Sou escritor, jornalista, publicitário e um dos fundadores da Editora Jovens Escribas. Já publiquei dois livros: o romance Lítio e a coletânea de contos A Cega Natureza do Amor. Aqui no PLOG escrevo sobre tudo. E até sobre nada.

O INTELECTUAL POTYGUAR

Posted: setembro 26th, 2011 | Author: Patrício Júnior | Filed under: TELESCÓPIO | Tags: , , , , , | 13 Comments »

Suponhamos que você esteja numa mesa de bar com um grupo de Intelectuais Potyguares (sim, eles existem, muito embora sejam como as bruxas: você não deve acreditar neles). Ah, o Intelectual Potyguar! Esse espécime que todos crêem estar em extinção, mas que se reproduz pelas vicinais do Beco da Lama com mais ferocidade que o Artistas Performaticus Natalensis e o Secretarius de Cultura Municipalis. Está com eles a missão de transmitir às gerações vindouras o melhor que encerra seu DNA: o talento para o fuxico, a capacidade para a inércia e o dom da irrelevância.

— Os prêmios literários só são dados a autores que espelham e ovacionam o poder dos Governos — suponhamos que um dos Intelectuais Potyguares acabe de cuspir esta máxima (um Intelectual Potyguar que se preze não se contenta em emitir opiniões: vociferar verdades universais incontestáveis é que é da hora).

É preciso que fique claro antes que prossigamos: dizer “o poder dos Governos” numa mesa de bar é o equivalente a berrar “Parem de falar, vozes na minha cabeça” em um jantar de noivado. Não faz sentido, mas serve para chamar a atenção.

Ainda no campo das suposições, partamos do pressuposto de que você tente contra-argumentar, dizendo que não é bem assim: prêmios literários, do finado Othoniel Menezes ao eterno Nobel, servem para fomentar a produção, estimular o consumo de literatura e, independente das jogadas de bastidores e dos eventuais lobbies, é sempre bom ganhá-los.

Desista. Não adianta. Um legítimo Intelectual Potyguar não participa de prêmios literários — não está bem claro se é pela falta de uma obra relevante ou se é pela preguiça de tirar cópias, encadernar, enviar pelos Correios. Intelectuais Potyguares sabem que ser intelectual de verdade dá trabalho. E não me entenda mal: há intelectuais de verdade no Rio Grande do Norte; cultos e comprometidos; maduros e humildes; talentosos e empreendedores — e eu só inseri esta afirmação no texto porque não quero me indispor com os Intelectuais Potyguares que não se assumem como tal. Os enrustidos são os mais perigosos.

Pra ser Intelectual Potyguar tem que expor opiniões como se estivesse revelando publicamente uma conspiração global — com alterações bruscas no volume da voz, olhos injetados, palavras que já caíram em desuso e, mais importante de tudo, perdigotos.

— O único ganhador do Nobel que merece meu respeito se chama Sartre, que fez exatamente o que eu faria: recusou o prêmio — diz um dos Intelectuais Potyguares à sua frente, enquanto gotas da mais pura saliva neblinam sobre a mesa, notadamente quando ele diz “Sartre”. Os Intelectuais Potyguares preferem a umidade à humildade.

Este que, suponhamos, acaba de falar é da espécie sou-tão-inteligente-que-posso-andar-como-um-mendigo. E muito embora você duvide que alguém quase sem dentes, vestindo camiseta das Eleições 2002 e calça doada pela Cruz Vermelha, tivesse a audácia de recusar um prêmio que lhe renderia 10 milhões de coroas suecas, você não vai dizer nada. Você vai se limitar a sorrir sem revelar se é por fascínio ou escárnio, dar um gole na sua cerveja torcendo para que ela não tenha sido atingida pelos perdigotos, repassar mentalmente os nomes dos agraciados pelo Nobel que você consegue lembrar (achando surpreendente que este Intelectual Potyguar tenha conseguido memorizar todos os ganhadores) e pensar: mas nem José Saramago, único Nobel de Literatura da Língua Portuguesa, você respeita?

— Mas nem José Saramago, único Nobel de Literatura da Língua Portuguesa, você respeita? — suponhamos que você, sem conseguir se conter, tenha pensado alto.

Neste momento, você conhecerá uma nova faceta do Intelectual Potyguar. Você não sabia, mas quando está em seu habitat natural (mesa de plástico de um bar xexelento), o Intelectual Potyguar não aceita que ninguém — ninguém! NINGUÉM! — discorde dele. Isto inclui você. O Intelectual Potyguar passa a agir como um leão que mija em círculos para demarcar seu território. Em vez de urinar, entretanto, ele caga:

— A literatura de Saramago está a serviço dos poderosos — diz enquanto as têmporas vibram num rompante de ódio comparável apenas a um chilique de madame em boutique do Plano Palumbo. — Dos poderosos!

José Saramago? O escritor de esquerda?! Aquele que deixou Portugal só por não concordar com o Governo?!?! O escritor excomungado pela Igreja por escrever “O Evangelho Segundo Jesus Cristo”?!?!?! É deste José Saramago que ele está falando?!?!?!?! Parece loucura, mas você decide cutucar o cão com frases curtas:

— Acho que você nunca leu Saramago — você diz sem conseguir conter um brilho maligno no olhar. — Aliás, acho que você nem sabe quem é Saramago.

“Eu não sei” é uma sentença que não existe no vocabulário do Intelectual Potyguar. Uma única vez um Intelectual Potyguar disse esta frase, mas depois descobriram que ele havia nascido em Recife.

— Atualmente, tenho me dedicado a reler “Finnegans Wake” de James Joyce — responde, gentilmente, o Intelectual Potyguar, esboçando tédio e autocomiseração para que todos creiam que reler “Finnegans Wake” é algum tipo de obrigação divina que lhe foi imposta.

Pois é, os Intelectuais Potyguares sempre estão relendo um livro que ninguém leu. Não importa se nos últimos meses você devorou três Philip Roth, quatro Paul Auster e nove Hemingway. O Intelectual Potyguar vai se sentir superior por estar usando seu cultíssimo tempo para reler “Finnegans Wake”. Você até cogita perguntar o que ele tem lido de mais atual, mas você sabe que ele acabaria vomitando frases como “A literatura acabou em Guimarães Rosa” e aí a coisa toda descambaria pra baixaria.

Suponhamos que você desista de dialogar e reduza-se a um observador da fauna local. Como um repórter do NatGeo, você presta atenção em cada gesto dos Intelectuais Potyguares enquanto seus olhos lacrimejam de piedade.

Você aprende que:

1) Só Intelectuais Potyguares sabem que Lampião nunca colocou os pés em Mossoró, ficando a 17 quilômetros da cidade durante o famoso cerco. Preste atenção: 17 quilômetros. Não foram 18, não foram 19, foram 17 quilômetros. Você pensa: “Como ele sabe a distância exata? Lampião deu um check-in no Foursquare?”

2) Só Intelectuais Potyguares leram mais de 300 livros sobre a história do Rio Grande do Norte e sempre estarão a espera do momento certo de esfregar isto na sua cara. Muito embora não confessem, intimamente alimentam a esperança de serem citados em um desses livros. Por isso lêem tanto sobre a história do Rio Grande do Norte.

3) Só Intelectuais Potyguares conseguem citar Câmara Cascudo em qualquer momento da conversa. “Vai viajar neste feriadão?”, alguém pergunta displicentemente. O Intelectual Potyguar se empertiga na cadeira, respira fundo, formula sua melhor expressão de desdém e fala fitando o nada: “Como diria Câmara Cascudo: ‘Vou não, quero não, posso não’.”

4) Só Intelectuais Potyguares xingam muito no Twitter, disparando até ameaças de agressão física, só porque algum jovem poeta escreveu “chanana” ao invés de “xanana” (Intelectuais Potyguares, só de birra, ignoram que a flor símbolo de Natal é grafada com “ch” em todos os dicionários). A propósito, só Intelectuais Potyguares não pensam em vagina quando ouvem a palavra “chanana”.

5) Só Intelectuais Potyguares batizam de Zila & Mamede o casal de pebas conquistado numa rifa.

6) Só Intelectuais Potyguares lêem repetidas vezes um texto que os critica, numa busca fremente por um verbo mal conjugado ou um erro de digitação. Em suas cabecinhas transbordantes de meladinha, encontrar algo assim num texto que os critica desqualificaria seu autor, suas ideias, seus argumentos, sua mãe, sua esposa, sua sogra. Buscar coisas assim num texto é uma forma de se afirmar Intelectual Potyguar. Pode prestar atenção nos comentários mais abaixo para confirmar.

E, por fim, a maior lição: só Intelectuais Potyguares fazem você sentir o estômago dar voltas em torno de uma dor pontiaguda que precipita a mais genuína diarréia de escárnio. Você se levanta, dá boa-noite, pede desculpas por já ter que ir embora. E sai antes que acabe por expelir em forma pastosa tudo que os Intelectuais Potyguares vêm excretando, ao longo da vida, dia após dia, em forma de palavras.

Mas tudo isso não passa de suposição, claro.


MOSTRA O TEU QUE EU MOSTRO O MEU

Posted: setembro 22nd, 2011 | Author: Patrício Júnior | Filed under: TELESCÓPIO | Tags: , , | 1 Comment »

O primeiro salário do qual tive pleno conhecimento foi o do meu pai. Não adiantou que os holerites fossem guardados a sete chaves, mais valiosos que os próprios valores que indicavam. Aos onze anos, tomado pela curiosidade, fui impelido a abrir o contracheque do meu pai e descobrir que o salário dele poderia comprar não seis, não sete, não oito, mas 200 kits do Playmobyl. 150 bonecos do Comandos Em Ação. Mais de 1700 coxinhas da cantina de Dona Alaíde. Meu pai era, definitivamente, um homem rico.

É óbvio que naquela época qualquer valor que ultrapassasse o escore de duas passagens de ônibus já me soaria como uma fortuna. Eu era feliz e não sabia.

Menos de uma década depois, fui confrontado com uma cruel realidade: consegui meu primeiro estágio e passei a ter um salário. Mínimo, diga-se de passagem. Lentamente, de maneira imperceptível, fui me transformando nisso aqui: um assalariado. Um ser humano que suspira com alívio a cada primeiro dia útil do mês; vive cinco ou seis dias de felicidade plena; logo mais descobre que a conta da TV a cabo não está paga. Há dois meses.

Um assalariado. Uma entidade sem rosto, mas com número de PIS/PASEP, que vibra a cada promoção de eletrodoméstico em 36 vezes, como se comprar um micro-ondas em prestações a perder de vista fosse o equivalente ocidental do orgasmo tântrico. Eu não sabia ainda, é bem verdade, que a expressão “prestações a perder de vista” não é apenas uma figura de linguagem, visto que os juros sempre nos custam os olhos da cara. É, eu era bem feliz.

Foi justamente naqueles meses de felicidade plena com juros de 112% a.a. que tive meu primeiro contato com a Síndrome do Não Digo Quanto Eu Ganho Nem A Pau. Preste atenção: sempre quando o assunto é salário, o diálogo passa a ser permeado por reticências estranhas, entonações misteriosas e expressões intraduzíveis como “Eu ganho X, mas quero X+Y”. Em tempos em que discutimos abertamente sobre antigos tabus como a homossexualidade, a legalização da maconha e a verdadeira idade da Glória Maria, o salário de cada um de nós insiste em ser a única e intransponível barreira da comunicação verbal.

Experimenta perguntar pro teu chefe qual o salário dele. Primeiro você vai ouvir que empresários não têm salário fixo, que as retiradas no lucro da empresa se chamam pró-labore, que os tempos estão cada vez mais difíceis. Inexoravelmente você não vai ouvir um número. “Um número, chefe, um numerozinho só”, você insistirá. Pode até ser que ele dê uma margem, uma ideia, uma pista: “Digamos que eu ganho X² + 2XY + AB”. Empresários acreditam piamente que o segredo do sucesso é praticar com afinco a Síndrome do Não Digo Quanto Eu Ganho Nem A Pau. Devem ter lido em algum livro de autoajuda.

Essa regrinha social, entretanto, serve a diversos propósitos. O primeiro e mais importante: se todos sabem quanto pinga na sua conta mensalmente, não vai dar pra contar vantagem. E sejamos francos: contar vantagem é uma das coisas mais legais que se pode fazer nesses tempos bicudos. “Comprei à vista”, você diz do seu carro zero que na verdade foi parcelado em 60 mensais de 350 mililitros de sangue. Com entrada de um olho direito. Mas ao ver a admiração no rosto do seu melhor amigo, a inveja transbordando pelos olhos lacrimejados como dissesse “Ele, definitivamente, é rico”, tudo se justifica. Até a anemia.

Outra vantagem de não falar abertamente sobre o salário é poder bancar o coitadinho. Ok, é uma atitude diametralmente oposta à ação do parágrafo anterior, mas não menos vital. Digamos que sua filha vai casar. “Quero decorar a igreja com 10 mil orquídeas brancas, papai”, ela propõe impondo – ou impõe propondo, vai saber. Se sua amada herdeira não sabe o quanto você realmente ganha, nem vai ficar tão chateada ao adentrar magistralmente a nave da igreja e dar de cara com 32 xananas natalenses, todas branquinhas e viçosas, roubadas de canteiros públicos na madrugada anterior. Você sorri amarelo, com ar resignado, humildemente dizendo “Pois é, filha”. E seus zilhões seguem repousando no banco, ao sabor dos PGBLs e VGBLs, à espera do próximo iate.

Não dizer o quanto ganha provavelmente é uma superstição idiota. Provavelmente é um reflexo de nossa cultura provinciana. Provavelmente foi um hábito agravado pela política colonizadora e acachapante da qual fomos vítimas. Mas como ninguém tem certeza, eu não mostro o meu a ninguém.

Às vezes, devo confessar, me flagro imaginando como é o dos meus amigos. Será que o meu é maior? Será que eu passaria vergonha se mostrasse pra todo mundo? Será que ririam de mim, apontando-me seus indicadores, vorazes em me humilhar por minhas diminutas cifras? Eu sei, eu sei, preciso de ajuda médica. Mas vocês já viram quanto cobra um psiquiatra? Eu, definitivamente, não sou rico.


MENININHA PEDANTE QUE CONHECI EM 1997

Posted: julho 8th, 2011 | Author: Patrício Júnior | Filed under: TELESCÓPIO | Tags: , , , , | 1 Comment »

Eu gostaria de dizer, menininha pedante que conheci em 1997, que nem sempre é necessário entender a letra da música para que possamos desfrutar do barato que ela propõe; e se eu raciocinasse da mesma forma com que você teimosamente raciocinava em 1997 – sempre raciocinando, sempre tão racional — jamais teria na memória, guardado com todas as pompas e circunstâncias dos grandes momentos, aquela noite em que fui te deixar em casa e cantei bem alto uma do Stone Temple Pilots, apesar de você insistir covardemente em desdenhar da letra dizendo que When the dogs do find her era uma frase sem sentindo e claramente infantilóide. Você repetia em português, com aquele jeito arrogante de dizer as sílabas, “Quando os cachorros realmente a encontram”, e você gargalhava, “O que isso significa?!”, e você ria com escárnio, “Como você pode cantar com tanta emoção uma frase que não entende?”, você perguntava. Eu aumentei o volume, tomei mais um gole da minha cerveja quente e abafei o seu cérebro com berros, me esgoelando, sangrando o refrão que não entendia. When the dogs do find her passou a significar Um jeito de calar sua grande boca. E como eu fui feliz silenciando suas certezas com uma frase sem sentido.

Eu gostaria de dizer, menininha pedante que conheci em 1997, que em 98 estava perdidamente apaixonado por você, da maneira mais sincera e brutal que já estivera apaixonado até então, mas aquele primeiro “Eu te amo”, ajoelhado aos seus pés numa festa à fantasia — você de cigana, eu de marinheiro — aquele “Eu te amo” foi mentira. Foi apenas porque não sabia definir o que pulsava no meu peito querendo explodir pela boca, e que não era amor: uma paixão, um encantamento, uma empolgação. Eu estava empolgado com você. Seu sorriso comedido, sua forma de sentar de pernas abertas, seus seios fartos que pareciam sempre tão dispostos a me alimentar. Virou paixão em 98, amor em 99, amizade em 2000, tédio em 2001, aversão em 2002. Não foi responsabilidade exclusivamente sua, mas 18 meses de psicoterapia me ensinaram a te culpar.

Eu gostaria de dizer, menininha pedante que conheci em 1997, que não foi sua beleza, mas sim minha feiúra. Ou mais que isso: foi o meu sentimento de feiúra. Porque não sei se naquela época, com a adolescência brotando tão violentamente por todos os meus poros, eu era mesmo muito feio ou apenas me sentia muito feio — o que, no fim das contas, dá no mesmo, visto que o efeito nas outras pessoas é o mesmo: ninguém me olhava, ninguém me tocava, ninguém me queria. Você notou essa alma livre em meio a tantas prisões, a minha mente inquieta cheia de ideias. Não foi sua beleza, mas sim minha feiúra. Era você ou a casa de drinques que meu irmão andava doido pra me levar.

Eu gostaria de dizer, menininha pedante que conheci em 1997, que aquele jeito com que você afundava os olhos na Constituição de 88, comentando sobre a inaplicabilidade do ECA numa realidade social tão caótica — esse gesto, apenas esse gesto: ler a Constituição e de vez em quando comentá-la — foi o que nos afastou abissalmente em 2001. Minha mente vagava por poemas, músicas, filmes; digladiava-se com a impossibilidade de ser dândi e grunge concomitantemente; fixava-se em coisas impalpáveis mas valiosas, de um valor que os dinheiros não pagam — enquanto você empregava todo o seu intelecto em entender o ECA. Naquele tempo, não pude prever que acabaríamos, inevitavelmente, da forma como acabamos: machucada, ressentida, vingativa; apático, silencioso, inacessível. Não pude prever que chegaríamos a 2002 daquele jeito: você berrando, arrancando do olvido todas as vezes em que não te amei de verdade, dizendo com suas sílabas perfeitas que até percebia quando eu topava o sexo apenas pela possibilidade de fumar um cigarro ao final. Não pude prever que continuaria calado diante de todas as ofensas, e não transpareceria nenhum resquício de emoção, e me limitaria a destravar a porta do carro para que você descesse enquanto acendia mais um cigarro como se tivesse acabado de fazer sexo. Naquele 2002, fui pela primeira vez 100% cínico.

Eu gostaria de dizer, menininha pedante que conheci em 1997, que nada do que você fez me machucou tanto quanto desdenhar do Stone Temple Pilots. Nem quando você me chamou de broxa, nem quando insinuou que eu tinha um caso com um dos meus melhores amigos, nem quando você teve um caso de três meses com um dos meus melhores amigos. Lembro de você dizendo com escárnio, os olhos lacrimejados pela maligna completude que a humilhação alheia proporciona: “Essa música não faz o menor sentido, querido, e você só gosta dela porque é moda ser grunge”. Nem quando você ligou para minha mãe em 2003 e disse estar preocupada com o quanto eu bebia; nem quando você me enviou flores no aniversário do nosso namoro dois anos depois que rompemos; nem quando você acabou casando com uma versão mais feia de mim mesmo, mais magra, mais drogada, mais vagabunda, mais grunge, uma versão bizarra e mais compatível com você; nem quando você batizou seu filho com o nome que eu alardeava que meu primeiro filho teria; nem quando você encheu a cara no meu aniversário e não segurou a onda de me ver com outra e acabou tentando beijar uma das minhas amigas e berrou que eu estava te matando lentamente e foi embora a pé, desgrenhada, descompensada, destruída, me transformando no vilão da sua pornochanchada. Eu não te perdoo por desdenhar do Stone Temple Pilots.

Era isso, menininha pedante que conheci em 1997. Tava meio que engasgado.

Era isso, menininha pedante que conheci em 1997. Tava meio que engasgado

Um e sessenta por um e oitenta

Posted: junho 3rd, 2011 | Author: Patrício Júnior | Filed under: TELESCÓPIO | Tags: , , , , , | 2 Comments »

A primeira coisa que haviam comprado juntos tinha um metro e sessenta por um metro e oitenta. Não eram dados que ficassem martelando todos os dias em suas cabeças, mas estavam escritos muito legivelmente com caneta esferográfica azul na nota fiscal novinha em folha, fadada a amarelar-se com o acúmulo de dias na pasta colorida que usavam como arquivo. Uma cama de casal. Obrigava que seus corpos grandes ficassem colados nas noites longas e geladas do inverno, quando dormiam de meias, calças de moletom e camisetas de malha. Metiam-se sob as colchas grossas, grudavam-se no calor das peles congeladas e esquentavam-se naquele amor que era como uma lareira. Os pés às vezes sobravam para fora da cama, dançando no ar gelado do quarto hermeticamente lacrado pelo silêncio do prazer saciado. Sonhavam com camas maiores, aquecedores, geladeiras que vertessem água por um dispositivo acoplado à porta. Com TVs que tomassem toda a parede com suas mais de trinta mil cores. E dormiam felizes na cama de um e sessenta por um e oitenta.

O verão invadiu todos os cômodos do apartamento, obrigando a abrir janelas, esconder agasalhos, reaver o hábito de andar de bermudas. As colchas foram substituídas por lençóis diáfanos, que deixavam transparecer através dos seus fios leves as peles queimando muito mais de amor que de calor. O costume de estarem colados sobre aquele colchão permaneceu à guisa de qualquer temperatura alta. Deixavam que seus suores se misturassem em seus peitos, alternando simpatias que aplacassem o fervor da noite. Sopravam-se as nucas, ondulavam os lençóis para produzir brisa, se abanavam com os lábios colados como peças de plástico que derretidas acabassem por se mesclar em uma só. E dormiam felizes na cama de um e sessenta por um e oitenta.

Resistiram a mais um inverno no espaço diminuto daquele colchão, mas logo o décimo-terceiro, o aumento, o um terço de férias, a rescisão, a bonificação, a promoção. Passaram a cama para o quarto de hóspedes e em seu lugar veio aquele tatame gigantesco, em tecido ecológico e hipoalergênico, com espuma indeformável devido sua tecnologia espacial e lençóis com mais fios que seus cabelos. Tinha dois e dez por dois e quarenta.

Naquela primavera, quando foram obrigados a abrir o apartamento para que a luz se derramasse pelos cômodos retirando numa lenta evaporação toda a umidade herdada do inverno, nem perceberam que o pólen das lindas flores que se abriam por todos os jardins da cidade se espalhava pela casa. Nem perceberam que o novo colchão se enchia de ácaros porque mantinham o quarto fechado o dia inteiro tentando impedir a entrada das partículas primaveris. Nem perceberam que na noite do solstício de verão, displicentes e sem assunto, foram dormir sem se dar um beijo de boa-noite, cada um virando-se em silêncio para uma extremidade do imenso colchão tão logo o telão se apagou na parede. Dormiram na cama de dois e dez por dois e quarenta.

Mais uma vez o verão e seu calor sufocante, os dois ligando ventiladores por todo o apartamento e rezando por rajadas de vento e muito mais concentrados em ficar imóveis para baixar a temperatura do que em trocar quaisquer calores. Resolveram comprar um ar-condicionado. Não importava que lá fora da bolha de proteção a 18 graus as pessoas asfixiassem enquanto diziam que nunca tinham sentido tanto calor. Dentro do quarto, escuro como placenta, gelado como túmulo, os dois deitavam-se palidamente felizes, cada um do seu lado da cama; cobriam-se com lençóis, colchas, edredons; davam-se o mais simpático dos boas-noites; dormiam. Sempre naquele dois e dez por dois e quarenta.

Não estranharam quando veio o outono e as malas prontas na sala, as despedidas desajeitadas, as partilhas de bens amigáveis e a morte de todos os planos despencaram sobre suas cabeças como folhas secas que anunciassem não o início de uma nova estação, mas sim o fim da anterior. Agora um alugava apartamento pequeno perto do centro enquanto o outro se mudava para uma casinha longe confusão da metrópole. E dormiam felizes em suas camas de solteiro, muito embora persistisse a eterna pequena saudade daquele um e sessenta por um e oitenta.


Praia

Posted: dezembro 6th, 2010 | Author: Patrício Júnior | Filed under: TELESCÓPIO | Tags: , , , , | 2 Comments »

À praia. Mas antes disso, a preparação para ir à praia. Celulares, chaves, livros: tudo solto numa bolsa bem grande. E você imitando as coisas: solto numa embalagem maior que as habituais, o importante é não pesar em si mesmo. Então, é aquele cheiro de protetor solar com suor, que as narinas identificam de muito longe: o cheiro que o corpo exala quando sabe que será exposto ao sol. Resta fechar a casa, conferir a bolsa, perder as chaves, encontrá-las. E chamar todo mundo pra dentro do carro, e vamos logo, e não quero chegar muito tarde, e o sol já está esquentando.

O caminho para a praia. E mais: as músicas, as conversas, as expectativas do caminho para a praia. Porque não combina a música de segunda-feira indo pro trabalho: aquela música de ar-condicionado ligado e vidros fechados, porque não se pode suar numa manhã de segunda-feira. O que combina é a música dos vidros abertos, do vento entrando feroz pelas quatro janelas, da conversa cada vez mais alta porque mais alto o som e mais alto o vento e mais alta a conversa. Combinam as músicas com alta emissão de UVA/UVB.

O chegar à praia. O estacionar na praia. O descer do carro na praia. Os pés tocando a quente areia branca da praia. As pupilas se apertando pela luz multiplicada por luz que é a praia. O buscar um lugar pra ficar, o deitar roupas e bagagens sobre a canga, o armar um guarda-sol que nos guarde dele, o refrescar-se pela brisa, pelo riso, pela bica. O estar na praia. Mas, acima disso, estar praia. Ser praia.

Os detalhes que formam a praia. O sol subindo do firmamento em direção ao céu-teto. Os pés que fogem da areia quente como se acreditassem dois grãos de milho entregues ao ato de pipocar. Os olhos apertados buscando os óculos escuros dentro da bolsa, as pupilas tão diminutas em suas casinhas fotofóbicas. E os corpos. Despidos que estão dos disfarces, expostas que estão as estrias, visíveis que ficam as curvas, os músculos, a pele.

A comida da praia. Já depois do meio dia, nas horas em que os copos estão todos meio cheios. Nunca meio vazios. Já nessas horas é que vêm as comidas tão diferentes do feijão-arroz-e-bife. Com escamas que precisam ser extraídas, com patas que devem ser quebradas, com cheiros que podem empolar os mais alérgicos. Afogadas no leite de coco, dorminhocas em folhas de alface, decoradas por rodelas tomate (que lindas são as rodelas de tomate à luz desse sol das duas da tarde!). Mergulhamos na comida que faz esquecer a semana.

O sol descendo na tarde da praia. Se antes dourava as peles ao despetalar-se em raios de incidência, agora beija as casas alvas com seu dourado ameno. Vai descendo ali por trás do morro, você imaginando como seria vê-lo morrer no oceano. Antes impossível de olhar, agora é encarado com um sorriso de satisfação.

O cochilo, a rede e a praia. Que é como um ménage à trois permitido por Deus. A rede beijando a praia, a praia acariciando o cochilo, o cochilo penetrando a praia. E os três gozando. Ao mesmo tempo. Sincronizados.

As palavras da praia. Canga, bica, marola. Sargaço, restinga, duna. Maresia, tapioca, beira. Essas palavras redondas, gostosas, sonoras. Essas palavras que a gente espera a semana inteira pra dizer, formulando frases mentalmente, segunda-feira você já acorda pensando se vai demorar a dizer com todas as suas cacofonias: eu vou pra praia.

O cansaço de praia. Que é por ele, só por ele, que tudo isso se justifica. Ah, esse cansaço de praia…


[CRÔNICA] MI CARLA, SU CASA

Posted: outubro 30th, 2010 | Author: Patrício Júnior | Filed under: TELESCÓPIO | Tags: , , , , , , , , , , , , , | 59 Comments »

E a amada Prefeita da Gente, a jornalista e comediante Micansa de Souza, acaba de tomar uma decisão que vai abalar toda a conjuntura político-social do planeta (como tudo que ela anuncia que vai fazer, né?). Para provar que está no rumo certo de sua administração – mesmo que seja um pouco estranho que um prefeito tenha que provar algo assim estando já na metade do mandato – ela decidiu administrar sua casa tal qual administra a cidade.

Para garantir o bem-estar de todos os moradores de sua residência – a saber: ela e o marido, dois filhos, um assessor particular para segurar sua bolsa e 179 cargos comissionados sem funções claramente definidas – Mienrola de Souza passou a aplicar na Mansão da Gente cada um dos passos seguidos em seu projeto de governo. Sim, até agora não passa de um projeto.

A primeira atitude que Miengana de Souza cometeu – porque algumas atitudes são cometidas, de tão graves que se mostram – foi estabelecer o Via Livre na Mansão da Gente. O projeto pretende garantir a todos o direito constitucional de ir e vir – ir e vir, repetidas vezes, durante 40 minutos, na tentativa de encontrar uma inexistente vaga para estacionar. Todos os cargos comissionados acharam o projeto maravilhoso e revolucionário, ovacionando a Prefeita como a maior líder política de todos os tempos – o que importa é não perder o cargo comissionado, por mais falso que soe o elogio.

O único a reclamar do projeto foi o Primeiro Xadrez (o masculino de “dama” é “xadrez”, não é?), o radialista Migué Biebier. Segundo ele, é um absurdo que não haja vagas para estacionar nenhum dos seus 23 gigantescos carros importados que só Freud explica. A Prefeita aceitou a reclamação prometendo que em breve a Mansão da Gente teria prédios-estacionamento como nunca foram – nem serão –  vistos em Natal. Até lá, o jeito é mesmo usar o direito de ir e vir sem ter onde parar.

Na área da educação, Mimente de Souza também está dando show. De incompetência, claro. O colégio das crianças, por exemplo, está atrasado há mais de 6 meses. Mas ela garantiu ao dono da escola mais cara da cidade: “Olha, você não recebe há 6 meses, mas em compensação quando o pagamento sair, vai vir todo de uma vez”. Não dá pra entender como é que alguém caiu nessa conversa fiada de trabalhar de graça com a promessa de receber, um dia, quem sabe, se Deus der bom tempo, o pagamento. Mas basta perguntar ao pessoal da Educação: tem um monte de gente acreditando em Nãomipaga de Souza.

Infelizmente, nem tudo são flores na Mansão da Gente. Também há árvores – que, na filosofia da Borboletinha, devem ser sumariamente eliminadas caso não sejam nativas da região. Dessa forma, Miderruba de Souza começou uma verdadeira campanha nazista contra todas as algarobas da Mansão da Gente. Não importa se as algarobeiras estão por aqui desde 1940. O que importa é que elas não são nativas da região e por isso não merecem viver. O próximo passo da campanha “Extermínio da Gente” é matar lenta e dolorosamente todas as laranjeiras, mangueiras, macieiras e pessoas que falam chiando. Não é nativo, não é digno de viver.

A cultura, por sua vez, é tratada com muitíssima atenção na Mansão da Gente. As crianças estão sempre tendo acesso a muitos shows de forró e pagode, uma coisa assim bem do povo, porque é disso que o povo gosta. O critério para selecionar as bandas que se apresentarão para os herdeiros da gente é bem simples: quanto mais putaria implícita estiver contida nas letras, mais chances ela tem embolsar um graúdo cachê. Se for um padre metrossexual com repertório duvidoso, os critérios de avaliação bonificam o cachê em 300%. Dia desses os herdeiros da gente cantarolavam pelos corredores da Mansão um refrão que começava com “Deus é maior” e terminava em “chupa que é de uva”.

Para facilitar a administração da residência, a Borboleta criou diversas Secretarias – todas sem telefone e sem internet, é óbvio. Tem, por exemplo, a Secretaria de Financiamento para Estruturação Rápida da Região – SEFERRA, a Secretaria de Fomento ao Desenvolvimento – SEFODE e a Secretaria Especial Unificada da Copa e Cozinha – SEUCOZINHO. Esta última, porém, acaba de ser extinta devido a um imbróglio ilegal: apesar de todo mundo querer a paternidade da Copa Natal 2014, Miengabela de Souza foi a primeira a pular fora e não querer assumir nenhuma responsabilidade. Segundo ela, a Copa é assunto do Governo do Estado e seu lugar é na Cozinha. Aliás, ela também pulou fora e jogou a responsabilidade pra outras pessoas no caso dos Espigões de Ponta Negra, não foi? E com o caos na Saúde… e com a greve dos professores… e com os atrasos de pagamento… e com os casos de corrupção… ah, tô entendendo.

Em ano de eleições, dá pra imaginar a loucura que está na Mansão da Gente. Mielege de Souza resolveu fazer um pequeno pleito em casa para decidir quem iria deixar as crianças na escola. Com sua forte aprovação popular, lançou Migué Biebier como principal candidato. A campanha foi bem acirrada, devido ao fato de que apenas os herdeiros da gente votavam. O pai usou de todos os artifícios para conquistar o voto dos filhos. Indo contra a legislação eleitoral, deu presentinhos como milheiros de tijolo e dentaduras, fez pequenos favores como conseguir consultas no oculista ou audiências privadas com a Prefeita, chegou ao absurdo de oferecer dinheiro aos filhos em troca de seus votos. No fim das contas, o apoio da Borboleta fez toda a diferença: Tripa de Bode, ex-detento, alcoólatra, viciado em crack, sem carteira de motorista e com tendências pedófilas, foi eleito pelas crianças para ir deixá-las todos os dias no colégio. E Miferra de Souza colocou a culpa do seu fracasso no ex-administrador da casa. Claro.

A vida na Mansão da Gente vai de vento em popa. Sempre que acontece alguma coisa errada na administração, por exemplo, as TVs da casa veiculam matérias favoráveis à Prefeita. Corre à boca pequena que dia desses ela até chorou no ar, ao vivo, numa atuação digna de Oscar. Grandes obras, entretanto, não temos. Por isso, para preencher seu tempo cada vez mais ocioso – visto que perde apoios, perde credibilidade, perde convites e perde até mesmo o bom-senso – Miafunda de Souza passou a inaugurar faixas de pedestre, pedras fundamentais e obras dos outros. Dia desses estava no jardim da vizinha, toda serelepe, posando pra fotos ao lado de uma UPA plantada pelo Governo Federal.

Aliás, o relacionamento com os vizinhos não está legal. Depois de ser ajudada durante meses por Seu Agripino, coroa simpático que mora à direita – bem à direita – de sua casa (há quem diga, inclusive, que a Borboleta foi criada por ele!), Misacaneia de Souza acabou apoiando a vizinha do lado esquerdo numa pendenga recente. Tendo, inclusive, pisado publicamente nas rosas de Seu Agripino. O clima fechou na vizinhança, mas Seu Agripino, muito experiente, não deixou que a baixaria lhe afetasse. “Ela tem o direito de apoiar quem quiser”, declarou. No fundo, todo mundo sabe que Mimpeachment de Souza não vai durar muito na administração da Mansão da Gente.


[CRÔNICA] DENE – DESENCONTRO NATALENSE DE ESCRITORES

Posted: fevereiro 25th, 2010 | Author: Patrício Júnior | Filed under: TELESCÓPIO | Tags: , , , , , , , , , , , | 34 Comments »

E a Funcarte (Fundação Confusa das Artes), órgão municipal irresponsável por fazer cultura em Natal, acaba de chegar a um entendimento sobre o antigo Encontro Natalense de Escritores, antigo Encontro Lusófono de Escritores, antigo “Não sabemos ainda qual será o novo nome, mas vai ser revolucionário”. O evento de literatura agora vai se chamar DENE – Desencontro Natalense de Escritores. Será o maior evento de literatura que nunca vai ocorrer em Natal.

Para as mesas do DENE já estão confirmados os nomes de Machado de Assis, Miguel de Cervantes e José de Alencar. Serão mesas brancas, claro. O Presidente da Funcarte dessa semana garantiu que o DENE vai ser um evento único. O da semana que vem já se adiantou dizendo que garante a mesma coisa.

Todos os escritores convidados para o DENE serão substituídos de última hora por apadrinhados do Presidente da Funcarte. E o melhor: saberão que foram preteridos através da imprensa e passarão por esse constrangimento público sem receber nenhum pedido de desculpas da Prefeitura. Segundo o presidente da Funcarte, essa prática tem por objetivo desqualificar o trabalho de escritores profissionais ao mesmo tempo em que prestigia artistas frustrados que se dedicaram mais ao puxa-saquismo do que ao trabalho sério. “Nossa política cultural sempre vai privilegiar quem faz parte da nossa panelinha”, afirmou, “Nós somos um órgão público, que dá oportunidades iguais a todos os artistas, contanto que eles estejam filiados ao partido da situação”.

DEBATES DA GENTE
Os debates terão temas modernos, em consonância com o que é discutido nos maiores eventos de literatura do mundo. Na mesa “Decoração natalina de Natal: uma redundância?”, grandes nomes da literatura de gosto duvidoso discutirão o que os responsáveis pela decoração do “Natal em Natal” fumaram pra achar aquilo bonito. Segundo o Presidente da Funcarte, esta mesa será tão revolucionária e inovadora que as pessoas não vão entender nada – mas a Prefeita vai dar uma entrevista dizendo que aquilo tudo é mágico-lúdico-fantástico e então a cidade toda vai concordar com ela.

Outra mesa que promete gerar uma discussão saudável e edificante é “Usando a retórica para jogar a culpa no seu antecessor”. A própria Prefeita será uma das debatedoras e falará sobre sua experiência em culpar a gestão anterior por todos os problemas da cidade. A mediação deste debate ficará ao cargo de um assessor baba-ovo, que concordará com tudo que a Prefeita disser enquanto segura sua bolsa e não deixa ninguém chegar perto dela. A organização do DENE promete ainda servir um bolo de fubá pra Prefeita e expulsar do recinto quem tentar fotografá-la no momento em que ela come a guloseima.

Na seara da literatura sustentável, teremos debates bem interessantes também. Dias Gomes, autor da novela global “O espigão”, vai compor a mesa “Toma que o espigão é teu”. Na ocasião, ele defenderá a tese de que a novela dos espigões de Ponta Negra é dele. Como ninguém quer tomar pra si a autoria dessa novela, os organizadores crêem que não haverá grandes polêmicas. Mas o Ministério Público já avisou: vai fazer uma reunião com Dias Gomes e depois, magicamente, ele voltará atrás em todas as decisões que tomou. Jogando a culpa no antecessor, claro. Outras mesas da parte verde do evento que merecem destaque são: “Meu pé de algaroba no Midway”; “As escutas telefônicas mais incríveis da Operação Impacto”; e “Plano diretor: quem te viu, quem PV”.

OFICINAS DA GENTE

Mas nem só de debates viverá o DENE. Na oficina “Venda seu blog: pergunte-me como”, uma blogueira inescrupulosa e medonha ensinará como enriquecer às custas de inverdades sem se corroer de remorso. Os presentes aprenderão, por exemplo, como formatar uma tabela de preços para a própria opinião. A blogueira adiantou, em coletiva, um pouco do conteúdo da oficina. “Manipular a verdade dá trabalho: tem que buscar argumentos falsos, escrever de forma dúbia e ainda posar de imparcial: tudo isso gera um custo que deve ser repassado a quem está te prostituindo”, afirmou ela. Durante a oficina, a blogueira promete emitir várias opiniões favoráveis ao grupo político da situação. Isto se ela não receber uma contraproposta da oposição até lá.

Os professores da rede de ensino municipal serão os responsáveis pela oficina “Plano de Cargos e Salários: promessa é dúvida”, na qual mostrarão passo a passo o que você deve fazer para ser ludibriado por propostas de campanha que nunca serão cumpridas. Esta oficina promete atrasar todo o cronograma do evento porque minutos antes de começar os professores entrarão em greve. Mas a Prefeita garantiu que vai receber todos para uma conversa franca assim que sua popularidade cair pelo fato de nossas crianças estarem sem aulas.

Outros destaques são as oficinas “Via Livre, mas nem tanto”, “Inaugurando postos de saúde sem médicos”, “Como trocar seu apoio político pelo silêncio da imprensa” e a grande sensação do evento: “Diga repetidas vezes ‘Eu sou mãe, eu sou mulher’ sem ser taxada de preconceituosa”.

BAIXARIAS DA GENTE
Claro que Câmara Cascudo não poderia ficar de fora. Para homenagear nosso maior intelectual, a organização apresentará algo totalmente inédito: um natalense que leu um livro de Câmara Cascudo! Sim, existe! E o presidente da Funcarte garantiu que o rapaz não freqüenta o Beco da Lama, não dá aulas na universidade e nem é herdeiro do folclorista, fato que torna a descoberta realmente única.

O DENE ainda promete grandes debates que descambarão pra baixaria sem, no entanto, ter seus responsáveis advertidos pelos superiores. O próprio presidente da Funcarte se encarregará de pôr a culpa pelo atraso do evento em ex-funcionários que pediram exoneração porque a Prefeitura não ofereceu condições para que seus trabalhos fossem realizados. “É de suma importância que a gente continue mentindo para o povo, sem jamais assumir a própria inoperância”, afirmou, para em seguida sair cagando e andando.

Anote aí: o DENE ocorrerá em algum dia dos meses de março, abril, maio ou junho, talvez julho, quem sabe agosto, pode ser até em setembro, provavelmente em outubro, no máximo em novembro, se bem que dezembro…


[CRÔNICA] QUERO UM IPAD MESMO SEM PRECISAR DELE

Posted: janeiro 28th, 2010 | Author: Patrício Júnior | Filed under: TELESCÓPIO | Tags: , , , , , , , , | 6 Comments »

Sejamos francos: você viveu até hoje muito bem sem ter um computador em formato de prancheta sempre dentro da mochila. Eu até acredito que uma ou outra pessoa necessite estar hiperconectada em todas as situações – um super-executivo de multinacional, ou o chefe de programação do Google, ou ainda o Perez Hilton. Mas você, meu amigo, minha amiga, definitivamente não precisa. O que não significa que você vai abdicar dos encantos dos tablets – e mais ainda, dos encantos do iPad, o tablet da Apple lançado com estardalhaço ontem.

Pra quem está voando no assunto, um rápido resumo (que não constará na versão em livro desta crônica): ontem, a Apple lançou seu novo “mais inovador e fantástico produto”: o iPad. Trata-se de um tablet (basicamente, um netbook sem teclado com tela touch screen). Custará a partir de US$ 499,00 e promete criar uma revolução na forma como navegamos na internet, compartilhamos fotos e vídeos, jogamos games, etc.

Ok, você não precisa de um iPad. Eu não preciso de um iPad. Mas eu quero um. Porque desde o lançamento do iPod (e lá se vão quase 10 anos), a Apple vem se especializando em criar soluções para problemas que não existem. Esse é o grande mérito da gigante de tecnologia de Steve Jobs: criar necessidades até então inexistentes.

Não sei se você lembra, mas antes do iPod não era necessariamente um problema sair na rua sem estar ouvindo música. Era até normal. Eu lembro que tirava uma ou duas horas da minha atribulada semana para sentar no sofá, ouvir meus CDs, manipular os encartes, ler as letras. Consumir música, pra mim, era isso. Mas que coisa mais antiga essa história de sentar pra ouvir música, não é mesmo? A Apple e seu aparelhinho de fones de ouvidos brancos mudou tudo: agora a gente ouve música no ônibus, no metrô, na aula, no trabalho.

De lá pra cá, teve o iPhone (que solucionou o problema inexistente de ter aplicativos no celular que fazem das coisas mais estúpidas até as mais incríveis), o iPod Touch (que aniquilou os teclados sem que ninguém tivesse reclamado, até então, por ter que usá-los), a App Store (que vende aplicativos que você não sentiria necessidade alguma de ter caso não tivesse um iPhone), a iTunes (que vende músicas que você pode conseguir de graça) e agora o iPad.

Que disponibiliza internet, fotos, games, filmes, música, livros e mais um monte de coisas: mas agora, de qualquer lugar, a qualquer hora, com tela multitouch (porque touch screen já é passado) e a incrível convergência à tecnologia 3G. Tudo isso em 10 polegadas do mais puro design.

Sejamos francos. O seu netbook que pesa pouco mais de um quilo (na pior das hipóteses) já faz tudo isso. Mas ele tem teclado e de repente, ao estalar dos dedos de Steve Jobs, teclados passaram a ser coisa do demônio. Mais antigos que, sei lá, salvar arquivos no HD. Sim, pois o iPad não foi feito pra isso. A capacidade de armazenamento deles é de, no máximo, 64GB. Pra você uma idéia, meu netbook surrado tem capacidade de 250GB de armazenamento. Não estou falando que o produto é ruim, obviamente. Este julgamento só um especialista em tecnologia pode fazer. Mas à luz da lógica, há de se convir, não faz sentido abandonar meu netbook e investir US$ 500,00 nesse novo brinquedo.

Mas eu quero um iPad. Você quer um iPad. Todo mundo quer um iPad. A Apple sabe criar, como poucas empresas, isso que chamo de “desejo de ter uma necessidade”. Explico: logo que o anúncio foi feito, na tarde de ontem, eu fiquei pensando em todas as situações que poderia fazer uso de 100% das funcionalidades do iPad. Numa viagem, por exemplo, poderia postar textos no PLOG a qualquer momento. Poderia enviar fotos pros amigos quase instantaneamente. Em casa, poderia ler e-books sentado em frente à TV, confortavelmente, sem aquele trambolho de netbook esquentando minhas pernas. Poderia compartilhar arquivos sem a necessidade de plugar milhões de fios, e acessar meu e-mail onde quer que eu estivesse, e ler confortavelmente as notícias do dia. É o desejo de ter uma necessidade. Porque, convenhamos, postar textos no blog a qualquer momento não é bem uma necessidade, não é mesmo?

E a economia gira sua grande roda. E eu, engrenagem desse sistema, faço a minha parte. Eu quero um iPad como quem desejou, há uns bons 12 anos, seu primeiro computador 486. Como se fosse minha tablet da salvação. Em cinco ou seis anos, podem acreditar, todos nós vamos nos perguntar: “Como consegui viver até hoje sem ter um iPad?”. E então riremos todos desta crônica enquanto dizemos: “Patrício Jr é tão 2010, né?”.


[CRÔNICA]
O DIA MAIS LONGO DA MINHA VIDA

Posted: janeiro 15th, 2010 | Author: Patrício Júnior | Filed under: TELESCÓPIO | Tags: , , , , , | 6 Comments »

http://colunistas.ig.com.br/hypercool/files/2009/06/corcovado_overlooking_rio_de_janeiro_brazil.jpg

O dia mais longo da minha vida começou à meia noite de 26 de dezembro de 2009, quando estava no Bob’s do Aeroporto Augusto Severo, em Natal, cheio de férias dentro da mala, e a moça da Infraero falou macio que o embarque para o vôo 3523 com destino ao Rio de Janeiro havia começado. Eu e mais quatro amigos nos apressamos em finalizar aquele saudável jantar para seguir nosso destino. Já dentro da aeronave, sentindo o aperto característico das minipoltronas, não pude deixar de exclamar: “Acho que cliquei em ‘promo’ sem querer”. Pra completar, com o apagar das luzes, um porco disfarçado de ser humano passou a roncar profundamente na poltrona de trás. No início, foi engraçado. Mas depois de 2h45 de guinchos animalescos, tão altos que mal dava pra diferenciá-los de uma turbulência, torci pra que aquele suíno dos infernos se engasgasse com o próprio ranho e nos deixasse em paz. Mas pensei: ah, que nada, um porco roncador não vai estragar minhas férias.

Chegamos ao Rio de Janeiro por volta das 6h da manhã, horário local, acabados como se voltássemos de uma rave. De 72h. Nossas olheiras podiam ser vistas desde o saguão de entrada do Aeroporto Santos Dumont, independente de estarmos desembarcando no Galeão. Nos separamos, então, em dois grupos: metade se hospedaria comigo na casa do meu sobrinho, em Copacabana; a outra metade, com seus parentes na Tijuca. Neste momento, tomamos a decisão crucial de ir num ônibus executivo pra Copa em vez de pegar um táxi. Quando subi no ônibus, que tinha ar, bagageiro para malas e bancos acolchoados, pedi ao motorista – seguindo instruções de meu sobrinho – que me avisasse quando chegássemos à parada da Santa Clara. Pra minha surpresa, o motorista respondeu: “Quando chegar perto você me lembra, tá?” Qual a parte do “Eu sou turista e não conheço o Rio” esse imbecil não entendeu? À minha frente, atrapalhado, um gringo rodou a roleta ao tentar passar sua mala por baixo. Em seguida, rodou a roleta de novo ao passar. Transformando-se de repente numa espécie de nazista, o motorista vociferou: “Vai ter que passar por baixo pra descer, viu, gringo?” Fato que, pasmem, aconteceu: ao encaminhar-se pra descer numa parada do Centro, o pobre do gringo teve que passar por baixo da roleta. Fiquei imaginando os relatos dele sobre o Rio ao voltar pros States: “No Brasil têm o costume de passar por baixo da roleta na hora de descer, achei super-estranho”. Liguei o GPS do meu celular e prometi que não perguntaria nada mais ao motorista.

O caminho do Galeão até Copacabana é a coisa mais feia que eu já vi na minha vida. O Rio, em sua entrada, se mostra uma cidade escura, pichada, suprafavelizada. Juro que pensei em pedir ao motorista que retornasse ao Galeão para eu pegar um vôo diretinho de volta pra casa. Mas, sei lá, tive medo de ter que passar por baixo da roleta e então fiquei na minha. O Rio, enfim, se mostrou maravilhoso com a aproximação da praia. Chegamos ilesos à casa de meu sobrinho e ele, animado por nos recepcionar em seu apartamento, nos chamou para um passeio. Ignoramos o fato de que havíamos passado a noite sem dormir ao lado de um suíno roncador e embarcamos nesse passeio. A pé. De Copacabana ao Arpoador.  Dá mais ou menos 5km – que se transformaram em 5 hectares com o sol escaldante e a ausência de brisas. Cheguei ao topo da pedra do Arpoador com princípio de insolação. E meu parente ainda queria seguir a maratona até o Leblon! O Rio de Janeiro continua lindo, mas eu estava um lixo.

Ao chegar em casa, a outra metade da excursão (que estava hospedada na Tijuca) chegou coladinho com a gente, cheia de vontade de conhecer Copacabana. Fiquei por ali enrolando, tentando desmaiar de verdade pra não ter que sair, mas nessas horas o metabolismo da gente não ajuda, né! Tive que sair pra dar outro passeio.

Caminhávamos displicentemente pela Av. Nossa Senhora de Copacabana quando um carro do BOPE passou cantando pneus, parou no fim da calçada que estávamos e fez ecoar estouros muitos semelhantes a fogos de artifício. Não sei se foi o fato de ver todo mundo na rua correndo na direção contrária ao carro do Bope, ou se foi por perceber que era muito cedo para fogos de artifício em Copacabana, ou se foi porque um dos meus amigos gritou “É tiro!” e correu pra dentro de uma loja: só sei que segui o fluxo e corri pra dentro da loja junto com os outros. Enquanto os tiros continuavam, e a caixa grávida desmaiava, e as mulheres berravam como se vissem uma barata gigante, e a gerente intercalava aos gritos as frases “Todos pro provador” e “Desce a porta, desce porta”, só conseguia pensar que havia esquecido o celular em casa e que não poderia tuitar ao vivo sobre meu primeiro tiroteio.

A porta da loja finalmente desceu e todos se acomodaram dentro do provador. De onde uma jovem senhora saía do biombo com uma saia dourada e dizia: “Meu deus, eu não posso morrer com essa saia ridícula!” Passado o susto inicial, me choquei ao ver que as clientes já não gritavam mais: elas simplesmente voltaram às compras, passeando tranquilamente entre as araras de roupas, enquanto da rua continuava vindo aquele som de guerra. Foi quando percebi que a preocupação da gerente em juntar todo mundo no provador e fechar a porta da loja não era pela segurança dos clientes: era pra evitar roubos mesmo. De certa forma, o carioca se acostumou com os tiroteios do dia-a-dia. Nos momentos de tensão, cheguei a cogitar ir embora daquela cidade maluca imediatamente. Mas pensei: ah, que nada, um tiroteio entre o Bope e alguns traficantes em pleno dia em Copacabana não vai estragar minhas férias!

Quando vimos que já não passavam carros de redes de TV e que o barulho do Globocóptero havia cessado, concluímos que estava tudo seguro. A porta reabriu e voltamos à rua. Nesse momento, todos refletiam acerca da difícil arte de viver numa metrópole onde um complexo jogo sociológico vitima a população diariamente. Foi quando decidimos tomar uma cerveja urgentemente. Deve ser por isso que os botecos do Rio vivem lotados, né?

Sentamos todos no Butskina, um boteco simpático que fica quase em frente à casa do meu sobrinho. Lá, curtimos esse fim de tarde como se fôssemos, sei lá, sobreviventes de um Holocausto. E quer saber: consigo entender como os cariocas conseguem voltar à rotina cinco minutos após testemunhar um tiroteio. Já estávamos nós ali, paulistas e potiguares, rindo de nossas reações ao ouvir os disparos. Pra acompanhar esse chopinho, pedimos a famosa batata com cheddar e bacon do Butskina, um clássico local. E entre uma piada e outra, já quase esquecidos por completo da violência urbana, um de nós perguntou: “Gente, bacon tem antenas?”

Devo confessar que a pergunta foi como um tiro em minha testa: eu estava justamente mastigando um bacon quando fixei os olhos no prato e vi que entre batatas e cheddars repousava recém-tostada uma barata…

Eu já estava quase concluindo que o Rio de Janeiro queria me sacanear mesmo, mas aí pensei:  ah, que nada, uma barata no tira-gosto não vai estragar minhas férias! Então, me limitei a dizer “argh”, cuspir a batata que tinha na boca exagerando no nojo – pra ninguém achar que sou anormal – e sugerir que procurássemos outro boteco. Mas o chope estava gelado, mas todos estavam cansados, mas o medo de encontrar outro tiroteio era grande: então, seguimos no Butskina até dez da noite.

Foi exatamente nessa hora que meu irmão, de passagem pelo Rio, chegou no apê do meu sobrinho na maior pilha pra ir pra Lapa. Eu ainda pensava em tirar um cochilinho que durasse até duas da tarde do dia seguinte, mas puxa, fazia dois anos que não encontrava meu irmão e ele já zarparia do Rio no dia seguinte. Ok, vamos pra Lapa. Tomei banho, troquei de roupa e quando saí do banheiro todos estavam na janela acompanhando a prisão de um meliante na calçada do prédio do meu sobrinho. Que, entre envergonhado e apaziguador, sorria amarelo enquanto dizia: “Puxa, que coincidência, né?” Senti vontade de perguntar: “Vai dizer que você nunca tinha visto duas mostras de violência urbana gratuita em um só dia?” Mas calei.

Chegamos à Lapa cerca de uma hora depois, ávidos por chopes e bolinhos de bacalhau. Passeamos por vários botecos, mas ficamos mesmo foi no que uma das clientes brigou com o garçom, juntou uma cadeira, berrou que não iria sair dali porque era seu ponto e que completa era cem real! O segurança até tentou retirá-la do estabelecimento, mas nesse momento um bêbado seminu – que já havia deitado no meio da avenida e provocado um engafarramento são-paulino na Lapa – tropeçou na calçada, voou sobre os arbustos que separavam o bar da rua e se estabacou bem em cima da mesa da nobre cliente. Nessa hora, notei que estávamos num estabelecimento de respeito! Mas pensei: ah, que nada, um bêbado seminu voando sobre a mesa de uma prostituta xiliquenta não vai estragar minhas férias! Então, decidimos entrar numa boate que anunciava em sua porta “Forró”. Não sou de forró, apesar do sotaque nordestino saltar com orgulho dos meus lábios, mas quando estou de férias gosto de sair da minha zona de conforto. Além do mais, foi a única boate para a qual conseguimos cortesias, né?

Lá dentro, notei a ausência total do ritmo nordestino e a presença maciça do funk carioca. A menos que tenham lançado um forró que entoa “vem tchutchuca linda, vem aqui pro seu tigrão”. Já era quase meia noite quando pensei: ah, que nada, um porco roncador e uma motorista ignorante e uma zona favelizada e uma pré-insolação e um tiroteio em Copacabana e uma barata com cheddar e uma puta ensandecida e um bêbado seminu não estragaram minhas férias, não vai ser um funk que vai conseguir. Então, fui até o chão. E deu meia noite.


[CRÔNICA]
COMPRA FÁCIL: MAS PODE CHAMAR DE COMPRA DIFÍCIL

Posted: novembro 12th, 2009 | Author: Patrício Júnior | Filed under: TELESCÓPIO | Tags: , , , , | 4 Comments »

Imploro que não comprem nada no Compra Fácil (www.comprafacil.com.br). O site, na verdade, deveria se chamar Compra Difícil. Braço de e-commerce da famosa revista Hermes, usam de muita incompetência para tornar uma compra pela internet mais complicada que uma compra ao vivo. Eu adquiri um computador no referido site há 15 dias e sei do que estou falando. E se fosse só a complicação, ainda passaria. Mas ainda tem o risco de receber um calote dos grandes. Acreditem: o Compra Fácil não é confiável.

Primeiro, foi uma verdadeira novela para conseguirem faturar meu pedido no cartão. Fiz a compra no dia 22 de outubro de 2009 e até dia 25 do mesmo mês não tinha recebido confirmação de compra. Já imaginou? Com a velocidade que a internet proporciona hoje, você esperar 3 dias pra saber se sua compra foi aceita pelo cartão de crédito? Já pensou se uma loja de roupas, por exemplo, trabalha com esse nível de incompetência? Você vai na C&A, escolhe as roupas, passa seu cartão e espera três dias pra saber se poderá levar a compra pra casa.

O site colocou a culpa em tudo que pôde: no meu cadastro, na operadora de cartão, até num misterioso envio de arquivos! Mas nada disfarçou o real motivo: incompetência pura e simples. E descaso com o consumidor.

Depois de faturada a compra, passei a esperar pela chegada do produto. Pediram-me 7 dias úteis (que já é um absurdo) a contar da data de faturamento. Eu, então, esperei. Contando no calendário, 7 dias úteis como prazo máximo de espera para a entrega seria até ontem (4 de novembro de 2009). Mas nada chegou. Liguei ainda há pouco para o site.  E me informaram algo que não acreditei: o prazo de entrega mudou para o dia 11 de novembro. Como assim mudou? Isso, eles mudaram o prazo de entrega ao bel prazer deles. Como se o consumidor fosse apenas um detalhe (“Ah, se ele esperou 15 dias, espera mais um pouquinho”).

Não obstante, a atendente desligou o telefone na minha cara logo que passei a reclamar da demora na entrega. Liguei de novo. Outra atendente me informou o mesmo absurdo com a desfaçatez típica de quem não liga pro consumidor depois que ele consome. E ainda se negou a informar o nome da transportadora, apesar de estar colocando a culpa nela. “Senhor, foi um problema com a transportadora, não com o site”. Assim é fácil se safar de todo tipo de acusação, né? “Vocês me deram esse flagrante segurando a arma do crime com minha esposa morta aos meus pés e eu gargalhando diabolicamente, mas não fui que matei: foi a transportadora”.

Eu, sinceramente, não tenho mais certeza se o site realmente entregará o produto. E já estou temendo receber um grande calote de 4.000 mil reais (que foi o valor da minha compra). Nunca mais comprarei neste site, recebendo ou não o que adquiri. E amanhã mesmo, vou abrir um processo no PROCON e no Tribunal de Pequenas Causas. É o mínimo que posso fazer para receber um pouco de respeito.

Peço que você também não entre nessa furada. Acredite: não é legal se sentir um idiota ao ouvir a atendente dizer “Senhor, é preciso ter paciência” – como se a entrega do que comprei fosse um favor da empresa para mim! Se não têm competência para fazer e-commerce, que não o façam. Agora, tratar o consumidor como um pulha é algo inaceitável.