Sou escritor, jornalista, publicitário e um dos fundadores da Editora Jovens Escribas. Já publiquei dois livros: o romance Lítio e a coletânea de contos A Cega Natureza do Amor. Aqui no PLOG escrevo sobre tudo. E até sobre nada.
Para divulgar seu novo álbum, intitulado “Relapse”, Eminem retorna às polêmicas. O cara sabe fazer os focos se voltarem para ele e dessa vez não é diferente. “Relapse” será lançado oficialmente dia 19 de maio, mas aos poucos clipes do novo álbum vão sendo lançados na internet.
A polêmica da vez é com o clipe da música “3 am”. No vídeo, Eminem (sempre no papel do badboy que lhe rendeu fama e fortuna) interpreta um paciente de um hospital psiquiátrico que sai matando pessoas com uma faca de cozinha. Em outras palavras, um serial killer. A música é meio enjoadinha e a polêmica fica muito mais pro público americano, que adora bancar o conservador. Mas vale a pena assistir pela edição bem amarrada e pelo banho de banheira com, sangue do protagonista.
Essa história de clipe polêmico me fez lembrar algumas pérolas que já pintaram por aí no quesito “censura essa coisa”. Uma delas foi o clipe de “Favourite Game”, da banda Cardigans. Depois do sucesso avassalador do hit Lovefool (com clipe fofinho e direito a muitos suspiros), a banda deu uma aloprada. E colocou sua vocalista, a sueca Nina Persson, dirigindo um carro em alta velocidade na contramão – numa clara tentativa de se matar. O vídeo foi acusado de fomentar o suicídio e em decorrência disso diversos finais alternativos foram criados, na intenção de amenizar a coisa toda. Não sei se funcionou.
Outro clipe que gosto bastante e tem um quê de polêmico é “Until it sleeps” do Metallica. Recriando o jardim do Éden em versão heavy metal, os caras tentaram contar a história de Adão e Eva de um jeito bem peculiar.
Também famoso por suas polêmicas, o grupo de música eletrônica Prodigy costuma aloprar em seus clipes. Já colocou gente cheirando cocaína, tentativa de esturpo, violência explícita. Mas nada, ao meu ver, é mais perturbador que o clipe de “Voo doo people”. Uma corrida é organizada no meio da cidade. Mas todos os competidores estão vendados. E cada trombada em poste, cada atropelamento, cada queda em bueiro causa calafrios em qualquer um.
A mestre das polêmicas, entretanto, continua sendo Madonna. Em seus vídeos, já beijou Jesus Cristo na boca, já fez sadomasoquismo, já cometeu atos de vandalismo. A mulher é uma verdadeira máquina de chocar. Por isso a dificuldade em escolher um vídeo dela. Fiquei com “Erotica”, no qual ela não é nem um pouco sutil em relação ao sexo e pega geral.
E você, tem um clipe polêmico na cabeça? Comenta aí.
Um post sobre um tal script de popularidade no Twitter deixou a blogosfera em polvorosa. Posts irados, mensagens de ódio, notas de repúdio por toda a internet. Mas a verdade verdadeira, a mais contundente, a que ninguém quis postar, é: isso não tem a menor importância. Exatamente, não tem.
O tal post foi de autoria da jornalista Rosana Hermann. Popular na internet, Rosana é blogger do Querido Leitor (um blog pra lá de ruim, que vive de renoticiar o que já foi noticiado). Foi lá que ela postou, no dia 05 de abril, o texto intitulado Um robô de fazer sucesso no Twitter.
Esse “robô” é o tal script que falei. Ou seja, um código que agrega novas funções ao Twitter. Neste caso, a função é simples: adicionar automaticamente todos os seguidores de um determinado perfil. O truque da popularidade vem aí: como é tendência natural que passemos a seguir quem nos segue, o script faz o perfil de quem o usa subir astronomicamente de importância dentro do site.
A questão é essa: dentro do site.
Ao contrário do que muitos alardearam por aí (chegaram a falar em “ética 2.0”, minha gente!), o que Rosana Hermann fez não é nada demais. Nada mesmo. É tão “nada” que tem impacto zero sobre o mundo real. Afinal, que diferença faz ser a mais ou menos seguida no Twitter? Aliás, que diferença faz o Twitter? Apesar da falta de importância, falaram em credibilidade, em ética, em moral. Esqueceram de falar em relevância. O debate sobre métodos honestos de conseguir popularidade no Twitter é tão irrelevante que já está me dando vergonha de escrever esse post. Mas vamos lá.
Pra quem não enxerga o mundo como um código de html, o texto na verdade começa aqui. A blogosfera (e todos os seus derivados, a saber: twittosfera, orkutosfera, fotologosfera, etc) demonstra uma perigosa tendência de se fechar em seu seu próprio mundo e se trnasformar numa umbisgofera. Muito blogs começam interessantes, falam sobre assuntos legais, mas com o ganhar de popularidade acabam caindo na pior das metalinguagens: passam a falar somente sobre blogs. Acontece também em outras redes sociais. Já se nota que os mais populares do Twitter não têm outro assunto a não ser o Twitter. No Orkut, nem se fala: a importância de um scrap respondido, para alguns, ganhou status de buquê de flores. Patético. E chato demais.
A briguinha pela “popularidade honesta” no Twitter, incitada pelo post de Rosana Hermann, lembra em muito os primórdios do Orkut. Era um tal de “quanto amigos você tem? 20? Eu tenho 499” que dava pena. Parecia pré-adolescente medindo o tamanho do pau. No Twitter, a briga se torna ainda mais bizarra porque envolve um suposto poder de persuasão sobre as massas. Explico.
Marcelo Tas (que já era famoso bem antes do Twitter e ancora um dos programas mais legais da TV brasileira, o CQC), assinou recentemente um contrato com a Telefônica para postar mensagens no seu Twitter sobre um novo serviço da empresa. Foi o suficiente para encher os olhos de ambição das twitcelebrities. Todos acham que vão ganhar uma boquinha com seu perfil. Mas não vão. Caiam na real, por favor. Marcelo Tas existe no mundo real. Tem influência real sobre a opinião pública. É um comunicador com um lastro de popularidade que vem desde os anos 80. Marcelo Tas não é apenas um avatar com 10.000 seguidores no Twitter.
A revolta pelo truque que Rosana Hermann usou é uma bobagem. Uma infantilidade. Uma falta do que fazer da blogosfera. Poderiam investir energias em assuntos mais interessantes. Tá parecendo a Globo, que lança um programa e noticia em seus telejornais. A blogosfera tá virando isso: uma Rede Globo. A diferença é que o único programa da blogosfera é o Vídeo Show. E eu não vou mais tomar seu tempo com isso. Prometo.
Foi Alex Medeiros, colunista do supracitado, que repercutiu na edição de ontem a notícia sobre o imbróglio na criação do Sindicato dos Publicitários, publicada no PLOG na quinta. Alex dá nome aos bois e ainda faz uma generosa citação ao PLOG, colocando o endereço de sua fonte. O que força a dizer obrigado.
Ser publicitário é um calvário. Ser publicitário no Rio Grande do Norte, então, é um exercício diário de paciência, devoção e certeza de que não sabe fazer outra coisa. Começo o texto assim para justificar algo: já temos dificuldades demais na profissão. A saber: clientes com pouca verba e nenhuma noção de marketing, veículos viciados na política da boa vizinhança, concorrência desleal e antiética de alguns publicitários entre aspas. Mas a dificuldade da qual quero falar hoje é uma antiga reivindicação da categoria: a formação do SINTAPP – Sindicato dos Trabalhadores em Agência de Publicidade e Propaganda do Estado Rio Grande do Norte.
Há algumas semanas, um grupo de publicitários se reuniu para tornar essa ausência numa presença. Airton Minchoni, Marcílio Mariz e Rodrygo Rennyer juntaram esforços, colocaram algumas idéias no papel, correram a burocracia e conseguiram a publicação do Edital de Convocação para a 1ª assembléia do SINTAPP/RN. Essa assembléia deveria acontecer hoje. E nela, seriam convocadas as primeiras eleições para presidência do sindicato. Acontece que esta assembléia não aconteceu. Isto porque o Sindicato dos Radialistas conseguiu uma liminar proibindo a realização do encontro.
O que o Sindicato dos Radialistas tem a ver com isso? Explico: há anos, os profissionais de agências de publicidade do Estado são representados pelo Sindicato dos Trabalhadores em Empresas de Radiodifusão, Televisão e Publicidade do RN, mais conhecido pela errônea alcunha de Sindicato dos Radialistas. Esse erro gramático – pra não dizer dramático – no apelido da organização é, na prática, um reflexo do que o sindicato representa para os publicitários. Ou seja, um erro.
Apesar da contribuição sindical não falhar (um dia de trabalho por ano de cada publicitário vai religiosamente para a entidade), nenhum publicitário é verdadeiramente engajado neste sindicato. Os motivos são muitos, que vão do desinteresse à falta de espaço no órgão. Mas pode ser resumido numa questão: juntar radialistas, jornalistas e publicitários num mesmo sindicato é como juntar médicos, dentistas e veterinários num mesmo Conselho Regional. Apesar de estarmos em áreas relacionadas, jornalistas, radialistas e publicitários têm necessidades diferentes. Por isso, pedem representações diferentes.
Hoje, as agências de propaganda são filiadas ao Sindicato das Agências de Propaganda do RN – Sindapro. Na prática, os patrões formam esse sindicato e pela falta de representação direta das necessidades dos publicitários, acabam tomando decisões que são simplesmente comunicadas ao Sindicato dos Radialistas. Muitas vezes unilaterais. Quase sempre, sem reações. Obviamente, não se pretende instalar uma guerra de classes no mercado publicitário local. O Sintapp apenas equilibraria as regras do jogo. Uma categoria sem representação coesa e realmente ligada ao dia-a-dia profissional não tem esperanças de ver suas demandas atendidas. O resultado é devastador para a profissão como um todo. A insatisfação gera publicidade ruim, desvios de conduta, êxodo de profissionais para outros mercados, dentre outras conseqüências terríveis.
Em carta aberta, enviada hoje para o CC-NAT (grupo de discussão por e-mail que reúne os publicitários de Natal), Airton Minchoni disse que o Sindicato dos Radialistas “alega que, por já existir um sindicato que represente nossa categoria, não necessitaria ter um segundo, o que violaria o princípio da unidade sindical”. E acrescenta: “Essa alegação soa como uma piada. Primeiro por não sermos representados, apenas estamos vinculados ao atual sindicato. Não conheço alguém que seja publicitário e que tenha filiação real a esse sindicato. Portanto, ele não nos representa”.
Airton ainda apresenta um outro forte argumento para que a liminar soe absurda. Segundo ele, a criação do Sintapp não tem a intenção de extinguir o Sindicato dos Radialistas, pois este continuaria representando os publicitários autônomos. “É apenas uma representação mais específica e focada nos problemas e necessidades reais de nossa área. Estamos saindo do generalista para algo mais específico”.
A confusão agora vai pra Justiça. Apesar da liminar a favor do Sindicato dos Radialistas, Airton afirmou que a iniciativa não vai parar por aqui. Ironicamente, recebi meu salário hoje. No meu contracheque, um desconto que eu não via há meses me chamou atenção. Era a contribuição sindical. Entendo que o Sindicato dos Radialistas não queira perder a fatia do bolo que lhe cabe. Mas como representantes de classe, deveriam seguir a máxima de que ninguém representa quem não quer ser representado. Uma atitude contraproducente dessas só deixou todos com mais vontade ainda de fundar o Sintapp. Mesmo que isso signifique, desde já – e antes da sua fundação –, uma luta sindical.
Pronto, começou. Depois de invadir blogs, a publicidade chega até o Twitter. Marcelo Tas, um dos mais famosos tuiteiros do Brasil e integrante da trupe do CQC, fechou contrato com a empresa Telefônica para divulgação do Xtreme, serviço de TV por assinatura e banda larga da multinacional espanhola.
Por ser uma celebridade e gozar de muito prestígio e credibilidade entre os internautas, a notícia não deveria ser uma pauta importante. Um produto tão segmentado, afinal, não poderia ter uma estratégia mais acertada. O problema começa, entretanto, pela forma de campanha que a Telefônica bolou. Marcelo Tas não vai ser um garoto propaganda convencional, desses que anunciam promoções com sorrisos largos em VTs no horário nobre. Pelo contrato, Tas deverá postar ao menos 20 mensagens por mês referentes ao Xtreme no seu Twitter. Formou-se, então, a polêmica.
Se você já sabe o que é Twitter, pode pular pro parágrafo seguinte. Se não sabe, se ligue: o Twitter é uma espécie de microblog onde as pessoas postam textos de até 140 caracteres. Inicialmente sem grande utilidade, virou febre quando descobriram que ele possibilitava compartilhar informação de uma forma rápida e precisa. Por meio da ferramenta “Follow” você escolhe quem quer seguir – e assim, ficar por dentro de todas as atualizações desta pessoa. Isso torna possível ter informações direto da fonte, principalmente quando se trata de jornalistas e blogueiros renomados como Marcelo Tas.
Pelo caráter tão pessoal do Twitter, a estratégia da Telefônica causou estranheza até fora dele. Além das centenas de mensagens sobre a polêmica (que podem ser achadas no Twitter com a tag #twitterdealuguel), o fato repercutiu pela imprensa. O Wall Street Journal publicou matéria noticiando o ocorrido e comentando a influência que Marcelo Tas pode ter sobre seus “seguidores”.
O assunto é complicado. E como humilde publicitário, tenho minha opinião formada: Marcelo Tas não está fazendo nada demais. A publicidade que ele vai postar no Twitter não será disfarçada, será explícita. Ou seja, todo mundo vai saber que é publicidade. Na sua página, a marca da Telefônica vai aparecer (de forma discreta, que seja, mas vai aparecer). E até o número de propaganda que ele vai exibir é limitado. 20 por mês, minha gente. E tem mais: vai ser melhor que as atualizações do tipo “Carnaval de Olinda, aí vou eu” ou “Ai, tô tão triste hoje”. Como ferramenta de compartilhamento de informação, o Twitter cumprirá seu papel: quem segue Marcelo Tas, terá a oportunidade de conhecer um produto novo. E o melhor: a ação é completamente transparente.
Muito pior são as subcelebridades que emprestam suas vidas à propaganda sem dizer a ninguém que estão sendo pagas (como o falso namoro de Karina Bach com o Baixinho da Kaiser, por exemplo). Ou ainda as execráveis “matérias pagas” nos jornais, que não levam a inscrição “Informe publicitário” (como diz a lei) e acabam por aproveitar-se da credibilidade do veículo para promover produtos sem que o público saiba que aquela informação foi paga (prática, inclusive, que já tem seu similar na internet, o tal do post pago, que funciona exatamente do mesmo jeito: na surdina, uma empresa paga para que aquele veículo, no caso um blog, fale bem dela sem que ninguém saiba que o veículo está recebendo pra isso).
Além de todos esses fatores, ainda há a questão do “Unfollow”. Ou seja, quem não quiser receber propaganda do Marcelo Tas, basta deixar de segui-lo no Twitter. Simples assim. Muito mais democrático que os spams, muito menos invasivo que a mídia exterior.
Ou seja, no meu tribunal, o Marcelo Tas é inocente. E o fato de ter aceitado a proposta da Telefônica foi bom pra todo mundo, por ter levantado um debate bem interessante entre ética e propaganda. Que as opiniões conflitantes continuem a surgir.
Ps.: esse post não foi pago pelo Marcelo Tas, ok?
Sabe aquelas campanhas publicitárias que têm tudo pra ser sensacionais, mas quando vão pro ar ninguém acha a menor graças? Pois é, esse é o caso do concurso cultural “Redondo é rir da vida”, criado pela agência paulista F/Nazca pra Skol.
A idéia é de primeira: convocar o público a enviar vídeos em que contem histórias engraçadas pelas quais passaram (do tipo “um dia ainda vou rir disso tudo”). Todos os vídeos serão hospedados no site da ação. E os melhores virarão peças publicitárias da Skol e serão veiculados na TV aberta. Para divulgar o concurso, vídeos com estrelas do stand-up comedy nacional (no caso, Rafinha Bastos e Danilo Gentili, ambos do CQC) contando histórias engraçadas foram postados na internet.
Foi com esse tipo de vídeo que os dois (e mais uma galera afiada) fez fama na internet e passou a lotar teatros por todo o Brasil. O stand-up comedy chegou para ficar. Um ator, um palco, um bom texto: pronto, garantia de gargalhadas. E foi essa fórmula que a F/Nazca quis reutilizar em seus vídeos para a Skol. Como exemplo, peguei a peça estrelada por Rafinha Bastos.
Como você mesmo pôde ver, não funcionou. Qualquer outro vídeo de Rafinha Bastos (incluindo aí os excelentes esquetes do espetáculo Improváveis postados no YouTube) é mais engraçado que essa peça produzida pela F/Nazca. A exemplo do que aconteceu com Ruth Lemos (lembra dela?), tiraram a espontaneidade do cara e deixaram tudo com gosto de plástico. Pra quem não lembra de Ruth Lemos, ela foi aquela nutricionista que gaguejou numa entrevista ao vivo e virou uma das primeira webcelebridades do Brasil. A companhia telefônica Intelig contratou a coitadinha pra fazer um comercial e resultado deu vergonha alheira. O mesmo sinto ao ver esse vídeo do Rafinha Bastos.
Não é culpa dele, claro. Nem de Danilo Gentili. Ambos já provaram que têm talento de sobra pro stand-up comedy, fazendo as platéias se rasgarem em gargalhadas com seus textos. O problema é que algumas agências ainda pensam que basta reproduzir fórmulas. Esquecem que o público já está mais que atento às pasteurizações da publicidade. E não engole qualquer coisa.
Pra completar o festival de arrogâncias, um fato triste acabou colado à campanha. O comediante Ronald Rios (que inclusive é amigo de Rafinha Bastos) resolveu postar uma paródia da campanha na internet. No vídeo, ele conta histórias de desastres de automóveis e espancamentos de um pai alcoólatra como se fossem a coisa mais engraçada do mundo. A intenção era apenas fazer rir. Mas a F/Nazca provou – pela segunda vez, inclusive – que não tem senso de humor. Enviou e-mail pro cara pedindo a retirada do vídeo do ar, alegando uso indevido da marca Skol. Ou seja, a agência cagou para o fato de que estava fazendo uma campanha pretensamente viral – e que um dos efeitos de uma bem-sucedida campanha viral é justamente a paródia. Sem querer confusão, Ronald Rios substituiu o vídeo por uma versão “censurada”, sem menções à Skol. E quer saber? É muito mais engraçado que a versão original.
Fica a pergunta: se redondo é rir da vida, porque escolher uma ag~encia que não sabe rir de si mesma?
Vida de Nobel não é fácil. E Saramago está aí pra comprovar. O autor de “Ensaio sobre a cegueira”, que entrou de vez pra história como primeiro (e até agora único) escritor de língua portuguesa a ganhar um Nobel, está sendo acusado de plágio pelo mexicano Teófilo Huerta. Segundo o suposto plagiado, “As intermitências da morte”, 16º romance do portuga boa praça, é uma cópia descarada de seu conto “Últimas noticias”, que faz parte do livro “La segunda muerte” de 1987.
Pra quem ainda não se localizou no espaço e no tempo, “As intermitências da morte” parte de um pressuposto pra lá de saramagueano: e se ninguém mais morresse? Em cima dessa premissa, o livro narra as conseqüências ironicamente funestas dessa greve da Morte, desde a falência das empresas de seguro de vida até a impossibilidade de se livrar de pessoas que, apesar de não morrerem, se tornam insuportavelmente caquéticas.
Pois bem, o conto de Teófilo Huerta não vai tão longe na investigação das possibilidades, mas estão lá muitas das coisas exploradas no livro: a euforia inicial, os primeiros problemas, a posição oficial dos governos, a derrocada de algumas instituições. Enfim, pra quem leu o livro de Saramago, como eu, foi realmente um susto se deparar com “Últimas noticias”.
Como a história tem cheiro de golpe dos brabos, Huerta criou o blog Saramago Plagiário para expor os pontos que sustentam sua denúncia e conseguir chamar a atenção da mídia. No blog, alguns argumentos a favor do acusador são expostos de forma contundente.
O mais forte é a conexão direta entre ele e Saramago através do agente literário Sealtiel Alatriste, que recebeu o conto do mexicano para avaliação da editora Alfaguara em 1997. Em 2003, o agente exercia o cargo de cônsul do México em Barcelona e, segundo Huerta, “tinha contato e proximidade com José Saramago”. No blog, ainda é possível acompanhar uma planilha comparativa entre “Últimas noticias” e “As intermitências da morte”. O mexicano expõe didaticamente passagens semelhantes entre as duas obras – algumas, inclusive, que usam as mesmas expressões.
A notícia chegou aos jornais europeus e o português já teve que dar explicações. No melhor estilo Saramago, o autor falou aos jornais que “Não li, não vi, não toquei nem sequer com a ponta dos dedos no conto do reclamante”. Pra quem ficou curioso sobre a obra de Huerta, o site Cronópios disponibilizou uma tradução em português de “Últimas noticias”.
O mexicano indicou que não reivindica a autoria do romance, mas sim da idéia de partida e de vários pontos dos primeiros capítulos do livro. Segundo o blog, há mais de 20 passagens no livro em que fica claro o suposto plágio. E eu, do alto de minha humilde insignificância, sigo torcendo para que Saramago um dia me copie.
“Dessa vez ele foi longe demais”, foi o que as autoridades da República Tcheca disseram sobre a instalação “Entropa”, encomendada ao artista plástico David Cerny para o salão principal do Conselho da União Européia em Bruxelas, na Bélgica.
A República Tcheca, que assumiu a presidência transitória da UE, queria apenas uma obra que retratasse a diversidade de culturas da Europa. David Cerny – artista que já causou polêmica quando, na década de 90, pintou de rosa-choque um tanque soviético num memorial da Segunda Guerra em uma praça de Praga – criou uma obra que retrata cada país europeu usando seus piores estereótipos.
Aí foi um tal de vampiros da Romênia, nazistas na Alemanha e futebol na Itália que não agradou nem um pouquinho aos outros governos europeus. Segundo o site da BBC, “Cerny afirmou que queria descobrir se a Europa consegue rir de si mesma”. Mas parece que retratar, por exemplo, a Bulgária como uma latrina foi um tremenda piada de mau gosto.
Como sempre tem um brasileiro nas grandes tragédias mundiais, nosso país faz parte da instalação: fomos retratados como um pedaço de carne crua sobre o mapa de Portugal, numa alusão à série de conquistas marítimas (e colonizações, e extermínios, e escravizações) que o país ibérico desenvolveu pelo mundo.
Veja algumas fotos.
França: um país em greve, em referência às constantes manifestações populares do país.
Romênia: um parque de diversões do Drácula (até pegou leve).
Itália: um grande campo de futebol, como se lá só se pensasse nisso (ou não).
Alemanha: uma malha de grandes rodovias lembra a temida suástica nazista (pegou pesado!).
Polônia: o páis do Papa João Paulo II tem padres erguendo uma bandeira do movimento gay (caralho!).
Bulgária: uma latrina a céu aberto, em referência aos banheiros turcos ainda comuns no país (putz).
Potugal: bifes em formato de países colonizados (incuindo nosso amado Brasil).
Além de toda essa polêmica, David Cerny ainda se envolveu num tremendo imbróglio com os contratantes da obra. Motivo: a negociação pedia que ele contratasse 26 artistas de diferentes países para compor uma grande instalação coletiva. No final, inventou nomes, forjou biografias, fez tudo sozinho e depois de ser desmascarado, pediu desculpas ao governo tcheco por haver mentido. Simples assim.
Mais uma semana em que não cumpri totalmente meu objetivo.
“A ponto de explodir”, do autor mineiro Sérgio Fantini, apresenta contos ágeis e por vezes bem curtos, daqueles que a gente lê em uma sentada. O efeito dessa concisão é devastador. E foi devastador também para minha meta: livros de conto dão a chance de pular algumas partes e ler só o que realmente interessa naquele momento. Não era minha intenção e por isso estou sendo honesto: pulei alguns contos, mas li quase todos.
Tive a oportunidade de conhecer Fantini em outubro de 2011, quando ele veio a Natal a convite do Jovens Escribas para ministrar uma oficina de contos dentro da Ação Potiguar de Incentivo à Leitura. Sua fala tranquila e seu jeito sem afetações destoa totalmente da linguagem que exibe em seus contos: direto, por vezes violento, sem meneios desnecessários, Fantini exibe personagens fortes e controversos, que nos dão uma boa visão sobre os tipos urbanos mais comuns dos dias de hoje.
A leitura é recomendadíssima por dois motivos. O primeiro: a linguagem livre, sem editorialismos, permite mergulhar fundo no universo do autor a cada nova história. O segundo: Fantini sabe contar histórias. E mesmo naquelas mais pós-modernas, em que o conto passeia apenas por uma cena, sem nos dar muitas informações sobre os personagens, não deixa a sensação de incompletude. Suas histórias, por mais pós-modernas que sejam, sempre têm começo-meio-fim. O cara sabe o que está fazendo.