[ESCRIBAS]
BUDAPESTE – por fábio farias

19 janeiro 2009 § Nenhum comentário ainda

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Os prédios cinzas, os muros pichados, o vento incessante. Budapeste ameaçava chuva. Ela me chamou para tomar um café, na cidade de Peste às margens do Danúbio. Rosto branco, cabelo preto, nariz afinado e um lindo inglês com sotaque húngaro. Eram 15h40 e o céu estava escuro. O café descia quente na minha garganta.

– Vou passar o final de semana fora, volto na segunda.

Seus pequenos olhos magiares tinham uma expressão indecifrável e seu inglês com o R puxado quase não me fez entender o que ela dizia.

– Você vai de que horas?

– Vou hoje, às 10 horas.

Quis identificar tristeza no seu olhar, mas seus dois olhinhos continuavam expressando algo que eu não entendia. Sorri, falei que tudo bem e disse que a esperaria para continuarmos a conversa que começamos assim que cheguei em Budapeste. Ela tomou um longo gole do café e agora eu pude identificar um pouco de carinho e afeto naquele belo par de olhos escuros.

Szofia era de uma beleza magnética que conseguia atrair para o seu redor tudo o que queria. Disse para mim que adorava o Brasil e queria muito conhecer o país. Me encantei com o seu jeitinho de falar inglês, a sua forma de mover os cabelos, o seu jeito de indecifrável de olhar e de sorrir. Estava há dois dias com ela, numa espécie de amor platônico autoflagelado, ao qual eu me culpava e me torturava por cada momento em que poderia me declarar mas me perdi diante dos seus encantos. Eu iria sentir falta dela.

Às 10, fui com ela na estação de trem. Fazia por volta de 2 graus na capital húngara. Ela pegaria um velho trem azul, resquício do governo comunista numa estação velha e lotada de pessoas vestidas com casacos e sobretudos pretos e sacolas e malas nas mãos, além da tristeza no rosto. Abracei-a, beijei sua pele branca e macia, desejei boa viagem e vi o trem partir com a chegada de uma forte chuva na cidade.

Budapeste chorou os três dias de sua ausência.

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é jornalista
e escreve
no Blog do Rosk
e no coletivo Catorze.

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[CONTO]
A PALAVRA

3 janeiro 2009 § Nenhum comentário ainda

boneca

Aquela palavra. Pronunciada desde sempre em sua casa, tudo com uma falta de pudor, um desprendimento da vergonha, uma naturalidade. Várias mulheres, poucos homens, o resultado era que a palavra sempre pousava em algum lábio nas conversas casuais. Às vezes porque Ana Paula sentia dores muito fortes, outras vezes porque não tinha chegado a de Carmem. A prima sempre fazia esse tipo de drama com a palavra. Parece que sentia prazer em desesperar a tia Lúcia, que prendia o choro com as piadinhas da filha.

A palavra.

Ela não gostava de ouvir, não queria saber o que era, tinha nojo de pensar que aquilo aconteceria um dia. A mãe, entretanto, era compreensiva com a repulsa da filha. Dizia que era inevitável, que toda mulher passava por aquilo, que a hora dela chegaria. Eu não quero, mamãe, não quero, Bela dizia, agarrada à sua boneca de pano, batendo o pé no chão como se isso pudesse frear a vida.

Antes dela, porém, foi a vez de Julinha. Pouco mais de dez anos, a menina. Gastava a infância jogando futebol com os garotos, toda cheia de pereba nos joelhos, o cabelo desgrenhado como uma luta. As tias reclamavam que isso era coisa de menino, mas a mãe de Julinha era moderna, queria mais que a filha fosse feliz. Bela amava a prima com seu jeito moleque, seu não atentar à vida, tanta liberdade. Pois Julinha provou que não tinha nada de menino justamente num almoço de domingo. Sentada na varanda fazendo a Barbie bater pênalti pro Ken defender, e de repente aquilo. Vermelho, viscoso, vivo. A palavra.

A primeira que viu foi Carmem, berrando como locomotiva pela casa que Julinha estava machucada. Correu todo mundo. Aliás, quase todo mundo. Os homens ficaram de longe, como quem bisbilhota um acidente de trânsito, todos imersos num não entender tipicamente masculino. Foi a mãe de Bela quem primeiro se aproximou da prima, toda lacrimosa agarrada à Barbie, ao Ken, à bola. O que aconteceu comigo, tia?, ela perguntou chorosa. E a mãe de Bela, trocando olhares com a filha, abraçou a sobrinha como se um útero pronto a proteger por nove meses. A palavra, Julinha, a palavra.

Depois daquilo, Bela passou a odiar mais ainda o que era inevitável. Primeiro, porque percebeu Julinha cada vez mais distante da bola, dos meninos, do sentar no chão só de calcinha. Segundo, porque começou a enxergar seu futuro na prima. Sempre com o cabelo domado por cremes, os lábios mergulhados nos mais brilhantes batons, as unhas grandes que não brincavam mais na terra de antes. Julinha agora se chamava Júlia.

E Bela olhava em volta de seu mundo perfeito de bonecas cor de rosa e vestidos de babado para dizer não, não e não à palavra. Não àquilo que transformou Julinha numa versão mais nova da Carmem. As duas de quiquiqui pra lá e pra cá, fingindo timidez na frente dos meninos, sorrindo entre dentes. Falsas, dissimuladas, pesadas.

A mãe tentava em vão dissuadi-la da aversão. Explicava calmamente, veja bem, Bela, não é ruim, você fica mais bonita, vai ter mais liberdades. E era tão doce o tentar convencer da mãe que quase conseguia. Mas não. Bela se trancava no quarto, dizia que odiava todo mundo e rezava para que jamais passasse a se chamar Isabel.

Um dia acordou e viu a mancha no lençol. A palavra se espalhando pelo tecido branco, viva e pulsante na cor da guerra. Gritou, chorou, quis morrer. A mãe veio correndo, entendeu tudo, deu aquele abraço de útero. E foi tão bom estar nos braços da mãe, sentir-se protegida, ver que a mãe era como ela, feliz, verdadeira, leve, não parecia com a Carmem nem com a Júlia.

No aniversário de 60 anos, lembrava suavemente daquele dia de descobertas até ser interrompida pela neta. Com a bola na mão, a menina queria que Vó Bela ensinasse a Barbie a bater um pênalti.

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[CONTO]
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24 novembro 2008 § Nenhum comentário ainda

Ah, que saudade daquele tempo. Os carros eram bicombustíveis e podíamos optar por álcool ou gasolina. Sim, gasolina. Um composto líquido à base de petróleo que todos sabiam que iria acabar. Pois é, acabou. E dá saudade de parar no posto e dizer “Põe vinte reais de gasolina, por favor”.

Saudade do real. Nessa época, a língua mais falada do mundo era o inglês, a moeda de maior circulação era o dólar americano e a única superpotência bélica e econômica eram os Estados Unidos. Sim, ali no meio da América do Norte. País grande, mas com apenas dois partidos fortes: democratas e republicanos. Saudade do George W. Bush, né não? Todo mundo dizendo que ele era um assassino em massa e ninguém consegue explicar direito por quê os rumos do planeta ficaram tanto tempo nas mãos dele. Era bom ter alguém para odiar naquela época.

Sinto saudades da música em mp3 e da indústria fonográfica. Explico: mp3 era um arquivo de compactação (coisa mais antiga!) usado para trocar músicas pelo computador. Antes dele, a gente comprava CDs (disquinhos metálicos que continham de 12 a 20 faixas e custavam uma fortuna). Depois dele, foi a época de ouro. Lembro que eu tinha mp3 de bandas do mundo inteiro. Sem pagar um tostão. Nessa época, a internet era uma terra de ninguém. Tinha se propagado freneticamente há pouco mais de uma década e todo mundo se encantava com as facilidades que ela possibilitava. Trocávamos fotos, clipes, filmes inteirinhos, temporadas de séries, pornografia. É, tinha pornografia na internet. Lembra do Google? Nossa, tanta coisa que fica pra trás.

Naquele tempo, pra ser gente, você tinha que ter câmera digital (a de sete megapixels era top de linha) e iPod (um aparelhinho que servia pra ouvir os tais mp3). A maioria dos computadores ainda era composta pela tríade monitor-gabinete-periféricos, muito embora já existissem os laptops. Eram computadores portáteis que pesavam cerca de dois quilos (!) e que, a despeito de qualquer dor de coluna, eram transportados por seus donos para todos os cantos. Com muito orgulho, diga-se de passagem. Lembra daquele bando de gente acessando sites nas praças de alimentação dos shoppings? Hoje é impossível não gargalhar!

Por falar em internet (e já que citei o finado Google), quem se lembra do Orkut? Uma foto no canto da tela, um questionário dizendo quem você era, um espaço para receber recados. Pronto, você já podia se conectar com qualquer pessoa no mundo. Vivia dando erro e travando. Mas também, com a internet naquela velocidade! Hoje me pergunto como era possível fazer tanta coisa com conexão de 1 mega por segundo. Tenha santa paciência!

A televisão tinha horários pré-estabelecidos. Quer assistir o jornal? Espera até oito da noite. Não pode? Não assiste. Ou então grava. Numa fita que a gente chamava de VHS pra colocar num aparelho chamado videocassete. Quase ninguém tinha mais esse dinossauro do entretenimento, eles haviam sido substituídos pelo DVD (alguém lembra do DVD?).

Rock era coisa de jovem. Música eletrônica também.

Sinto saudades do meu “Cavaleiro das Trevas” impresso em papel couchê – no tempo em que imprimir literatura em papel não era crime ambiental porque, vá lá, tínhamos poucas florestas, mas ao menos tínhamos. No verão era quente, no inverno era frio. E tinha duas estações a mais: primavera e outono. Uma com flores (sim, flores!, coloridas, perfumadas, encantadoras), outra com folhas secas. Sinto saudades dos livros também. Eu tinha tantos. Todos de papel, a gente tocava enquanto lia, ia passando as páginas uma a uma com a ponta dos dedos, cheirando – tinta fresca quando era novo, ácaro e bolor quando dos clássicos. Naquele tempo, escritores eram imortais.

Alguém lembra do carnaval de Olinda? E do celular com câmera? Quem se lembra das novelas da Globo? Aliás, alguém lembra da Globo? Alguém se recorda como eram bonitas as casas de madeira? Lembra que dava pra passar férias no campo ou na praia? Dou um doce pra quem lembrar o nome do primeiro presidente de esquerda eleito por voto direto no Brasil. Alguém? Alguém?

Ah, que saudade daquele início de século. Não tinha tantas guerras, não tinha esse bando de doenças novas que nem consigo dizer o nome, não tinha esterilidade em massa. Tinha um monte de outras coisas ruins sim, não vou negar. Mas a gente se tocava pra fazer sexo. E isso curava qualquer mal da humanidade.

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[CONTO]
O MAR E O VELHO

17 novembro 2008 § Nenhum comentário ainda


“Pode ser que eu não esteja tão forte
como penso – admitiu o velho –,
mas conheço todos os truques.”

Ernest Hemingway em O velho e o mar

Às quinze para a meia-noite, quando todos já estavam com seus champanhes em punho, descalços e excitados, devidamente vestidos em branco num alvor que dava ainda mais esperanças no futuro, o velho disse: eu também vou à praia. A frase, ao se estender pela casa, quase sufocou a euforia reinante. Quase mesmo. E só não o fez por completo porque o respeito e alguma noção politicamente correta impediram filhos, netos, genros e noras de tentarem demover o patriarca da idéia.

Estavam a cerca de cem metros da beira-mar e o velho não agüentaria a caminhada. E mesmo que alguns cultivassem a esperança de que ele agüentaria, dificilmente chegariam à praia antes da meia-noite, visto que os passos curtos apoiados na bengala não eram os melhores amigos da pontualidade. Antes que a sensação de impotência recaísse sobre todos os presentes, entretanto, um deles teve a idéia. Vamos de carro. Obviamente, não alcançariam a beira-mar sem que atolassem o veículo, mas encurtariam o máximo de distância possível. Vamos até onde o carro conseguir.

A horda de mais de vinte pessoas, alguns com bebês nos braços, outros carregando frutas, mais alguns de mãos abanando e com o peito recheado de desejos, seguiu caminhando pela avenida. Os passos eram apressados mas contidos, ninguém queria chegar à orla suado ou com os cabelos desfeitos. No caminho, contavam suas uvas, repassavam os pedidos, alguém perguntava pelas romãs. O carro passou por eles próximo ao acesso à praia. Entrou numa viela e seguiu rumo ao mar. O mais próximo que conseguisse. Alguns sorriram ao ver o velho abanando as mãos na janela. Faltavam cinco minutos para a meia-noite.

No estacionamento improvisado, no ponto exato em que o pneu afundou na areia mais que o recomendável e o motorista – tomado de prudência – resolveu não insistir, o velho tentou descer sozinho do carro. Como se mostrasse impossível, contou com a ajuda do filho mais novo e do genro mais velho. Sempre dizendo, é claro, que não precisava, que pode deixar, que eu vou sozinho. Era sabido que não iria. A areia da praia estava fofa, solta, voando com o vento forte daquela noite. Pra completar, a maré estava baixa, aumentando a distância entre o carro e o mar. Faltavam dois minutos para a grande hora quando o patriarca deixou bem claro que fazia questão de molhar os pés.

Fogos iluminaram o céu. Gritos, abraços, aleluias das mais diversas formas. Pois pode prestar atenção: nessa hora, quando todos estouram champanhes e brindam aos próximos 365 dias, fica tudo muito parecido com um louvor de igrejas. Assim, como anjos, abraçados e felizes, a família festejou. Não faltaram beijos na face do velho, todos felizes pela presença dele mas sem saber exatamente por quê – seria o desafio vencido?, ou por não ter causado atrasos?, seria simplesmente porque estava ali?

Com a bengala se enterrando na areia fina e branca, o velho saiu caminhando rumo ao mar. Quase não notavam sua ousadia. Mas o genro correu para apoiá-lo, disfarçando sua preocupação com comentários sobre a beleza dos fogos. Lentamente, como é a fisiologia dos que já viveram muito, o velho tirou as sandálias, deixou a bengala cair para o lado, livrou-se do apoio do genro e avançou três passos para dentro da água. A primeira onda do ano novo tocou, então, seus pés.

O filho veio logo em seguida, preocupado, aturdido, incrédulo. Estancou um pouco atrás, deixou o cigarro cair dos lábios e buscou com sofreguidão a máquina fotográfica nos bolsos. Era inacreditável. Ainda com as luzes estourando sobre suas cabeças, todos puderam ver o patriarca mergulhando sozinho no mar.

O sal, os sargaços, o gelado do mar. O velho sentiu cada um desses elementos em seu corpo. E de alguma forma que não sabia precisar, sentia outras coisas que não deveriam fazer parte do oceano. Sua mãe jogando a água da banheira em sua cabeça, o primeiro beijo em meio à chuva, a farda das forças armadas mergulhada em medalhas, o cheiro do cabelo molhado daquela menina do interior, o suor nas mãos até que o médico anunciasse que era menina, o olhar do primeiro neto quando pediu um copo d’água dizendo vovô. Como uma criança de volta ao ventre, rolou na delícia de uma pequena onda, sorriu do seu desequilíbrio, brincou dentro de sua placenta.

Ao ver tanta vida emanando do velho, do seu sorriso de poucos dentes e muitos sentimentos, do seu olhar cinzento mas incrivelmente brilhante, dos seus cabelos que eram brancos mas de repente estavam prateados, todos os outros esqueceram seus pedidos. Com romãs e uvas sem utilidade, só pensavam numa coisa ao voltar pra casa: se jogariam no mar o quanto antes.

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[CONTO]
IMACULADO

15 novembro 2008 § Nenhum comentário ainda

cruz

“Eis que conceberás
e darás à luz um filho,
e lhe porás o nome de Jesus.”
Lucas, 1:31

Ele suava como nunca. Os olhos vidrados no monitor, o ventre exposto sobre a maca, aquele ruído de escafandro. Sim, o médico buscava como um escafandrista algo naufragado dentro dele. Na barriga, gel. Na tela, tripas. Via suas entranhas em preto e branco como um filme antigo de terror. Nervoso, não conseguia pensar em outra coisa se não na morte. As dores abdominais tinham se tornado constantes logo após a Semana Santa, se bem que se lembrava nitidamente de já sentir-se um pouco diferente na quarta de cinzas. Iniciou a Quaresma, sei lá, se sentindo estranho. Inchado. Temperamental. Confuso. Chegou a chorar na missa mais de uma vez. Os fiéis sentiam o peso da emoção, acompanhavam as evoluções do choro do padre. Ele não entendia. Saía da igreja aos prantos e no quarto, retirando o hábito ainda em soluços, rezava para que Deus o fizesse compreender. Só mesmo dois meses depois, ainda extremamente temperamental, decidiu ir ao médico. Sentia-se gordo, pesado, lerdo. Mais de uma vez, dormiu enquanto fiéis se confessavam. Alguma coisa muito estranha acontecia no seu corpo e ele, rezando, orando, implorando, pedia para não ser a morte. Pois o médico solucionou todos os enigmas tão logo afastou o leitor de ultra-som de seu ventre: ele estava grávido. Não era morte no seu corpo. Era vida.

Ignorou os olhos saltados e o tom de incredulidade do médico quando ouviu “O senhor está grávido”. Reagiu simplesmente com um impulso: sorriu um riso embasbacado, colocou a mão na boca, deixou uma lágrima descer. Era um milagre. O médico estava assustado. Afastou-se um pouco em busca do telefone no bolso, andava de costas, não tirava os olhos da barriga do padre. Sim, estava inchada. Sim, ouvia-se um coração ali dentro. Sim, estava grávido. O médico não conseguia se concentrar nas teclas do celular, discando enquanto os olhos iam dos números ao ventre, do ventre aos números. Quando o padre pediu segredo, já era tarde. O médico tinha acabado de enviar uma mensagem à junta clínica do hospital.

Não demorou muito para que a sala de ultra-sonografia estivesse lotada de doutores. As mulheres resistiam à novidade, ficavam olhando de longe, algumas até mantinham uma atitude agressiva ao fato. “Grávido como?”, uma chegou a perguntar. Os homens não. Olhavam a tela do ultra-som com sorrisos de vitória, davam-se tapinhas nos ombros, um até sugeriu comprar charutos. O padre respondeu à pergunta da médica acariciando a própria barriga: foi um milagre, doutora, foi um milagre.

Pois o fato chegou ao conhecimento da Igreja tão logo deram alta ao padre. Cinco dias afastado dos ofícios sagrados, sem colocar os pés na paróquia, e chega ao bispo um atestado médico: o padre estava afastado devido a exames pré-natais. Primeiro, ele sorriu da piada. Em seguida, forçou-se a embrutecer. Quem tinha a ousadia de fazê-lo perder tempo com esse tipo de chiste? Pediu que um monge fosse pessoalmente visitar o padre. No dia seguinte, de olhos arregalados, o monge retornou com uma lista de chá de bebê. Sim, o padre estava grávido.

No domingo, o bispo foi visitá-lo. Levava dois coroinhas a tira-colo, como se dissesse veladamente que se preciso usaria da força. Encontrou o padre preparando a missa daquela noite. O corpo esguio de outrora foi substituído por uma silhueta estranha: os quadris largos, a barriga proeminente, as bochechas arredondadas. Tinha engordado e enlouquecido, concluiu o bispo. O padre lhe saudou com um sorriso enquanto dizia que o ofício daquela noite seria sobre a concepção de Jesus através do Espírito Santo. E emendou: agora que sei como se sentiu a Virgem, posso passar a verdadeira emoção desse milagre aos fiéis. O bispo desmaiou.

A carta narrando os últimos acontecimentos chegou à Arquidiocese três dias depois. O bispo contou tudo em detalhes, anexou cópias de exames, um DVD com a ultra-sonografia e ainda solicitou a presença imediata do arcebispo. Ninguém mais poderia resolver esse problema. Ao ler todo o material, o arcebispo não esboçou nenhuma reação. Apenas pegou o telefone, discou pausadamente e esperou na linha. Quando obteve resposta, disse secamente: cardeal, preciso da sua ajuda.

Foi a chegada do cardeal à cidade que chamou a atenção dos jornais. Até então afastada do caso graças à discrição dos médicos, a imprensa mergulhou de cabeça nos acontecimentos surreais que rondavam aquela paróquia. Antes que o cardeal chegasse, já tinham publicado que a concepção provavelmente tinha se dado no carnaval, que o padre havia deixado a paróquia nessa época para, supostamente, visitar a família no interior, que testemunhas haviam visto um pierrô muito semelhante ao padre se beijar apaixonadamente com um diabinho menor de idade no baile da terça-feira. Também noticiaram que o parto, pelos cálculos de obstetras experientes, ocorreria na noite do dia 24 de dezembro. Logo passaram a chamar o bebê de Jesus.

Os fiéis estavam em polvorosa. Desde que a mídia passou a dar destaque à história, as missas da paróquia estavam cada vez mais lotadas. Muitos queriam ver de perto o padre grávido. Alguns, com aversão. Faziam o sinal da cruz, pediam perdão por acreditar naquelas aberrações, saíam correndo para se confessar em outra paróquia. Mas muitos outros agiam com devoção. Pediam para tocar a barriga, faziam orações coletivas ao redor do padre, alguns que chegaram a sentir o bebê chutando atribuíram a ele as graças alcançadas. O padre acumulava presentes em seu quarto: sapatinhos, mantas, gorros, mamadeiras, fraldas. Seu sorriso era cada vez mais embasbacado à quantidade de alegrias que Deus tinha reservado para ele. Passou a conversar com o bebê antes de dormir. E de tanto ouvir na tevê, sem querer, assim naturalmente, começou a chamá-lo também de Jesus. Ah, menino Jesus – ele dizia, passando suavemente óleo de amêndoas na barriga – quanta alegria você veio trazer para este santo lar. Foi no meio de uma dessas cenas íntimas que o cardeal abriu abruptamente a porta. Vinha acompanhado do arcebispo, do bispo e de mais alguns outros padres. Tinha os olhos injetados e a testa suada. O padre manteve-se segurando sua barriga de seis meses sem entender muito bem aquela invasão. O cardeal limitou-se a dizer: já temos a clínica para fazer o aborto.

O menino Jesus já tinha um quarto improvisado. O padre havia dividido seu cubículo com biombos doados pelo Clube das Mães do bairro. Um berço, também doado, já estava preparado para recebê-lo com manta azul, brinquedos pendurados e um bichinho de pelúcia. Era um burrinho. Os presentes não paravam de chegar, entretanto, fazendo que fora dos biombos tudo lembrasse um quarto de criança. Chupetas, paninhos, mamadeiras. Até o cheiro já era de neném. Aquele odor de talco, suave e morno, circulando pelo cômodo enquanto o padre ia e vinha na cadeira de balanço aplicando-se óleo de amêndoas. A entrada da comitiva, portanto, destoava completamente do universo de paz existente ali dentro. Tanto que ao ouvir a frase do cardeal, a única reação do padre foi pedir silêncio. Psiu, ele vai escutar – disse. E levantou-se com dificuldade sob os olhares atônitos dos clérigos para preparar sua ida ao hospital. Tenho exames hoje – falou sorrindo – os médicos estão pensando em não fazer parto normal e preciso ver essa coisa da cesariana.

O cardeal estava furioso. Mandou que todos saíssem para conversar a sós com o grávido. A comitiva foi se retirando sem conseguir despregar os olhos da barriga. Entre os murmúrios dos que saíam, o padre chegou a ouvir o bispo dizer que aquilo tudo era obra do demônio. Não se deixou abalar. Sabia do milagre, havia sonhado com um anjo, tinha certeza que o Espírito Santo tinha um plano para ele. O cardeal sentou-se na cama. Respirava fundo, como planejando a melhor forma de falar, apontou a cadeira de balanço ao padre. Estavam agora frente à frente.

O cardeal quis saber a melhor data para marcar o aborto. O padre ainda tentou se fazer de desentendido, desconversar, falar que preferia que a decoração não fosse azul porque, enfim, não sabia ainda o sexo da criança. Não adiantou. O cardeal era um pedra de gelo e se comovia cada vez menos com a ladainha do padre. Que levou as mãos ao rosto, disse que não acreditava que a Igreja iria impedir aquele milagre e chorou como só uma… bem, como só uma mulher grávida consegue fazer.

Ao longo das semanas seguintes, lentamente, mesmo mantendo todos os cuidados de sempre, o óleo de amêndoas, os exames pré-natais, a dieta balanceada, enfim, mesmo comportando-se dignamente como alguém que carrega uma vida dentro de si, o padre foi se convencendo de que o cardeal estava certo. Não teria quem cuidasse da criança enquanto se dedicava ao oficio sagrado. Sua renda garantida pela Igreja era baixa demais para alimentar duas bocas. Um bebê implicaria em refazer muitos planos, mudar muitas rotinas, sacrificar muitas coisas. No dia de ir à clínica improvisada no quintal da casa de um médico aposentado, o padre estava completamente certo de que aquela era a melhor opção.

A Igreja não se pronunciou oficialmente sobre o caso. Apesar das especulações da imprensa, a Santa Sé não emitiu nenhuma nota, nenhum comunicado, nenhuma bula. Naquele mesmo dia, médicos foram à tevê posicionar-se contra o aborto. Diziam que a Igreja interromperia uma vida por um simples capricho. Que poderiam dar mais tempo à ciência para compreender melhor o fato. Que era precipitado taxar aquilo de “aberração contra as leis de Deus” sem se perguntar mais profundamente no que aquilo poderia representar para a humanidade. Extra-oficialmente, a Igreja rebatia às críticas dos cientistas dizendo que Deus havia estabelecido a vida de uma maneira e só aquela maneira era considerada divina pela Igreja.

No dia 24 de outubro, dois meses antes do Natal, o aborto foi feito. O bebê pesava três quilos, era um menino e fez recender pela sala de cirurgia um forte cheiro de mirra e incenso. O único a chorar foi o padre. Todos os outros santos homens da Igreja comemoraram com vinho a vitória da fé sobre a ciência. Diziam que a lei de Deus, acima de tudo, se havia cumprido. Estranhamente, daquele dia em diante, todos os bebês passaram a nascer anencéfalos.

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