[ARTIGO]
ESTUDANTE PAGA INTEIRA
Posted: abril 13th, 2009 | Author: Patrício Júnior | Filed under: TELESCÓPIO | Tags: artigo, carteira de estudante, cinema, música, meia entrada, shows | 5 Comments »
Sucumbindo ao lobby das empresas de entretenimento, a Câmara aprecia projeto de lei que limita em 40% o número de ingressos com desconto estudantil em shows, cinemas e afins. Segundo a nova lei, ao alcançar o teto de 40%, o empresário não é mais obrigado a vender ingresso com desconto para seu ninguém. Entidades ligadas ao showbizz estão alardeando pelos quatro cantos do mundo que a nova lei fará com que os preços dos ingressos caiam. Mas se a coisa toda continuar funcionando como acontece agora, vai ser trocar seis por meia dúzia.
Vide o velho golpe do “preço promocional com 50% de desconto”. Funciona assim: o ingresso custa 30, mas anunciam como se custasse 60 com um superdesconto de 50% pra todo mundo. Ou seja, no fim das contas, estudantes e não estudantes pagam a mesma coisa. Sem desconto algum, claro. Você, com certeza, já foi alvo desse golpe por aí. E nessas horas, é difícil ter a determinação de gente como a estudante Priscila Pivatto, paulista que processou a empresa CIE Brasil (atual Time For Fun) por não vender a ela ingresso com desconto para o show de Oasis no Credcard Hall, em 2006.
Em São Paulo, onde uma lei municipal já estabeleceu a tal cota, Priscila tentou comprar o ingresso antecipadamente, mas o lote de estudantes já estava esgotado. Consciente de seus direitos, ela comprou o ingresso pagando inteira, viu o show e depois foi à Justiça pedir ressarcimento. Em 2ª instância, a Justiça Estadual deu ganho de causa à estudante considerando o sistema de cotas inconstitucional. Mas a briga deve ir ao Supremo. Vale lembrar: a Justiça considerou a lei das cotas inconstitucional em São Paulo porque uma lei federal garante o direito à meia-entrada (e pelo nosso sistema de direito, nenhuma lei municipal pode ir contra uma federal). Mas é justamente essa lei federal que pretendem mudar.
Ainda em Sampa, não se tem notícia de que a tal cota de estudantes tenha feito com que o preço dos ingressos baixem. O show da banda Radiohead, por exemplo, custou 200 paus cada ingresso. Baratinho, né? Estudante pagava meia. Mas quem conseguiu ingressos da cota? Quem? Nos cinemas, o mesmo assalto. A média de preço é entre 15 e 20 mangos a entrada inteira. Não muito diferente de onde não tem cota. Cadê o preço baixo, então?
Estabelecer cotas é sempre um problema. As normas são dúbias (como na cota de negros nas universidades), os responsáveis por fiscalizar não são apontados claramente e todo mundo passa a fingir que está funcionando quando na verdade está se criando um problema maior em longo prazo. No caso da cota para descontos a estudantes, cria-se uma perigosa distorção: estabelecer limites para um direito adquirido é o primeiro passo para enfraquecer sua importância. Daí para suspender esse direito é um pulo.
Não quero ser fatalista, mas essa nova lei é uma furada. Os artistas dizem que será importante para fomentar a cultura, mas na prática os 40% com desconto sempre estarão esgotados quando você tentar comprar um ingresso com sua carteira de estudante. Ou seja, metade da utilidade da carteirinha vai se perder. Com isso, por tabela, as falsificações vão diminuir drasticamente. O empresário vai ganhar mais; o Governo vai economizar com fiscalização; o artista vai ter um público mais adulto; e o estudante… bem, quem mandou estudar, né?



O custo de um vento é de 10 mil reais. Eu espero um público de mil pessoas. Se estas mil pessoas pagarem 12 reais cada uma, eu, organizador do evento, lucrarei 2 mil reais. Tudo muito justo.
Mas se uma escola organiza uma excursão e metade do meu público vem de estudantes, por mais que eu lote a casa, só receberei ao final 9 mil reais e terei um prejuízo de mil reais. Você gostaria de trabalhar correndo este risco? Creio que também não. Daí que você garante que mesmo que só venha estudantes, o evento dê lucro, colocando ingresso meia a 12 reais, e inteira a 24. Injusto? Deixa eu contar o que é injusto…
Injusto é querer que do nada certas coisas sejam gratuitas, pela metade, para fazer graça com um determinado seguimento de votantes. O justo seria o governo criar ua lei de meia entrada e bancar a outra metade do ingresso, como já o faz quando troca nota fiscal por convite para filmes. Como o governo mandou cobrar só meia entrada e não não deu a grana da outra metade, coube aos produtores culturais dobrar o preço dos ingressos para diminuir um pouco os riscos que para este tipo de negócio já são altos sem meia entrada.
Vc está, então, defendendo uma prática ilegal pela sobrevivência de um mercado? É isso? Os fins justificam os meios? Bem, busque um argumento melhor. Pq eu duvido que um show no Vila Folia, com Chiclete com Banana e Asa de Águia, dê prejuízo. Mesmo tendo mais da metade do seu público formado por estudantes.
Admito que a regra deve mudar parra equacionar as coisas. Mas a cota não equilibra nada. Pelo contrário. Penaliza quem tinha direitos e beneficia quem não estava cumprindo a lei. Se o Governo simplesmente investisse mais em fiscalização e coibisse as carteiras falsas, já seria um grande avanço.
A nova lei diz que somente a UNE e a UBES poderão emitir carteiras. E que elas serão auditadas pelo Governo Federal. Com essa parte da lei eu concordo. Agora, esse lance de cota é desculpa pra não dar desconto. É claro. Sem cota, já enrolam, imagine com.
A lei diz que todos os idosos podem furar a fila no banco. Mas se um banco só consegue atender mil clientes por dia, e em determinado dia coincidir de mil idosos baterem à sua porta, só idosos serão atendidos, deixando o resto da população não idosa na mão. O que fizeram os bancos? Separaram um caixa só para idosos. Assim garante-se que todas as classes serão atendidas. E se mil idosos vierem em um único dia? Metade deles vê o tamanho da fila e deixam para voltar no dia seguinte.
Eu não estava falando de filosofia, mas de matemática. Mas, se for o caso, falamos. Até porque que está defendendo que os fins (a meia entrada) justificam os meios (não importa como, desde que os estudantes paguem meia) não sou eu. Eu só estou dizendo que se a lei quer que estudantes paguem meia (fim), ela tem que dizer como (meio), justamente porque me preocupo com o meio. Como ela não diz, apenas manda que se chegue a este fim, finda que matematicamente não há como estudantes pagarem meia sem que outros paguem mais por isso. Do jeito que a lei está, mesmo que um único estudante pague metade do ingresso, a outra metade será rateada por todo o resto de não estudantes. Porque eventos têm custos, assim como produtos. Mas eventos têm muito mais riscos. Por mais que a TV não venda este fim de semana, ela pode ser vendida no fim de semana que vem. Já o show do Asa, se cai uma chuva e metade do povo deixar de ir, fodeu.
Quando se trabalha com eventos, toda e qualquer medida para diminuir os riscos é válida. E mesmo se mínimo o risco de toda a sua platéia ser formada por estudantes, calcula-se os custos do ingresso tendo como base este público. E dobra-se para os não estudantes. Não acho que isso seja o certo. Mas é isso que a lei do jeito que está proporciona. Os cinemas trabalham assim. Até porque você não sabe quem comprará o ingresso. Um filme de Adam Sandler deve chamar muitos estudantes, mas um de Clint Eastwood não. Contudo, você paga o mesmo valor para os dois.
Você realmente acha que estudante paga meia? Ou acha que não estudante paga dobrado? Você realmente acha que há como estudante pagar meia num caso assim? A matemática só concorda que sim se o agente cultural topar ter prejuízo, ou se o governo arcar com a outra metade. Como o governo não arca, você, se agente cultural, toparia arcar com este prejuízo?
É mais uma medida drástica do governo, assim como a cota racial nos vestibulares e a tal da unificação do mesmo. É jogar a sujeira para debaixo do tapete, dissimular, fechar os olhos para problemas maiores. Falta de fiscalização das falsas entidades estudantis, e dos cursos e faculdades de fundo de quintal que só servem para dar numero de matricula e ai o malandro sai com sua carteira de estudante pra ter desconto em micareta.
Sem falar da falta de promoção de acesso a cultura.
Por outro lado não da pra generalizar e culpar todo empresariado e agentes culturais no mesmo balaio de gananciosos. O Estado quer se livrar de mais uma obrigação e jogar tudo nas costas da iniciativa privada.
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