Sou escritor, jornalista, publicitário e um dos fundadores da Editora Jovens Escribas. Já publiquei dois livros: o romance Lítio e a coletânea de contos A Cega Natureza do Amor. Aqui no PLOG escrevo sobre tudo. E até sobre nada.

[CRÔNICA]
A LEI ANTIFUMO, POR UM FUMANTE

Posted: agosto 14th, 2009 | Author: Patrício Júnior | Filed under: TELESCÓPIO | Tags: , , , , , , , | 13 Comments »

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Eu concordo com a lei antifumo. Ipsis litteris. Acho, inclusive, que deveria se estender a todo o país. Com benefícios coletivos inumeráveis. Por exemplo, os não-fumantes não vão se incomodar com a fumaça, os fumantes vão se envenenar menos e todo mundo vai sair ganhando nessa história. Ponto.

Dito isso, passemos ao que realmente importa.

Esta manhã, fiz a seguinte postagem no Twitter: “Quando me dizem ‘eu odeio fumantes’ sinto vontade de responder ‘eu odeio gordos’”. Obviamente, não odeio gordos. Mas a frase, por sua concisão e contundência, dá margem a diversas interpretações. Principalmente as erradas. Por isso, me dou ao direito de estender o tópico.

Não gosto de ouvir “odeio fumantes” porque sou fumante. Me incomoda saber que todos são colocados no mesmo bolo e tratados como mal educados que saem baforando suas fumaças independente de quem está respirando ao seu lado. Eu tomo cuidados. Para não incomodar os outros, para não ficar fedendo, para não deixar que o fato de ser fumante seja a principal característica da minha personalidade. Já imaginou? “Fulano? Ah, é inteligente, fumante, engraçado”. Não, não gosto de generalizações. E sou fumante mas sou limpinho.

Essa sentença, dita com tanto orgulho por alguns não-fumantes, é hipócrita. “Odeio os fumantes porque eles fedem”. Bom, eu não fedo, apesar da lógica dizer que eu deveria feder. Veja bem: gordos suam mais e, portanto, têm maior probabilidade de exalar maus odores. Seria justo dizer “odeio gordos porque eles fedem”? Não, meus amigos, seria cruel. E desnecessário. “Odeio fumantes porque eles me incomodam”. Apesar de sentir vontade de dizer “os incomodados que se retiram”, não serei infantil a tal ponto. Direi apenas que pedintes nas ruas me incomodam. E não os odeio. E até mais: direi que você, leitor, provavelmente faz algo que me incomoda profundamente. E não te odeio.

Depois vem toda a desinformação característica de quem quer ser o dono da verdade. O cigarro é um problema de saúde pública. Por mais que, teoricamente, a venda de cigarros cubra os gastos públicos com tratamentos de câncer e outras mazelas, se houvesse menos problemas de saúde decorrentes do tabagismo o imposto gerado pela venda de cigarros poderia ser empregado para salvar a vida de pessoas que não estão se autoinfligindo doenças. Como a realidade não é essa, o Governo intervém. Não porque quer garantir o direito de você, não-fumante, sair da balada com o cabelo cheiroso. Nem muito menos porque quer perseguir os que gostam de acender seus caretas. O Governo intervém porque precisa equilibrar as contas. Tudo se resume a dinheiro.

A obesidade também é um problema de saúde pública. Milhões são gastos no SUS com malefícios que advêm desse péssimo hábito (doenças cardíacas, cânceres, hipertensão, etc). Houvesse menos obesos mórbidos ou sedentários, sobraria mais dinheiro para tratar pessoas que não estão ficando doentes porque querem. Simples assim.

Não estou defendendo a restrição dos direitos dos gordinhos. Nada disso. Entendo perfeitamente que no aspecto da saúde pública a obesidade e o tabagismo guardam diferenças gigantescas (a principal delas, a meu ver, é que quando somos pequenos nossas mais não ficam o tempo todo repetindo “fume esse cigarrinho todinho senão fica sem sobremesa”). Mas no aspecto social, podemos sim comparar as duas facções. Fumantes e gordos estão unidos.

Gente mal educada tem de todo tipo. Fumante, não-fumante, gordo, anoréxico. Mas, por mais desagradável que seja ter que compartilhar espaços com pessoas de diferentes características, o caminho do ódio só leva a uma coisa: recíproca (essa você já sabia, tenho certeza, falei só por falar mesmo). Posso listar inúmeras razões para odiar não-fumantes. Mas eu gosto deles. Afinal, se todo mundo fumasse, ninguém tentaria me livrar desse hábito terrível que assumo sem nenhum prazer.

Só estou pedindo respeito. Só isso.


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