[NO GIBI]
SÁBADO DOS MEUS AMORES: O RIO DE JANEIRO CONTINUA LINDO
por Milena Azevedo

24 junho 2009 § 1 comentário

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Quando se está longe, a gente compreende melhor as cores do nosso país, o nosso povo, os nossos costumes.

Marcello Quintanilha, que antes assinava Marcello Gaú, comprovou que essa afirmativa é mais do que verdadeira com o álbum Sábado dos meus amores (63 páginas, colorido, capa dura, R$ 39,00), da Conrad Editora.

Morando a algum tempo em Barcelona, na Espanha, Quintanilha retrata diversas personagens brasileiríssimas, num sotaque carioca de ontem, ainda que atual, nas seis histórias em quadrinhos que compõem o já citado álbum. Algumas dessas histórias foram publicadas no Brasil, em revistas como a extinta General Visão.

quintanilha7Num tom prá lá de realista, o qual lhe rendeu o epíteto de “o Rosselini tupiniquim”, por Aldir Blanc, Quintanilha passeia nas asas de uma borboleta amarela, mostra o que uma superstição futebolística pode fazer com uma pessoa, expõe as marcas psicológicas que a escravidão deixou nos negros livres, conta como a criatividade de um coração apaixonado ajuda uma moça que está na alfabetização para adultos, brinca com os momentos nos quais a gente deixa a sorte escapar e finaliza com uma pendenga entre um policial e um “amarra-cachorro” de circo.

Escolher a história preferida de Sábado dos meus amores é complicado, mas confesso que “De como Djalma Branco perdeu o amigo em dia de jogo” foi a que mais tocou. Tenho minhas superstições e sei o quão desagradável é quando alguém as viola.

O tema “futebol”, aliás, é comum nas obras do Quintanilha. Em Fealdade de Fabiano Gorila, por exemplo, ele homenageou o seu pai, que foi jogador de futebol no Rio de Janeiro, na década de 1950.
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As histórias do Quintanilha retratam um Brasil com um quê de estética do cinema marginal, de Rogério Sganzerla e Julio Bressane, misturado com a sutil poetização da realidade, presente nos filmes de Vitório De Sica.

Há homens pançudos, crianças banguelas, mulheres de bobs no cabelo, pessoas iletradas, enfim, tudo o que não se vê em algumas HQs nacionais, pasteurizadas, que optam por copiar o modelo que vem de fora.

Por Milena Azevedo

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[NO GIBI]
PRATT E MANARA: UM BOM ROTEIRO FAZ A DIFERENÇA
por Milena Azevedo

13 maio 2009 § Nenhum comentário ainda

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Boas histórias sempre ficam na lembrança.

Um bom argumento, que tem um roteiro bem trabalhado e um desenhista que dê vida ao preto e branco das palavras, é o ponto de partida para uma obra singular.

O traço limpo e perfeito de Milo Manara, desenhista italiano que sabe como poucos retratar a anatomia feminina nos quadrinhos, muitas vezes encobre roteiros fracos, como os da série O Clic e do álbum Kamasutra. Embora a maioria dos seus roteiros seja de conteúdo erótico, isso não implica que a trama deva ser constantemente meia-boca.

Manara torna-se excelente quando encontra parceiros que conduzam o seu lápis a caminhos mais ousados, como Federico Fellini, em Viagem a Tulum, Hugo Pratt, em Verão Índio e El Gaucho, e Alejandro Jodorowsky, na inacabada série Bórgia.

Verão Índio foi uma das primeiras parcerias entre Manara e Pratt, escrito, desenhado e pintado no início dos anos de 1980, para a revista Corto Maltese, e uma das obras mais poéticas e menos explícitas do quadrinho erótico mundial.

Recém relançado no Brasil pela editora Conrad (152 páginas, capa dura, papel couché colorido, R$ 49,90), Verão Índio era um dos álbuns mais requisitados por quem aprecia quadrinhos de arte, haja vista a sua tiragem estar esgotada há anos – do tempo em que a editora Martins Fontes apostava em bons quadrinhos –, além de a edição portuguesa da Meribérica aparecer em leilões, pela internet, a preços pra lá de salgados.

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Quando o verão índio estava para chegar, os ânimos dos silvícolas norte-americanos ficavam mais exaltados. Isso levou um guerreiro índio e um holandês, ambos da tribo de Squando, a estuprarem uma jovem branca puritana, sobrinha de um pastor com reputação duvidosa, do vilarejo de Nova Canaã, na conturbada América do século XVII.

Essa sequência que abre a referida obra tornou-se clássica, toda em narrativa visual, cujo clímax é o barulho da espingarda de Abner, que atira duas vezes para matar e escalpelar os aproveitadores da sua amada.

A partir desse prólogo trágico, somos apresentados à “mulher-demônio”, a senhora Lewis, e aos seus outros filhos, os meio-irmãos de Abner.

Dos milharais, os índios da tribo de Squando veem o movimento na casa da senhora Lewis e resolvem partir para a desforra.

As cenas de luta entre índios e brancos são belíssimas, pois a aquarela de Manara dá um quê de requinte aos combates sanguinolentos.

E quando tudo parecia estar se resolvendo, velhos segredos são revelados e, dessa vez, os brancos expiam suas consciências pesadas.

O que é mais explícito em Verão Índio é a vergonha de um continente pela falsa moral de quem se dizia o “civilizador”.

Por Milena Azevedo

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[CINEMA]
VALSA COM BASHIR: LEMBRANÇAS DE UMA GUERRA QUE SE QUER ESQUECER
por milena azevedo

4 maio 2009 § 1 comentário

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O cérebro humano é mesmo algo incrível. Para nos salvaguardar de experiências traumáticas, simplesmente deleta as imagens, confundindo a nossa memória. Mas o que fazer quando pequenos flashes de lembranças desagradáveis se manifestam em forma de sonhos?

O cineasta Ari Folman resolveu fazer um documentário em formato de animação, desenhado por David Polonsky, chamado Valsa com Bashir – que também resultou numa história em quadrinhos, publicada recentemente, no Brasil, pela L&PM (colorido, papel couché, R$ 46,00) –, para contar ao mundo a sua experiência com os mistérios da falta de memória sobre a sua participação na Guerra do Líbano, mais especificamente no massacre ocorrido nos campos de refugiados de Sabra e Chatila, no ano de 1982, quando os cristãos falangistas mataram sem dó nem piedade os palestinos muçulmanos.

A história toda tem início quando um amigo de Folman lhe relata um estranho sonho com cachorros, intrigando-o porque esse sonho remetia à lembranças da Guerra do Líbano, lembranças essas que ele não tinha, mesmo sabendo que esteve lutando, como soldado, por lá.

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Não entendendo o que está acontecendo e sendo perturbado por um sonho recorrente, onde ele e mais dois amigos, dos tempos da citada guerra, saiam do mar e caminhavam nus, em direção à Beirute, parte para encontrar esses amigos e descobrir o que é real e o que é “construção” da sua memória.

Para surpresa de Folman, alguns desses amigos também não lembram de várias passagens da Guerra do Líbano. Isso faz com que ele fique ainda mais confuso, até que conversa com a professora Zehava Solomon, a qual lhe explica sobre o “evento dissociativo”, um trauma de guerra bastante comum.

Apesar de tudo o que descobre, as memórias sobre o massacre de Sabra e Chatila ainda não são claras. Folman averigua mais um pouco. Sua mente culpada não lhe permitia enxergar, então ele relembra que esteve mesmo lá, disparando sinalizadores noturnos, mas logo declara que não viu nada da matança. E então, quando as memórias mais dolorosas regressam à sua mente, as imagens passam a ser fotografias, não mais desenhos. Foi real. Foi desumano. Foi algo a ser esquecido, mas que não podia ser apagado dos olhos do mundo.

Por Milena Azevedo

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[RESENHA]
PRESSÁGIO: QUANDO NICOLAS CAGE BRINCA DE NOSTRADAMUS por milena azevedo

23 abril 2009 § Nenhum comentário ainda

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Nicolas Cage quer ser um heroi a todo custo.

Ele já perdeu o papel de Superman, errou a mão ao manusear as correntes e pilotar a moto do Motoqueiro Fantasma, foi ladrão de carro forçadamente cool, chegou a ser um vidente bonzinho, e em Presságio ele encara o fim do mundo.

Presságio (Knowing, 2009) é a nova produção de Alex Proyas (Eu, robô, O Corvo), e traz Nicolas Cage como o astrofísico viúvo e solitário John Koestler, cujo filho Caleb começa a escutar ruídos e a ver um homem com um capote preto, após abrir o envelope de Lucinda Embry, que ao invés de ter desenhado como seria o futuro em 2009 – quando era uma garotinha, cinquenta anos atrás, para a cápsula do tempo de sua escola –, preencheu o papel com uma porção de números aparentemente sem sentido.

John descobre que os números são datas de graves acidentes ao redor do mundo, nos últimos cinquenta anos. Ele pensa que se tivesse como saber desses acidentes, com antecedência, poderia ter salvado a sua esposa. Como restam três datas que informam sobre eventos atuais, algumas marcando inclusive a latitude e a longitude exata do local a ser atingido, John agarra com unhas e dentes a chance de poder alertar e salvar as pessoas.

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Com o futuro da humanidade em jogo, ele parte para encontrar a filha de Lucinda, Diana (Rose Byrne, da excelente série de TV Damages), e descobre que ela tem uma menina chamada Abby, da mesma idade de Caleb e tão inteligente quanto.

Diante da situação inusitada, John passa a rever seus posicionamentos teóricos e começa a aceitar a possibilidade de uma força maior que atua no universo, interferindo na natureza das coisas, quando se faz necessário.

O ponto alto de Presságio são os efeitos sonoros e as tomadas de câmera nas cenas dos acidentes, as quais nos colocam na pele de John Koestler, sentido bem de perto o perigo (a gente até chega a movimentar a cabeça, num reflexo involuntário, para se proteger). No entanto, nas duas horas de filme, o que se vê mesmo é Nicolas Cage passando de um sujeito apático a candidato a mártir do planeta Terra, correndo pra lá e pra cá.

Alex Proyas é um diretor que gosta de mesclar ação e suspense em seus filmes, e  Presságio não foge à regra. Porém, se você for ao cinema querendo algo mais, pode se decepcionar.

Por Milena Azevedo

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[OPINIÃO]
ENTRE OS MUROS DA ESCOLA: E A EDUCAÇÃO Ó
por Milena Azevedo

6 abril 2009 § Nenhum comentário ainda

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Educar é uma tarefa árdua, principalmente educar a quem não recebe educação em casa. Como consolo, fica a máxima “quem educa sempre aprende”. Os professores, sejam eles do ensino fundamental, médio, superior, aprendem que paciência é a palavra-chave para contornar todos os problemas pelos quais perpassam a educação hodierna, incrivelmente pós-moderna, centrada nos “direitos” dos alunos, buscando assim concertar erros do passado, os quais privavam os discentes de voz dentro da sala de aula.

De uns anos pra cá, as novas teorias pedagógicas apontam que o ensino deve ser mais “humano”, ou seja, que o professor deve procurar compreender e estimular os seus alunos, facilitando o processo da aprendizagem, além de respeitar e lidar com as diferenças intelectuais, étnicas, culturais e socais de cada aluno. A voz do professor precisava diminuir para que a dos alunos começasse a ser escutada. Foi uma conquista e tanto dos estudantes, pois se antes temiam os castigos físicos e psicológicos que os professores empregavam, agora já podem denunciar abusos de quaisquer tipo, praticados pelos seus mestres.

Entre os Muros da Escola (Entre Les Murs – 2008), filme do diretor politizado Laurent Cantet (Recursos Humanos, Em Direção ao Sul), ganhador da Palma de Ouro em Cannes ano passado, dramatiza escancaradamente o que acontece numa sala de aula de uma escola pública francesa nos dias de hoje. Essa visão tão próxima do real ocorre porque o filme é uma adaptação do romance homônimo, escrito pelo professor François Bégaudeau que, além de assinar o roteiro junto com Cantet, interpreta o professor François Marin.

O início do filme mostra a reunião dos professores antes de começar o semestre letivo. Todos os professores se apresentam e recebem seus horários, os professores “da casa” aconselham os novatos, informando sobre os alunos bem comportados e sobre os mais trabalhosos. A partir de então, Cantet nos conduz às aulas do professor de francês François Marin.

Marin é um professor bacana, empenhado em fazer com que seus alunos assimilem o conteúdo das aulas de forma dinâmica, seguindo à risca a cartilha da pedagogia do século XXI. O mínino que Marin exige dentro da sala de aula é respeito, tanto de aluno para professor quanto de aluno para aluno e de professor para aluno.

entre-os-muros-da-escolaDesde o início das aulas já se pode notar o clima tenso (disfarçadamente descontraído) que vai aumentando até chegar ao ponto de Marin perder a cabeça e insultar duas alunas. Esse incidente termina por gerar uma grande confusão quando um aluno negro se revolta e sem querer acerta a mochila no supercílio de uma colega, fazendo o seu rosto ficar ensangüentado, e termina saindo da sala sem a permissão do professor. Tal incidente vai parar em um Conselho Disciplinar, que é o único resquício de poder que a escola tem.

Ao final do semestre, Marin questiona seus alunos sobre o que cada um aprendeu nas disciplinas que cursaram, fazendo-os perceber como é prazeroso conhecer um pouco sobre algum assunto, mostrando porque eles precisam da escola para crescer tanto intelectualmente quanto como seres humanos.

A realidade mostrada em Entre os Muros da Escola, apesar de enfocar o ensino público francês, não é muito distante da nossa. Lá, pelo menos, os professores ainda recebem um salário digno, enquanto aqui receber o contra-cheque no fim do mês equivale a ganhar na loteria para o corpo docente das escolas públicas municipais e estaduais.

Filmes como esse servem para abrir os olhos da sociedade.

Ser professor no século XXI é para poucos abnegados, porque a velocidade e a democratização da informação trazidas pela internet estão aí, fazendo com que o valor da transmissão do conhecimento dentro da sala de aula seja menosprezado, o que afeta diretamente o status de poder do professor. Mas é justamente aí que a figura “humana” dos docentes é requisitada, embora as modernas teorias pedagógicas ainda não enxerguem isso. Haja paciência.

close_milenaMilena Azevedo é Mestre em História pela UNISINOS (RS), empresária, poeta, contista e roteirista de HQ. Tem dois livros de poemas publicados: O Perfil da Águia (1999) e Prometeu Livre – um outsider no Olimpo (2005), já ganhou prêmios no Rio Grande do Sul e no Rio de Janeiro (participando inclusive da coletânea com os 100 melhores poemas dos anos de 2003/04 e 2004/05, além de estar presente também no Livro de Ouro da Poesia Brasileira Contemporânea/2005, todos da Câmara Brasileira dos Jovens Escritores). Tem contos e poemas publicados aqui e acolá nessa imensa teia eletrônica que é a Internet, além de participar de antologias da Câmara Brasileira dos Jovens Escritores e da AGEI – Associação Gaúcha dos Escritores Independentes.

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