[CRÔNICA]
A MOÇA DO AQUÁRIO
Posted: dezembro 11th, 2008 | Author: Patrício Júnior | Filed under: TELESCÓPIO | Tags: crônica, literatura | No Comments »
O que me diz a moça do aquário? Com os olhos perdidos, aquosos quando fitam algo além das paredes de vidro, incandescidos pelo brilho lá de fora; com as unhas pintadas e a tanto custo intactas, visto que a fome, o tédio e a ansiedade chegam com hora marcada tal maré alta, infalíveis, britânicos, a primeira às doze, o segundo às quatro, a terceira às nove; com o cabelo quase crespo, quase mesmo, maltratado que está por tantas escovas, chapinhas, formóis (não deveriam alisá-lo?, talvez se pergunte após tanto nadar nas mil possibilidades cosméticas dos dias de hoje, crente de que tentar ser mais bonita jamais vai torná-la feia).
O que me diz a moça? Enquanto vaga a esmo naqueles seis metros quadrados, boiando entre as arestas do cubículo, retângulo branco, asséptico, iluminado. Enquanto caminha de uma parede a outra, esperando, esperando, esperando (não de esperar, mas de esperança). O que me diz? Talvez que tenha uma vida de verdade fora dali, pais, irmãos, amigas, namorados, sonhos; talvez que aquilo seja uma bolha de ar que estourará logo mais, uma condição passageira, só até terminar a faculdade de psicologia, de música, de engenharia quiçá; talvez que odeie o aquário, os sapatos nas gôndolas do aquário, os clientes que não entram no aquário. O salário.
O que me diz ela, tão calada, tão sozinha, tão à deriva? Encostada num balcão de mármore, fantasmagórica em sua farda branca, indo de par em par, arrumando o que já está arrumado, mexendo minuciosamente no que já é minuciosamente perfeito. Os arquitetos, lembra-se bem, arrumaram tudo. Ela pega uma escada, sobe ignorando as dificuldades do salto alto, atenta ao par de mocassins marrons deitados no topo da estante. Estão milimetricamente bem colocados, mas ela mexe um pouco. Empurra pra direita, depois pra esquerda, centraliza com base na prateleira, dá-se por satisfeita. Ficam exatamente como estavam antes. E o que ela sente, então? O que sente a moça prisioneira do aquário? A certeza da utilidade é o que sente, como dependesse dela a existência dos sapatos de bico fino, dos sapatênis, das sandálias. Uma escafandrista: mas o tesouro que busca é apenas uma justificativa para estar ali. Guarda a escada, vem bem perto da parede de vidro, comprova que não vai entrar ninguém, volta a se encostar no balcão e mirar o nada.
O nada lá fora. Que a bem da verdade é o tudo. As crianças passando com algodões doces, os casais dividindo casquinhas de creme, os adolescentes trocando mensagens de celular às gargalhadas. É a vida lá fora, moça do aquário, o tudo que aos teus olhos soam como um nada. Enquanto você aí dentro com blusas leves e largas disfarçando os pneus, com chumaços de algodão protegendo os dedos das calosidades, com um sanduíche de pão com queijo aguardando a hora do instinto, enquanto isso, a vida lá fora. O que você me diz, moça do aquário? Talvez que seja crueldade afogá-la diariamente neste cubículo; talvez que seja preciso alguns no aquário enquanto o resto em liberdade; talvez que entenda a dádiva alheia em relação ao próprio calvário.
Ela remexe os cantos das unhas com as próprias unhas, suspira exausta e profundamente. Mas suspira não de desejos. Suspira de nada. Pois são brancas as paredes, fluorescentes as luzes, alvas como nuvens as gôndolas, ela, sua farda. O que deve aparecer são os sapatos e só, disseram os arquitetos, assim damos mais vida ao produto. E talvez ela tenha concluído em pensamento: dão vida a eles enquanto tiram a minha.
Uma coadjuvante dos sapatos. É o que é. E quando por ventura alguém entra, displicente observando as estantes, o olhar guiado pela iluminação, se ela não falar nem é percebida. Precisa dizer “posso ajudar” e ser simpática; e torcer para que não respondam “estou só olhando”. Pois pode sentir, e com demasiada probabilidade, pode sentir vontade de chorar ao ouvir esta frase. Estou só olhando: pode ser isso o que ela me diz. Posto que está constantemente apenas olhando.
Recostada no balcão de mármore, líquida, misturada à luz, às paredes, às prateleiras, a moça do aquário já quase nem existe. Deveria mesmo era pegar a bolsa, lacrar o aquário, sair pela tarde em busca de vida. Mas teme ser como um golfinho adestrado que morre de fome se libertado no oceano. A gente se acostuma ao cativeiro. Talvez não me esteja dizendo nada, a moça do aquário.


