Sou escritor, jornalista, publicitário e um dos fundadores da Editora Jovens Escribas. Já publiquei dois livros: o romance Lítio e a coletânea de contos A Cega Natureza do Amor. Aqui no PLOG escrevo sobre tudo. E até sobre nada.
“Num deserto de almas também desertas,
uma alma especial reconhece de imediato a outra.”
Caio Fernando Abreu no conto “Aqueles dois”
Esteticamente não é correto começar uma resenha entre aspas, mas quando se fala em Caio Fernando de Abreu a estética é um detalhe íntimo de um casamento de palavras pontual.
Bem, perdoem os detalhes, não sou critica literária, nem teatral, logo não dêem o desconto se eu deixar transpirar a minha idolatria de fã por cada ponto e vírgula que Caio Fernando de Abreu escreve – escreve, no presente.
O SESC, dentro do seu projeto do Palco Giratório, criado em 1998 com o objetivo de difundir e descentralizar as artes cênicas do Brasil, trouxe ontem ao Teatro Dix-huit Rosado, em Mossoró, o espetáculo “Aqueles dois”, adaptado do conto homônimo de Caio Fernando Abreu, escritor que, com sua escrita fragmentária e dramática, já contribuiu muito para o teatro contemporâneo. Contemporâneo. É isso.
Ao entrar no Teatro Dix-huit Rosado, que já é charmoso por si só, o impacto das cortinas abertas, causando o efeito contrário do frisson, abriu-se as portas, entrou o público. O Teatro claramente iluminado, o cenário detalhadamente aconchegante, o público que nem estava concentrado porque luzes acesas não acalmam e não foi ocasional – Caio agita mesmo – parou. Parou quando os quatro atores jovens – e vou frisar, SARADOS – entre 30/40 anos, entraram para se aquecer diante dos olhares perplexos.
1ª chamada – A arrumação dos LPs, o conhaque, as réplicas de Van Gogh.
2ª chamada – Arquitetura, Audrey e Shirley, Gene Kelly, Almodóvar.
3ª chamada – Tú Me Acostumbraste.
Raul e Saul, até rimar, rima. No conto, um amor desenvolvido de laços de cumplicidade entre dois colegas de trabalho. No palco, duelos improvisados por quatro personagens que viviam um, que viviam dois.
Emoção.
Monólogos.
Solidão.
Diálogos.
Uma coreografia de improviso. Um ensaio sem adornos. Simples. Limpo. Um exagero clássico, eu diria. Talvez, quem não conhece Caio, não entenda a agonia.
Aqueles Dois – Aqueles Quatro – Sem diretor. Cada ator realiza a sua proposta de direção acumulando edição de roteiro. Com música e ações vocais claras, o elenco consegue simplesmente dar gestos ao processo mental de Caio Fernando de Abreu.
A entrega do público foi sincera e honestamente total.
A trajetória da Companhia Luna Lunera, formada de atores do Curso de Teatro do CEFAR – Centro de Formação Artística do Palácio das Artes, de Belo Horizonte, merece flores. Ontem, na madeira do Teatro Dix-huit Rosado, comemorou sua 172ª apresentação. Até o fim do Circuito 2010 do Palco Giratório, completará 200.
Eu queria que o mundo visse. Mas o futuro do pretérito é um verbo cheio de vontade.
Larissa Gabrielle Araújoé publicitária/marketóloga, pós graduanda em Gestão da Comunicação Empresarial e uma amante de Caio Fernando de Abreu. Atualmente está Gerente de Marketing do Jornal de Fato e Assessora da Prefeitura Municipal de Mossoró. Também tem um blog.
Sabe aqueles livros que partem do famoso “e se acontecesse tal coisa” (que, inclusive, são os pressupostos preferidos de José Saramago)? Foi isso que me atraiu em Grandes Símios (Editora Alfaguara – R$ 59,90), romance do inglês Will Self. Minha experiência com o escritor se resumia à sua participação na Flip – Festa Literária de Paraty, que tive a oportunidade de conferir em 2007 quando estava cobrindo o evento para a Tribuna do Norte. Desde então, hesitei em mergulhar em sua literatura. Mas o enredo de “Grandes Símios” é saramagueano demais para resistir.
O livro resume-se a uma pergunta: e se o mundo fosse dos macacos e não dos humanos? E as semelhanças com Saramago terminam aí. Self constrói um romance baseado numa incrível pesquisa que representa em detalhes um mundo dominado por macacos. E bem diferente do que vimos nas várias versões e continuações de Planeta dos Macacos.
A história começa quando Simon Dykes, artista plástico emergente no competitivo mercado de artes de Londres, acorda após uma noitada de sexo e drogas e percebe que sua namorada se transformou em um símio. Não obstante, toda a humanidade se transformou em macacos e agora se chama “chimpunidade”. Aterrorizado pela desagradável surpresa, Simon acaba nas mãos de Dr. Busner, um psiquiatra que se sente atraído pela perturbação do pintor – um macaco que pensa ser um humano!
O tratamento de Simon é então conduzido por Dr. Busner numa espécie de readaptação ao mundo dos símios. E com este pretexto, Self nos conduz por uma realidade paralela absurda, constrangedora e incrivelmente plausível, visto que todas as mudanças mostradas nesse novo mundo dominado por símios são baseadas em pesquisas com macacos reais. Ou seja, o autor mergulhou fundo no universo dos grandes símios e não saiu soltando teorias ao léu.
O que mais me chocou na leitura – e olha: é difícil que eu me choque – foi justamente essa nova realidade tão bem embasada numa realidade tangível. Por exemplo, a organização social no mundo dos símios criado por Self não é como a dos humanos. A família é substituída por grupos, com um macho alfa no lugar do pai, fêmeas que procriam com todos quando estão no cio e uma bizarra tendência à coprofagia. A saber: comer cocô, literalmente. A prática é comum em alguns macacos reais e no mundo de Self tem até gente viciada nisso.
Enfim, o cara é muito doido e consegue colocar ordem em sua loucura através de uma história que prende o leitor do início ao fim. A sede por descobrir esse novo mundo e a forma como o enredo vai se desenvolvendo, com Simon lentamente descobrindo sua humanidade e sua “chimpunidade”, é incrível. E num mundo em que fêmeas trepam com qualquer um, machos entram em brigas sangrentas para manter o respeito, chimpanzés bonobos são vítimas do preconceito racial e seres humanos são pouco mais que primatas subdesenvolvidos presos num zoológico, Simon Dykes descobre lentamente que pouca coisa mudou com o seu colapso. O mundo de “Grandes Símios”, enfim, não é tão diferente do nosso.
Grandes Símios
Autor: Will Self
Editora: Alfaguara
Gênero: Romance
Preço: R$ 59,90
Cotação: 9,5
Quando se está longe, a gente compreende melhor as cores do nosso país, o nosso povo, os nossos costumes.
Marcello Quintanilha, que antes assinava Marcello Gaú, comprovou que essa afirmativa é mais do que verdadeira com o álbum Sábado dos meus amores (63 páginas, colorido, capa dura, R$ 39,00), da Conrad Editora.
Morando a algum tempo em Barcelona, na Espanha, Quintanilha retrata diversas personagens brasileiríssimas, num sotaque carioca de ontem, ainda que atual, nas seis histórias em quadrinhos que compõem o já citado álbum. Algumas dessas histórias foram publicadas no Brasil, em revistas como a extinta General Visão.
Num tom prá lá de realista, o qual lhe rendeu o epíteto de “o Rosselini tupiniquim”, por Aldir Blanc, Quintanilha passeia nas asas de uma borboleta amarela, mostra o que uma superstição futebolística pode fazer com uma pessoa, expõe as marcas psicológicas que a escravidão deixou nos negros livres, conta como a criatividade de um coração apaixonado ajuda uma moça que está na alfabetização para adultos, brinca com os momentos nos quais a gente deixa a sorte escapar e finaliza com uma pendenga entre um policial e um “amarra-cachorro” de circo.
Escolher a história preferida de Sábado dos meus amores é complicado, mas confesso que “De como Djalma Branco perdeu o amigo em dia de jogo” foi a que mais tocou. Tenho minhas superstições e sei o quão desagradável é quando alguém as viola.
O tema “futebol”, aliás, é comum nas obras do Quintanilha. Em Fealdade de Fabiano Gorila, por exemplo, ele homenageou o seu pai, que foi jogador de futebol no Rio de Janeiro, na década de 1950.
As histórias do Quintanilha retratam um Brasil com um quê de estética do cinema marginal, de Rogério Sganzerla e Julio Bressane, misturado com a sutil poetização da realidade, presente nos filmes de Vitório De Sica.
Há homens pançudos, crianças banguelas, mulheres de bobs no cabelo, pessoas iletradas, enfim, tudo o que não se vê em algumas HQs nacionais, pasteurizadas, que optam por copiar o modelo que vem de fora.
Ele já perdeu o papel de Superman, errou a mão ao manusear as correntes e pilotar a moto do Motoqueiro Fantasma, foi ladrão de carro forçadamente cool, chegou a ser um vidente bonzinho, e em Presságio ele encara o fim do mundo.
Presságio (Knowing, 2009) é a nova produção de Alex Proyas (Eu, robô, O Corvo), e traz Nicolas Cage como o astrofísico viúvo e solitário John Koestler, cujo filho Caleb começa a escutar ruídos e a ver um homem com um capote preto, após abrir o envelope de Lucinda Embry, que ao invés de ter desenhado como seria o futuro em 2009 – quando era uma garotinha, cinquenta anos atrás, para a cápsula do tempo de sua escola –, preencheu o papel com uma porção de números aparentemente sem sentido.
John descobre que os números são datas de graves acidentes ao redor do mundo, nos últimos cinquenta anos. Ele pensa que se tivesse como saber desses acidentes, com antecedência, poderia ter salvado a sua esposa. Como restam três datas que informam sobre eventos atuais, algumas marcando inclusive a latitude e a longitude exata do local a ser atingido, John agarra com unhas e dentes a chance de poder alertar e salvar as pessoas.
Com o futuro da humanidade em jogo, ele parte para encontrar a filha de Lucinda, Diana (Rose Byrne, da excelente série de TV Damages), e descobre que ela tem uma menina chamada Abby, da mesma idade de Caleb e tão inteligente quanto.
Diante da situação inusitada, John passa a rever seus posicionamentos teóricos e começa a aceitar a possibilidade de uma força maior que atua no universo, interferindo na natureza das coisas, quando se faz necessário.
O ponto alto de Presságio são os efeitos sonoros e as tomadas de câmera nas cenas dos acidentes, as quais nos colocam na pele de John Koestler, sentido bem de perto o perigo (a gente até chega a movimentar a cabeça, num reflexo involuntário, para se proteger). No entanto, nas duas horas de filme, o que se vê mesmo é Nicolas Cage passando de um sujeito apático a candidato a mártir do planeta Terra, correndo pra lá e pra cá.
Alex Proyas é um diretor que gosta de mesclar ação e suspense em seus filmes, e Presságio não foge à regra. Porém, se você for ao cinema querendo algo mais, pode se decepcionar.
Clint Eastwood é um dos nomes mais “up” em Hollywood nessa primeira década do século XXI. Apesar de ter começado sua carreira cinematográfica em faroestes spaghetti e se popularizado como o policial durão Dirty Harry, na maturidade é que tem se mostrado como artista completo, pois se permitiu deixar aflorar o seu lado mais sensível – mesmo assim não perdendo nunca a pecha de machão –, fosse atuando ou dirigindo seus próprios filmes.
A aventura atrás das câmeras começou na década de 1970, mas Eastwood teve que esperar alguns anos para ser reconhecido como diretor. O primeiro passo foi Bird (Bird – 1988), uma cinebiografia do saxofonista Charlie Parker, depois veio a consagração com Os Imperdoáveis (Unforgiven – 1992), quando Eastwood revisitou o gênero faroeste, e Menina de Ouro (Million Dollar Baby – 2004), drama sobre uma mulher cujo sonho era ser boxeadora profissional. Mas ele queria mais.
Em 2006, Eastwood dirigiu dois dramas históricos, revisitando a Batalha de Iwo Jima, um sob o ponto de vista norte-americano (A Conquista da Honra/Flags of Our Fathers) e o outro sob o ponto de vista japonês (Cartas de Iwo Jima/Letters from Iwo Jima). O Oscar praticamente ignorou ambos os filmes, mas a crítica foi justa e soube valorizar o trabalho do diretor que já ostentava cabelos brancos, muitas rugas e marcas de expressão, porém que tinha um porte físico de fazer inveja aos garotões de hoje em dia.
Seus dois filmes mais recentes são: A Troca (The Challeging – 2008) e Gran Torino (Gran Torino – 2008), esse último em cartaz nos cinemas brasileiros nesse mês de março.
Gran Torino marca a despedida de Eastwood como ator, e no filme ele interpreta um velho chato, quadrado e preconceituoso, chamado Walt Kowalski, que guarda velhas feridas da Guerra da Coreia e não consegue se aproximar dos dois filhos e dos netos. Após a morte de sua esposa, passa os dias conversando com amigos ou sentado em sua varanda, tomando cerveja e observando a rua, lastimando a “invasão” asiática e latina ao outrora pacato bairro em que vive.
O bem mais precioso de Kowalski é um Ford Gran Torino, modelo 1972, bem cuidado e conservado em sua garagem – simbolizando o seu apego aos valores do passado. Uma noite, o vizinho Thao (descendente da etnia Hmong), tenta roubar o Gran Torino, como uma prova de iniciação à gangue de seu primo, mas é surpreendido por Kowalski e seu rifle. A família se sente humilhada pelo gesto do rapaz e passa a encher Kowalski de presentes, mas esse rejeita tudo o que recebe. A aproximação entre Kowalski e a família Hmong só acontece através da irmã de Thao, Sue, que enfrenta com bom humor a antipatia do velho ranzinza e ainda lhe diz umas verdades. Aos poucos, o gelo vai se quebrando e Kowalski tem a chance de fazer boas ações e se livrar dos fantasmas que o perseguem há tanto tempo.
A trama pode ser previsível, a história pode ser clichê, mas o que torna Gran Torino um filme marcante é justamente a atuação de Clint Eastwood, cujo timing é preciso tanto em momentos cômicos (Kowalski enfrentando três rapazes negros que estavam incomodando Sue) quanto em instantes de emoção intensa (Sue chegando em casa após ter sido estuprada pela gangue do seu primo).
Em Gran Torino, Kowalski (e a América do Norte como um todo) reconhece o valor dos imigrantes, quando se dá conta de que são apenas seres humanos, e assim percebe que há imigrantes de boa índole e imigrantes mal caráter. No entanto, na hora do “vamos ver”, quem parte pra briga e resolve a parada é o heroi/mártir estrategista e individualista norte-americano, bem ao estilo John Wayne.
Em sua despedida da frente das câmeras, Clint Eastwood faz uma volta ao seu começo, ou seja, um valentão que defende com unhas e dentes o seu quinhão, fazendo valer os ensinamentos da velha escola, da velha América, frente às ressignificações culturais, étnicas, políticas e econômicas que vem ocorrendo no mundo todo; embora dê algum crédito ao novo, deixando que ele siga o seu caminho, sob algumas concessões, é claro.
Milena Azevedo é Mestre em História pela UNISINOS (RS), empresária, poeta, contista e roteirista de HQ. Tem dois livros de poemas publicados: O Perfil da Águia (1999) e Prometeu Livre – um outsider no Olimpo (2005), já ganhou prêmios no Rio Grande do Sul e no Rio de Janeiro (participando inclusive da coletânea com os 100 melhores poemas dos anos de 2003/04 e 2004/05, além de estar presente também no Livro de Ouro da Poesia Brasileira Contemporânea/2005, todos da Câmara Brasileira dos Jovens Escritores). Tem contos e poemas publicados aqui e acolá nessa imensa teia eletrônica que é a Internet, além de participar de antologias da Câmara Brasileira dos Jovens Escritores e da AGEI – Associação Gaúcha dos Escritores Independentes.
- Você já ouviu falar em “Watchmen”?
- Não.
- Ótimo!
- É o quê?
- Um filme. E a gente vai escrever uma resenha sobre ele!
- Vou escrever assim, sem nem saber que filme é esse?
- Sim!
Esse foi o diálogo emeesseênico entre mim e Patrício, no qual eu topei essa espécie de “teste-cego” pra escrever sobre Watchmen – O Filme. A essa hora (terceiro intervalo do dominical “Fantástico”) penso que ele, fã da HQ que originou a película já, deve ter uma resenha rebuscada, profunda e toda amarradinha com argumentos convincentes sobre as suas impressões. Eu fui pro cinema sabendo apenas que era um filme inspirado nos quadrinhos desenhados por Dave Gibbons e escrito por Alan Moore pelos idos de 1985 (o que, de fato, não quer dizer nada a quem vive à margem desse tipo de revista, como eu). Mas senti a importância da matéria quando estava indo, atrasadíssima, ao Cinemark pegar a sessão das três e cinco, e por acaso comentei com meu sobrinho de quinze anos que estava indo ver o tal longa.
- Ai, eu quero ir com você!
- Pois então corra!
Chegamos a tempo, mas ele não pôde entrar. Não imaginei que um filme “de desenho” pudesse ser proibido para menores de dezoito anos. Mas era. E não adiantou dizer que eu era responsável por ele, nem mostrar a identificação de jornalista, que iria escrever um texto, nada. A bilheteira sugeriu que ele fosse assistir ao besteirol “Um hotel bom pra cachorro”, o que lhe soou como um insulto à sua inteligência. À contragosto, teve que se contentar com “Jogo entre Ladrões”, para não ficar boiando durante as mais de duas horas e meia de “Watchmen” que eu tinha pela frente.
Mais ou menos, a ficção mostra uma realidade futurista – só que ambientada nos já passados anos oitenta – na qual super-heróis que curtem uma merecida aposentadoria se reúnem para investigar a morte de um colega. Nisso, descobrem um traidor no grupo e por aí se desenrola uma trama com focos oscilantes os quais o espectador tem que ficar ligado para acompanhar. O fim da Guerra Fria e um relógio que mede a tensão entre os Estados Unidos e a falecida União Soviética está sempre parado nos cinco minutos para a meia-noite, anunciando que uma tragédia pode acontecer a qualquer momento.
A garota da fila de trás não devia ter capacidade intelectual mínima para entender a história e, por isso, se refestelava fazendo comentários óbvios o tempo inteiro. O herói fora assassinado? Ela dizia que ele havia sido assassinado. Em voz alta, friso. Eu, que nunca fui fã de desenhos nem nada, e já estava ali com a capacidade máxima da minha boa vontade, fui ficando aborrecida. Para que o leitor não diga que eu estou sendo injusta, conto que a excelente trilha sonora me fez desistir de abandonar a sala lá pelo final da segunda hora. Me alegrou o coração ouvir a romântica “The Sounds of Silence”, de Simon e Garfunkel; a melódica “Hallelujah”, de Leonard Cohen; e alguns clássicos do trio de inquestionável qualidade Jimmy Hendrix, Janis Joplin e Bob Dylan. E nas horas em que subia o áudio, iupi!, não se podia ouvir a comentarista para quem eu já havia pedido silêncio duas vezes.
A produção jorra um pouco de sangue demais, é verdade, e mostra uma cena de sexo – mas nada que não se veja em um canal de TV aberta, por exemplo. Por isso não vi motivos para uma classificação etária tão alta.
Quando saí, meu sobrinho Mateus já me esperava à porta, com a pergunta ansiosa na ponta da língua:
- E aí?
- Ah, a trilha é muito boa, mas resumindo, eu não gostei não…
- Deve ser mais interessante pra quem gosta mesmo de quadrinhos, como eu, né?
Resumiu o meu conceito final.
Para saber mais sobre “Watchmen”, que lá pelas salas inglesas já desbancou o vencedor do Oscar desse ano, indico acessar a bíblia dos filmes, o IMDB.
Para ler a resenha de quem já leu o gibi “Watchmen”, clique aqui.
A pergunta “o que vai ser dos filmes de super-heróis depois de ‘Watchmen’?” é totalmente pertinente. Dito isso, passemos aos comentários.
“Watchmen” é uma das revistas em quadrinhos mais celebradas entre os iniciados. Tem um enredo complexo, repleto de subtextos, histórias paralelas que se cruzam, dados complementares, personagens com vidas entrelaçados. Pra você ter idéia, o volume completo da história tem mais de 400 páginas. É muita coisa, principalmente quando se trata de uma trama de super-heróis. Escrita com Alan Moore na década de 80, carregou por anos a pecha de ser “infilmável”. Até 2009.
Zack Snyder, mesmo diretor da adaptação de “300”, fez mágica. Simplificou o enredo, cortou histórias paralelas, centrou-se nos personagens mais importantes da trama e fez um filmaço.
A história se passa num mundo em que os super-heróis realmente existem. Mas não do jeito que conhecemos. São, na verdade, pessoas comuns que passam a fantasiar-se com roupas coladas e coloridas para sair às ruas combatendo o crime. Em meio a este cenário, um assassino de heróis surge, matando de maneira engenhosa membros desse estranho grupo da sociedade. Paralelamente a isso, vemos a Guerra Fria entre EUA e URSS (fato histórico mais importante da década de 80) evoluir lentamente para um conflito nuclear que pode dizimar toda a humanidade. As duas tramas, apesar de díspares, podem estar diretamente relacionadas.
“Watchmen” (o filme) expõe para platéias mais amplas questionamentos que a HQ já vinha fazendo aos iniciados há algumas décadas. Já pensou se os super-heróis realmente existissem? Que usos os governos fariam desses combatentes altamente treinados? Que prejuízos morais causaria a interferência das empresas nesse mercado? Qual o impacto que essas figuras teriam sobre a cabeça das pessoas? Como a sociedade se comportaria diante de eventuais erros dos mascarados? Que participação a imprensa teria sobre a construção de ídolos e a subseqüente destruição da imagem deles? E o mais importante: sendo pessoas comuns, quem garantia que a moral deles seria completamente correta? Como se pergunta logo no início do filme: quem vigia os vigilantes?
Com excelentes atuações e efeitos especiais impressionantes, o filme tem o grande mérito de conseguir com que uma história de adultos em roupas de lycra tentando salvar o planeta soe plausível. Além disso, outro grande problema é solucionado com maestria: a ameaça de uma guerra nuclear entre URSS e EUA. Explico: a HQ foi publicada em plena Guerra Fria. Portanto, na época, a ameaça do conflito ideológico evoluir para uma guerra real era iminente. Hoje em dia, essa ameaça não existe mais. Mas o diretor tira proveito de tragédias reais para dar força ao seu conflito fictício. E faz isso de uma forma muito competente.
Outra boa notícia é que para os fãs ferrenhos, que leram a HQ, esperaram pela adaptação e sabem de cor cada uma das passagens do gibi, o filme não decepciona. Apesar dos cortes nas histórias paralelas, de certa forma todos os personagens estão ali. Claro, não vou estragar a surpresa. Mas pra quem leu a revistinha e ainda não viu o filme, um aviso: vale a pena, porque o final é diferente. Apesar de igual.
Por fim, só devo comentar que mordi minha língua quanto à classificação do filme. Cheguei a dizer que era um absurdo ser proibido para menores de 18. Errei. O diretor manteve todos os elementos do gibi (incluindo a violência explícita). Acertou. Pra quem lê gibi, dá nervoso ver que Wolverine, nas adaptações pro cinema de X-Men, quase nunca usa suas garras para matar os oponentes. Em “Watchmen”, nenhum dos heróis tem esse puritanismo. E tome sangue.
Depois que você assiste a esse excelente filme, fica difícil engolir os padrões morais de Superman ou a aversão a armas de Batman. “Watchmen” desglamouriza completamente o mundo dos super-heróis. Nada é heróico na história de Alan Moore. E a fidelidade com que foi adaptado à tela grande – com diversos diálogos diretamente transpostos da HQ pro roteiro de cinema – faz a gente pensar: e agora, super-heróis, como é que vocês vão conquistar nossa confiança depois de tudo que vimos? Ou, em outros termos: quem vigia os vigilantes?
Para ler a resenha de quem nunca leu o gibi “Watchmen”, clique aqui.
Eu levei algumas semanas para digerir “Mesmo Delivery”, a primeira HQ individual do roteirista e desenhista gaúcho Rafael Grampá. Foram semanas de pensamento vago, nada de tentar formar grandes análises, apenas tentando compreender melhor algumas peças do quebra-cabeça. A conclusão a qual cheguei foi: o cara mandou muito bem.
Rafael Grampá despontou no mundo dos quadrinhos como um dos mais promissores artistas da arte seqüencial do Brasil. Com os gêmeos também brasileiros Gabriel Ba e Fábio Moon (além dos artistas Becky Cloonan e Vasilis Lolos) criou a HQ “5”, que faturou no ano passado o Eisner Awards, mais importante premiação de quadrinhos do mundo. Com o prêmio no currículo, era de se esperar certa expectativa sobre o primeiro trabalho solo do cara. E ele não decepciona.
“Mesmo Delivery” tem um enredo curioso que já desperta o interesse. Um caminhoneiro brutamontes é contratado para levar uma carga de um lugar a outro na companhia de um senhor que funcionará como seu guarda-costas. A única condição é: jamais abrir o contêiner. Dessa forma, a tal carga é transportada e a curiosidade vai aumentando: quem contratou o serviço?, onde vai ser a entrega?, o que está sendo transportado? Grampá faz dessas perguntas um tempero de mistério para uma história recheada de violência, em seqüências tão cinematográficas que chegam a tirar o fôlego.Com apenas 30 anos, Grampá tem uma carreira sólida pela frente. Com a produção de “O Dobro de Cinco”, adaptação de uma HQ de Lourenço Mutarelli, vai estrear como desenhista de produção. E tem mais: “Mesmo Delivery” teve seus direitos vendidos ao produtor Rodrigo Teixeira, responsável pelo sensacional “O Cheiro do Ralo”.
Não poderia dar em outra. “Mesmo Delivery” tem um ritmo alucinante e ingredientes de sobra para um filme de ação e suspense de dar nó no estômago. O caminhoneiro que carrega uma carga que não pode ser revelada é o ponto de partida perfeito para seqüências de ação, violência e virtuose gráfica.
Em tempo: pra quem ficar impressionado com a qualidade de “Mesmo Delivery”, tem mais uma surpresa: a HQ foi impressa na Gráfica Santa Marta, aqui do ladinho, em João Pessoa.
MESMO DELIVERY
Autor: Rafael Grampá
Editora: Desiderata
Preço: R$ 39,90
Cotação: 10
Depois da superprodução Roma e seu desfile de tipos sem caráter (que, infelizmente, durou apenas duas deliciosas temporadas), o que fazer para chamar a atenção do público e continuar se diferenciando das outras emissoras que produzem séries? A HBO tira então da cartola True Blood, uma série de vampiros – do mesmo criador de Six Feet Under – que é, no mínimo, polêmica.
A ação se desenvolve num mundo em que os vampiros saíram do caixão. É exatamente esta a expressão usada na série. Isso significa que os vampiros do mundo inteiro resolveram contar que realmente existem, após milênios agindo na calada da noite. A revelação foi motivada pela criação japonesa do true blood, um sangue artificial que, de agora em diante, poderá alimentar os vampiros sem que eles precisem sair mordendo pescoços por aí.
Mas existem dois grandes problemas: 1) nem todos os seres humanos reagem bem ao fato de terem que dividir suas existências com cadáveres que andam e falam; 2) nem todos os vampiros se adaptam à nova dieta de sangue artificial, preferindo continuar com o que sempre fizeram: matar seres humanos.
Entram em cena Sookie e Bill, o casal de protagonistas. Ela é uma garçonete de um bar do interior que estranhamente ouve pensamentos. Ele é um vampiro bonitão e misterioso que deseja apenas uma coisa: voltar a se integrar com os seres humanos. Com essa paixão como pano de fundo (e tome cenas escancaradas de sexo), os roteiristas desenvolvem tramas paralelas pra lá de interessantes. A principal da primeira temporada é uma série de assassinatos de mulheres da cidadezinha onde se passa a história, que tem como principal suspeito, claro, um vampiro. Nessa trama, o preconceito contra vampiros e a tensão que envolve sua relação com os seres humanos é mostrada com bastante criatividade.
Mas não é só isso. True Blood ainda guarda sacadas interessantes como o V Juice, nada mais nada menos que o sangue de vampiro que virou droga da moda. Quem toma tem alucinações lisérgicas e adquire grande vigor físico (tudo que a garotada do interior mais deseja). Logo nos primeiros episódios, porém, a gente acompanha chocado o que pode acontecer caso alguém tome uma overdose de V: Jason, irmão mais velho de Sookie, acaba tendo que se submeter a uma sucção peniana para aplacar uma ereção de mais de 48h…
Pelos blogs você encontra as mais diversas opiniões sobre a nova série da HBO, que tem previsão de estréia no Brasil só pra fevereiro do ano que vem. A maioria, entretanto, diz que a série é bizarra, porém divertida. Bem, eu não acho bizarro. No fim das contas, acredito que os roteiristas desenvolvem muito bem as tramas e conseguem a façanha de tornar um enredo tão absurdo em algo quase plausível. Quase.
Porque além de vampiros, garçonete que ouve pensamentos, sangue que deixa todo mundo doidão, ainda tem exorcista que mora no meio do mato, homem que corre nu pela floresta ao amanhecer, traficante que transa com vampiro só pra conseguir sangue pra vender, vampiros que transam como animais enfurecidos, a suspeita de que lobisomens e outros seres do tipo existem, além de muito, muito, muito sexo.
Apesar da HBO já ter garantido uma segunda temporada, True Blood não é do tipo de série que vira queridinha da audiência da noite pro dia, como Grey’s Anatomy ou 90210. Mas vale a pena ser assistida. Os personagens são bem construídos e cativantes, as tramas são inteligentes, os textos são bem escritos e na pior das hipóteses você vai aprender umas boas posições novas. Com direito a mordida no pescoço, claro.
J.J. Abrams já era milionário quando criou “Lost”. Seu primeiro grande sucesso foi a série de espionagem “Alias”, que já tinha lhe rendido fama e dinheiro. Com “Lost”, ele conseguiu reconhecimento artístico. Com “Fringe”, sua mais recente criação, J.J. Abrams quer dizer que é uma fonte inesgotável de histórias surpreendentes. Até onde assisti, ele está conseguindo.
“Fringe” começa de maneira propositadamente semelhante a “Lost”: dentro de um avião. Um homem, manipulando uma ampola, libera alguma misteriosa toxina no ar. O resultado é que as pessoas do vôo simplesmente desintegram! Ao longo do primeiro episódio, porém, dá pra perceber que este acidente foi apenas a ponta do iceberg.
Entra em cena a Agente Olivia Dunham, que requisita a ajuda de um gênio da ciência experimental para solucionar o caso. Esse gênio é o Dr. Walter Bishop, que está num manicômio e só pode sair de lá com a autorização do filho e tutor, o também gênio Peter Bishop. Os três (numa dinâmica que inclui tensão afetiva entre pai e filho, tensão sexual entre agente e tutor e tensão profissional entre agente e cientista) vão se reunir para investigar casos aparentemente inexplicáveis pela ciência tradicional, mas totalmente plausíveis na ciência de borda – ou fringe science, que nada mais é que as coisas teoricamente possíveis, mas nunca comprovadas na prática.
A grande trama da série é exatamente essa: um misterioso grupo, chamado de “O Padrão”, está colocando em prática algumas teorias nunca utilizadas da ciência. E o laboratório que eles estão usando é justamente o mundo. Nessa realidade em que todos são ratos brancos, a agente Dunham, o Dr. Bishop e seu filho Peter estão a voltas com coisas aparentemente inexplicáveis como uma bomba que transforma o oxigênio em resina (!), um recém nascido que morre de velhice sete minutos após nascer (!!) e um homem careca que está sempre presente a grandes eventos da história, do assassinato de JFK ao de Malcolm X (!!!).
A comparação com Arquivo X é inevitável. E realmente é muito parecido. A diferença de outras imitações da série clássica, como a fraquinha “Eleventh hour” da Warner (criada por Jerry Bruckheimer, o mesmo da franquia CSI), é que “Fringe” é muito bem feita. Tudo apresentado na série é teoricamente possível – até agora – e isso valoriza o roteiro. Os mistérios vão crescendo gradativamente e aos poucos já se cria a mitologia Fringe. (A série também é responsável por um novo modelo publicidade: a Fox americana, responsável pela série, cortou metade dos comerciais e adicionou merchandisings inteligentes agregados à trama. Dessa forma, mesmo que você baixe os episódios, estará exposto à propaganda. Segundo os produtores, esses merchandisings já pagam o filhote.)
“Fringe” tem estréia prevista no Brasil para fevereiro de 2009. O canal que transmitirá o novo hype de J.J. Abrams é o Warner Channel.
Mais uma semana em que não cumpri totalmente meu objetivo.
“A ponto de explodir”, do autor mineiro Sérgio Fantini, apresenta contos ágeis e por vezes bem curtos, daqueles que a gente lê em uma sentada. O efeito dessa concisão é devastador. E foi devastador também para minha meta: livros de conto dão a chance de pular algumas partes e ler só o que realmente interessa naquele momento. Não era minha intenção e por isso estou sendo honesto: pulei alguns contos, mas li quase todos.
Tive a oportunidade de conhecer Fantini em outubro de 2011, quando ele veio a Natal a convite do Jovens Escribas para ministrar uma oficina de contos dentro da Ação Potiguar de Incentivo à Leitura. Sua fala tranquila e seu jeito sem afetações destoa totalmente da linguagem que exibe em seus contos: direto, por vezes violento, sem meneios desnecessários, Fantini exibe personagens fortes e controversos, que nos dão uma boa visão sobre os tipos urbanos mais comuns dos dias de hoje.
A leitura é recomendadíssima por dois motivos. O primeiro: a linguagem livre, sem editorialismos, permite mergulhar fundo no universo do autor a cada nova história. O segundo: Fantini sabe contar histórias. E mesmo naquelas mais pós-modernas, em que o conto passeia apenas por uma cena, sem nos dar muitas informações sobre os personagens, não deixa a sensação de incompletude. Suas histórias, por mais pós-modernas que sejam, sempre têm começo-meio-fim. O cara sabe o que está fazendo.