Sou escritor, jornalista, publicitário e um dos fundadores da Editora Jovens Escribas. Já publiquei dois livros: o romance Lítio e a coletânea de contos A Cega Natureza do Amor. Aqui no PLOG escrevo sobre tudo. E até sobre nada.
O Vaticano lança nesta quinta, 21 de maio, uma rede social integrada ao Facebook para aproximar os jovens da Igreja. O portal Pope2you (algo como “o Papa para você” escrito de forma moderninha) é um esforço da Santa Sé em se adaptar aos novos tempos, buscando através da interatividade um aumento de sua participação junto ao público jovem. Mais ou menos como a Coca-cola, o McDonald’s e o Marlboro já fizeram há algum tempo. Só que desta vez é tudo em nome de Deus.
Pensando bem, faz todo o sentido a Igreja usar do benchmark para tentar voltar a ser competitiva. Eles já vêm fazendo isso há anos. A saber: benchmark é o processo de se espelhar em uma marca bem sucedida para ser como ela.
A Igreja fideliza seus clientes através da coerção, usando o medo do inferno como argumento para manter todo mundo ao seu redor. É como faz o McDonald’s: por mais um real aceita a batata grande? E aí você sente medo de ter fome mais tarde e diz sim. Além disso, tem os combinados: hóstia + bênção por apenas um dízimo (e você ainda pode se confessar se já tiver a crisma). É como a promoção nº 1 do McDonald’s. Mas na missa ninguém pode escolher entre batata e nuggets. Só tem o pão nosso de cada dia mesmo.
Da Coca-cola, a Igreja copiou os slogans que prometem felicidade eterna. Algo como “viva o lado católico da vida”. E tome emoção pra valer: gente feliz, cantando empolgada, entregues ao júbilo da vida. Não, não é uma propaganda de refrigerante. É uma celebração das mais carismáticas, se é que você me entende.
Agora, a arte de conseguir o cliente desde novinho (porque depois que cresce, ele não consegue mais se livrar daquele vício) não foi a Igreja que copiou do Marlboro. Foi ao contrário. Há milênios o Vaticano faz o que a indústria de cigarros só descobriu na década de 80: quanto mais cedo você fuma o seu primeiro cigarro, mais tempo você será consumidor. Substitua “você fuma seu primeiro cigarro” por “você é batizado” e pronto: está aí a estratégia de marketing de fidelização mais bem bolada de todos os tempos. E nem venha me dizer que a Igreja não mata como o cigarro, que eu vou começar a falar da Santa Inquisição e aí esse papo vai longe.
A Igreja não precisava estar na internet para se modernizar. Bastava acabar com algumas pragas de seu idealismo que só contribuem para atrasar a vida. Condenar a camisinha, por exemplo. O Papa não deveria tentar mandar nos órgãos genitais dos outros. Ora, se eu envolvo ou não meu pênis com um pedaço de látex, Deus não tem nada a ver com isso. A Santa Sé deveria, isto sim, controlar os membros de seus asseclas, que andam por aí fornicando – com ou sem consentimento – com crianças, adultos, porcos, galinhas, portas, buracos na parede e quem mais der bobeira. Puxa vida, se a Igreja não consegue fazer com que seus padres deixem de estuprar criancinhas, que ao menos impeça que as criancinhas molestadas sejam contaminadas por mazelas como sífilis, gonorréia, cancro mole e aids.
O Papa pode criar zilhões de redes sociais, fazer avatares pro MSN, gerar scripts catequizadores pro Twitter, colocar no ar um Orkut, um blog, um canal de vídeos no Youtube. Enquanto a Igreja Católica continuar com seu complexo de Deus, achando que é onipresente-onisciente-onipotente, ela continuará presa à Idade Média. E a Idade Média, como todos sabem, é a Idade das Trevas.
Muito bem, muito bem, internautouvintes, voltamos com o segundo PLOGCAST.
Neste programa, nossas línguas afiadas voltam seus venenos para assuntos como os 100 mil reais que Edir Macedo está pedindo pra manter o site da Igreja Universal, a sugestão de Lula de criar o “Dia da Hipocrisia” e a proibição da justiça para a Marcha da Maconha.
Além disso, tem notícias bizarras como a Veja copiando na cara dura uma matéria do Wall Street Journal, Courtney Love vendo 700 mil reais se transformarem em pó e a mudança de nome da gripe suína para H1N1.
Por trás dos microfones, Luanda Holanda, Patrício Jr., Marlos Ápyus, Rosilene Pereira e algumas cervejinhas e petiscos (que ninguém é de ferro).
O programa foi gravado sábado, 9 de maio de 2009. E a gente esqueceu de mandar beijo pras nossas mães! Então, lá vai: beijos, mamães!!!
Agora, é dar play aí embaixo e se preparar para detonar nos comentários. Boa audição.
Pauta:
- Comentários sobre primeiro programa e texto A arte da inverdade: 00’48”
- Universal pede 100 mil reais para manter seu site: 12”18
- Justiça proíbe a Marcha da Maconha: 21’00”
- Notícias bizarras: 28’01”
- Bonustrack: exclusiva entrevista com um porco: 41’59”
“Eis que conceberás
e darás à luz um filho,
e lhe porás o nome de Jesus.”
Lucas, 1:31
Ele suava como nunca. Os olhos vidrados no monitor, o ventre exposto sobre a maca, aquele ruído de escafandro. Sim, o médico buscava como um escafandrista algo naufragado dentro dele. Na barriga, gel. Na tela, tripas. Via suas entranhas em preto e branco como um filme antigo de terror. Nervoso, não conseguia pensar em outra coisa se não na morte. As dores abdominais tinham se tornado constantes logo após a Semana Santa, se bem que se lembrava nitidamente de já sentir-se um pouco diferente na quarta de cinzas. Iniciou a Quaresma, sei lá, se sentindo estranho. Inchado. Temperamental. Confuso. Chegou a chorar na missa mais de uma vez. Os fiéis sentiam o peso da emoção, acompanhavam as evoluções do choro do padre. Ele não entendia. Saía da igreja aos prantos e no quarto, retirando o hábito ainda em soluços, rezava para que Deus o fizesse compreender. Só mesmo dois meses depois, ainda extremamente temperamental, decidiu ir ao médico. Sentia-se gordo, pesado, lerdo. Mais de uma vez, dormiu enquanto fiéis se confessavam. Alguma coisa muito estranha acontecia no seu corpo e ele, rezando, orando, implorando, pedia para não ser a morte. Pois o médico solucionou todos os enigmas tão logo afastou o leitor de ultra-som de seu ventre: ele estava grávido. Não era morte no seu corpo. Era vida.
Ignorou os olhos saltados e o tom de incredulidade do médico quando ouviu “O senhor está grávido”. Reagiu simplesmente com um impulso: sorriu um riso embasbacado, colocou a mão na boca, deixou uma lágrima descer. Era um milagre. O médico estava assustado. Afastou-se um pouco em busca do telefone no bolso, andava de costas, não tirava os olhos da barriga do padre. Sim, estava inchada. Sim, ouvia-se um coração ali dentro. Sim, estava grávido. O médico não conseguia se concentrar nas teclas do celular, discando enquanto os olhos iam dos números ao ventre, do ventre aos números. Quando o padre pediu segredo, já era tarde. O médico tinha acabado de enviar uma mensagem à junta clínica do hospital.
Não demorou muito para que a sala de ultra-sonografia estivesse lotada de doutores. As mulheres resistiam à novidade, ficavam olhando de longe, algumas até mantinham uma atitude agressiva ao fato. “Grávido como?”, uma chegou a perguntar. Os homens não. Olhavam a tela do ultra-som com sorrisos de vitória, davam-se tapinhas nos ombros, um até sugeriu comprar charutos. O padre respondeu à pergunta da médica acariciando a própria barriga: foi um milagre, doutora, foi um milagre.
Pois o fato chegou ao conhecimento da Igreja tão logo deram alta ao padre. Cinco dias afastado dos ofícios sagrados, sem colocar os pés na paróquia, e chega ao bispo um atestado médico: o padre estava afastado devido a exames pré-natais. Primeiro, ele sorriu da piada. Em seguida, forçou-se a embrutecer. Quem tinha a ousadia de fazê-lo perder tempo com esse tipo de chiste? Pediu que um monge fosse pessoalmente visitar o padre. No dia seguinte, de olhos arregalados, o monge retornou com uma lista de chá de bebê. Sim, o padre estava grávido.
No domingo, o bispo foi visitá-lo. Levava dois coroinhas a tira-colo, como se dissesse veladamente que se preciso usaria da força. Encontrou o padre preparando a missa daquela noite. O corpo esguio de outrora foi substituído por uma silhueta estranha: os quadris largos, a barriga proeminente, as bochechas arredondadas. Tinha engordado e enlouquecido, concluiu o bispo. O padre lhe saudou com um sorriso enquanto dizia que o ofício daquela noite seria sobre a concepção de Jesus através do Espírito Santo. E emendou: agora que sei como se sentiu a Virgem, posso passar a verdadeira emoção desse milagre aos fiéis. O bispo desmaiou.
A carta narrando os últimos acontecimentos chegou à Arquidiocese três dias depois. O bispo contou tudo em detalhes, anexou cópias de exames, um DVD com a ultra-sonografia e ainda solicitou a presença imediata do arcebispo. Ninguém mais poderia resolver esse problema. Ao ler todo o material, o arcebispo não esboçou nenhuma reação. Apenas pegou o telefone, discou pausadamente e esperou na linha. Quando obteve resposta, disse secamente: cardeal, preciso da sua ajuda.
Foi a chegada do cardeal à cidade que chamou a atenção dos jornais. Até então afastada do caso graças à discrição dos médicos, a imprensa mergulhou de cabeça nos acontecimentos surreais que rondavam aquela paróquia. Antes que o cardeal chegasse, já tinham publicado que a concepção provavelmente tinha se dado no carnaval, que o padre havia deixado a paróquia nessa época para, supostamente, visitar a família no interior, que testemunhas haviam visto um pierrô muito semelhante ao padre se beijar apaixonadamente com um diabinho menor de idade no baile da terça-feira. Também noticiaram que o parto, pelos cálculos de obstetras experientes, ocorreria na noite do dia 24 de dezembro. Logo passaram a chamar o bebê de Jesus.
Os fiéis estavam em polvorosa. Desde que a mídia passou a dar destaque à história, as missas da paróquia estavam cada vez mais lotadas. Muitos queriam ver de perto o padre grávido. Alguns, com aversão. Faziam o sinal da cruz, pediam perdão por acreditar naquelas aberrações, saíam correndo para se confessar em outra paróquia. Mas muitos outros agiam com devoção. Pediam para tocar a barriga, faziam orações coletivas ao redor do padre, alguns que chegaram a sentir o bebê chutando atribuíram a ele as graças alcançadas. O padre acumulava presentes em seu quarto: sapatinhos, mantas, gorros, mamadeiras, fraldas. Seu sorriso era cada vez mais embasbacado à quantidade de alegrias que Deus tinha reservado para ele. Passou a conversar com o bebê antes de dormir. E de tanto ouvir na tevê, sem querer, assim naturalmente, começou a chamá-lo também de Jesus. Ah, menino Jesus – ele dizia, passando suavemente óleo de amêndoas na barriga – quanta alegria você veio trazer para este santo lar. Foi no meio de uma dessas cenas íntimas que o cardeal abriu abruptamente a porta. Vinha acompanhado do arcebispo, do bispo e de mais alguns outros padres. Tinha os olhos injetados e a testa suada. O padre manteve-se segurando sua barriga de seis meses sem entender muito bem aquela invasão. O cardeal limitou-se a dizer: já temos a clínica para fazer o aborto.
O menino Jesus já tinha um quarto improvisado. O padre havia dividido seu cubículo com biombos doados pelo Clube das Mães do bairro. Um berço, também doado, já estava preparado para recebê-lo com manta azul, brinquedos pendurados e um bichinho de pelúcia. Era um burrinho. Os presentes não paravam de chegar, entretanto, fazendo que fora dos biombos tudo lembrasse um quarto de criança. Chupetas, paninhos, mamadeiras. Até o cheiro já era de neném. Aquele odor de talco, suave e morno, circulando pelo cômodo enquanto o padre ia e vinha na cadeira de balanço aplicando-se óleo de amêndoas. A entrada da comitiva, portanto, destoava completamente do universo de paz existente ali dentro. Tanto que ao ouvir a frase do cardeal, a única reação do padre foi pedir silêncio. Psiu, ele vai escutar – disse. E levantou-se com dificuldade sob os olhares atônitos dos clérigos para preparar sua ida ao hospital. Tenho exames hoje – falou sorrindo – os médicos estão pensando em não fazer parto normal e preciso ver essa coisa da cesariana.
O cardeal estava furioso. Mandou que todos saíssem para conversar a sós com o grávido. A comitiva foi se retirando sem conseguir despregar os olhos da barriga. Entre os murmúrios dos que saíam, o padre chegou a ouvir o bispo dizer que aquilo tudo era obra do demônio. Não se deixou abalar. Sabia do milagre, havia sonhado com um anjo, tinha certeza que o Espírito Santo tinha um plano para ele. O cardeal sentou-se na cama. Respirava fundo, como planejando a melhor forma de falar, apontou a cadeira de balanço ao padre. Estavam agora frente à frente.
O cardeal quis saber a melhor data para marcar o aborto. O padre ainda tentou se fazer de desentendido, desconversar, falar que preferia que a decoração não fosse azul porque, enfim, não sabia ainda o sexo da criança. Não adiantou. O cardeal era um pedra de gelo e se comovia cada vez menos com a ladainha do padre. Que levou as mãos ao rosto, disse que não acreditava que a Igreja iria impedir aquele milagre e chorou como só uma… bem, como só uma mulher grávida consegue fazer.
Ao longo das semanas seguintes, lentamente, mesmo mantendo todos os cuidados de sempre, o óleo de amêndoas, os exames pré-natais, a dieta balanceada, enfim, mesmo comportando-se dignamente como alguém que carrega uma vida dentro de si, o padre foi se convencendo de que o cardeal estava certo. Não teria quem cuidasse da criança enquanto se dedicava ao oficio sagrado. Sua renda garantida pela Igreja era baixa demais para alimentar duas bocas. Um bebê implicaria em refazer muitos planos, mudar muitas rotinas, sacrificar muitas coisas. No dia de ir à clínica improvisada no quintal da casa de um médico aposentado, o padre estava completamente certo de que aquela era a melhor opção.
A Igreja não se pronunciou oficialmente sobre o caso. Apesar das especulações da imprensa, a Santa Sé não emitiu nenhuma nota, nenhum comunicado, nenhuma bula. Naquele mesmo dia, médicos foram à tevê posicionar-se contra o aborto. Diziam que a Igreja interromperia uma vida por um simples capricho. Que poderiam dar mais tempo à ciência para compreender melhor o fato. Que era precipitado taxar aquilo de “aberração contra as leis de Deus” sem se perguntar mais profundamente no que aquilo poderia representar para a humanidade. Extra-oficialmente, a Igreja rebatia às críticas dos cientistas dizendo que Deus havia estabelecido a vida de uma maneira e só aquela maneira era considerada divina pela Igreja.
No dia 24 de outubro, dois meses antes do Natal, o aborto foi feito. O bebê pesava três quilos, era um menino e fez recender pela sala de cirurgia um forte cheiro de mirra e incenso. O único a chorar foi o padre. Todos os outros santos homens da Igreja comemoraram com vinho a vitória da fé sobre a ciência. Diziam que a lei de Deus, acima de tudo, se havia cumprido. Estranhamente, daquele dia em diante, todos os bebês passaram a nascer anencéfalos.
Mais uma semana em que não cumpri totalmente meu objetivo.
“A ponto de explodir”, do autor mineiro Sérgio Fantini, apresenta contos ágeis e por vezes bem curtos, daqueles que a gente lê em uma sentada. O efeito dessa concisão é devastador. E foi devastador também para minha meta: livros de conto dão a chance de pular algumas partes e ler só o que realmente interessa naquele momento. Não era minha intenção e por isso estou sendo honesto: pulei alguns contos, mas li quase todos.
Tive a oportunidade de conhecer Fantini em outubro de 2011, quando ele veio a Natal a convite do Jovens Escribas para ministrar uma oficina de contos dentro da Ação Potiguar de Incentivo à Leitura. Sua fala tranquila e seu jeito sem afetações destoa totalmente da linguagem que exibe em seus contos: direto, por vezes violento, sem meneios desnecessários, Fantini exibe personagens fortes e controversos, que nos dão uma boa visão sobre os tipos urbanos mais comuns dos dias de hoje.
A leitura é recomendadíssima por dois motivos. O primeiro: a linguagem livre, sem editorialismos, permite mergulhar fundo no universo do autor a cada nova história. O segundo: Fantini sabe contar histórias. E mesmo naquelas mais pós-modernas, em que o conto passeia apenas por uma cena, sem nos dar muitas informações sobre os personagens, não deixa a sensação de incompletude. Suas histórias, por mais pós-modernas que sejam, sempre têm começo-meio-fim. O cara sabe o que está fazendo.