A vida fica chata aos quase 30. Chatíssima. Só não digo que fica insuportável porque não quero parecer fatalista. Se ainda tivesse 20 e poucos, tudo bem, não teria o menor pudor em fazer drama. Mas tenho quase 30. Nessa idade, já perdemos o direito de não ser perfeitos.
Aliás, “nessa idade” é uma expressão que tipicamente quase-trintona. Os mais velhos trabalham no pretérito (“no meu tempo era…”), os mais novos no futuro (“quando eu for…”). Nós, dessa tribo perdida no vácuo das desatenções, trabalhamos no presente. E como trabalhamos! Dez horas por dia, seis dias por semana e considere-se um bon vivant. Falei sobre um tal vácuo das desatenções. Pois é, vivemos nele, todos nós imersos no vácuo das desatenções. Responda, amigo que está quase lá, qual foi a última vez que você viu um programa social do governo voltado a sua faixa etária? Qual a última vez que você ouviu uma música pop falando sobre sua realidade? Essa é boa, essa é boa: qual a última vez que sua mãe sugeriu a você procurar um psicólogo? Na certa, você ainda tinha 17 anos, fumava escondido, ouvia Nirvana o dia todo e achava que jamais usaria uma calça social. Agora, nessa idade, ninguém mais se preocupa com você. E não pense que é porque finalmente confiam na sua figura ilibada. Tenho amigos com quase 30 que ainda fumam escondidos, ouvem Nirvana e acham que jamais usarão uma calça social. Mas agora são ignorados. Casos perdidos. As pessoas simplesmente desistiram deles. Estão mais preocupadas com os adolescentes problemáticos e os idosos da melhor idade.
O mais difícil de estar prestes a cruzar o limiar da terceira década é saber que não podemos mais usar a idade como desculpa. Esse infalível argumento foi utilizado por mim exaustivamente. Você vai acampar no Natal em vez de ficar com sua família? Qualé, pai, eu só tenho 25, tenho que aproveitar a vida! Você vai vender o computador pra comprar uma guitarra? Qualé, mãe, só tenho 26, tenho que aproveitar a vida! Você vai pedir demissão pra excursionar pela América Latina com três francesas lésbicas? Qualé… Hum, bem, não cola mais. Aliás, fica ridículo alguém de quase 30 dizendo “Qualé, pai”.
Poderia discorrer sobre uma série de outros infortúnios. Mas vou falar apenas de mais um: o sexo. Não consigo controlar a vontade de rir – e não é de felicidade. Com quase 30, a gente broxa pela primeira vez. Não há mais a pressa dos 17, nem a gana dos 20 e poucos. Não, amigo, temos quase 30. Agora, não há mais como ignorar o clitóris, ou pular as preliminares, ou gozar sozinho, ou virar, fechar os olhos e dormir. Com tanta pressão, claro, não tem tesão que resista. Bem-vindo ao mundo real.
A gente se habituou a estar em transformação, a ser outro a cada instante. E de repente, a estabilidade. Por mais que Martha Medeiros e Carlos Heitor Cony preguem que somos diferentes a cada segundo que passa, pouquíssimo em você mudará daqui pra frente. Talvez uma opinião aqui, outra ali; porém nada será mais tão radical. Este que é você ultrapassará seu trigésimo ano e será o mesmo daqui por diante. Para sempre. Como a maldição do galo que canta três vezes, lembra? Se você estiver envesgando os olhos bem na hora do seu aniversário, puff!, vai ficar vesgo pro resto da vida.
O conselho é: sinta bastante saudade de quem você foi. Muita mesmo. Chore de vez em quando lembrando das bobeiras de moleque, das inconseqüências da juventude, das burradas de quando aprendia a ser adulto. Não esquecer disso tudo vai fazer de você alguém melhor. Mais vivo, até. E só pra deixar algo bem claro: não eram três francesas lésbicas. Eram quatro.


“Pode ser que eu não esteja tão forte
como penso – admitiu o velho –,
mas conheço todos os truques.”
Ernest Hemingway em O velho e o mar
Às quinze para a meia-noite, quando todos já estavam com seus champanhes em punho, descalços e excitados, devidamente vestidos em branco num alvor que dava ainda mais esperanças no futuro, o velho disse: eu também vou à praia. A frase, ao se estender pela casa, quase sufocou a euforia reinante. Quase mesmo. E só não o fez por completo porque o respeito e alguma noção politicamente correta impediram filhos, netos, genros e noras de tentarem demover o patriarca da idéia.
Estavam a cerca de cem metros da beira-mar e o velho não agüentaria a caminhada. E mesmo que alguns cultivassem a esperança de que ele agüentaria, dificilmente chegariam à praia antes da meia-noite, visto que os passos curtos apoiados na bengala não eram os melhores amigos da pontualidade. Antes que a sensação de impotência recaísse sobre todos os presentes, entretanto, um deles teve a idéia. Vamos de carro. Obviamente, não alcançariam a beira-mar sem que atolassem o veículo, mas encurtariam o máximo de distância possível. Vamos até onde o carro conseguir.
A horda de mais de vinte pessoas, alguns com bebês nos braços, outros carregando frutas, mais alguns de mãos abanando e com o peito recheado de desejos, seguiu caminhando pela avenida. Os passos eram apressados mas contidos, ninguém queria chegar à orla suado ou com os cabelos desfeitos. No caminho, contavam suas uvas, repassavam os pedidos, alguém perguntava pelas romãs. O carro passou por eles próximo ao acesso à praia. Entrou numa viela e seguiu rumo ao mar. O mais próximo que conseguisse. Alguns sorriram ao ver o velho abanando as mãos na janela. Faltavam cinco minutos para a meia-noite.
No estacionamento improvisado, no ponto exato em que o pneu afundou na areia mais que o recomendável e o motorista – tomado de prudência – resolveu não insistir, o velho tentou descer sozinho do carro. Como se mostrasse impossível, contou com a ajuda do filho mais novo e do genro mais velho. Sempre dizendo, é claro, que não precisava, que pode deixar, que eu vou sozinho. Era sabido que não iria. A areia da praia estava fofa, solta, voando com o vento forte daquela noite. Pra completar, a maré estava baixa, aumentando a distância entre o carro e o mar. Faltavam dois minutos para a grande hora quando o patriarca deixou bem claro que fazia questão de molhar os pés.
Fogos iluminaram o céu. Gritos, abraços, aleluias das mais diversas formas. Pois pode prestar atenção: nessa hora, quando todos estouram champanhes e brindam aos próximos 365 dias, fica tudo muito parecido com um louvor de igrejas. Assim, como anjos, abraçados e felizes, a família festejou. Não faltaram beijos na face do velho, todos felizes pela presença dele mas sem saber exatamente por quê – seria o desafio vencido?, ou por não ter causado atrasos?, seria simplesmente porque estava ali?
Com a bengala se enterrando na areia fina e branca, o velho saiu caminhando rumo ao mar. Quase não notavam sua ousadia. Mas o genro correu para apoiá-lo, disfarçando sua preocupação com comentários sobre a beleza dos fogos. Lentamente, como é a fisiologia dos que já viveram muito, o velho tirou as sandálias, deixou a bengala cair para o lado, livrou-se do apoio do genro e avançou três passos para dentro da água. A primeira onda do ano novo tocou, então, seus pés.
O filho veio logo em seguida, preocupado, aturdido, incrédulo. Estancou um pouco atrás, deixou o cigarro cair dos lábios e buscou com sofreguidão a máquina fotográfica nos bolsos. Era inacreditável. Ainda com as luzes estourando sobre suas cabeças, todos puderam ver o patriarca mergulhando sozinho no mar.
O sal, os sargaços, o gelado do mar. O velho sentiu cada um desses elementos em seu corpo. E de alguma forma que não sabia precisar, sentia outras coisas que não deveriam fazer parte do oceano. Sua mãe jogando a água da banheira em sua cabeça, o primeiro beijo em meio à chuva, a farda das forças armadas mergulhada em medalhas, o cheiro do cabelo molhado daquela menina do interior, o suor nas mãos até que o médico anunciasse que era menina, o olhar do primeiro neto quando pediu um copo d’água dizendo vovô. Como uma criança de volta ao ventre, rolou na delícia de uma pequena onda, sorriu do seu desequilíbrio, brincou dentro de sua placenta.
Ao ver tanta vida emanando do velho, do seu sorriso de poucos dentes e muitos sentimentos, do seu olhar cinzento mas incrivelmente brilhante, dos seus cabelos que eram brancos mas de repente estavam prateados, todos os outros esqueceram seus pedidos. Com romãs e uvas sem utilidade, só pensavam numa coisa ao voltar pra casa: se jogariam no mar o quanto antes.
