Sou escritor, jornalista, publicitário e um dos fundadores da Editora Jovens Escribas. Já publiquei dois livros: o romance Lítio e a coletânea de contos A Cega Natureza do Amor. Aqui no PLOG escrevo sobre tudo. E até sobre nada.

[CRONIPOEMONTO] TÍBIA

Posted: março 3rd, 2010 | Author: Patrício Júnior | Filed under: TELESCÓPIO | Tags: , | No Comments »

É o osso do teu calcanhar tocando quase suave semi-rude no meu. Esse incômodo do qual tenho medo, recolho os pés, decanto o balé de nossas pernas sob os lençóis. É teu osso. Que não é bem do calcanhar, é um pouco mais acima, é aquele osso arredondado bem no fim da perna início do calcanhar. O que fica na mesma lateral do polegar. Arredondado, saltando de dentro da pele, como dizendo existo. Ressoando no meu osso a vida que corre em você dessa maneira pulsante, desnecessária, bem-vinda. Bem viva. Teu osso que tanto evito, que tomo cuidado, que fujo. Porque é como um alerta de que você existe. Por mais que eu finja às vezes esquecer que ao meu lado há outro corpo, que pela vida sou dois, que pelas estradas sempre terei uma mão instintiva ladeando a minha se por acaso a estendesse. Se por acaso necessitasse. Lá vem teu osso me alertar, quando nós sonolentos, que olha, estou aqui, supervivo em você, posso tocar teu osso do calcanhar quando bem entender. E não é encantador como se procuram nossos pés em meio ao morno das cobertas? Não é realmente intrigante que antes, nas infâncias do que éramos nós, estes mesmos ossos tivessem dificuldade em se bater? E não é realmente surreal que agora, maturados na falta de velocidade dos dias, se encontrem tão facilmente, sem dificuldades, quase como ensaiados? É a síntese perfeita do que é conhecer-se: sei exatamente, sem precisar de olhares, onde está o osso do teu calcanhar. E sei quando está ressecado, apertado pelos pisantes da luta diária por vencer na vida. E sei quando levam cremes para amenizar as rachaduras que você escondia por medo que denunciassem a falta de tua perfeição – como se acaso fôssemos perfeitos ainda estivéssemos juntos (posto que já sabemos, nessa luta de calcanhares diária, que a utopia da perfeição não sustenta a imprecisão da vida). Pisamos firmes, meu calcanhar, pisamos firmes pelos duros caminhos que perseguimos. Sabemos do amargo de alguns olhares, do descaso de alguns dias, da oscilação inevitável do que chamamos sentir. E nos puxamos sem covardias para os itinerários mais ensolarados. Estamos do mesmo lado desse cabo-de-guerra. Estamos, como dizíamos quando descrentes do que nos habitava, encantados. É o osso. O osso do teu calcanhar. Que toca no meu e me alerta. Não é dor. É puro sentir. Destilado sentir. É que se parecem muito.


[CRONIPOEMONTO]
PORCAS, PARAFUSOS & REJUNTES

Posted: novembro 26th, 2008 | Author: Patrício Júnior | Filed under: TELESCÓPIO | Tags: , | No Comments »

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Estava encostado na pia da cozinha olhando fixamente a parede de azulejos brancos – um pouco encardidos – e pensava justamente qual tipo de produto mágico teria o poder de limpar aquelas manchas amareladas dos cantos dos azulejos que eram iguais às pequenas machas amareladas que o tabaco lhe presenteara no canto dos dentes. A chuva podia ser ouvida através dos basculantes da porta da cozinha e também ouvia nitidamente o ranger dos parafusos da cama de metal que vazava por baixo da porta do quarto, sinais de que a vida habitando ali dentro ainda fritava no colchão em busca de sono enquanto ele seguia olhando fixamente os azulejos branco-amarelados como seus dentes que, como os parafusos frouxos da cama do quarto, rangiam sem que ele pudesse dar-se conta, frouxos que estavam seus parafusos, os da cama e também o de alguém muito louco que teve a genial idéia de colocar azulejos brancos numa cozinha – posto que as frituras, os cozidos e os assados dotavam estes gradativamente de uma coloração amarelada de gordura (ou de tabaco, no caso dos dentes, pensava, ao mesmo tempo percebendo que também havia um parafuso frouxo na mente que concebeu dentes brancos, posto que as frituras, os cozidos, os assados, e também o tabaco, lhes dotavam deste aspecto branco-amarelado semelhante a uma carta velha que se perde no desvão da memória). Uma carta velha. Jamais havia parado pra pensar como se assemelhavam a cartas velhas aqueles azulejos que já não cintilavam à luz fluorescente da cozinha, como pareciam contar notícias de frituras, assados, cozidos e tabacos do passado, o amarelo entranhado entre os rejuntes relembrando a todos as coronárias entupidas, os dentes amarelados, a perda de vida. De repente a chuva estava mais grossa, mas não conseguia abafar o ranger irritante dos parafusos frouxos – e também das porcas, pois costumamos culpar somente os parafusos, quando é sabido que nunca se afrouxam sozinhos. De fato, algo estava frouxo. Entre os rejuntes daquilo que soçobrava no ar entre a vida encostada à pia da cozinha e a vida fritando na cama de porcas frouxas: algo estava solto. Como uma carta que fala de coisas lindas e antigas, sim, uma carta velha e amarelada que adquire outro sentido depois de alguns anos. Havia algo solto entre as frases belicosas que tropeçavam dentes amarelos afora, caíam como azulejos no chão e saíam cortando tudo. Havia algo solto quando se deitavam na cama de ranger ininterrupto e se diziam boa noite. Havia algo solto, um parafuso, uma porca, estavam ambos desenroscados um do outro. Ou desenroscando-se. Pois o bolor que persistia na parede branca de alguma maneira fazia que os azulejos soassem como um só: o mesmo bolor dessas cartas antigas que muda seu significado mas, sem que percebamos, mantém nelas algum significado. Qualquer que seja. Afinal, que significam esses momentos em que penetramos no mais íntimo do todo e notamos que cada ínfima parte produz um equilíbrio sutil para soar, então, como um todo? O que significa, afinal, o significado das coisas? Era o que se perguntava ainda com os olhos nos azulejos, ainda com os ouvidos no ranger da cama, ainda com algumas palavras cravadas no peito como… cacos de azulejo?… pedaços de dentes?… gorduras amarelas? Estava entalado. Por dentro, por fora, estava entalado das palavras que ouviu, das palavras que não disse, das palavras que não conseguia entender o significado. Que significa pessimicerteza? Pois era o que sentia. A pessimicerteza de que os azulejos estavam pontiagudos, os dentes estavam tortos, a cartas estavam tão amareladas – mas tão amareladas – que já não se podia ler seus códigos. Um a um, frituras, assados, cozidos, todos foram perdendo o sabor de domingo. Eram uma segunda chuvosa. Mas enfim: era uma segunda chuvosa. Pois já passava da meia-noite, pois a chuva caía implacável, pois seus sentimentos estavam todos focados em uma única coisa: conseguir um produto de limpeza mágico que conseguisse tirar a sujeira entranhada entre os azulejos. Sabia que o rejunte não iria agüentar tanta merda.