E a Funcarte (Fundação Confusa das Artes), órgão municipal irresponsável por fazer cultura em Natal, acaba de chegar a um entendimento sobre o antigo Encontro Natalense de Escritores, antigo Encontro Lusófono de Escritores, antigo “Não sabemos ainda qual será o novo nome, mas vai ser revolucionário”. O evento de literatura agora vai se chamar DENE – Desencontro Natalense de Escritores. Será o maior evento de literatura que nunca vai ocorrer em Natal.
Para as mesas do DENE já estão confirmados os nomes de Machado de Assis, Miguel de Cervantes e José de Alencar. Serão mesas brancas, claro. O Presidente da Funcarte dessa semana garantiu que o DENE vai ser um evento único. O da semana que vem já se adiantou dizendo que garante a mesma coisa.
Todos os escritores convidados para o DENE serão substituídos de última hora por apadrinhados do Presidente da Funcarte. E o melhor: saberão que foram preteridos através da imprensa e passarão por esse constrangimento público sem receber nenhum pedido de desculpas da Prefeitura. Segundo o presidente da Funcarte, essa prática tem por objetivo desqualificar o trabalho de escritores profissionais ao mesmo tempo em que prestigia artistas frustrados que se dedicaram mais ao puxa-saquismo do que ao trabalho sério. “Nossa política cultural sempre vai privilegiar quem faz parte da nossa panelinha”, afirmou, “Nós somos um órgão público, que dá oportunidades iguais a todos os artistas, contanto que eles estejam filiados ao partido da situação”.
DEBATES DA GENTE
Os debates terão temas modernos, em consonância com o que é discutido nos maiores eventos de literatura do mundo. Na mesa “Decoração natalina de Natal: uma redundância?”, grandes nomes da literatura de gosto duvidoso discutirão o que os responsáveis pela decoração do “Natal em Natal” fumaram pra achar aquilo bonito. Segundo o Presidente da Funcarte, esta mesa será tão revolucionária e inovadora que as pessoas não vão entender nada – mas a Prefeita vai dar uma entrevista dizendo que aquilo tudo é mágico-lúdico-fantástico e então a cidade toda vai concordar com ela.
Outra mesa que promete gerar uma discussão saudável e edificante é “Usando a retórica para jogar a culpa no seu antecessor”. A própria Prefeita será uma das debatedoras e falará sobre sua experiência em culpar a gestão anterior por todos os problemas da cidade. A mediação deste debate ficará ao cargo de um assessor baba-ovo, que concordará com tudo que a Prefeita disser enquanto segura sua bolsa e não deixa ninguém chegar perto dela. A organização do DENE promete ainda servir um bolo de fubá pra Prefeita e expulsar do recinto quem tentar fotografá-la no momento em que ela come a guloseima.
Na seara da literatura sustentável, teremos debates bem interessantes também. Dias Gomes, autor da novela global “O espigão”, vai compor a mesa “Toma que o espigão é teu”. Na ocasião, ele defenderá a tese de que a novela dos espigões de Ponta Negra é dele. Como ninguém quer tomar pra si a autoria dessa novela, os organizadores crêem que não haverá grandes polêmicas. Mas o Ministério Público já avisou: vai fazer uma reunião com Dias Gomes e depois, magicamente, ele voltará atrás em todas as decisões que tomou. Jogando a culpa no antecessor, claro. Outras mesas da parte verde do evento que merecem destaque são: “Meu pé de algaroba no Midway”; “As escutas telefônicas mais incríveis da Operação Impacto”; e “Plano diretor: quem te viu, quem PV”.
OFICINAS DA GENTE
Mas nem só de debates viverá o DENE. Na oficina “Venda seu blog: pergunte-me como”, uma blogueira inescrupulosa e medonha ensinará como enriquecer às custas de inverdades sem se corroer de remorso. Os presentes aprenderão, por exemplo, como formatar uma tabela de preços para a própria opinião. A blogueira adiantou, em coletiva, um pouco do conteúdo da oficina. “Manipular a verdade dá trabalho: tem que buscar argumentos falsos, escrever de forma dúbia e ainda posar de imparcial: tudo isso gera um custo que deve ser repassado a quem está te prostituindo”, afirmou ela. Durante a oficina, a blogueira promete emitir várias opiniões favoráveis ao grupo político da situação. Isto se ela não receber uma contraproposta da oposição até lá.
Os professores da rede de ensino municipal serão os responsáveis pela oficina “Plano de Cargos e Salários: promessa é dúvida”, na qual mostrarão passo a passo o que você deve fazer para ser ludibriado por propostas de campanha que nunca serão cumpridas. Esta oficina promete atrasar todo o cronograma do evento porque minutos antes de começar os professores entrarão em greve. Mas a Prefeita garantiu que vai receber todos para uma conversa franca assim que sua popularidade cair pelo fato de nossas crianças estarem sem aulas.
Outros destaques são as oficinas “Via Livre, mas nem tanto”, “Inaugurando postos de saúde sem médicos”, “Como trocar seu apoio político pelo silêncio da imprensa” e a grande sensação do evento: “Diga repetidas vezes ‘Eu sou mãe, eu sou mulher’ sem ser taxada de preconceituosa”.
BAIXARIAS DA GENTE
Claro que Câmara Cascudo não poderia ficar de fora. Para homenagear nosso maior intelectual, a organização apresentará algo totalmente inédito: um natalense que leu um livro de Câmara Cascudo! Sim, existe! E o presidente da Funcarte garantiu que o rapaz não freqüenta o Beco da Lama, não dá aulas na universidade e nem é herdeiro do folclorista, fato que torna a descoberta realmente única.
O DENE ainda promete grandes debates que descambarão pra baixaria sem, no entanto, ter seus responsáveis advertidos pelos superiores. O próprio presidente da Funcarte se encarregará de pôr a culpa pelo atraso do evento em ex-funcionários que pediram exoneração porque a Prefeitura não ofereceu condições para que seus trabalhos fossem realizados. “É de suma importância que a gente continue mentindo para o povo, sem jamais assumir a própria inoperância”, afirmou, para em seguida sair cagando e andando.
Anote aí: o DENE ocorrerá em algum dia dos meses de março, abril, maio ou junho, talvez julho, quem sabe agosto, pode ser até em setembro, provavelmente em outubro, no máximo em novembro, se bem que dezembro…
Sejamos francos: você viveu até hoje muito bem sem ter um computador em formato de prancheta sempre dentro da mochila. Eu até acredito que uma ou outra pessoa necessite estar hiperconectada em todas as situações – um super-executivo de multinacional, ou o chefe de programação do Google, ou ainda o Perez Hilton. Mas você, meu amigo, minha amiga, definitivamente não precisa. O que não significa que você vai abdicar dos encantos dos tablets – e mais ainda, dos encantos do iPad, o tablet da Apple lançado com estardalhaço ontem.
Pra quem está voando no assunto, um rápido resumo (que não constará na versão em livro desta crônica): ontem, a Apple lançou seu novo “mais inovador e fantástico produto”: o iPad. Trata-se de um tablet (basicamente, um netbook sem teclado com tela touch screen). Custará a partir de US$ 499,00 e promete criar uma revolução na forma como navegamos na internet, compartilhamos fotos e vídeos, jogamos games, etc.
Ok, você não precisa de um iPad. Eu não preciso de um iPad. Mas eu quero um. Porque desde o lançamento do iPod (e lá se vão quase 10 anos), a Apple vem se especializando em criar soluções para problemas que não existem. Esse é o grande mérito da gigante de tecnologia de Steve Jobs: criar necessidades até então inexistentes.
Não sei se você lembra, mas antes do iPod não era necessariamente um problema sair na rua sem estar ouvindo música. Era até normal. Eu lembro que tirava uma ou duas horas da minha atribulada semana para sentar no sofá, ouvir meus CDs, manipular os encartes, ler as letras. Consumir música, pra mim, era isso. Mas que coisa mais antiga essa história de sentar pra ouvir música, não é mesmo? A Apple e seu aparelhinho de fones de ouvidos brancos mudou tudo: agora a gente ouve música no ônibus, no metrô, na aula, no trabalho.
De lá pra cá, teve o iPhone (que solucionou o problema inexistente de ter aplicativos no celular que fazem das coisas mais estúpidas até as mais incríveis), o iPod Touch (que aniquilou os teclados sem que ninguém tivesse reclamado, até então, por ter que usá-los), a App Store (que vende aplicativos que você não sentiria necessidade alguma de ter caso não tivesse um iPhone), a iTunes (que vende músicas que você pode conseguir de graça) e agora o iPad.
Que disponibiliza internet, fotos, games, filmes, música, livros e mais um monte de coisas: mas agora, de qualquer lugar, a qualquer hora, com tela multitouch (porque touch screen já é passado) e a incrível convergência à tecnologia 3G. Tudo isso em 10 polegadas do mais puro design.
Sejamos francos. O seu netbook que pesa pouco mais de um quilo (na pior das hipóteses) já faz tudo isso. Mas ele tem teclado e de repente, ao estalar dos dedos de Steve Jobs, teclados passaram a ser coisa do demônio. Mais antigos que, sei lá, salvar arquivos no HD. Sim, pois o iPad não foi feito pra isso. A capacidade de armazenamento deles é de, no máximo, 64GB. Pra você uma idéia, meu netbook surrado tem capacidade de 250GB de armazenamento. Não estou falando que o produto é ruim, obviamente. Este julgamento só um especialista em tecnologia pode fazer. Mas à luz da lógica, há de se convir, não faz sentido abandonar meu netbook e investir US$ 500,00 nesse novo brinquedo.
Mas eu quero um iPad. Você quer um iPad. Todo mundo quer um iPad. A Apple sabe criar, como poucas empresas, isso que chamo de “desejo de ter uma necessidade”. Explico: logo que o anúncio foi feito, na tarde de ontem, eu fiquei pensando em todas as situações que poderia fazer uso de 100% das funcionalidades do iPad. Numa viagem, por exemplo, poderia postar textos no PLOG a qualquer momento. Poderia enviar fotos pros amigos quase instantaneamente. Em casa, poderia ler e-books sentado em frente à TV, confortavelmente, sem aquele trambolho de netbook esquentando minhas pernas. Poderia compartilhar arquivos sem a necessidade de plugar milhões de fios, e acessar meu e-mail onde quer que eu estivesse, e ler confortavelmente as notícias do dia. É o desejo de ter uma necessidade. Porque, convenhamos, postar textos no blog a qualquer momento não é bem uma necessidade, não é mesmo?
E a economia gira sua grande roda. E eu, engrenagem desse sistema, faço a minha parte. Eu quero um iPad como quem desejou, há uns bons 12 anos, seu primeiro computador 486. Como se fosse minha tablet da salvação. Em cinco ou seis anos, podem acreditar, todos nós vamos nos perguntar: “Como consegui viver até hoje sem ter um iPad?”. E então riremos todos desta crônica enquanto dizemos: “Patrício Jr é tão 2010, né?”.
O dia mais longo da minha vida começou à meia noite de 26 de dezembro de 2009, quando estava no Bob’s do Aeroporto Augusto Severo, em Natal, cheio de férias dentro da mala, e a moça da Infraero falou macio que o embarque para o vôo 3523 com destino ao Rio de Janeiro havia começado. Eu e mais quatro amigos nos apressamos em finalizar aquele saudável jantar para seguir nosso destino. Já dentro da aeronave, sentindo o aperto característico das minipoltronas, não pude deixar de exclamar: “Acho que cliquei em ‘promo’ sem querer”. Pra completar, com o apagar das luzes, um porco disfarçado de ser humano passou a roncar profundamente na poltrona de trás. No início, foi engraçado. Mas depois de 2h45 de guinchos animalescos, tão altos que mal dava pra diferenciá-los de uma turbulência, torci pra que aquele suíno dos infernos se engasgasse com o próprio ranho e nos deixasse em paz. Mas pensei: ah, que nada, um porco roncador não vai estragar minhas férias.
Chegamos ao Rio de Janeiro por volta das 6h da manhã, horário local, acabados como se voltássemos de uma rave. De 72h. Nossas olheiras podiam ser vistas desde o saguão de entrada do Aeroporto Santos Dumont, independente de estarmos desembarcando no Galeão. Nos separamos, então, em dois grupos: metade se hospedaria comigo na casa do meu sobrinho, em Copacabana; a outra metade, com seus parentes na Tijuca. Neste momento, tomamos a decisão crucial de ir num ônibus executivo pra Copa em vez de pegar um táxi. Quando subi no ônibus, que tinha ar, bagageiro para malas e bancos acolchoados, pedi ao motorista – seguindo instruções de meu sobrinho – que me avisasse quando chegássemos à parada da Santa Clara. Pra minha surpresa, o motorista respondeu: “Quando chegar perto você me lembra, tá?” Qual a parte do “Eu sou turista e não conheço o Rio” esse imbecil não entendeu? À minha frente, atrapalhado, um gringo rodou a roleta ao tentar passar sua mala por baixo. Em seguida, rodou a roleta de novo ao passar. Transformando-se de repente numa espécie de nazista, o motorista vociferou: “Vai ter que passar por baixo pra descer, viu, gringo?” Fato que, pasmem, aconteceu: ao encaminhar-se pra descer numa parada do Centro, o pobre do gringo teve que passar por baixo da roleta. Fiquei imaginando os relatos dele sobre o Rio ao voltar pros States: “No Brasil têm o costume de passar por baixo da roleta na hora de descer, achei super-estranho”. Liguei o GPS do meu celular e prometi que não perguntaria nada mais ao motorista.
O caminho do Galeão até Copacabana é a coisa mais feia que eu já vi na minha vida. O Rio, em sua entrada, se mostra uma cidade escura, pichada, suprafavelizada. Juro que pensei em pedir ao motorista que retornasse ao Galeão para eu pegar um vôo diretinho de volta pra casa. Mas, sei lá, tive medo de ter que passar por baixo da roleta e então fiquei na minha. O Rio, enfim, se mostrou maravilhoso com a aproximação da praia. Chegamos ilesos à casa de meu sobrinho e ele, animado por nos recepcionar em seu apartamento, nos chamou para um passeio. Ignoramos o fato de que havíamos passado a noite sem dormir ao lado de um suíno roncador e embarcamos nesse passeio. A pé. De Copacabana ao Arpoador. Dá mais ou menos 5km – que se transformaram em 5 hectares com o sol escaldante e a ausência de brisas. Cheguei ao topo da pedra do Arpoador com princípio de insolação. E meu parente ainda queria seguir a maratona até o Leblon! O Rio de Janeiro continua lindo, mas eu estava um lixo.
Ao chegar em casa, a outra metade da excursão (que estava hospedada na Tijuca) chegou coladinho com a gente, cheia de vontade de conhecer Copacabana. Fiquei por ali enrolando, tentando desmaiar de verdade pra não ter que sair, mas nessas horas o metabolismo da gente não ajuda, né! Tive que sair pra dar outro passeio.
Caminhávamos displicentemente pela Av. Nossa Senhora de Copacabana quando um carro do BOPE passou cantando pneus, parou no fim da calçada que estávamos e fez ecoar estouros muitos semelhantes a fogos de artifício. Não sei se foi o fato de ver todo mundo na rua correndo na direção contrária ao carro do Bope, ou se foi por perceber que era muito cedo para fogos de artifício em Copacabana, ou se foi porque um dos meus amigos gritou “É tiro!” e correu pra dentro de uma loja: só sei que segui o fluxo e corri pra dentro da loja junto com os outros. Enquanto os tiros continuavam, e a caixa grávida desmaiava, e as mulheres berravam como se vissem uma barata gigante, e a gerente intercalava aos gritos as frases “Todos pro provador” e “Desce a porta, desce porta”, só conseguia pensar que havia esquecido o celular em casa e que não poderia tuitar ao vivo sobre meu primeiro tiroteio.
A porta da loja finalmente desceu e todos se acomodaram dentro do provador. De onde uma jovem senhora saía do biombo com uma saia dourada e dizia: “Meu deus, eu não posso morrer com essa saia ridícula!” Passado o susto inicial, me choquei ao ver que as clientes já não gritavam mais: elas simplesmente voltaram às compras, passeando tranquilamente entre as araras de roupas, enquanto da rua continuava vindo aquele som de guerra. Foi quando percebi que a preocupação da gerente em juntar todo mundo no provador e fechar a porta da loja não era pela segurança dos clientes: era pra evitar roubos mesmo. De certa forma, o carioca se acostumou com os tiroteios do dia-a-dia. Nos momentos de tensão, cheguei a cogitar ir embora daquela cidade maluca imediatamente. Mas pensei: ah, que nada, um tiroteio entre o Bope e alguns traficantes em pleno dia em Copacabana não vai estragar minhas férias!
Quando vimos que já não passavam carros de redes de TV e que o barulho do Globocóptero havia cessado, concluímos que estava tudo seguro. A porta reabriu e voltamos à rua. Nesse momento, todos refletiam acerca da difícil arte de viver numa metrópole onde um complexo jogo sociológico vitima a população diariamente. Foi quando decidimos tomar uma cerveja urgentemente. Deve ser por isso que os botecos do Rio vivem lotados, né?
Sentamos todos no Butskina, um boteco simpático que fica quase em frente à casa do meu sobrinho. Lá, curtimos esse fim de tarde como se fôssemos, sei lá, sobreviventes de um Holocausto. E quer saber: consigo entender como os cariocas conseguem voltar à rotina cinco minutos após testemunhar um tiroteio. Já estávamos nós ali, paulistas e potiguares, rindo de nossas reações ao ouvir os disparos. Pra acompanhar esse chopinho, pedimos a famosa batata com cheddar e bacon do Butskina, um clássico local. E entre uma piada e outra, já quase esquecidos por completo da violência urbana, um de nós perguntou: “Gente, bacon tem antenas?”
Devo confessar que a pergunta foi como um tiro em minha testa: eu estava justamente mastigando um bacon quando fixei os olhos no prato e vi que entre batatas e cheddars repousava recém-tostada uma barata…
Eu já estava quase concluindo que o Rio de Janeiro queria me sacanear mesmo, mas aí pensei: ah, que nada, uma barata no tira-gosto não vai estragar minhas férias! Então, me limitei a dizer “argh”, cuspir a batata que tinha na boca exagerando no nojo – pra ninguém achar que sou anormal – e sugerir que procurássemos outro boteco. Mas o chope estava gelado, mas todos estavam cansados, mas o medo de encontrar outro tiroteio era grande: então, seguimos no Butskina até dez da noite.
Foi exatamente nessa hora que meu irmão, de passagem pelo Rio, chegou no apê do meu sobrinho na maior pilha pra ir pra Lapa. Eu ainda pensava em tirar um cochilinho que durasse até duas da tarde do dia seguinte, mas puxa, fazia dois anos que não encontrava meu irmão e ele já zarparia do Rio no dia seguinte. Ok, vamos pra Lapa. Tomei banho, troquei de roupa e quando saí do banheiro todos estavam na janela acompanhando a prisão de um meliante na calçada do prédio do meu sobrinho. Que, entre envergonhado e apaziguador, sorria amarelo enquanto dizia: “Puxa, que coincidência, né?” Senti vontade de perguntar: “Vai dizer que você nunca tinha visto duas mostras de violência urbana gratuita em um só dia?” Mas calei.
Chegamos à Lapa cerca de uma hora depois, ávidos por chopes e bolinhos de bacalhau. Passeamos por vários botecos, mas ficamos mesmo foi no que uma das clientes brigou com o garçom, juntou uma cadeira, berrou que não iria sair dali porque era seu ponto e que completa era cem real! O segurança até tentou retirá-la do estabelecimento, mas nesse momento um bêbado seminu – que já havia deitado no meio da avenida e provocado um engafarramento são-paulino na Lapa – tropeçou na calçada, voou sobre os arbustos que separavam o bar da rua e se estabacou bem em cima da mesa da nobre cliente. Nessa hora, notei que estávamos num estabelecimento de respeito! Mas pensei: ah, que nada, um bêbado seminu voando sobre a mesa de uma prostituta xiliquenta não vai estragar minhas férias! Então, decidimos entrar numa boate que anunciava em sua porta “Forró”. Não sou de forró, apesar do sotaque nordestino saltar com orgulho dos meus lábios, mas quando estou de férias gosto de sair da minha zona de conforto. Além do mais, foi a única boate para a qual conseguimos cortesias, né?
Lá dentro, notei a ausência total do ritmo nordestino e a presença maciça do funk carioca. A menos que tenham lançado um forró que entoa “vem tchutchuca linda, vem aqui pro seu tigrão”. Já era quase meia noite quando pensei: ah, que nada, um porco roncador e uma motorista ignorante e uma zona favelizada e uma pré-insolação e um tiroteio em Copacabana e uma barata com cheddar e uma puta ensandecida e um bêbado seminu não estragaram minhas férias, não vai ser um funk que vai conseguir. Então, fui até o chão. E deu meia noite.
Imploro que não comprem nada no Compra Fácil (www.comprafacil.com.br). O site, na verdade, deveria se chamar Compra Difícil. Braço de e-commerce da famosa revista Hermes, usam de muita incompetência para tornar uma compra pela internet mais complicada que uma compra ao vivo. Eu adquiri um computador no referido site há 15 dias e sei do que estou falando. E se fosse só a complicação, ainda passaria. Mas ainda tem o risco de receber um calote dos grandes. Acreditem: o Compra Fácil não é confiável.
Primeiro, foi uma verdadeira novela para conseguirem faturar meu pedido no cartão. Fiz a compra no dia 22 de outubro de 2009 e até dia 25 do mesmo mês não tinha recebido confirmação de compra. Já imaginou? Com a velocidade que a internet proporciona hoje, você esperar 3 dias pra saber se sua compra foi aceita pelo cartão de crédito? Já pensou se uma loja de roupas, por exemplo, trabalha com esse nível de incompetência? Você vai na C&A, escolhe as roupas, passa seu cartão e espera três dias pra saber se poderá levar a compra pra casa.
O site colocou a culpa em tudo que pôde: no meu cadastro, na operadora de cartão, até num misterioso envio de arquivos! Mas nada disfarçou o real motivo: incompetência pura e simples. E descaso com o consumidor.
Depois de faturada a compra, passei a esperar pela chegada do produto. Pediram-me 7 dias úteis (que já é um absurdo) a contar da data de faturamento. Eu, então, esperei. Contando no calendário, 7 dias úteis como prazo máximo de espera para a entrega seria até ontem (4 de novembro de 2009). Mas nada chegou. Liguei ainda há pouco para o site. E me informaram algo que não acreditei: o prazo de entrega mudou para o dia 11 de novembro. Como assim mudou? Isso, eles mudaram o prazo de entrega ao bel prazer deles. Como se o consumidor fosse apenas um detalhe (“Ah, se ele esperou 15 dias, espera mais um pouquinho”).
Não obstante, a atendente desligou o telefone na minha cara logo que passei a reclamar da demora na entrega. Liguei de novo. Outra atendente me informou o mesmo absurdo com a desfaçatez típica de quem não liga pro consumidor depois que ele consome. E ainda se negou a informar o nome da transportadora, apesar de estar colocando a culpa nela. “Senhor, foi um problema com a transportadora, não com o site”. Assim é fácil se safar de todo tipo de acusação, né? “Vocês me deram esse flagrante segurando a arma do crime com minha esposa morta aos meus pés e eu gargalhando diabolicamente, mas não fui que matei: foi a transportadora”.
Eu, sinceramente, não tenho mais certeza se o site realmente entregará o produto. E já estou temendo receber um grande calote de 4.000 mil reais (que foi o valor da minha compra). Nunca mais comprarei neste site, recebendo ou não o que adquiri. E amanhã mesmo, vou abrir um processo no PROCON e no Tribunal de Pequenas Causas. É o mínimo que posso fazer para receber um pouco de respeito.
Peço que você também não entre nessa furada. Acredite: não é legal se sentir um idiota ao ouvir a atendente dizer “Senhor, é preciso ter paciência” – como se a entrega do que comprei fosse um favor da empresa para mim! Se não têm competência para fazer e-commerce, que não o façam. Agora, tratar o consumidor como um pulha é algo inaceitável.
Estamos vivendo uma era perigosa. Ou deliciosa. A era da superexposição. Amanhã, você pode ser o pivô da próxima polêmica na internet. Basta vestir uma saia curta e provocar uns neanderthais na universidade. Ou brigar pela prioridade de entrevistar um secretário de Estado. Ou fazer um escândalo na porta da casa do seu ex, pedindo que ele te devolva o chip. Em suma, basta existir. A internet fez com que qualquer um possa se transformar em celebridade instantânea. Não precisa nem de teste do sofá. No futuro, ninguém terá nem cinco minutos de anonimato.
A mais recente webceleb atende pelo nome de Coronel Marcondes Rodrigues. Este ilustre desconhecido é comandante da Polícia Militar do Rio Grande do Norte e seu mais notório feito até hoje foi dançar a intragável música “Mexa que é de ameixa”, do grupo potiguar Grafith. O coronel estava fardado, em cima de um palco, na formatura dos novos PMs do Estado. Como é de praxe, alguém filmou. Como é de praxe, caiu na internet. Como é de praxe, instaurou-se a polêmica da semana (do dia?, da hora?): como fica a reputação da PM após a dancinha do Coronel Marcondes?
Pra não me alongar no assunto, o baile de Coronel Marcondes não muda nada. Ele não foi, como alguns disseram, flagrado em uma dança sensual. Ele estava numa festa, num ambiente fechado, cercado de pessoas conhecidas e apenas agiu como um ser humano normal: dançou, no auge da alegria, calibrado ou não por algumas canjimbrinas. Isso não importa. O que o fato realmente deve levar a pensar é: e amanhã, será que o flagrante será com você?
A superexposição que a internet causa, obviamente, é o deleite de muitos internautas. Tem gente que reza pra abrir o computador de manhã e já ter acesso ao fato do dia: quer seja a estudante hostilizada da Uniban, quer seja o PM alegre do RN. Nossa ânsia pelas videocassetadas do dia-a-dia não se satisfaz apenas com o Faustão. Precisamos de mais. E tome ex-mulher de Ronaldinho transando na praia, nutricionista gaguejando em entrevista ao vivo, criança voltando dopada do dentista. Quando será que vai chegar a sua vez?
O mais interessante é perceber que nem sempre o flagrante de terceiros é o culpado por expor figuras ao ridículo. Tome-se como exemplo o caso do vereador natalense Paulo Wagner (PV-RN). Eleito em 2008 como vereador mais votado da cidade, Paulo Wagner protagonizou um pequeno escândalo na net esta semana: dirigindo-se ao enterro de um ex-companheiro de profissão, publicou em seu Twitter (@pwagner43) a seguinte pérola: “Tou indo pra Mossoro enterrar uma bicha que morreu era antiga no rádio virou purpurina [sic]”. Paulo Wagner poderia estar apenas confundindo o público e o privado, expondo na internet uma forma carinhosa de tratar um amigo.
Mas o que se seguiu a isso provou que não.
Ricardo Rosado, do blog FatorRRH, reproduziu o que Paulo Wagner publicou em seu Twitter. E foi aí que o vereador mostrou que a linguagem chula e a falta de decoro não são dispensadas apenas aos seus mais próximos. Em resposta ao post do jornalista, que – reafirmo – limitou-se a reproduzir o que o vereador havia escrito sem tecer nenhum comentário a respeito, veio uma enxurrada de impropérios no Twitter do representante do povo. Numa das
mensagens mais leves, Paulo Wagner dirigiu-se ao jornalista da seguinte forma: “Ricardo Rosado bicha da Holanda vai tomar no cu”. O “bicha da Holanda” foi uma alusão ao nome completo do jornalista, Ricardo Rosado de Holanda – um exemplo de como o nosso vereador domina bem as figuras de linguagem.
Em poucas horas, a mensagem foi retuitada inúmeras vezes, com críticas pesadas ao comportamento indecoroso do parlamentar. Ao ver o estrago, Paulo Wagner apagou as mensagens e se confundiu nas explicações: uma hora disse que havia perdido a senha do Twitter e que as mensagens não eram de sua autoria, outra hora pediu desculpas afirmando que errar era humano. Mas o esforço em se retratar foi em vão. A verdadeira face do vereador,. Que não sabe a difedrença entre linguagem popular e linguagem de baixo calão, já tinha vindo à tona. Num caso clássico de flagrante internético provocado por si mesmo.
Como podemos ver, a era da superexpsoição tem suas vantagens.
Eu concordo com a lei antifumo. Ipsis litteris. Acho, inclusive, que deveria se estender a todo o país. Com benefícios coletivos inumeráveis. Por exemplo, os não-fumantes não vão se incomodar com a fumaça, os fumantes vão se envenenar menos e todo mundo vai sair ganhando nessa história. Ponto.
Dito isso, passemos ao que realmente importa.
Esta manhã, fiz a seguinte postagem no Twitter: “Quando me dizem ‘eu odeio fumantes’ sinto vontade de responder ‘eu odeio gordos’”. Obviamente, não odeio gordos. Mas a frase, por sua concisão e contundência, dá margem a diversas interpretações. Principalmente as erradas. Por isso, me dou ao direito de estender o tópico.
Não gosto de ouvir “odeio fumantes” porque sou fumante. Me incomoda saber que todos são colocados no mesmo bolo e tratados como mal educados que saem baforando suas fumaças independente de quem está respirando ao seu lado. Eu tomo cuidados. Para não incomodar os outros, para não ficar fedendo, para não deixar que o fato de ser fumante seja a principal característica da minha personalidade. Já imaginou? “Fulano? Ah, é inteligente, fumante, engraçado”. Não, não gosto de generalizações. E sou fumante mas sou limpinho.
Essa sentença, dita com tanto orgulho por alguns não-fumantes, é hipócrita. “Odeio os fumantes porque eles fedem”. Bom, eu não fedo, apesar da lógica dizer que eu deveria feder. Veja bem: gordos suam mais e, portanto, têm maior probabilidade de exalar maus odores. Seria justo dizer “odeio gordos porque eles fedem”? Não, meus amigos, seria cruel. E desnecessário. “Odeio fumantes porque eles me incomodam”. Apesar de sentir vontade de dizer “os incomodados que se retiram”, não serei infantil a tal ponto. Direi apenas que pedintes nas ruas me incomodam. E não os odeio. E até mais: direi que você, leitor, provavelmente faz algo que me incomoda profundamente. E não te odeio.
Depois vem toda a desinformação característica de quem quer ser o dono da verdade. O cigarro é um problema de saúde pública. Por mais que, teoricamente, a venda de cigarros cubra os gastos públicos com tratamentos de câncer e outras mazelas, se houvesse menos problemas de saúde decorrentes do tabagismo o imposto gerado pela venda de cigarros poderia ser empregado para salvar a vida de pessoas que não estão se autoinfligindo doenças. Como a realidade não é essa, o Governo intervém. Não porque quer garantir o direito de você, não-fumante, sair da balada com o cabelo cheiroso. Nem muito menos porque quer perseguir os que gostam de acender seus caretas. O Governo intervém porque precisa equilibrar as contas. Tudo se resume a dinheiro.
A obesidade também é um problema de saúde pública. Milhões são gastos no SUS com malefícios que advêm desse péssimo hábito (doenças cardíacas, cânceres, hipertensão, etc). Houvesse menos obesos mórbidos ou sedentários, sobraria mais dinheiro para tratar pessoas que não estão ficando doentes porque querem. Simples assim.
Não estou defendendo a restrição dos direitos dos gordinhos. Nada disso. Entendo perfeitamente que no aspecto da saúde pública a obesidade e o tabagismo guardam diferenças gigantescas (a principal delas, a meu ver, é que quando somos pequenos nossas mais não ficam o tempo todo repetindo “fume esse cigarrinho todinho senão fica sem sobremesa”). Mas no aspecto social, podemos sim comparar as duas facções. Fumantes e gordos estão unidos.
Gente mal educada tem de todo tipo. Fumante, não-fumante, gordo, anoréxico. Mas, por mais desagradável que seja ter que compartilhar espaços com pessoas de diferentes características, o caminho do ódio só leva a uma coisa: recíproca (essa você já sabia, tenho certeza, falei só por falar mesmo). Posso listar inúmeras razões para odiar não-fumantes. Mas eu gosto deles. Afinal, se todo mundo fumasse, ninguém tentaria me livrar desse hábito terrível que assumo sem nenhum prazer.
>>>>>>>> Patrício Jr, Thiago de Góes, Carlos Fialho e Daniel Minchoni: lançamento do JE em São Paulo
Era 2004 e eu recebi um telefonema meio estranho. Carlos Fialho me chamando pra uma reunião. Tinha uma idéia pra me contar. Éramos então não mais que meros conhecidos. Em comum, apenas alguns amigos. Pensei sinceramente: o que esse playboy quer comigo? Mal sabia eu que Fialho não era playboy. E estava falando sério quando dizia que tinha uma idéia.
A tal idéia se chamava Jovens Escribas. E a tal reunião foi entre eu, ele e Daniel Minchoni (Thiago de Góes, do qual dizíamos que era um amigo imaginário de Fialho, só apareceu de verdade algumas semanas depois). Esmiuçando a idéia: ele queria se reunir conosco para criar uma coleção de quatro livros, cada um assinado por um de nós. Topamos.
E então foi pesquisar sobre leis de incentivo, papel pra livro, tipos de capa, formatos, distribuição. No meio do caminho, percebemos que aquilo que estávamos fazendo poderia ser maior. Poderia ir além de uma coleção de quatro livros. Poderia ser algo realmente grande. A maior coisa que todos nós já tinham feito na vida.
Assim, marcamos uma reunião na AS Livros. Chamamos todos os amigos, colegas e conhecidos que sabíamos que escreviam. Estavam presentes umas 30 pessoas. Falamos sobre a idéia de começar a publicar autores inéditos, de mudar a forma como se consumia literatura no RN, de ir além. Alguns acreditaram, outros não.
Pois bem, a idéia maluca está completando 5 anos. E foi coroada com o lançamento de “Mano Celo”, terceiro livro de Carlos Fialho e décimo livro do Jovens Escribas. A coleção de quatro exemplares virou selo literário. Já fomos pra grandes eventos de literatura, já lançamos livros em São Paulo, já percorremos muito chão. Abaixo, você tem um vídeo que conta um pouco dessa história. E se um dia um playboy te ligar com uma idéia maluca, pare pra ouvir. Pode mudar sua vida.
Ps.: Receber a ligação de Fialho hoje me passando o link desse vídeo foi especialmente marcante. Estou finalizando meu segundo livro, o 11º do Jovens escribas. Chama-se “A Cega Natureza do Amor” e deve ir pra gráfica amanhã. Lançamento em julho. Fez todo o sentido repassar a nossa história hoje.
Eu quero ir pra Rancagua. Aliás, eu tenho que ir pra Rancagua. Há diversos e infinitos motivos para querer conhecer essa cidade. Um deles é que ela se localiza no Chile, um dos países mais legais da América do Sul. Mas a principal razão para querer gastar todas as minhas economias em Rancagua é que ela foi uma das cidades-sede da Copa do Mundo do Chile, realizada em 1962. Só isso já é motivo suficiente para largar tudo e ir pra lá.
Por ter sido subsede de uma Copa da FIFA, Rancagua deve ser uma cidade moderníssima. Deve ter VLT, metrô, trânsito perfeito, ruas sempre limpas, aeroporto internacional, zero de analfabetismo, zero de mortalidade infantil, zero de prostituição. Rancagua deve o ser o paraíso. Já posso antever minha chegada à cidade, desembarcando num dos aeroportos mais modernos que já conheci, para ser saudado por gente educada e bem nutrida, que não enfrenta problemas comuns ao terceiro mundo como tráfico de drogas, violência urbana, fome, corrupção e falta de saneamento básico. Mas lá não. A Copa colocou definitivamente Rancagua no mapa das grandes cidades do mundo. Que subsede, gente, que subsede!
Você já deve ter ouvido falar dessa cidade-modelo, com certeza. Afinal, uma subsede de Copa do Mundo entra definitivamente para o imaginário popular como um El Dorado de perfeição e desenvolvimento. Rancagua faz parte de um roteiro turístico disputadíssimo de cidades-sede da Copa, exaustivamente divulgado e internacionalmente conhecido. E disputa atenções do mundo inteiro com outras cidades-sede como Toluca, Middlesbrough, Ibaraki, Valladolid, Norrköping, Gelsenkirchen e sua maior concorrente nesse multimilionário mercado turístico: Busan, na Coréia do Sul. Você já deve ter ouvido falar de Busan. Tenho certeza.
Ah, como eu quero deslizar macio pelas ruas de Rancagua, no seu asfalto sem buracos, sem imperfeições, sem engarrafamentos. Como eu quero passear pelos parques da cidade, desfrutar da vista panorâmica que a torre de Oscar Niemeyer propicia. Claro que deve haver uma torre com vista panorâmica assinada por Oscar Niemeyer em Rancagua. Afinal, toda cidade realmente desenvolvida tem uma torre com vista panorâmica assinada por Oscar Niemeyer.
Nos fins de tarde, vou passear pelas praias urbanas de Rancagua e ver como a Copa do Mundo de 1962 trouxe à cidade um amplo entendimento de que aquilo deve pertencer aos moradores de lá e não aos turistas. E vou notar que não há prostituição infantil, nem tráfico de drogas, nem conivência das autoridades com delitos que mancham a paisagem de Rancagua com vergonha e pedofilia e exploração sexual e subserviência ao poder do euro.
Antes de sediar uma Copa, imagino, Rancagua deveria ser um caos. Trânsito estrangulado, disputas inócuas pelo poder, prefeitura inoperante, gente que se importava muito mais com a aparência do que com a essência. Mas depois da Copa de 1962, nossa, tudo deve ter mudado. Buracos foram extintos das ruas, favelas foram 100% urbanizadas, a cidade como um todo foi beneficiada pelo frenesi que tomou conta da região em pouco mais de um mês de Copa do Mundo.
Ah, sim, e o estádio! Nossa senhora, que estádio! O antigo Tenientón deve ter sido substituído pelo suntuoso Estádio El Teniente, numa obra faraônica que foi uma das principais responsáveis por elevar a cidade a um dos centros mundiais do esporte bretão. Crianças, jovens, adultos, todos devem ter sido tomados pela alegria efusiva e incontrolável de ser uma subsede. E completamente envoltos por esse sentimento, passaram a praticar esportes todos os dias, sem tréguas (sábados domingos e feriados inclusos), para elevar a população de Rancagua ao posto de povo mais saudável do planeta. Tomara que tenha alguma partida do América de Rancagua contra o ABC Rancaguense. Seria realmente inesquecível.
Já comprei minhas passagens. Ninguém me segure. Vou passar férias em Rancagua de qualquer jeito. E se por acaso eu não voltar, não se preocupe, é normal. Dizem que os gringos costumam ficar por lá. Não deve ser pelas mulheres fáceis, nem pela vista grossa das autoridades a delitos leves como prostituição infantil, nem muito menos pela falta de fiscalização sobre o que entra e sai do país através do aeroporto da cidade. Deve ser pelo ar. Dizem que Rancagua tem o 2º ar mais puro das Américas. Você já deve ter ouvido falar disso.
O Vaticano lança nesta quinta, 21 de maio, uma rede social integrada ao Facebook para aproximar os jovens da Igreja. O portal Pope2you (algo como “o Papa para você” escrito de forma moderninha) é um esforço da Santa Sé em se adaptar aos novos tempos, buscando através da interatividade um aumento de sua participação junto ao público jovem. Mais ou menos como a Coca-cola, o McDonald’s e o Marlboro já fizeram há algum tempo. Só que desta vez é tudo em nome de Deus.
Pensando bem, faz todo o sentido a Igreja usar do benchmark para tentar voltar a ser competitiva. Eles já vêm fazendo isso há anos. A saber: benchmark é o processo de se espelhar em uma marca bem sucedida para ser como ela.
A Igreja fideliza seus clientes através da coerção, usando o medo do inferno como argumento para manter todo mundo ao seu redor. É como faz o McDonald’s: por mais um real aceita a batata grande? E aí você sente medo de ter fome mais tarde e diz sim. Além disso, tem os combinados: hóstia + bênção por apenas um dízimo (e você ainda pode se confessar se já tiver a crisma). É como a promoção nº 1 do McDonald’s. Mas na missa ninguém pode escolher entre batata e nuggets. Só tem o pão nosso de cada dia mesmo.
Da Coca-cola, a Igreja copiou os slogans que prometem felicidade eterna. Algo como “viva o lado católico da vida”. E tome emoção pra valer: gente feliz, cantando empolgada, entregues ao júbilo da vida. Não, não é uma propaganda de refrigerante. É uma celebração das mais carismáticas, se é que você me entende.
Agora, a arte de conseguir o cliente desde novinho (porque depois que cresce, ele não consegue mais se livrar daquele vício) não foi a Igreja que copiou do Marlboro. Foi ao contrário. Há milênios o Vaticano faz o que a indústria de cigarros só descobriu na década de 80: quanto mais cedo você fuma o seu primeiro cigarro, mais tempo você será consumidor. Substitua “você fuma seu primeiro cigarro” por “você é batizado” e pronto: está aí a estratégia de marketing de fidelização mais bem bolada de todos os tempos. E nem venha me dizer que a Igreja não mata como o cigarro, que eu vou começar a falar da Santa Inquisição e aí esse papo vai longe.
A Igreja não precisava estar na internet para se modernizar. Bastava acabar com algumas pragas de seu idealismo que só contribuem para atrasar a vida. Condenar a camisinha, por exemplo. O Papa não deveria tentar mandar nos órgãos genitais dos outros. Ora, se eu envolvo ou não meu pênis com um pedaço de látex, Deus não tem nada a ver com isso. A Santa Sé deveria, isto sim, controlar os membros de seus asseclas, que andam por aí fornicando – com ou sem consentimento – com crianças, adultos, porcos, galinhas, portas, buracos na parede e quem mais der bobeira. Puxa vida, se a Igreja não consegue fazer com que seus padres deixem de estuprar criancinhas, que ao menos impeça que as criancinhas molestadas sejam contaminadas por mazelas como sífilis, gonorréia, cancro mole e aids.
O Papa pode criar zilhões de redes sociais, fazer avatares pro MSN, gerar scripts catequizadores pro Twitter, colocar no ar um Orkut, um blog, um canal de vídeos no Youtube. Enquanto a Igreja Católica continuar com seu complexo de Deus, achando que é onipresente-onisciente-onipotente, ela continuará presa à Idade Média. E a Idade Média, como todos sabem, é a Idade das Trevas.
De: Patrício Júnior
Para: dep.sergiomoraes@camara.gov.br
Data: 12 de maio de 2009, 09:16
Assunto: Não me lixo
Eu não me lixo para vossa excelência. Nem me lixarei. Não, jamais. Sua declaração, ao invés de despertar em mim a ira da vingança, a vontade de dizer “a recíproca é verdadeira”, fez com que eu acordasse para sua tentativa de colocar a responsabilidade pela crise moral política que vivemos nas costas da imprensa. Não me lixo para vossa excelência. Pelo contrário. Agora, estou atento aos seus passos, vigilantes aos seus deslizes, mais interessado em vossa excelência que qualquer um.
Acusar a imprensa de publicar somente inverdades é uma clara tentativa de desviar o foco e confundir a opinião pública – essa mesma para qual o vossa excelência se lixa. A imprensa, assim como o Judiciário, está fazendo esse país andar. Ambos assumiram o papel que deveria ser do Legislativo – fiscalizar e legislar, respectivamente. Há jornais tendenciosos, sim. Há revistas irresponsáveis, sim. Mas são o mal necessário de uma democracia e vossa excelência, como representante do povo eleito através de um sistema democrático, deveria saber que não há povo livre sem imprensa soberana.
Vossa excelência, com sua empáfia na tribuna, vociferando que foi ameaçando por uma jornalista, não percebeu que não tem o direito de responsabilizar a imprensa pela falta de moral de seu bando. Bando sim. E mais: depois, amansado pelas lentes da Globo, falou baixinho, deu explicações, tentou consertar o que não tinha conserto – será mesmo que vossa excelência se lixa para a opinião pública?
Eu espero que nas próximas eleições a opinião pública se lixe para vossa excelência. Mas até lá, que a opinião pública esteja colada em seus atos, presente em cada um de seus deslizes, disposta a pegar vossa excelência com a boca na botija. Que vossa excelência não tenha mais um dia sequer de sossego, acossado, amedrontado, sufocado pela força dos que não têm importância para vossa excelência. Depois disso, aí sim, poderemos nos lixar. Ostracismo, é o que vossa excelência merece.
Discurso de Sérgio Moraes
Sérgio Moraes tenta se explicar
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