é o processo de se espelhar em uma marca bem sucedida para ser como ela.

A Igreja fideliza seus clientes através da coerção, usando o medo do inferno como argumento para manter todo mundo ao seu redor. É como faz o McDonald’s: por mais um real aceita a batata grande? E aí você sente medo de ter fome mais tarde e diz sim. Além disso, tem os combinados: hóstia + bênção por apenas um dízimo (e você ainda pode se confessar se já tiver a crisma). É como a promoção nº 1 do McDonald’s. Mas na missa ninguém pode escolher entre batata e nuggets. Só tem o pão nosso de cada dia mesmo.

Da Coca-cola, a Igreja copiou os slogans que prometem felicidade eterna. Algo como “viva o lado católico da vida”. E tome emoção pra valer: gente feliz, cantando empolgada, entregues ao júbilo da vida. Não, não é uma propaganda de refrigerante. É uma celebração das mais carismáticas, se é que você me entende.

Agora, a arte de conseguir o cliente desde novinho (porque depois que cresce, ele não consegue mais se livrar daquele vício) não foi a Igreja que copiou do Marlboro. Foi ao contrário. Há milênios o Vaticano faz o que a indústria de cigarros só descobriu na década de 80: quanto mais cedo você fuma o seu primeiro cigarro, mais tempo você será consumidor. Substitua “você fuma seu primeiro cigarro” por “você é batizado” e pronto: está aí a estratégia de marketing de fidelização mais bem bolada de todos os tempos. E nem venha me dizer que a Igreja não mata como o cigarro, que eu vou começar a falar da Santa Inquisição e aí esse papo vai longe.

A Igreja não precisava estar na internet para se modernizar. Bastava acabar com algumas pragas de seu idealismo que só contribuem para atrasar a vida. Condenar a camisinha, por exemplo. O Papa não deveria tentar mandar nos órgãos genitais dos outros. Ora, se eu envolvo ou não meu pênis com um pedaço de látex, Deus não tem nada a ver com isso. A Santa Sé deveria, isto sim, controlar os membros de seus asseclas, que andam por aí fornicando – com ou sem consentimento – com crianças, adultos, porcos, galinhas, portas, buracos na parede e quem mais der bobeira. Puxa vida, se a Igreja não consegue fazer com que seus padres deixem de estuprar criancinhas, que ao menos impeça que as criancinhas molestadas sejam contaminadas por mazelas como sífilis, gonorréia, cancro mole e aids.

O Papa pode criar zilhões de redes sociais, fazer avatares pro MSN, gerar scripts catequizadores pro Twitter, colocar no ar um Orkut, um blog, um canal de vídeos no Youtube. Enquanto a Igreja Católica continuar com seu complexo de Deus, achando que é onipresente-onisciente-onipotente, ela continuará presa à Idade Média. E a Idade Média, como todos sabem, é a Idade das Trevas.

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2 Comentários

  • At 2009.05.19 16:06, Thiago Leite said:

    Como diria Jules Michelet, “as colunas do céu têm os pés no abismo”.

    • At 2009.05.20 21:33, Sandro Fortunato said:

      CTRL+C/CTRL+V lá da Digi ;)
      —————————-

      Tentarei me abster de alimentar qualquer polêmica. Gostaria apenas de fazer alguns esclarecimentos históricos e terminológicos. Primeiramente, é fato que a Igreja Católica, como qualquer instituição, sempre muda. Para melhor, para pior, mas muda. E essa nova forma de aproximação é necessária não para coagir, mas por necessidade de modernizar a comunicação entre ela e seus seguidores. Isso aconteceu, por exemplo, quando as missas deixaram de ser rezadas em Latim para serem rezadas no idioma local e quando o padre passou a rezá-las de frente para os fiéis. É mera atualização de linguagem.

      Ao dizer que “Há milênios o Vaticano faz…”, creio que você esteja usando como força de expressão, pois o Vaticano, apesar de ter sido criado no século VIII, só existe como cidade-estado há 80 anos. Mesmo que, por extensão a palavra “Vaticano” seja utilizada como sinônimo da Cúria Romana, também não chega a ter milênios. Nem a própria Igreja Católica, que só ganhou tal denominação lá pelo ano 100 d.C.. Nem mesmo o que se chama de Cristianismo, dando seu nascimento quando do surgimento dos apóstolos, os seguidores do Cristo (histórico). Como o Cristo só surge depois do batismo de Jesus, por volta dos 30 anos, apenas depois de 2030 poderemos falar em “dois milênios de Cristianismo”. A única coisa que já podemos contar em milênios – apenas dois – é a chamada Era Cristã, já que ela estabelece como ponto de partida o nascimento de Jesus.

      Falando em Batismo, nos primórdios da Igreja Cristã – e mesmo antes dela – ele era feito em adultos. O próprio Jesus só é batizado já adulto. A cada Concílio, mudanças são implementadas. Hoje seguimos o modelo Batismo-Comunhão-Crisma (ou Confirmação). De certa forma é um “batismo em três tempos” e você só o confirma, pela Crisma, já chegando ou chegado à idade adulta. Qualquer pessoa batizada quando criança é, mais tarde, livre para escolher se quer ou não seguir aquela crença.

      Toda religião tem seus dogmas, mas não obriga ninguém a segui-las (a não ser que esteja vinculada a um poder estatal). No caso da Igreja Católica, vemos que o próprio clero não segue as recomendações e nem mesmo os votos que fazem à fé que diz defender. Se houvesse assim tanto rigor, tanta ordem, tanto poder, qualquer membro do clero (de padre à cardeal), deveria ser imediatamente expulso quando flagrado rompendo seus votos de celibato e de castidade (coisas distintas, diga-se, e obrigatórias para todo o clero católico há menos de 500 anos). Mas é uma agremiação feita por homens. Tão imperfeita e tão louca por perfeição quanto qualquer outra.

      Concluindo (isso já está mais para post-resposta que comentário), gostaria de dizer que qualquer educação religiosa, católica ou não, começa da mesma forma: sendo ensinada pelos pais e outros responsáveis pela sociedade onde se nasceu e é criado. Aliás, TODA educação é assim. Depois, quando crescemos, percebemos que temos escolha de segui-la ou não. No caso da educação religiosa, de seguirmos aquela que nos foi ensinada, outra ou mesmo nenhuma. Particularmente, isso funcionou muito bem comigo. Fui criado com PRINCÍPIOS católicos, fui batizado, fiz primeira comunhão e não me crismei, não confirmei tais votos. Adoraria seguir uma carreira clerical, mas os PRINCÍPIOS CATÓLICOS (lembrando que “católico” significa “universal”) que me foram passados não me permitem mentir e, como nunca fui celibatário e menos ainda casto (muito pelo contrário), não faria tais votos. Não batizei meus filhos e pouco me importa que um seja ateu, outra freira e outra se converta ao Islamismo. Se forem fiéis a si mesmos, já terão conseguido aprender ao menos um desses princípios universais tão úteis para uma vida interior (espiritual e emocional) equilibrada.

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