Sou escritor, jornalista, publicitário e um dos fundadores da Editora Jovens Escribas. Já publiquei dois livros: o romance Lítio e a coletânea de contos A Cega Natureza do Amor. Aqui no PLOG escrevo sobre tudo. E até sobre nada.
“Num deserto de almas também desertas,
uma alma especial reconhece de imediato a outra.”
Caio Fernando Abreu no conto “Aqueles dois”
Esteticamente não é correto começar uma resenha entre aspas, mas quando se fala em Caio Fernando de Abreu a estética é um detalhe íntimo de um casamento de palavras pontual.
Bem, perdoem os detalhes, não sou critica literária, nem teatral, logo não dêem o desconto se eu deixar transpirar a minha idolatria de fã por cada ponto e vírgula que Caio Fernando de Abreu escreve – escreve, no presente.
O SESC, dentro do seu projeto do Palco Giratório, criado em 1998 com o objetivo de difundir e descentralizar as artes cênicas do Brasil, trouxe ontem ao Teatro Dix-huit Rosado, em Mossoró, o espetáculo “Aqueles dois”, adaptado do conto homônimo de Caio Fernando Abreu, escritor que, com sua escrita fragmentária e dramática, já contribuiu muito para o teatro contemporâneo. Contemporâneo. É isso.
Ao entrar no Teatro Dix-huit Rosado, que já é charmoso por si só, o impacto das cortinas abertas, causando o efeito contrário do frisson, abriu-se as portas, entrou o público. O Teatro claramente iluminado, o cenário detalhadamente aconchegante, o público que nem estava concentrado porque luzes acesas não acalmam e não foi ocasional – Caio agita mesmo – parou. Parou quando os quatro atores jovens – e vou frisar, SARADOS – entre 30/40 anos, entraram para se aquecer diante dos olhares perplexos.
1ª chamada – A arrumação dos LPs, o conhaque, as réplicas de Van Gogh.
2ª chamada – Arquitetura, Audrey e Shirley, Gene Kelly, Almodóvar.
3ª chamada – Tú Me Acostumbraste.
Raul e Saul, até rimar, rima. No conto, um amor desenvolvido de laços de cumplicidade entre dois colegas de trabalho. No palco, duelos improvisados por quatro personagens que viviam um, que viviam dois.
Emoção.
Monólogos.
Solidão.
Diálogos.
Uma coreografia de improviso. Um ensaio sem adornos. Simples. Limpo. Um exagero clássico, eu diria. Talvez, quem não conhece Caio, não entenda a agonia.
Aqueles Dois – Aqueles Quatro – Sem diretor. Cada ator realiza a sua proposta de direção acumulando edição de roteiro. Com música e ações vocais claras, o elenco consegue simplesmente dar gestos ao processo mental de Caio Fernando de Abreu.
A entrega do público foi sincera e honestamente total.
A trajetória da Companhia Luna Lunera, formada de atores do Curso de Teatro do CEFAR – Centro de Formação Artística do Palácio das Artes, de Belo Horizonte, merece flores. Ontem, na madeira do Teatro Dix-huit Rosado, comemorou sua 172ª apresentação. Até o fim do Circuito 2010 do Palco Giratório, completará 200.
Eu queria que o mundo visse. Mas o futuro do pretérito é um verbo cheio de vontade.
Larissa Gabrielle Araújoé publicitária/marketóloga, pós graduanda em Gestão da Comunicação Empresarial e uma amante de Caio Fernando de Abreu. Atualmente está Gerente de Marketing do Jornal de Fato e Assessora da Prefeitura Municipal de Mossoró. Também tem um blog.
Ano passado, no Festival Agosto de Teatro, os mineiros da Cia Luna Lunera apresentaram em Natal o espetáculo “Aqueles dois”, baseado no conto homônimo de Caio Fernando Abreu. Amanhã, terça, 6 de abril de 2010, os mossoroenses terão a oportunidade de ver essa peça dentro do projeto Palco Giratório, do Sesc. A companhia se apresenta no Teatro Municipal Dix-Huit Rosado, a partir das 20h e a entrada será apenas 1kg de alimento não perecível. O programa é imperdível.
Caio Fernando Abreu é uma grande influência minha. Li quase todos os seus livros, alguns inclusive repetidas vezes (como foi o caso de “O ovo apunhalado”). Por isso, fui ao teatro conferir a peça com grande desconfiança sobre o sucesso da transposição do conto para os palcos.
A história gira em torno da relação de Raul e Saul, dois servidores públicos que em meio à rotina de uma repartição, entre máquinas de datilografar e pausas para o cafezinho, descobrem-se apaixonados um pelo outro. No conto, Abreu carrega as tintas na atmosfera opressiva que a repartição representa, com as maledicências comuns em ambientes onde convivem pessoas frustradas. Incrivelmente, os mineiros conseguem levar toda essa atmosfera para os palcos com sucesso.
O trabalho cênico, focado num cenário multifuncional, que se transforma em repartição, apartamento, rua, tudo num piscar de olhos, faz a história fluir exatamente da maneira como flui no conto: poeticamente, sem apelações, dando muito mais destaque aos sentimentos do que aos atos. A cena final, quando finalmente “Quase todos ali dentro tinham a nítida sensação de que seriam infelizes para sempre”, é de um impacto visual fortíssimo. Estranhamente, em Natal ela provocou risos nervosos e um ensaio de vaia infantil. Dêem-me notícias sobre as reações em Mossoró.
Se ficou curioso, veja um trechinho da peça:
O projeto Palco Giratório levará ainda uma oficina de atores para Mossoró, com os próprios rapazes da Cia Luna Lunera. A programação completa segue abaixo.
Projeto Palco Giratório
Programação
Dia 05/04
Oficina “Ator Criador” – Cia. Luna Lunera (MG).
(Classificação: 17 anos)
Local: Sala de Ensaio do Teatro Dix-Huit Rosado
Horário: 18h às 22h
Inscrições pelo telefone: 3316-3665
Dia 06/04
Oficina “Ator Criador” – Cia. Luna Lunera (MG).
(Classificação: 17 anos)
Local: Sala de Ensaio do Teatro Dix-Huit Rosado
Horário: 14h às 17h
Inscrições pelo telefone: 3316-3665
Espetáculo “Aqueles Dois” – Cia. Luna Lunera (MG).
(Classificação: 16 anos)
Local: Teatro Municipal Dix-Huit Rosado
Horário: 20h
Entrada: 1kg de alimento não perecível.
(Senhas antecipadas no SESC-Mossoró e no Teatro Municipal Dix-Huit Rosado)
Não tem outra explicação: Mossoró acredita em tudo que o Pânico na TV falou sobre a cidade em sua cobertura do Mossoró Cidade Junina. Acredita que só tem gente feia na capital do Oeste; acredita que sua distância de São Paulo é a mesma que separa a civilização do inferno; acredita que misturando feijão, arroz e ovo podre resulta em algo chamado Mossoró. Só existe essa explicação para a onda de rechaço que a participação do humorístico gravada na cidade despertou nos mossoroenses. Síndrome do Patinho Feio.
Não tem como levar o Pânico na TV a sério. Só quem se leva a sério demais pode fazer isso. O humor, por vezes de mau gosto, na maioria grotesco, verdadeiramente sem critérios, não passa disso: humor. E foi exatamente isso que a dupla do Pânico foi fazer no Mossoró Cidade Junina: tirar onda. Não se esperava outra coisa. O Pânico faz sempre matérias de mau gosto, explora descaradamente o bizarrro, não tem padrões de qualidade com o que coloca no ar. Faz sucesso. Mas não tem credibilidade alguma. É só brincadeira mesmo.
Em outras cidades em que estiveram, não pegaram leve com ninguém. Incluindo aí um dos paraísos para quem procura gente bonita, rica e sarada: a ilha de Ibiza, na Espanha. A mesma dupla de comediantes esteve por lá alguns anos atrás. E pegou muito mais pesado com os entrevistados, que não falavam português e não entendiam as ofensas do personagem Crystian Pior (que chamou duas mulheres de “sapatonas”, adjetivou zilhões de homens com palavras como “bichinha” e “michê”, disse que todo mundo era feio e pobre, ridicularizou uma americana dizendo que o cabelo dela parecia “o passarinho do Snoopy com uma rebelião de piolhos” e fez uma gringa dizer em português “sou pistoleira”). Pois é, o Pânico é assim em todo lugar. Por que seria diferente em Mossoró?
A Terra da Resistência é maravilhosa. Tem gente linda, tem muitas riquezas, tem contribuições grandiosas para o panorama histórico-cultural do estado e do Brasil. Expulsou Lampião, libertou os escravos, foi pioneira no voto feminino. São muitas as façanhas do povo mossoroense. Mas a vontade de ser grande, de ser respeitado, vem burlando a visão da cidade. Mais triste ainda é ver a imprensa de lá tentando transformar o factóide em fato político, buscando freneticamente argumentos para responsabilizar a Prefeitura pelo ocorrido. Não é pensando assim que a cidade cresce.
O barulho causado pela matéria do Pânico é uma forma de se indignar pelo que os mossoroenses acham que os outros acham deles. É muita conjectura e pouco argumento. Não se pode pedir desse programa abismal um jornalismo responsável, que mostre realmente como é a cidade de Mossoró. É como se fosse uma revolta causada por ter a mente lida. Mossoró não merece isso. E não estou falando do que o Pânico disse; falo do que os mossoroenses pensam de si mesmos.
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Pra quem está por fora, vejam o que o Pânico aprontou em Mossoró:
Mais uma semana em que não cumpri totalmente meu objetivo.
“A ponto de explodir”, do autor mineiro Sérgio Fantini, apresenta contos ágeis e por vezes bem curtos, daqueles que a gente lê em uma sentada. O efeito dessa concisão é devastador. E foi devastador também para minha meta: livros de conto dão a chance de pular algumas partes e ler só o que realmente interessa naquele momento. Não era minha intenção e por isso estou sendo honesto: pulei alguns contos, mas li quase todos.
Tive a oportunidade de conhecer Fantini em outubro de 2011, quando ele veio a Natal a convite do Jovens Escribas para ministrar uma oficina de contos dentro da Ação Potiguar de Incentivo à Leitura. Sua fala tranquila e seu jeito sem afetações destoa totalmente da linguagem que exibe em seus contos: direto, por vezes violento, sem meneios desnecessários, Fantini exibe personagens fortes e controversos, que nos dão uma boa visão sobre os tipos urbanos mais comuns dos dias de hoje.
A leitura é recomendadíssima por dois motivos. O primeiro: a linguagem livre, sem editorialismos, permite mergulhar fundo no universo do autor a cada nova história. O segundo: Fantini sabe contar histórias. E mesmo naquelas mais pós-modernas, em que o conto passeia apenas por uma cena, sem nos dar muitas informações sobre os personagens, não deixa a sensação de incompletude. Suas histórias, por mais pós-modernas que sejam, sempre têm começo-meio-fim. O cara sabe o que está fazendo.