[CRÔNICA]
COMO SOBREVIVER A UM VÔO INTERNACIONAL
Posted: novembro 15th, 2008 | Author: Patrício Júnior | Filed under: TELESCÓPIO | Tags: aviação, crônica, literatura | No Comments »

Você ignora a crise global, a alta do dólar, o caos aéreo, o escambau e decide viajar. Pra bem longe. De avião. Você sabe que vai extrair disso um aprendizado transformador, uma experiência edificante e dezenove gigas de fotos de paisagens que ninguém vai ter saco pra ver. O que você talvez não saiba é que as viagens de avião são uma avançada técnica de tortura contemporânea.
Tudo começa pelas malas. Limite de peso é um estupro. Como você pode passar seis dias fora sem levar seus pijamas preferidos, seus filmes de estimação, seu aparelho de jantar e a pia da cozinha? Mas você só pode levar o indispensável. Isso significa que o aparelho de jantar e a pia da cozinha ficam. A mala é feita com todo o carinho, as roupas leves em cima, as pesadas embaixo, tênis em sacos de supermercado, roupas íntimas em sacolas de shopping. A pergunta é: pra quê? A mala é a primeira coisa da qual você se livra. Vai entender.
Chegando no aeroporto, você entra naquele saguão enorme. E cadê as placas de identificação? Excetuando-se pessoas que viajam de seis em seis dias, nunca se sabe exatamente o que fazer quando se chega a um aeroporto. Tom Jobim, Santos Dumont, John Kennedy, Charles de Gaulle. Não importa em qual personagem histórico você está penetrando (!). Todos agem como se você fosse PhD em embarques internacionais. O setor de informações, por exemplo, nunca está por perto. De quem foi a idéia de colocar o setor de informação sempre no meio do aeroporto? Ou seja, você só chega até ele quando já está completamente perdido.
Do setor de informações ao guichê da companhia. A fila está enorme e tem uma gordinha comendo donuts na sua frente. Não por ser gordinha, não por comer donuts, mas sim por ser retardada, essa gordinha nunca anda junto com a fila. Fica ali parada, saboreando suas gorduras trans, enquanto a fila vai andando. E você impaciente, de olho no relógio, com o peso improvável de sua bagagem de mão. É o tal do limite de peso. Você superlotou a bagagem de mão pra caber mais coisas. E agora disfarça o peso pra ninguém da companhia notar que as malas que serão despachadas são apenas a ponta do iceberg.
O check-in, esse sim, é a primeira etapa do juízo final. A atendente olha pra você com aquela cara de desinteresse e informa secamente que você ultrapassou em 122 gramas o limite de peso. Seu supercílio direito começa a dar pontadas. Mas calma, sem estresse, afinal você vai viajar para relaxar. Você abre a mala, tira um dos seus pijamas favoritos, enrola no pescoço como se fosse um cachecol e diz: tudo bem, lá é meio frio mesmo. A atendente faz vista grossa ao fato de que você está embarcando pro Caribe.
Última chamada. Você está frente à frente com o detector de metais. O duelo é inevitável. É agora ou nunca. Um passo, dois, três, piiiiiiiiiiiim. Ele apita mesmo depois que você deixa o celular, as chaves de casa, o cinto, as moedas, os brincos, a caneta, a caderneta com espiral, o piercing que nem lembrava que tinha, o botão da calça, a dignidade. O detector odeia você. Por fim, liberam sua passagem. E então você tem que se recompor ali mesmo no salão de embarque. Por que eles não colocam provadores de roupa após os detectores de metal?
Você está no salão de embarque, mas ainda não vai embarcar. Por isso ele existe. Você ainda vai esperar por uns vinte minutos, lutando contra a vontade de comprar um chocolate e uma garrafa de água porque, enfim, juntos eles custam quase 20 reais. Aliás, a gordinha retardada deve ser rica. Ela passa carregando mais de quinze barrinhas de chocolate. Você é tão ignorante que não conhece uma coisa chamada free shop.
De repente, você percebe aquele olhar. Aquela coisa pesada sobre você, aquela energia negativa. Um vampiro? Um dementador? Um alienígena sanguinário? Não, muito pior. É uma criança bilíngüe. Elas são os mais nefastos habitantes dos aeroportos. São filhas da miscigenação. Aquela, em específico, é filha de uma carioca da gema com um alemão da clara. E fala português como se estivesse praguejando e alemão como se cantasse funk. “Oi, meu nome é Schwartszwann”, ela diz carinhosamente. “Oi, Nietzcxhezwann”, você tenta. E então ela passa a cantar canções infantis. Em alemão. É a coisa mais linda que você já viu. Mas cinco minutos depois, você deseja que um avião caia na cabeça dela.
Chega o grande momento. O vôo está taxiando. As pessoas se aglutinam. Uma negra com uma microssaia mais curta que seu cinto vem recolher Mxyzptlkzwann. Você sai correndo pra embarcar, mesmo sabendo que todo mundo tem lugar marcado. Aliás, ao que parece, todos ignoram esse detalhe e passam a se acotovelar na entrada do tubo de plástico que conduz à aeronave. Nesse aglomerado, você aproveita pra dar uma cotovelada no cocoruto da criança bilíngüe. Ela não fez nada com você. Mas fará. Você é antes de tudo precavido.
Dentro do avião, você se assusta quando um manequim de vitrine cumprimenta você em três idiomas diferentes. É a chefe de cabine. Ela tem oito clones espalhados pelo avião, todos bonitos, solícitos e sem personalidade. Você dribla esses fugitivos de um romance de Aldous Huxley e chega até sua poltrona. Não é janela. Não é corredor. Você está bem no meio. De um lado, na janela, a criança bilíngüe. Do outro, no corredor, a gordinha retardada.
Você pensa em largar tudo, voltar, aproveitar que as malas estão feitas e passar o fim de semana em Guaratinguetá. Afinal, quem quer conhecer o Caribe? Praia, areia, mulatas rebolantes: tudo isso tem no Brasil. Bom mesmo é Guaratinguetá! Mas a porta da aeronave fecha e os comissários de bordo, todos clones uns os outros, ensinam como você deve proceder caso o avião caia.
Você guarda sua bagagem de mão (que quase não cabe no compartimento, mas se começarmos a falar nisso dá outra crônica inteirinha), senta entre seus algozes e pensa num estalo: peraí, há probabilidade disso cair? Você não estava preparado para essa revelação. É algo óbvio: aviões podem cair. Mas quando se está dentro dele, enfim, essa certeza racional se torna uma revelação funesta.
A gordinha retardada peida no exato momento em que o motor do avião é ligado. Também neste exato momento a criança bilíngüe começa a chorar aterrorizada (fingindo medo, você sabe bem, ela quer apenas a vingança). Você não sabe realmente o que fez pra merecer isso. Afinal, estar com uma criança escandalosa e uma gordinha peidante dentro de um bólido de metal que pode despencar a qualquer momento dos céus não é necessariamente uma bênção.
O avião está correndo na pista. O pum da gordinha cheira a pudim de leite azedo. A criança começa a gritar que você bateu nela. Todos na aeronave olham pra você como se encarassem um monstro. O avião sai do solo. O compartimento de bagagens de mão abre e todos os seus DVDs pornôs e cuecas velhas voam pela aeronave. Você é tomado por uma certeza aterrorizante de que este vôo vai explodir nos céus e todos vão morrer. Você já viu isso num filme, sabe bem como é. Você precisa evitar.
Então, acometido de um surto inédito de heroísmo, você puxa a alavanca de emergência gritando “Vive la France!”. Máscaras caem automaticamente sobre as poltronas. Você segue os procedimentos de segurança, põe sua máscara, depois a da criança (pra ela calar a boca) e antes que o comandante acione a torre de controle para arrematar a decolagem, você respira profundamente seu oxigênio sem pudim azedo e pensa: eu adoro Guaratinguetá. Então, você relaxa e goza.

