Sou escritor, jornalista, publicitário e um dos fundadores da Editora Jovens Escribas. Já publiquei dois livros: o romance Lítio e a coletânea de contos A Cega Natureza do Amor. Aqui no PLOG escrevo sobre tudo. E até sobre nada.
Se você tem mais de 30 anos (não que eu tenha, que fique claro!), você com certeza se lembra da primeira versão de “V”. Exibida na Globo nos anos 80 e posteriormente reprisada à exaustão no SBT, essa série ficou mais conhecida como “V – A batalha final” e também por escatologias como pessoas lindas e esculturais comendo ratos vivos. Lembrou? Pois é, está de volta. Mas na era pós-Lost, nada no mundo das séries de TV pode ser resumido. A nova versão de “V”, portanto, ganhou finalmente a produção que o enredo merecia. E os atores, e a direção, e a tensão… Enfim, “V” deixou de ser uma série trash. Sua nova versão faz jus às idéias até hoje originais do roteiro. Então vamos a elas. Às idéias.
Tudo começa quando na manhã de uma terça-feira qualquer o mundo inteiro é surpreendido pela chegada de gigantescas naves espaciais, que passam a fazer sombra sobre as maiores cidades do mundo. De Nova York a Rio de janeiro, a humanidade literalmente pára com a chegada inesperada dessas naves. Após um tempo de tensão, finalmente os extraterrestres fazem contato. E eis que a surp´resa é geral: através da líder Anna, uma belíssima morena de fala calma, eles se autodenominam “Os Visitantes” e insistem que vieram em paz. São idênticos aos seres humanos, mas com um detalhe: todos são lindos. Se dizem surpreendidos, porque até então acreditavam que eram a única raça inteligente do universo, e propõem algo irrecusável: em troca de água e outros minerais que necessitam para seguir viagem pelo universo, eles oferecem tecnologia à humanidade. Tecnologia no mais amplo sentido da palavra: cura de doenças, aparelhos eletroeletrônicos que deixam o iPhone com cara de telégrafo, domínio sobre a gravidade, etc.
É neste ponto que temos contato com os personagens principais da série. Erica Evans, agente do FBI; e Padre Jack Landry, responsável por uma pequena paróquia em Nova York. Como dizem por aí, quando a esmola é de mais o santo desconfia. E esses dois descobrirão mais rápido que qualquer outro ser humano que não é apenas água e alguns minerais o que desejam os visitantes.
Pra não estragar surpresa alguma da série, e manter você tenso desde o primeiro episódio, me resumirei a dizer o seguinte: a chegada dos visitantes abala a estruturas da humanidade de uma forma muito profunda. E os roteiristas são felizes ao explorar todos os matizes desse abalo sísmico. Logo nos primeiros minutos do episódio de estréia, já temos uma excelente questão: o que a Igreja diz a respeito? O Vaticano insiste em afirmar que todos são filhos de Deus, mas a ausência absoluta de menção aos Visitantes nas Escrituras Sagradas deixa até o Padre Jack com uma pulga atrás da orelha. Outra vertente interessante explorada no roteiro é a do terrorismo: a chegada dos Visitantes monopoliza todas as atenções da humanidade, desde os adolescentes até às Forças Armadas. Um prato cheio para que atentados terroristas se proliferem com a velocidade de um 11 de Setembro. Mas o detalhe primordial, que dá um nó ainda mais cego nessa trama, é a revelação de que os Visitante não chegaram naquela terça-feira: estão entre nós há anos e anos, disfarçados de seres humanos, ocupando cargos altos na hierarquia mundial. Ah, sim, e não são tão lindos quanto aparentam.
Como dizia no início, “V” finalmente recebeu uma versão à altura de seu roteiro. Com a tecnologia dos anos 80 e a mania que a TV tinha de deixar tudo explicadinho – subestimando o telespectador – a primeira versão parece muito mais uma chanchada que uma série de ação e suspense. A versão 2009, entretanto, faz justiça às idéias contidas no original. E estão todas lá: a dúvida sobre quem é extraterrestre e quem é ser humano; o fascínio que os Visitantes exercem na humanidade, em especial nos jovens, convertendo-se lentamente em devoção; a sensação de incapacidade que todos sentem diante de um inimigo que banca o bonzinho (mas que pode destruir a Terra apertando apenas um botão); enfim, “V” é uam série que fala de extraterrestres, mas não é apenas sobre eles.
A série está apenas no seu segundo episódio e já consigo escrever laudas e mais laudas sobre ela. É porque a premissa é tão boa que dá margem a criar inúmeras histórias paralelas, interessantes, instigantes e originais. Ao seu lado, neste exato momento, pode ter um ser humano. Ou um Visitante. E como se pode saber?
Depois de Mad Men escarafunchar o meio publicitário da década de 60, mostrando toda a briga de egos, jogadas sujas e traições que ocorrem nos bastidores das agências, chegamos aos tempos atuais com uma nova série. Chama-se “Trust me” e estreou ontem sem muito alarde no Brasil, no canal a cabo I.Sat.
Apesar de não ter a mesma classe de “Mad Men” – que, vamos e convenhamos, carrega a grife HBO em sua produção –, “Trust me” tem seu encanto. A trama gira em torno da dupla de criação Mason McGuire (Erick McCormack, o Will de “Will & Grace”) e Conner (Tom Cavanagh, o pai de Eli nos flashbacks de “Eli Stone”), estrelas de uma agência de publicidade de Chicago. O start da série é quando Mason é promovido a diretor de criação. A amizade dos dois começa a ser testada em meio a uma briga de egos tremenda.
Assisti apenas ao primeiro episódio e tenho três observações:
1) A série é bastante verossímil sobre o dia-a-dia de uma grande agência de publicidade, com a supervalorização de prêmios, os egos inchados e as rasteiras desse ambiente cheio de cobras. Não por acaso, é escritas por dois ex-publicitários que viraram roteiristas de TV.
2) O carisma da dupla de protagonistas é impressionante. Mason e Conner formam, por assim dizer, um belo casal. E conseguem transmitir bem pra telinha esse sentimento que une as duplas de criação (amizade, cumplicidade, companheirismo).
3) Os diálogos são o ponto forte da série. Principalmente quando a dupla de criação começa a fazer um brainstorm e você vê a idéia surgindo.
Ao meu ver, a série só peca por ser um pouco inocente. Ao meu ver, faltou conflito. Por que essa história de briga de egos não interessa muito a quem não trabalha com publicidade, sabe? Não por acaso, a série já foi cancelada nos Estados Unidos. Mas se você quiser acompanhar a primeira e única temporada, se ligue no I.Sat toda segunda, às 21h. Quem sabe a audiência daqui não motiva o retorno da série, né?
Que Mad Men que nada! Quem quer mesmo conhecer a realidade de uma agência de propaganda nos anos 50, com reviravoltas impressionantes, atuações marcantes e polêmicas das brabas, precisa assistir à websérie Garamond & Kamfort. Mas não adianta procurar nas suas 35 HBOs. G&K tem endereço fixo na internet.
A comparação com Mad Men, claro, é uma brincadeira. Da mesma forma como G&K também é. Projeto da dupla de criação José González (redator) y Daniel Piqueras (diretor de arte), da agência espanhola Diéresis Comunicación, a série é escrita, produzida e estrelada por eles. E conta, através da linguagem do cinema mudo, o dia-a-dia da agência fictícia Garamond & Kamfort, onde elementos como o cliente que sempre pede alterações, a executiva de contas carrasca e o estagiário não podem faltar.
Assista ao episódio 1:
No blog da série Garamond & Kamfort, você pode assistir a todos os outros episódios (três, até agora) e conhecer um pouco mais sobre os personagens. Por exemplo, ver fotos dos dois donos da G&K com celebridades como o Papa João Paulo II, John Kennedy e até Madonna! Tudo, claro, devidamente photoshopado. Os criadores prometem pelo menos mais três episódios.
Com referências no cinema mudo de Buster Keaton e Charles Chaplin, “Garamond & Kamfort” é uma experiência criativa, original e muito divertida. E aí, alguém topa fazer a versão tupiniquim?
Depois da superprodução Roma e seu desfile de tipos sem caráter (que, infelizmente, durou apenas duas deliciosas temporadas), o que fazer para chamar a atenção do público e continuar se diferenciando das outras emissoras que produzem séries? A HBO tira então da cartola True Blood, uma série de vampiros – do mesmo criador de Six Feet Under – que é, no mínimo, polêmica.
A ação se desenvolve num mundo em que os vampiros saíram do caixão. É exatamente esta a expressão usada na série. Isso significa que os vampiros do mundo inteiro resolveram contar que realmente existem, após milênios agindo na calada da noite. A revelação foi motivada pela criação japonesa do true blood, um sangue artificial que, de agora em diante, poderá alimentar os vampiros sem que eles precisem sair mordendo pescoços por aí.
Mas existem dois grandes problemas: 1) nem todos os seres humanos reagem bem ao fato de terem que dividir suas existências com cadáveres que andam e falam; 2) nem todos os vampiros se adaptam à nova dieta de sangue artificial, preferindo continuar com o que sempre fizeram: matar seres humanos.
Entram em cena Sookie e Bill, o casal de protagonistas. Ela é uma garçonete de um bar do interior que estranhamente ouve pensamentos. Ele é um vampiro bonitão e misterioso que deseja apenas uma coisa: voltar a se integrar com os seres humanos. Com essa paixão como pano de fundo (e tome cenas escancaradas de sexo), os roteiristas desenvolvem tramas paralelas pra lá de interessantes. A principal da primeira temporada é uma série de assassinatos de mulheres da cidadezinha onde se passa a história, que tem como principal suspeito, claro, um vampiro. Nessa trama, o preconceito contra vampiros e a tensão que envolve sua relação com os seres humanos é mostrada com bastante criatividade.
Mas não é só isso. True Blood ainda guarda sacadas interessantes como o V Juice, nada mais nada menos que o sangue de vampiro que virou droga da moda. Quem toma tem alucinações lisérgicas e adquire grande vigor físico (tudo que a garotada do interior mais deseja). Logo nos primeiros episódios, porém, a gente acompanha chocado o que pode acontecer caso alguém tome uma overdose de V: Jason, irmão mais velho de Sookie, acaba tendo que se submeter a uma sucção peniana para aplacar uma ereção de mais de 48h…
Pelos blogs você encontra as mais diversas opiniões sobre a nova série da HBO, que tem previsão de estréia no Brasil só pra fevereiro do ano que vem. A maioria, entretanto, diz que a série é bizarra, porém divertida. Bem, eu não acho bizarro. No fim das contas, acredito que os roteiristas desenvolvem muito bem as tramas e conseguem a façanha de tornar um enredo tão absurdo em algo quase plausível. Quase.
Porque além de vampiros, garçonete que ouve pensamentos, sangue que deixa todo mundo doidão, ainda tem exorcista que mora no meio do mato, homem que corre nu pela floresta ao amanhecer, traficante que transa com vampiro só pra conseguir sangue pra vender, vampiros que transam como animais enfurecidos, a suspeita de que lobisomens e outros seres do tipo existem, além de muito, muito, muito sexo.
Apesar da HBO já ter garantido uma segunda temporada, True Blood não é do tipo de série que vira queridinha da audiência da noite pro dia, como Grey’s Anatomy ou 90210. Mas vale a pena ser assistida. Os personagens são bem construídos e cativantes, as tramas são inteligentes, os textos são bem escritos e na pior das hipóteses você vai aprender umas boas posições novas. Com direito a mordida no pescoço, claro.
J.J. Abrams já era milionário quando criou “Lost”. Seu primeiro grande sucesso foi a série de espionagem “Alias”, que já tinha lhe rendido fama e dinheiro. Com “Lost”, ele conseguiu reconhecimento artístico. Com “Fringe”, sua mais recente criação, J.J. Abrams quer dizer que é uma fonte inesgotável de histórias surpreendentes. Até onde assisti, ele está conseguindo.
“Fringe” começa de maneira propositadamente semelhante a “Lost”: dentro de um avião. Um homem, manipulando uma ampola, libera alguma misteriosa toxina no ar. O resultado é que as pessoas do vôo simplesmente desintegram! Ao longo do primeiro episódio, porém, dá pra perceber que este acidente foi apenas a ponta do iceberg.
Entra em cena a Agente Olivia Dunham, que requisita a ajuda de um gênio da ciência experimental para solucionar o caso. Esse gênio é o Dr. Walter Bishop, que está num manicômio e só pode sair de lá com a autorização do filho e tutor, o também gênio Peter Bishop. Os três (numa dinâmica que inclui tensão afetiva entre pai e filho, tensão sexual entre agente e tutor e tensão profissional entre agente e cientista) vão se reunir para investigar casos aparentemente inexplicáveis pela ciência tradicional, mas totalmente plausíveis na ciência de borda – ou fringe science, que nada mais é que as coisas teoricamente possíveis, mas nunca comprovadas na prática.
A grande trama da série é exatamente essa: um misterioso grupo, chamado de “O Padrão”, está colocando em prática algumas teorias nunca utilizadas da ciência. E o laboratório que eles estão usando é justamente o mundo. Nessa realidade em que todos são ratos brancos, a agente Dunham, o Dr. Bishop e seu filho Peter estão a voltas com coisas aparentemente inexplicáveis como uma bomba que transforma o oxigênio em resina (!), um recém nascido que morre de velhice sete minutos após nascer (!!) e um homem careca que está sempre presente a grandes eventos da história, do assassinato de JFK ao de Malcolm X (!!!).
A comparação com Arquivo X é inevitável. E realmente é muito parecido. A diferença de outras imitações da série clássica, como a fraquinha “Eleventh hour” da Warner (criada por Jerry Bruckheimer, o mesmo da franquia CSI), é que “Fringe” é muito bem feita. Tudo apresentado na série é teoricamente possível – até agora – e isso valoriza o roteiro. Os mistérios vão crescendo gradativamente e aos poucos já se cria a mitologia Fringe. (A série também é responsável por um novo modelo publicidade: a Fox americana, responsável pela série, cortou metade dos comerciais e adicionou merchandisings inteligentes agregados à trama. Dessa forma, mesmo que você baixe os episódios, estará exposto à propaganda. Segundo os produtores, esses merchandisings já pagam o filhote.)
“Fringe” tem estréia prevista no Brasil para fevereiro de 2009. O canal que transmitirá o novo hype de J.J. Abrams é o Warner Channel.
Mais uma semana em que não cumpri totalmente meu objetivo.
“A ponto de explodir”, do autor mineiro Sérgio Fantini, apresenta contos ágeis e por vezes bem curtos, daqueles que a gente lê em uma sentada. O efeito dessa concisão é devastador. E foi devastador também para minha meta: livros de conto dão a chance de pular algumas partes e ler só o que realmente interessa naquele momento. Não era minha intenção e por isso estou sendo honesto: pulei alguns contos, mas li quase todos.
Tive a oportunidade de conhecer Fantini em outubro de 2011, quando ele veio a Natal a convite do Jovens Escribas para ministrar uma oficina de contos dentro da Ação Potiguar de Incentivo à Leitura. Sua fala tranquila e seu jeito sem afetações destoa totalmente da linguagem que exibe em seus contos: direto, por vezes violento, sem meneios desnecessários, Fantini exibe personagens fortes e controversos, que nos dão uma boa visão sobre os tipos urbanos mais comuns dos dias de hoje.
A leitura é recomendadíssima por dois motivos. O primeiro: a linguagem livre, sem editorialismos, permite mergulhar fundo no universo do autor a cada nova história. O segundo: Fantini sabe contar histórias. E mesmo naquelas mais pós-modernas, em que o conto passeia apenas por uma cena, sem nos dar muitas informações sobre os personagens, não deixa a sensação de incompletude. Suas histórias, por mais pós-modernas que sejam, sempre têm começo-meio-fim. O cara sabe o que está fazendo.