[CRÔNICA]
CARTA DA DISTÂNCIA N°2: DO VERBO ESTRANHAR
Posted: novembro 17th, 2008 | Author: Patrício Júnior | Filed under: TELESCÓPIO | Tags: crônica, literatura, saudade | No Comments »
Yo soy un chico, mas também sou Chico. Pois me chamo Francisco e como todos esses franciscos que não têm vergonha da própria matutez disfarçada numa casca cosmopolita, estranho em demasia essas palavras todas diferentes, essa facilidade em ler/dificuldade em ouvir, esse quase não falar que se transforma num silêncio raivoso ao lembrar segundas quartas sextas diante de uma interminável aula de idiomas. Estranho, mas sigo. Numa liberdade de conjugar verbos errados, num aprendizado de dizer apenas o indispensável, no ato falho de soltar sem querer uma frase em português (como se algo quisesse sempre me lembrar que aquela linguagem não é a minha, que apenas simulo uma nova linguagem).
Pelas ruas – que não são ruas, são calles – estranho esses nomes que não me dizem nada. Absolutamente nada. Gregorio Marañon, Príncipe de Vergara, Nuñez de Balboa – quem são?, quem foram?, quem serão? Eu não sei, mas vou deixando que façam parte de mim, que me signifiquem alguma coisa, que digam um pouco do que sou. Afinal, nunca soube mesmo quem era esse tal de Rio Branco – nome de rua em quase todas as capitais do Brasil. Eu sigo.
Já domino, de certo, os palavrões. Muito embora seja estranho topar numa pedra e dizer baixinho, abafado – pra nenhuma senhora que está voltando da igreja se horrorizar – um corriqueiro ¡Hostia!. Em contrapartida, que encanto é dizer alto na mesma situação aquele “Porra!” que fomos educados a conter. Aqui, porra é um desses churros gigantes que se comem com chocolate quente. Aqui eles não sabem a verdadeira carga sócio-político-cultural impregnada num sonoro “Porra!”.
Estranho os horários e isso não é novidade alguma a quem já foi vítima dos fusos. Acordo sem fome, tomo café com leite no almoço, janto feijão com arroz e faço uma boquinha às duas da manhã. Antes de dormir. A mente reclama, diz que já é hora de conhecer as manhãs desse país, mas o corpo, coitado, enterrou seu umbigo numa cidadezinha litorânea às margens de um rio com nome indígena. (E pra quem estranhou, como eu, a parte do feijão, explico: aqui tem sim, mas eles são vendidos em vidros de compota, já vêm prontos e são caríssimos. Feijoada nem pensar.)
De todas essas pequenas diferenças, como era de se supor, nasce um estranhamento de mim mesmo. Como se quando me sirvo de tortilla e explico que no Brasil quase ninguém conhece a Amazônia, não fosse eu falando. Fosse um outro. Que sou eu sim, eu sei, mas age como um outro. Um antropólogo que estudou nossa etnia e pode falar dela com ares de PhD. Um Levi Strauss negro, barbudo, que não sabe dizer onde estão as luvas de lavar pratos pelos simples fato de que não sabe como dizer “pia”. Poucos têm idéia do quanto se pode aprender quando não se sabe dizer “pia”.
Vou levando. Explicando que no Brasil só quem sai nu no carnaval são as mulatas de Escolas de Samba e os travestis; sentindo orgulho quando dizem por aqui que Lula é um bom presidente, mas morrendo de vontade de dizer que poderia ser bem melhor; ensinando pela enésima vez como se samba; tentando descrever a sensação de tomar um copo de suco de mangaba daqueles que deixam os lábios grudentos; falando das comidas que já não como, das praias onde já não me banho, do incrível que é perceber como venho de um país grande.
Aqui não tem essa palavrinha que dói tanto chamada saudade. O mais próximo que podemos chegar é dizendo Yo extraño… Talvez por isso eu estranhe tantas coisas. Talvez.


