Sou escritor, jornalista, publicitário e um dos fundadores da Editora Jovens Escribas. Já publiquei dois livros: o romance Lítio e a coletânea de contos A Cega Natureza do Amor. Aqui no PLOG escrevo sobre tudo. E até sobre nada.

[CRÔNICA]
COMO SOBREVIVER A UM HOTEL DE LUXO

Posted: dezembro 16th, 2008 | Author: Patrício Júnior | Filed under: TELESCÓPIO | Tags: , | No Comments »

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Você vai ficar num hotel de luxo. Primeiro de tudo, não leve muita coisa. Esse conselho é por diversas razões, mas a principal é que vão desconfiar de sua nobreza caso chegue carregando cinco malas para passar um fim de semana. Os chiques de verdade viajam com uma malinha pequena porque sabem que voltarão atolados de novas bugigangas. Viajar com a casa a tiracolo é coisa de pobre.

No quarto, cuidado com o frigobar. Aliás, o ideal é que você nem veja onde ele está. Frigobares são equipados com um poderoso sensor de desejos. Eles têm tudo que você mais almeja. Custando, obviamente, uma fortuna. Quer um chocolate Lolo, daqueles que saíram de linha há pelo menos vinte anos? Não se assuste se abrir a geladeirinha e ele estiver lá dentro, geladinho, com a famosa e sorridente vaquinha na embalagem. Frigobares são traiçoeiros. Tudo bem, você não o ignorou, abriu, viu que tinha o Lolo. A saída agora é muito simples: pegue o chocolate e não olhe para nenhum outro item. As chances de três gueixas massageadoras saírem lá de dentro são enormes.

Antes de ligar qualquer aparelho do quarto – e há muitos, ar-condicionado, som, televisão, chuveiro elétrico – verifique com a recepção se os gastos com eletricidade serão adicionados à sua conta. Não há nenhum hotel no mundo inteiro que faça isso. Mas nunca se sabe, não é mesmo?

Tome o cuidado de jamais estar no quarto quando a arrumadeira vier. Elas pedem gorjeta. Aí fica aquela situação: ela com a mão estendida esperando e você entregando tristemente a metade do Lolo que guardou para comer mais tarde. Para o caso de solicitar algo da recepção (um cinzeiro, um isqueiro, uma toalha), proceda da seguinte forma quando a encomenda chegar: grite “pode deixar aí fora” de forma bem antipática, dando a entender que está ocupado com algo mais importante que receber o que pediu. Então, espere cerca de dez minutos para que o entregador desista da gorjeta. Vá à porta silenciosamente, verifique se não tem mais ninguém lá fora pelo olho mágico e seja veloz: abra, pegue a encomenda, feche a porta e respire aliviado. Mais uma gorjeta que você economizou.

Saiba que os hotéis não cobram pelo sabonete, xampu e condicionador que disponibilizam nos banheiros. Mas isto não significa que você pode usar um tubo de xampu a cada banho (aliás, você checou se o hotel cobra pelo banho?).

O café da manhã é de graça. É a sua chance de comer o suficiente para não precisar gastar com comida pelo resto do dia. É importante sentar-se próximo ao bufê, para que os outros hóspedes não percebam que você está refazendo o prato pela quinta vez. As regras de etiqueta dizem que você pode repetir uma refeição quantas vezes quiser, contanto que não faça um prato de pedreiro. O que não é o seu caso, obviamente. O primeiro prato que você faz tem três andares. No quinto, você inova nas regras de engenharia e consegue edificar uma réplica do Empire States Building com croissants, muffings, queijo, presunto, abacaxi, salsicha e um azeitona simulando o King Kong.

Você verificou se o hotel cobra pelo uso da privada? É lá que você vai passar o resto dos seus dias se não tiver bastante cuidado com o que come no desjejum. Há registro de pessoas que se aproveitaram da fartura e mandaram ver em todos os itens. Saiba: a administração dos hotéis coloca uma gotinha de laxante nas iguarias mais caras da refeição. De modo que aquela pitadinha de noz moscada pode se transformar num porco podre em apenas alguns minutos de digestão.

A piscina. Você deita na espreguiçadeira, olha aquele espelho azul, sente que tudo valeu a pena. O sol é de graça (os sistemas de cobrança pela luz solar ainda estão em testes no Massachussets Institute of Tecnology), portanto você pode torrar o dia todo sem medo de ir à bancarrota. Mas não peça nada. A última vez que a Apple quase faliu foi porque Steve Jobs resolveu tomar todas num bar molhado. Já que você não sabe como parar quando começa, melhor viver um dia de cada vez.

Muito bem, a noite chegou. Vai ter uma festinha na boate do hotel e você descolou uma pulseira VIP com o cabeleireiro ao dar falsas esperanças a ele. Antes de levar pro quarto aquela loira de microssaia e salto alto, verifique qual a política do hotel no tocante à prostituição feminina. De menores. Bom, você não esperava que a dona daquelas curvas caísse no seu colo motivada pelo seu charme, não é mesmo? A sua sorte é que a batida do Ministério Público vai acontecer bem na hora que você for ao banheiro tomar um pouco de água da torneira (na boate, a cerveja é mais cara que no bar molhado).

Lembra que eu falei que havia muitos motivos para levar uma bagagem pequena? Muito bem, uma dessas razões é o temido check-out. Ou, como se diz em português, o juízo final. É nessa hora que você vai acertar as contas com o deus dos hotéis de luxo. Vão te cobrar os trinta e oito tubos de condicionador (usar creme capilar como hidratante não foi uma boa idéia), o canal pornô que era pay-per-view e você não checou antes, as gorjetas acumuladas, os dez por cento da taxa de serviço e a luz solar (um protótipo do MIT foi instalado há dois dias). O que fazer?

Com sua mochilinha nas costas, diga que decidiu ficar mais alguns dias. Volte ao quarto e espere quarenta minutos (gerentes são como moscas: têm perda de memória recente). Em seguida, vista apenas uma sunga, deixe uma toalha escapando da mochila e passe pela recepção cumprimentando todos, dizendo que não vê a hora de se jogar naquele marzão. A loira peituda está esperando na esquina dentro de um Fusca 79. Você teve que ligar a cobrar. Ainda bem que ela ganhou uma graninha na noite passada pra colocar crédito no celular.


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