Sou escritor, jornalista, publicitário e um dos fundadores da Editora Jovens Escribas. Já publiquei dois livros: o romance Lítio e a coletânea de contos A Cega Natureza do Amor. Aqui no PLOG escrevo sobre tudo. E até sobre nada.
Estamos vivendo uma era perigosa. Ou deliciosa. A era da superexposição. Amanhã, você pode ser o pivô da próxima polêmica na internet. Basta vestir uma saia curta e provocar uns neanderthais na universidade. Ou brigar pela prioridade de entrevistar um secretário de Estado. Ou fazer um escândalo na porta da casa do seu ex, pedindo que ele te devolva o chip. Em suma, basta existir. A internet fez com que qualquer um possa se transformar em celebridade instantânea. Não precisa nem de teste do sofá. No futuro, ninguém terá nem cinco minutos de anonimato.
A mais recente webceleb atende pelo nome de Coronel Marcondes Rodrigues. Este ilustre desconhecido é comandante da Polícia Militar do Rio Grande do Norte e seu mais notório feito até hoje foi dançar a intragável música “Mexa que é de ameixa”, do grupo potiguar Grafith. O coronel estava fardado, em cima de um palco, na formatura dos novos PMs do Estado. Como é de praxe, alguém filmou. Como é de praxe, caiu na internet. Como é de praxe, instaurou-se a polêmica da semana (do dia?, da hora?): como fica a reputação da PM após a dancinha do Coronel Marcondes?
Pra não me alongar no assunto, o baile de Coronel Marcondes não muda nada. Ele não foi, como alguns disseram, flagrado em uma dança sensual. Ele estava numa festa, num ambiente fechado, cercado de pessoas conhecidas e apenas agiu como um ser humano normal: dançou, no auge da alegria, calibrado ou não por algumas canjimbrinas. Isso não importa. O que o fato realmente deve levar a pensar é: e amanhã, será que o flagrante será com você?
A superexposição que a internet causa, obviamente, é o deleite de muitos internautas. Tem gente que reza pra abrir o computador de manhã e já ter acesso ao fato do dia: quer seja a estudante hostilizada da Uniban, quer seja o PM alegre do RN. Nossa ânsia pelas videocassetadas do dia-a-dia não se satisfaz apenas com o Faustão. Precisamos de mais. E tome ex-mulher de Ronaldinho transando na praia, nutricionista gaguejando em entrevista ao vivo, criança voltando dopada do dentista. Quando será que vai chegar a sua vez?
O mais interessante é perceber que nem sempre o flagrante de terceiros é o culpado por expor figuras ao ridículo. Tome-se como exemplo o caso do vereador natalense Paulo Wagner (PV-RN). Eleito em 2008 como vereador mais votado da cidade, Paulo Wagner protagonizou um pequeno escândalo na net esta semana: dirigindo-se ao enterro de um ex-companheiro de profissão, publicou em seu Twitter (@pwagner43) a seguinte pérola: “Tou indo pra Mossoro enterrar uma bicha que morreu era antiga no rádio virou purpurina [sic]”. Paulo Wagner poderia estar apenas confundindo o público e o privado, expondo na internet uma forma carinhosa de tratar um amigo.
Mas o que se seguiu a isso provou que não.
Ricardo Rosado, do blog FatorRRH, reproduziu o que Paulo Wagner publicou em seu Twitter. E foi aí que o vereador mostrou que a linguagem chula e a falta de decoro não são dispensadas apenas aos seus mais próximos. Em resposta ao post do jornalista, que – reafirmo – limitou-se a reproduzir o que o vereador havia escrito sem tecer nenhum comentário a respeito, veio uma enxurrada de impropérios no Twitter do representante do povo. Numa das
mensagens mais leves, Paulo Wagner dirigiu-se ao jornalista da seguinte forma: “Ricardo Rosado bicha da Holanda vai tomar no cu”. O “bicha da Holanda” foi uma alusão ao nome completo do jornalista, Ricardo Rosado de Holanda – um exemplo de como o nosso vereador domina bem as figuras de linguagem.
Em poucas horas, a mensagem foi retuitada inúmeras vezes, com críticas pesadas ao comportamento indecoroso do parlamentar. Ao ver o estrago, Paulo Wagner apagou as mensagens e se confundiu nas explicações: uma hora disse que havia perdido a senha do Twitter e que as mensagens não eram de sua autoria, outra hora pediu desculpas afirmando que errar era humano. Mas o esforço em se retratar foi em vão. A verdadeira face do vereador,. Que não sabe a difedrença entre linguagem popular e linguagem de baixo calão, já tinha vindo à tona. Num caso clássico de flagrante internético provocado por si mesmo.
Como podemos ver, a era da superexpsoição tem suas vantagens.
Eu concordo com a lei antifumo. Ipsis litteris. Acho, inclusive, que deveria se estender a todo o país. Com benefícios coletivos inumeráveis. Por exemplo, os não-fumantes não vão se incomodar com a fumaça, os fumantes vão se envenenar menos e todo mundo vai sair ganhando nessa história. Ponto.
Dito isso, passemos ao que realmente importa.
Esta manhã, fiz a seguinte postagem no Twitter: “Quando me dizem ‘eu odeio fumantes’ sinto vontade de responder ‘eu odeio gordos’”. Obviamente, não odeio gordos. Mas a frase, por sua concisão e contundência, dá margem a diversas interpretações. Principalmente as erradas. Por isso, me dou ao direito de estender o tópico.
Não gosto de ouvir “odeio fumantes” porque sou fumante. Me incomoda saber que todos são colocados no mesmo bolo e tratados como mal educados que saem baforando suas fumaças independente de quem está respirando ao seu lado. Eu tomo cuidados. Para não incomodar os outros, para não ficar fedendo, para não deixar que o fato de ser fumante seja a principal característica da minha personalidade. Já imaginou? “Fulano? Ah, é inteligente, fumante, engraçado”. Não, não gosto de generalizações. E sou fumante mas sou limpinho.
Essa sentença, dita com tanto orgulho por alguns não-fumantes, é hipócrita. “Odeio os fumantes porque eles fedem”. Bom, eu não fedo, apesar da lógica dizer que eu deveria feder. Veja bem: gordos suam mais e, portanto, têm maior probabilidade de exalar maus odores. Seria justo dizer “odeio gordos porque eles fedem”? Não, meus amigos, seria cruel. E desnecessário. “Odeio fumantes porque eles me incomodam”. Apesar de sentir vontade de dizer “os incomodados que se retiram”, não serei infantil a tal ponto. Direi apenas que pedintes nas ruas me incomodam. E não os odeio. E até mais: direi que você, leitor, provavelmente faz algo que me incomoda profundamente. E não te odeio.
Depois vem toda a desinformação característica de quem quer ser o dono da verdade. O cigarro é um problema de saúde pública. Por mais que, teoricamente, a venda de cigarros cubra os gastos públicos com tratamentos de câncer e outras mazelas, se houvesse menos problemas de saúde decorrentes do tabagismo o imposto gerado pela venda de cigarros poderia ser empregado para salvar a vida de pessoas que não estão se autoinfligindo doenças. Como a realidade não é essa, o Governo intervém. Não porque quer garantir o direito de você, não-fumante, sair da balada com o cabelo cheiroso. Nem muito menos porque quer perseguir os que gostam de acender seus caretas. O Governo intervém porque precisa equilibrar as contas. Tudo se resume a dinheiro.
A obesidade também é um problema de saúde pública. Milhões são gastos no SUS com malefícios que advêm desse péssimo hábito (doenças cardíacas, cânceres, hipertensão, etc). Houvesse menos obesos mórbidos ou sedentários, sobraria mais dinheiro para tratar pessoas que não estão ficando doentes porque querem. Simples assim.
Não estou defendendo a restrição dos direitos dos gordinhos. Nada disso. Entendo perfeitamente que no aspecto da saúde pública a obesidade e o tabagismo guardam diferenças gigantescas (a principal delas, a meu ver, é que quando somos pequenos nossas mais não ficam o tempo todo repetindo “fume esse cigarrinho todinho senão fica sem sobremesa”). Mas no aspecto social, podemos sim comparar as duas facções. Fumantes e gordos estão unidos.
Gente mal educada tem de todo tipo. Fumante, não-fumante, gordo, anoréxico. Mas, por mais desagradável que seja ter que compartilhar espaços com pessoas de diferentes características, o caminho do ódio só leva a uma coisa: recíproca (essa você já sabia, tenho certeza, falei só por falar mesmo). Posso listar inúmeras razões para odiar não-fumantes. Mas eu gosto deles. Afinal, se todo mundo fumasse, ninguém tentaria me livrar desse hábito terrível que assumo sem nenhum prazer.
>>>>>>>> Patrício Jr, Thiago de Góes, Carlos Fialho e Daniel Minchoni: lançamento do JE em São Paulo
Era 2004 e eu recebi um telefonema meio estranho. Carlos Fialho me chamando pra uma reunião. Tinha uma idéia pra me contar. Éramos então não mais que meros conhecidos. Em comum, apenas alguns amigos. Pensei sinceramente: o que esse playboy quer comigo? Mal sabia eu que Fialho não era playboy. E estava falando sério quando dizia que tinha uma idéia.
A tal idéia se chamava Jovens Escribas. E a tal reunião foi entre eu, ele e Daniel Minchoni (Thiago de Góes, do qual dizíamos que era um amigo imaginário de Fialho, só apareceu de verdade algumas semanas depois). Esmiuçando a idéia: ele queria se reunir conosco para criar uma coleção de quatro livros, cada um assinado por um de nós. Topamos.
E então foi pesquisar sobre leis de incentivo, papel pra livro, tipos de capa, formatos, distribuição. No meio do caminho, percebemos que aquilo que estávamos fazendo poderia ser maior. Poderia ir além de uma coleção de quatro livros. Poderia ser algo realmente grande. A maior coisa que todos nós já tinham feito na vida.
Assim, marcamos uma reunião na AS Livros. Chamamos todos os amigos, colegas e conhecidos que sabíamos que escreviam. Estavam presentes umas 30 pessoas. Falamos sobre a idéia de começar a publicar autores inéditos, de mudar a forma como se consumia literatura no RN, de ir além. Alguns acreditaram, outros não.
Pois bem, a idéia maluca está completando 5 anos. E foi coroada com o lançamento de “Mano Celo”, terceiro livro de Carlos Fialho e décimo livro do Jovens Escribas. A coleção de quatro exemplares virou selo literário. Já fomos pra grandes eventos de literatura, já lançamos livros em São Paulo, já percorremos muito chão. Abaixo, você tem um vídeo que conta um pouco dessa história. E se um dia um playboy te ligar com uma idéia maluca, pare pra ouvir. Pode mudar sua vida.
Ps.: Receber a ligação de Fialho hoje me passando o link desse vídeo foi especialmente marcante. Estou finalizando meu segundo livro, o 11º do Jovens escribas. Chama-se “A Cega Natureza do Amor” e deve ir pra gráfica amanhã. Lançamento em julho. Fez todo o sentido repassar a nossa história hoje.
Eu quero ir pra Rancagua. Aliás, eu tenho que ir pra Rancagua. Há diversos e infinitos motivos para querer conhecer essa cidade. Um deles é que ela se localiza no Chile, um dos países mais legais da América do Sul. Mas a principal razão para querer gastar todas as minhas economias em Rancagua é que ela foi uma das cidades-sede da Copa do Mundo do Chile, realizada em 1962. Só isso já é motivo suficiente para largar tudo e ir pra lá.
Por ter sido subsede de uma Copa da FIFA, Rancagua deve ser uma cidade moderníssima. Deve ter VLT, metrô, trânsito perfeito, ruas sempre limpas, aeroporto internacional, zero de analfabetismo, zero de mortalidade infantil, zero de prostituição. Rancagua deve o ser o paraíso. Já posso antever minha chegada à cidade, desembarcando num dos aeroportos mais modernos que já conheci, para ser saudado por gente educada e bem nutrida, que não enfrenta problemas comuns ao terceiro mundo como tráfico de drogas, violência urbana, fome, corrupção e falta de saneamento básico. Mas lá não. A Copa colocou definitivamente Rancagua no mapa das grandes cidades do mundo. Que subsede, gente, que subsede!
Você já deve ter ouvido falar dessa cidade-modelo, com certeza. Afinal, uma subsede de Copa do Mundo entra definitivamente para o imaginário popular como um El Dorado de perfeição e desenvolvimento. Rancagua faz parte de um roteiro turístico disputadíssimo de cidades-sede da Copa, exaustivamente divulgado e internacionalmente conhecido. E disputa atenções do mundo inteiro com outras cidades-sede como Toluca, Middlesbrough, Ibaraki, Valladolid, Norrköping, Gelsenkirchen e sua maior concorrente nesse multimilionário mercado turístico: Busan, na Coréia do Sul. Você já deve ter ouvido falar de Busan. Tenho certeza.
Ah, como eu quero deslizar macio pelas ruas de Rancagua, no seu asfalto sem buracos, sem imperfeições, sem engarrafamentos. Como eu quero passear pelos parques da cidade, desfrutar da vista panorâmica que a torre de Oscar Niemeyer propicia. Claro que deve haver uma torre com vista panorâmica assinada por Oscar Niemeyer em Rancagua. Afinal, toda cidade realmente desenvolvida tem uma torre com vista panorâmica assinada por Oscar Niemeyer.
Nos fins de tarde, vou passear pelas praias urbanas de Rancagua e ver como a Copa do Mundo de 1962 trouxe à cidade um amplo entendimento de que aquilo deve pertencer aos moradores de lá e não aos turistas. E vou notar que não há prostituição infantil, nem tráfico de drogas, nem conivência das autoridades com delitos que mancham a paisagem de Rancagua com vergonha e pedofilia e exploração sexual e subserviência ao poder do euro.
Antes de sediar uma Copa, imagino, Rancagua deveria ser um caos. Trânsito estrangulado, disputas inócuas pelo poder, prefeitura inoperante, gente que se importava muito mais com a aparência do que com a essência. Mas depois da Copa de 1962, nossa, tudo deve ter mudado. Buracos foram extintos das ruas, favelas foram 100% urbanizadas, a cidade como um todo foi beneficiada pelo frenesi que tomou conta da região em pouco mais de um mês de Copa do Mundo.
Ah, sim, e o estádio! Nossa senhora, que estádio! O antigo Tenientón deve ter sido substituído pelo suntuoso Estádio El Teniente, numa obra faraônica que foi uma das principais responsáveis por elevar a cidade a um dos centros mundiais do esporte bretão. Crianças, jovens, adultos, todos devem ter sido tomados pela alegria efusiva e incontrolável de ser uma subsede. E completamente envoltos por esse sentimento, passaram a praticar esportes todos os dias, sem tréguas (sábados domingos e feriados inclusos), para elevar a população de Rancagua ao posto de povo mais saudável do planeta. Tomara que tenha alguma partida do América de Rancagua contra o ABC Rancaguense. Seria realmente inesquecível.
Já comprei minhas passagens. Ninguém me segure. Vou passar férias em Rancagua de qualquer jeito. E se por acaso eu não voltar, não se preocupe, é normal. Dizem que os gringos costumam ficar por lá. Não deve ser pelas mulheres fáceis, nem pela vista grossa das autoridades a delitos leves como prostituição infantil, nem muito menos pela falta de fiscalização sobre o que entra e sai do país através do aeroporto da cidade. Deve ser pelo ar. Dizem que Rancagua tem o 2º ar mais puro das Américas. Você já deve ter ouvido falar disso.
O Vaticano lança nesta quinta, 21 de maio, uma rede social integrada ao Facebook para aproximar os jovens da Igreja. O portal Pope2you (algo como “o Papa para você” escrito de forma moderninha) é um esforço da Santa Sé em se adaptar aos novos tempos, buscando através da interatividade um aumento de sua participação junto ao público jovem. Mais ou menos como a Coca-cola, o McDonald’s e o Marlboro já fizeram há algum tempo. Só que desta vez é tudo em nome de Deus.
Pensando bem, faz todo o sentido a Igreja usar do benchmark para tentar voltar a ser competitiva. Eles já vêm fazendo isso há anos. A saber: benchmark é o processo de se espelhar em uma marca bem sucedida para ser como ela.
A Igreja fideliza seus clientes através da coerção, usando o medo do inferno como argumento para manter todo mundo ao seu redor. É como faz o McDonald’s: por mais um real aceita a batata grande? E aí você sente medo de ter fome mais tarde e diz sim. Além disso, tem os combinados: hóstia + bênção por apenas um dízimo (e você ainda pode se confessar se já tiver a crisma). É como a promoção nº 1 do McDonald’s. Mas na missa ninguém pode escolher entre batata e nuggets. Só tem o pão nosso de cada dia mesmo.
Da Coca-cola, a Igreja copiou os slogans que prometem felicidade eterna. Algo como “viva o lado católico da vida”. E tome emoção pra valer: gente feliz, cantando empolgada, entregues ao júbilo da vida. Não, não é uma propaganda de refrigerante. É uma celebração das mais carismáticas, se é que você me entende.
Agora, a arte de conseguir o cliente desde novinho (porque depois que cresce, ele não consegue mais se livrar daquele vício) não foi a Igreja que copiou do Marlboro. Foi ao contrário. Há milênios o Vaticano faz o que a indústria de cigarros só descobriu na década de 80: quanto mais cedo você fuma o seu primeiro cigarro, mais tempo você será consumidor. Substitua “você fuma seu primeiro cigarro” por “você é batizado” e pronto: está aí a estratégia de marketing de fidelização mais bem bolada de todos os tempos. E nem venha me dizer que a Igreja não mata como o cigarro, que eu vou começar a falar da Santa Inquisição e aí esse papo vai longe.
A Igreja não precisava estar na internet para se modernizar. Bastava acabar com algumas pragas de seu idealismo que só contribuem para atrasar a vida. Condenar a camisinha, por exemplo. O Papa não deveria tentar mandar nos órgãos genitais dos outros. Ora, se eu envolvo ou não meu pênis com um pedaço de látex, Deus não tem nada a ver com isso. A Santa Sé deveria, isto sim, controlar os membros de seus asseclas, que andam por aí fornicando – com ou sem consentimento – com crianças, adultos, porcos, galinhas, portas, buracos na parede e quem mais der bobeira. Puxa vida, se a Igreja não consegue fazer com que seus padres deixem de estuprar criancinhas, que ao menos impeça que as criancinhas molestadas sejam contaminadas por mazelas como sífilis, gonorréia, cancro mole e aids.
O Papa pode criar zilhões de redes sociais, fazer avatares pro MSN, gerar scripts catequizadores pro Twitter, colocar no ar um Orkut, um blog, um canal de vídeos no Youtube. Enquanto a Igreja Católica continuar com seu complexo de Deus, achando que é onipresente-onisciente-onipotente, ela continuará presa à Idade Média. E a Idade Média, como todos sabem, é a Idade das Trevas.
De: Patrício Júnior
Para: dep.sergiomoraes@camara.gov.br
Data: 12 de maio de 2009, 09:16
Assunto: Não me lixo
Eu não me lixo para vossa excelência. Nem me lixarei. Não, jamais. Sua declaração, ao invés de despertar em mim a ira da vingança, a vontade de dizer “a recíproca é verdadeira”, fez com que eu acordasse para sua tentativa de colocar a responsabilidade pela crise moral política que vivemos nas costas da imprensa. Não me lixo para vossa excelência. Pelo contrário. Agora, estou atento aos seus passos, vigilantes aos seus deslizes, mais interessado em vossa excelência que qualquer um.
Acusar a imprensa de publicar somente inverdades é uma clara tentativa de desviar o foco e confundir a opinião pública – essa mesma para qual o vossa excelência se lixa. A imprensa, assim como o Judiciário, está fazendo esse país andar. Ambos assumiram o papel que deveria ser do Legislativo – fiscalizar e legislar, respectivamente. Há jornais tendenciosos, sim. Há revistas irresponsáveis, sim. Mas são o mal necessário de uma democracia e vossa excelência, como representante do povo eleito através de um sistema democrático, deveria saber que não há povo livre sem imprensa soberana.
Vossa excelência, com sua empáfia na tribuna, vociferando que foi ameaçando por uma jornalista, não percebeu que não tem o direito de responsabilizar a imprensa pela falta de moral de seu bando. Bando sim. E mais: depois, amansado pelas lentes da Globo, falou baixinho, deu explicações, tentou consertar o que não tinha conserto – será mesmo que vossa excelência se lixa para a opinião pública?
Eu espero que nas próximas eleições a opinião pública se lixe para vossa excelência. Mas até lá, que a opinião pública esteja colada em seus atos, presente em cada um de seus deslizes, disposta a pegar vossa excelência com a boca na botija. Que vossa excelência não tenha mais um dia sequer de sossego, acossado, amedrontado, sufocado pela força dos que não têm importância para vossa excelência. Depois disso, aí sim, poderemos nos lixar. Ostracismo, é o que vossa excelência merece.
Discurso de Sérgio Moraes
Sérgio Moraes tenta se explicar
Envie você também um e-mail para Sérgio Moraes:
dep.sergiomoraes@camara.gov.br
E depois, claro, publique aqui nos comentários.
Por alguma circunstância inexplicavelmente benéfica ao seu futuro, você ganhou entradas VIPs para uma festa. VIP mesmo. Pulseirinha com cores fosforescentes, camiseta com logomarca de cerveja ou até mesmo carimbo no pescoço que só aparece sob a luz negra: não importa como seu eu foi apartado do resto da multidão e erigido ao topo da cadeia alimentar das baladas. Só importa uma coisa: você é VIP.
A primeira coisa a fazer é escolher a roupa. Tenha em mente uma verdade irreversível: os VIPs são sempre VIPs. O que leva à seguinte conclusão: por mais que esta balada tenha todas as potencialidades para ser a melhor da sua vida, não vá vestido como se não houvesse amanhã. Tente um visual (juro que quase escrevi look, juro) que equilibre elegância e despretensão. Traduzindo: não vá vestido como se fosse a primeira vez que sai de casa, muito menos como se estivesse indo a um churrasco na laje do Waldécio de Dona Nena, aquela de Seu Juvenal de Creusa, que casou com Toinha antes de engravidar Jerusa do armarinho de Tota. Enfim: esqueça, ao menos uma vez na vida, que você é pobre.
Outro cuidado que você deve ter com a indumentária (juro que quase escrevi look), é fazer com que o símbolo máximo de seu apartheid baladístico esteja à mostra, bem visível, independente dos acessórios que você usar. Portanto, se vai colocar bijuterias, use apenas em um dos braços. O outro deve estar livre para a pulseira VIP. Se vai usar camisa de manga longa, arregace-as. O importante é que todos vejam (do segurança da área VIP ao vendedor do carrinho de cachorro-quente que você vai jantar) que agora você não é como o resto do mundo. Você é uma very important person.
Ao chegar na tal balada, é bom ter em mente que os VIPs entram por outra porta. Então nada de entrar na fila comum perguntando se estão distribuindo sopão. Deixe essa piada infame pra fazer semana que vem, quando você tiver que se acotovelar para conseguir entrar na feijoada de Dodô no Clube de Mães. Esta noite, tudo será diferente. Entre pela porta VIP. Geralmente, não há filas. Mas se houver, não entre nela jamais. Parafraseando Veríssimo, VIP que é VIP nunca entra numa fila. Seguindo os passos da etiqueta vipística, você fica por ali por fora, vendo e sendo visto, bebericando de sua vodka ice (que foi 7 mangos no posto vizinho ao cachorro-quente de Tota) enquanto torce para que seja open bar e você não tenha que se desfazer dos cinco contos que lhe restam.
Quando não há mais resquício algum de aglomerações, você se dirige à entrada VIP. O segurança olha pra você como se te conhecesse, mas você ignora. Claro. Os VIPs não cumprimentam seguranças, muito embora este seja Eunapiano, neto de Jerusa, filho de Nina com Seu Irineu. Você ignora.
Claro que você não entra na festa diretamente na área VIP. Não teria graça nenhuma. O bom é dar uma circulada mostrando sua pulseirinha pra todo mundo, como dissesse “reles mortais, na hora do empurra-empurra estarei bem longe da sub-raça que vocês representam”. A melhor forma de dizer isso sem precisar efetivamente dizer é ser simpático com os VUPs (very unnecessary people). A simpatia dos VIPs com os VUPs é semelhante às cestas básicas que os podres de rico distribuem aos mais necessitados no Natal enquanto ceiam uma costela de vitelo com couscous de trufas brancas: é repleta de uma complacência que diz “ajudo” e “fique longe de mim” ao mesmo tempo.
Depois dessa circulada, você finalmente vai pro camarote. Ah, tinha esquecido de dizer, camarote é a tradução pro português de VIP area. Mas pode significar muitas outras coisas. O que você entra pode ser apelidado, por exemplo, de fábrica da Matel. É, amigo, na área VIP ninguém tem a personalidade glútea de Juciara, nem as curvas de Jecylésia, muito menos os cachos fartos de Ralyssa Maiara (aquela de Seu Juvenal, que casou com Toinha antes de engravidar Jerusa do armarinho de Tota). Todas as mulheres do camarote são exatamente iguais: cabelos esticados e loiros, vestidos presos por um cinto grande, costas nuas, sorrisos de plástico. Não que elas sejam ruins. Não mesmo. Enquanto depositórios de esperma, funcionam perfeitamente – e ainda têm a vantagem de ser mais quentinhas do que uma boneca inflável. Quanto ao resto, não espere mais delas que das supracitadas bonecas: o que preenche a cabeça de ambas é exatamente a ausência da mesma coisa.
Circulando entre elas, você começa a se animar. Obviamente, elas exalam para suas narinas o feromônio do pecado, o ardiloso odor da volúpia, o insensato torpor da periquita em chamas. Mas sua excitação dura pouco quando você nota que as Barbies nunca ficam com o Senhor Batata: elas querem mesmo é o Ken. Que são, também, todos iguais: malhados, cabelos partidos no meio, camisetas coladinhas, calças da Gap. Você, definitivamente, não está nesse grupo. Mas nem é por sua barriguinha de chope, nem por seu corte de cabelo fora de moda (quase escrevi old fashion, quase). O que definitivamente coloca você para fora do Clube do Ken é sua camiseta da Riachuelo.
Desiludido com as bonecas infláveis, você decide beber. Eis, então, o primeiro grande percalço da noite. Você não pode chegar no bar e simplesmente perguntar se a bebida é de graça. Que humilhação! Seria como assinar um atestado de liso (pré-impresso na sua camiseta). Então, você faz o caminho mais inteligente: se aproxima do garçom e, como se estivesse prestando atenção em outra coisa mais importante que comprar uma dose de uísque, pergunta quanto custa a garrafa do 12 anos. Veja bem, a garrafa. O garçom olha instintivamente para a sua camiseta (porque a futilidade das grifes não acomete apenas aos ricaços) e, sem acreditar que você tem dinheiro para pagar sequer por um copo d’água, responde: “Hoje é open bar”.
Fogos espocam em seu cérebro, tambores rufam em seu peito, seu olhos lacrimejam espontaneamente, você diz a si mesmo que nunca mais voltará a se acostumar com o sabor do rum Montila. E então, contendo a emoção, você faz um ar blasé e fala sem notar que uma lágrima já desce por suas maçãs: “Me dá um uísque com energético”. E já completamente tomado pelo frenesi, acrescenta quase num muxoxo de dor: “12 anos, viu?”.
O que acontece nas próximas horas é um misto de apresentação de balé contemporâneo e concentração do bloco Filhos de Gandhi. Resumindo: você se joga. Em menos de uma hora, você já passou do uísque-com-energético para o zuísgue-gom-enerzédigo. Isso depois de: cair por cima de um grupo de meninas que requebrava ao som do tuntz-tum (duas vezes); fazer o garçom derrubar uma bandeja de copos sujos sobre um Ken que sorria faceiro a outro Ken (duas vezes); usar o banheiro feminino intrigado com o fato de todos os homens, de repente, mijarem sentados e gritarem escandalosamente ao te ver (cinco vezes); fazer amizade com uma pilastra e comentar ironicamente o fato dela ignorar suas perguntas mas, contraditoriamente, não sair do seu lado (10 vezes). A vida é uma festa. Mas na terceira vez que você esbarra no garçom e o líquido azul do copo longo voa pelo ar, seu destino nesta balada VIP muda completamente.
O drink voa diretamente a um casal que se beija encostado na parede. Você pensa rápido e resolve impedir que o incidente destrua o penteado da pobre garota (que, certamente, faria um escândalo ao ver sua escova arrasada, fato que culminaria em sua expulsão da boate). Você se joga em direção ao copo – com os braços juntos para diminuir o atrito do ar com seu circunférico ser – e num giro olímpico que deixaria qualquer Diego Hypólyto roxo de inveja, você rebate o copo no ar e desvia sua trajetória. O líquido se derrama sobre as lisas madeixas do rapaz. Que, ao perceber seus cachos de Maria Betânia emergirem de uma escova destruída, faz um escândalo.
Deitado no chão, com o bico de papagaio latejando, você tem certeza de que ele ficou melhor de cabelos encaracolados. Antes era a cara Senhor Miyagi, agora está que nem o Cauby Peixoto. Mas antes que seu raciocínio possa ser vebalizado, seguranças invadem o camarote. As pessoas VIPs parecem apontar pra você e dizerem “está ali o representante dessa sub-raça”. Você é erguido por um rapaz que você tem certeza que já viu em algum lugar. Na porta da boate, você lembra o nome dele. E grita: “Eunapiano, neto de Jerusa, filho de Nina com Seu Irineu”. Antes de chutar seu traseiro, ele sussurra cruelmente em seu ouvido: “Eunaciano, panaca”.
Bêbado, caído no chão, sentindo o gosto de terra, sem forças para se levantar (um farrapo humano, enfim), você acaricia a pulseirinha VIP que ainda repousa em seu braço. E sorri. Porque é muito bom ser VIP.
A cada década, resgatamos algo de 20 anos atrás. Comecei a esboçar essa teoria quando me deparei, no início dos 2000, com as Festas Anos 80. Previ, então, num comentário perdido em um dos reboots do blog de Marlos Ápyus, que logo mais estaríamos mergulhando nos revivais dos anos 90. Eu mesmo não levava a previsão muito a sério. Até que chegamos em 2009.
Talvez você não tenha percebido, mas uma silenciosa conspiração vem sendo articulada meticulosamente desde que a primeira Festa Anos 80 não bombou. Naquela noite de pouca gente e muito prejuízo, os mestres do revival começaram a pensar em como trazer os anos 90 de volta. Suas ações covardes incluíam renascer a calça corsário, fazer um remake de Barrados no Baile e, covardia das covardias, renascer das cinzas do ostracismo a boyband Backstreet Boys. Todas as etapas do plano maquiavélico, como você pode ver, foram executadas com sucesso.
A calça corsário voltou disfarçada de legging, com a moderninha cantora Kate Perry sendo a embaixatriz da nova velha moda. O canal Warner já exibe desde fevereiro o remake de Barrados no Baile, rebatizado nesses tempos de internet com o superbadalado nome de “90210” (em alusão ao título em inglês do original, “Beverly Hills 90210”). Por fim, o Backstreet Boys está de volta, inclusive com turnê pelo Brasil (dois shows, um no Rio e outro em São Paulo, ainda esta semana). O terreno, perceba, está preparado para a década de 90 voltar com tudo.
O meu temor vem do fato de que esses revivais sempre resgatam o mais pobre da produção cultural da época pseudo-homenageada. Vide Festas Anos 80. Você realmente acha que naquela década só se ouvia Menudos e Balão Mágico? Ora bolas, eu que era criança já ia além disso. Tinha Depeche Mode, R.E.M., U2; tinha Plebe Rude, Capital Inicial, Paralamas. Ah, e Legião Urbana tinha mais músicas que “Ainda é cedo” e “Que país é esse?”. Não posso sair desse parágrafo sem agradecer a meus irmãos mais velhos. Graças a eles não me resumi a um acéfalo fã de Xuxa.
Porém, vivi bem mais os 90. Com o grunge sujando a cena rock que andava bem mulherzinha no final dos 80. Com a eletrônica quebrando os paradigmas da forma de desfrutar a música. Com o underground vindo à tona como há anos não acontecia. Eu ouvia – e temo que ainda ouço – Nirvana, Stone Temple Pilots, Pearl Jam (“Ten” continua sendo um dos melhores discos de todos os tempos), Blur, Green Day, Radiohead (e como eu rasgava a garganta no refrão de “Creep”). Eu ouvia Cramberries, Garbage, No Doubt (“Tragic Kingdom” está todinho no meu iPod), Smashing Pumpkins, Björk (quem delirou com a primeira audição de “Debut” que levante o braço). Eu ouvia O Rappa, Planet Hemp (“quem é que joga a fumaça pro alto?”), Chico Science, Cássia Eller, Raimundos (“foi num puteiro em João Pessoa, descobri que a vida é boa, foi minha primeira vez”). Mas nem se anime: com exceção de um hit ou outro que tocou até a exaustão nas rádios, pouca coisa desse pessoal será resgatada. Ao invés disso, teremos, isso sim, uma enxurrada de música muito ruim – que sim, eu também ouvia, não vou bancar o erudito; mas nunca pensei que iria pagar tão caro por esse crime sendo atormentado por um resgate delas anos depois.
O primeiro grito de “uhuuuuu” que você vai ouvir ao entrar na Festa Anos 90 vai ser quando o DJ (algum ex-locutor da Transamérica, com certeza) colocar “Barbie Girl” da – graças a Deus –esquecida banda Aqua. Vai ser um tal de meninas com calça corsário cantando umas pras outras “I’m a Barbie girl, in a Barbie world” que não tá no gibi. Depois desse começo efusivo, claro, o DJ vai encaixar algum sucesso pegajoso do Ace of Base (que foi uma espécie de ABBA dos anos 90). Pra resgatar em grande estilo o início da década, teremos ainda Double You (implorando “Please, don’t go, don’t goooooooooooooo”), o gaguinho Scatman (e a primeira música pleonástica da história da cultura pop, “I’m a scatman”) e Vanilla Ice com seu “Ice ice baby”. Em seguida, como de praxe, dois itens que não podem faltar em nenhuma Festa Anos 90: Hanson (“mmmmm bop”) e Spice Girls (“I wanna ha, I wanna ha, I wanna ha, I wanna zig zig zig zig zig zig ah”). Pra finalizar a noite, depois que todo mundo perder a vergonha e se entregar ao saudosismo nosso de cada dia, o DJ dará seu golpe de misericórdia: É O Tchan, Negritude Jr. e Molejo animarão a noite de grandes clássicos da década até o sol raiar.
É preciso dizer que não estou inventando moda. A tão temida balada já acontece prematuramente desde o ano passado em algumas cidades do Brasil sob a alcunha de “Festa Barrados no Baile”. Pra vocês terem idéia da gravidade real dessa ameaça, o termo “festa anos 90” tem 296.000 ocorrências no Google, quase metade das ocorrências para “festa anos 80” (que soma 759.000).
Mas ainda é só o começo. A Warner já anunciou um remake de “Melrose Place”, série derivada de “Barrados no Baile” que também fez um sucesso danado naqueles tempos. O xadrez, mesmo tendo sido a estampa do Santo Sudário de Kurt Cobain, voltou com tudo para as lojas. A Globo fez a séria ameaça de trazer de volta pra sua grade de programação o extinto “TV Colosso”. E Fernando Collor de Melo – aquele que tinha aquilo roxo, lembra? – foi eleito essa semana presidente da Comissão de Infra-estrutura do Senado, responsável pela organização da pauta de votação das solicitações de verbas a serem incluídas no PAC. Os anos 90 estão mesmo de volta. E, como toda década, não traz apenas boas lembranças.
Eu tenho medo, muito medo, medíssimo de me tornar obsoleto. Não tenho vergonha de admitir. Quando começaram a falar de blog, eu não sosseguei enquanto não descobri que porra era isso. Era um tal de “li no blog de Fulano” pra cá, “li no blog de Sicrano” pra lá. E eu pensava: existem pessoas normais gerando conteúdo pra web? (claro, eu não pensava exatamente assim, porque a expressão “gerar conteúdo pra web” ainda não era popular naquela época).
Com a popularização da internet, mais e mais novidades passaram a surgir todos os dias. Veio Fotolog, Orkut, Facebook, e-Mule, torrent. E eu segui a maré: criei perfis, interagi, postei, compartilhei, baixei. Até que surgiu o Twitter.
Ponto. Parágrafo.
Amigos, o Twitter me intriga há meses. Pelo que pude entender, trata-se de um serviço de postagens que mistura Orkut e blog: você gera conteúdo como um blog, mas cria uma rede de relacionamentos como o Orkut. A diferença é que esse conteúdo gerado não ultrapassa o limite de 140 caracteres por postagem. Como limite de caracteres não é bem a minha praia (quem acessava a primeira versão do PLOG lembra muito bem que esse terrível sistema do TheBlog me fazia sofrer ao ter que editar textos para caberem no número máximo de 400 toques), eu relutei em aderir ao Twitter.
Não só por isso, claro. Sempre pensei que os serviços da internet só fazem sentido quando têm uma utilidade. Alimentei o Fotolog, portanto, até quando me foi útil. Depois, perdeu a graça. O Orkut e o Facebook têm me servido a contento para manter-me próximo de amigos distantes e fazer eventuais divulgações. Então, mantenho. O blog, nem se fala, é meu xodó. Através dele, conheço pessoas interessantes, descubro novidades, difundo idéias mil. Torrent e e-Mule, tadinhos, são meus vícios atualmente (um amigo até brinca dizendo que a qualquer hora homens de preto invadirão meu apartamento para apagar minhas memórias). Mas o Twitter… bem, eu não via utilidade alguma naquilo.
As pessoas postam coisas como “O 4º episódio é o melhor da 5ª temporada de Lost. Até agora” e pronto, acabou o post. Sem nenhum dado a mais, nenhuma possibilidade de comentários, nenhuma fotinha pra quebrar o gelo. Eu realmente achava uma perda de tempo total.
Mas quando estreei o novo PLOG, em 1º de janeiro, o amigo Sandro Fortunato me alertou por MSN do importante que seria ter um Twitter. Quando perguntei o porquê do alerta, ele não me deu argumentos plausíveis, sequer provas cabais. Apenas disse: just do it. Não acreditei no Fortunato e segui com minha relutância. Hoje, porém, acordei com vontade de twittar. Não sei o que me deu. De repente, criei meu perfil no Twitter, iniciei as postagens de até 140 toques, linkei no PLOG (criando a seção NANOSCÓPIO) e estou bem. Sim, juro que estou. E vale salientar: foi tudo tão rápido e fácil que nem parecia internet.
Marlos Ápyus, atendendo ao meu apelo, postou hoje o texto PRA QUE DIABOS SERVE O TWITTER?, no qual responde à questão que a maioria dos usuários não consegue responder. No meio do texto, Ápyus resume: o Twitter é um blog para pessoas sem tempo de escrever longos parágrafos. Isso é verdade. Muitas vezes, quero compartilhar apenas um link e dizer: olha, que ducaralho. No formato do meu blog, isso não é possível. Temos que criar títulos, adicionar tags, escolher a coluna, colocar fotos. Tudo isso, amigo, leva tempo. Com o Twitter, esse tipo de postagem se torna mais ágil. Além disso, o Twitter dá a possibilidade de postagens através de SMS. De onde quer estejamos. Em tempo real. Tem outras funcionalidades também, mas ainda não descobri completamente.
O fato é que não vou ficar obsoleto se depender do meu desejo. Mas espero, sinceramente, que outra novidade do tipo demore a surgir. Venho gerando conteúdo demais pra essa tal de web.
Ps.: A postagem do Twitter citada acima, com todo o respeito, foi de Marlos Ápyus.
Cadê todo mundo? Aquele ruído logo cedo, banhado pela luz dourada que vazava das persianas, de conversas baixas porque ainda tem gente dormindo? Onde foram parar os pedidos de silêncio pra não incomodar os vizinhos, a correria na hora de sair porque tem muita gente pra usar o banheiro ao mesmo tempo, o cheiro de comida para muitos? Ah, aquela comida para muitos, que cheira tão diferente do sanduíche solitário com os olhos vidrados no jornal da tarde. Cheiro de quê? De vida, será?
Na sala, ainda tem o perfume da vó. Sentadinha no sofá, esperando a novela das oito sem atentar que estava no canal errado. E de vez em quando sorrindo das pornografias dos mais jovens, como se finalmente pudesse permitir-se, livre que está do fardo de ser a mãe. Porque esta sim, a mãe, vai e vem pela casa recolhendo os cacos da bagunça deixados pelos demais, sempre tentando pôr ordem num caos que ela mesma ajudou a criar. Como consegue a mãe fazer tantas coisas ao mesmo tempo? A comida, o banho, as roupas, um drinque pra relaxar enquanto diz que hoje está quente como nunca.
Onde estão aqueles dois casais? O mano com sua escolhida, a mana com seu escolhido. Onde foram parar os beijinhos rápidos depois das piadas, como dissessem: eu falei isso mas não significa isso o que falei. E de repente, somem para beijos mais caudalosos longe dos olhos dos outros, sabendo que os outros sabem de seus beijos, mas ignorando esse saber porque o amor é assim: só sobrevive quando ignora o mundo.
Cadê a tevê alta demais porque todos falam ao mesmo tempo? Cadê aquele que pedia para abaixar a tevê porque tinha que falar alto demais para ser ouvido? Cadê o volume da tevê e das vozes subindo e descendo como se tivessem vida própria? E a ameaça sempre iminente de que os vizinhos reclamem do barulho, cadê? Os vizinhos que existem mas nunca são vistos, personagens de todas as conversas que sobem de tom, alguém sempre saltando no meio do diálogo que extrapola decibéis para alertar com um gesto de silêncio: olha os vizinhos.
No quarto, não tem mais aquela temperatura de muita gente junta e nem mais existe a desconfiança de que não é o verão que está mais quente: somos nós, todos juntos nesta casa, que alteramos o clima. Então alguém sugeria ir tomar um ventinho lá fora, mas ninguém se movia do lugar: mesmo com o calor, mesmo com o barulho, mesmo com a imposição de falar baixo, todo mundo queria ficar do lado de dentro: porque juntos, porque felizes.
Onde foram parar as malas espalhadas pela casa, a cozinha trabalhando a todo vapor para servir o almoço, o controle remoto da tevê que já naqueles dias ninguém encontrava? Onde foram parar todos? Como podem não estar aqui agora se antes éramos como um organismo único que respirava as mesmas gargalhadas?
Ainda posso ouvir a porta abrindo e fechando a toda hora, porque sempre tinha alguém chegando ou saindo. À praia, da praia, para jogar o lixo, para receber a pizza. Ainda posso ouvir a polêmica que gerava a simples sugestão de trocar o itinerário. Então era um tal de todo mundo opinar pra qual praia ir, em qual shopping almoçar, em qual padaria comprar o jantar. Como posso hoje ir a qualquer panificadora desta cidade e pedir apenas quatro pães quando saía dali com dois sacos de dez? Como posso sobreviver com apenas quatro pães?
Pra onde foi a mãe e sua força em sorrir mesmo atulhada de afazeres, a vó e seu paninho que recendia alfazema, o mano sempre disposto a assumir a churrasqueira, a mana gargalhando de tudo num despudor que só vendo, o cunhado perguntando se ainda tinha cerveja, a cunhada passando receitas de bolo, a sogra sem entender muito bem o que estava acontecendo? Pra onde todo mundo foi? – que se transformou, depois daqueles dias, o mesmo que perguntar: pra onde eu fui?
Mais uma semana em que não cumpri totalmente meu objetivo.
“A ponto de explodir”, do autor mineiro Sérgio Fantini, apresenta contos ágeis e por vezes bem curtos, daqueles que a gente lê em uma sentada. O efeito dessa concisão é devastador. E foi devastador também para minha meta: livros de conto dão a chance de pular algumas partes e ler só o que realmente interessa naquele momento. Não era minha intenção e por isso estou sendo honesto: pulei alguns contos, mas li quase todos.
Tive a oportunidade de conhecer Fantini em outubro de 2011, quando ele veio a Natal a convite do Jovens Escribas para ministrar uma oficina de contos dentro da Ação Potiguar de Incentivo à Leitura. Sua fala tranquila e seu jeito sem afetações destoa totalmente da linguagem que exibe em seus contos: direto, por vezes violento, sem meneios desnecessários, Fantini exibe personagens fortes e controversos, que nos dão uma boa visão sobre os tipos urbanos mais comuns dos dias de hoje.
A leitura é recomendadíssima por dois motivos. O primeiro: a linguagem livre, sem editorialismos, permite mergulhar fundo no universo do autor a cada nova história. O segundo: Fantini sabe contar histórias. E mesmo naquelas mais pós-modernas, em que o conto passeia apenas por uma cena, sem nos dar muitas informações sobre os personagens, não deixa a sensação de incompletude. Suas histórias, por mais pós-modernas que sejam, sempre têm começo-meio-fim. O cara sabe o que está fazendo.