Sou escritor, jornalista, publicitário e um dos fundadores da Editora Jovens Escribas. Já publiquei dois livros: o romance Lítio e a coletânea de contos A Cega Natureza do Amor. Aqui no PLOG escrevo sobre tudo. E até sobre nada.
- Você já ouviu falar em “Watchmen”?
- Não.
- Ótimo!
- É o quê?
- Um filme. E a gente vai escrever uma resenha sobre ele!
- Vou escrever assim, sem nem saber que filme é esse?
- Sim!
Esse foi o diálogo emeesseênico entre mim e Patrício, no qual eu topei essa espécie de “teste-cego” pra escrever sobre Watchmen – O Filme. A essa hora (terceiro intervalo do dominical “Fantástico”) penso que ele, fã da HQ que originou a película já, deve ter uma resenha rebuscada, profunda e toda amarradinha com argumentos convincentes sobre as suas impressões. Eu fui pro cinema sabendo apenas que era um filme inspirado nos quadrinhos desenhados por Dave Gibbons e escrito por Alan Moore pelos idos de 1985 (o que, de fato, não quer dizer nada a quem vive à margem desse tipo de revista, como eu). Mas senti a importância da matéria quando estava indo, atrasadíssima, ao Cinemark pegar a sessão das três e cinco, e por acaso comentei com meu sobrinho de quinze anos que estava indo ver o tal longa.
- Ai, eu quero ir com você!
- Pois então corra!
Chegamos a tempo, mas ele não pôde entrar. Não imaginei que um filme “de desenho” pudesse ser proibido para menores de dezoito anos. Mas era. E não adiantou dizer que eu era responsável por ele, nem mostrar a identificação de jornalista, que iria escrever um texto, nada. A bilheteira sugeriu que ele fosse assistir ao besteirol “Um hotel bom pra cachorro”, o que lhe soou como um insulto à sua inteligência. À contragosto, teve que se contentar com “Jogo entre Ladrões”, para não ficar boiando durante as mais de duas horas e meia de “Watchmen” que eu tinha pela frente.
Mais ou menos, a ficção mostra uma realidade futurista – só que ambientada nos já passados anos oitenta – na qual super-heróis que curtem uma merecida aposentadoria se reúnem para investigar a morte de um colega. Nisso, descobrem um traidor no grupo e por aí se desenrola uma trama com focos oscilantes os quais o espectador tem que ficar ligado para acompanhar. O fim da Guerra Fria e um relógio que mede a tensão entre os Estados Unidos e a falecida União Soviética está sempre parado nos cinco minutos para a meia-noite, anunciando que uma tragédia pode acontecer a qualquer momento.
A garota da fila de trás não devia ter capacidade intelectual mínima para entender a história e, por isso, se refestelava fazendo comentários óbvios o tempo inteiro. O herói fora assassinado? Ela dizia que ele havia sido assassinado. Em voz alta, friso. Eu, que nunca fui fã de desenhos nem nada, e já estava ali com a capacidade máxima da minha boa vontade, fui ficando aborrecida. Para que o leitor não diga que eu estou sendo injusta, conto que a excelente trilha sonora me fez desistir de abandonar a sala lá pelo final da segunda hora. Me alegrou o coração ouvir a romântica “The Sounds of Silence”, de Simon e Garfunkel; a melódica “Hallelujah”, de Leonard Cohen; e alguns clássicos do trio de inquestionável qualidade Jimmy Hendrix, Janis Joplin e Bob Dylan. E nas horas em que subia o áudio, iupi!, não se podia ouvir a comentarista para quem eu já havia pedido silêncio duas vezes.
A produção jorra um pouco de sangue demais, é verdade, e mostra uma cena de sexo – mas nada que não se veja em um canal de TV aberta, por exemplo. Por isso não vi motivos para uma classificação etária tão alta.
Quando saí, meu sobrinho Mateus já me esperava à porta, com a pergunta ansiosa na ponta da língua:
- E aí?
- Ah, a trilha é muito boa, mas resumindo, eu não gostei não…
- Deve ser mais interessante pra quem gosta mesmo de quadrinhos, como eu, né?
Resumiu o meu conceito final.
Para saber mais sobre “Watchmen”, que lá pelas salas inglesas já desbancou o vencedor do Oscar desse ano, indico acessar a bíblia dos filmes, o IMDB.
Para ler a resenha de quem já leu o gibi “Watchmen”, clique aqui.
A pergunta “o que vai ser dos filmes de super-heróis depois de ‘Watchmen’?” é totalmente pertinente. Dito isso, passemos aos comentários.
“Watchmen” é uma das revistas em quadrinhos mais celebradas entre os iniciados. Tem um enredo complexo, repleto de subtextos, histórias paralelas que se cruzam, dados complementares, personagens com vidas entrelaçados. Pra você ter idéia, o volume completo da história tem mais de 400 páginas. É muita coisa, principalmente quando se trata de uma trama de super-heróis. Escrita com Alan Moore na década de 80, carregou por anos a pecha de ser “infilmável”. Até 2009.
Zack Snyder, mesmo diretor da adaptação de “300”, fez mágica. Simplificou o enredo, cortou histórias paralelas, centrou-se nos personagens mais importantes da trama e fez um filmaço.
A história se passa num mundo em que os super-heróis realmente existem. Mas não do jeito que conhecemos. São, na verdade, pessoas comuns que passam a fantasiar-se com roupas coladas e coloridas para sair às ruas combatendo o crime. Em meio a este cenário, um assassino de heróis surge, matando de maneira engenhosa membros desse estranho grupo da sociedade. Paralelamente a isso, vemos a Guerra Fria entre EUA e URSS (fato histórico mais importante da década de 80) evoluir lentamente para um conflito nuclear que pode dizimar toda a humanidade. As duas tramas, apesar de díspares, podem estar diretamente relacionadas.
“Watchmen” (o filme) expõe para platéias mais amplas questionamentos que a HQ já vinha fazendo aos iniciados há algumas décadas. Já pensou se os super-heróis realmente existissem? Que usos os governos fariam desses combatentes altamente treinados? Que prejuízos morais causaria a interferência das empresas nesse mercado? Qual o impacto que essas figuras teriam sobre a cabeça das pessoas? Como a sociedade se comportaria diante de eventuais erros dos mascarados? Que participação a imprensa teria sobre a construção de ídolos e a subseqüente destruição da imagem deles? E o mais importante: sendo pessoas comuns, quem garantia que a moral deles seria completamente correta? Como se pergunta logo no início do filme: quem vigia os vigilantes?
Com excelentes atuações e efeitos especiais impressionantes, o filme tem o grande mérito de conseguir com que uma história de adultos em roupas de lycra tentando salvar o planeta soe plausível. Além disso, outro grande problema é solucionado com maestria: a ameaça de uma guerra nuclear entre URSS e EUA. Explico: a HQ foi publicada em plena Guerra Fria. Portanto, na época, a ameaça do conflito ideológico evoluir para uma guerra real era iminente. Hoje em dia, essa ameaça não existe mais. Mas o diretor tira proveito de tragédias reais para dar força ao seu conflito fictício. E faz isso de uma forma muito competente.
Outra boa notícia é que para os fãs ferrenhos, que leram a HQ, esperaram pela adaptação e sabem de cor cada uma das passagens do gibi, o filme não decepciona. Apesar dos cortes nas histórias paralelas, de certa forma todos os personagens estão ali. Claro, não vou estragar a surpresa. Mas pra quem leu a revistinha e ainda não viu o filme, um aviso: vale a pena, porque o final é diferente. Apesar de igual.
Por fim, só devo comentar que mordi minha língua quanto à classificação do filme. Cheguei a dizer que era um absurdo ser proibido para menores de 18. Errei. O diretor manteve todos os elementos do gibi (incluindo a violência explícita). Acertou. Pra quem lê gibi, dá nervoso ver que Wolverine, nas adaptações pro cinema de X-Men, quase nunca usa suas garras para matar os oponentes. Em “Watchmen”, nenhum dos heróis tem esse puritanismo. E tome sangue.
Depois que você assiste a esse excelente filme, fica difícil engolir os padrões morais de Superman ou a aversão a armas de Batman. “Watchmen” desglamouriza completamente o mundo dos super-heróis. Nada é heróico na história de Alan Moore. E a fidelidade com que foi adaptado à tela grande – com diversos diálogos diretamente transpostos da HQ pro roteiro de cinema – faz a gente pensar: e agora, super-heróis, como é que vocês vão conquistar nossa confiança depois de tudo que vimos? Ou, em outros termos: quem vigia os vigilantes?
Para ler a resenha de quem nunca leu o gibi “Watchmen”, clique aqui.
Nos próximos dias, o PLOG publicará duas resenhas do filme “Watchmen”: uma escrita por mim, que li o gibi, acompanhei as notícias e torci ansiosamente pela estréia; e outra escrita pela amiga jornalista Rosilene Pereira, que nunca ouviu falar em “Watchmen” e vai pro cinema completamente leiga na incrível trama de Alan Moore.
Talvez seja um erro de digitação. Mas “Watchmen” aparece como proibido para menores de 18 anos no site do Cinemark. Estreando hoje nos dois cinema da cidade, nada na história de Alan Moore justifica essa classificação. No site do Moviecom, os limites de idade não estão disponíveis.
Corpos sarados e rostinhos bonitos foram e continuam sendo essenciais para a contratação de alguns atores em Hollywood, muitas vezes em detrimento de suas capacidades de interpretação.
Tem-se inúmeros exemplos de atores que eram esportistas famosos antes de se aventurarem no mundo do cinema, como o campeão mundial de natação Johnny Weissmuller (o Tarzan das décadas de 1930 e 1940), o astro negro do futebol americano e também lutador profissional de luta livre Woody Strode (Spartacus, Era uma vez no Oeste) e o fisiculturista “Mister Universo” Arnold Schwarznegger (Conan, Exterminador do Futuro).
Em contrapartida há astros que se cansam de atuar e viram desportistas, como Mickey Rourke.
Embora Rourke tivesse lutado boxe durante uma fase de sua adolescência, foi em 1991 que ele resolveu dar um tempo às telas e encarar o ringue como boxeador profissional. Não que ele tenha abandonado Hollywood de vez, apenas fazia um filme aqui e outro ali no intervalo de suas lutas.
Como ele já não era um garotão (e se arrebentou feio em algumas lutas, quebrando nariz, dedos do pé, costelas, precisando fazer cirurgias que lhe deformaram o belo semblante), preferiu se aposentar como boxeador e voltar a atuar, em 1995.
É, mas o ator de O Selvagem da Motocicleta, 9/2 Semanas de Amor e Coração Satânico também não encontrou vida fácil nesse regresso.
Foram participações desastrosas em filmes questionáveis e pouquíssimo vistos, com Rourke fora de forma (leia-se inchado) e com uma cara totalmente desfigurada. Porém, em 2005, sua sorte começava a mudar. Assim como John Travolta teve sua chance de dar a volta por cima com Pulp Fiction (Rourke recusou o papel do boxeador Butch Coolidge, que ficou a cargo de Bruce Willis), Rourke voltou à cena interpretando o grandalhão e sensível anti-heroi Marv, na adaptação cinematográfica da série de quadrinhos Sin City. Ganhou quatro prêmios de melhor ator coadjuvante pelo papel. Após Sin City, roteiros mais “classe A” foram aparecendo para ele, até que em 2008 veio O Lutador (The Wrestler).
Em O Lutador, Rourke interpreta o fictício lutador profissional de luta livre, Randy “The Ram” Robinson, outrora famoso na década de 1980 (com direito a jogo do Nintendo e action figure), que hodiernamente sobrevive de sua antiga glória, embora ainda suba constantemente no ringue. E é após uma dessas lutas ensaiadas que Randy sofre um enfarte e precisa parar de lutar para continuar vivo. O que se torna um grande dilema para ele, pois sua vida é a luta livre. Vê-se obrigado a arranjar trabalho em um super mercado, vai à procura da filha que ele havia abandonado durante os anos de ouro de sua fama, e tem como única amiga a stripper Cassidy (Marisa Tomei).
Numa atuação tão honesta que nocauteia quem assiste ao filme, Rourke passa toda a decadência e solidão de um homem que tenta a todo custo acertar na vida, tendo como motivação a empolgação da sua platéia, dos seus fãs (até quando está atendendo aos clientes atrás do balcão, no super mercado, ele procura “dar um show”, tratando a todos com bom humor e simpatia).
Não foi à toa que Mickey Rourke ganhou o Globo de Ouro e o BAFTA de Melhor Ator esse ano, e está concorrendo também ao Oscar por O Lutador.
O papel de Randy encaixou como um golpe perfeito para Rourke, mais até do que o de Johnny Walker, o boxeador de Homeboy (cujo roteiro ele assinou), que ele interpretou no ano de 1988, porque Randy é a essência de Rourke: um cara que já esteve no topo, fez uma besteira atrás da outra e está procurando fazer as pazes consigo mesmo.
A 66ª edição do Globo de Ouro, realizada no dia 11 de janeiro de 2009, surpreendeu àqueles que apostavam suas fichas em O Curioso Caso de Benjamin Button (The Curious Case of Benjamin Button), drama de fantasia estrelado por Brad Pitt e Cate Blanchett, adaptação do conto homônimo de F. Scott Fitzgerald.
Quem roubou a cena, merecidamente, foi um filme feito por ingleses, homenageando Bollywood: Slumdog Millionaire (cujo título brasileiro é Quem quer ser um milionário?), que levou para casa os prêmios de melhor filme, melhor diretor, melhor roteiro e melhor trilha sonora.
O roteiro de Slumdog Millionaire também não é original. Trata-se de uma adaptação do romance de Vikas Swarup, Q & A, pelo roteirista, diretor e produtor Simon Beaufoy (De cabelos em pé), e dirigida por Danny Boyle (Trainspotting e Sunshine – alerta solar).
No filme, a infância e a adolescência dos irmãos Jamal e Salim Malik é recontada quando Jamal, cujo emprego é servir chá numa operadora de telemarketing, resolve participar do programa “Quem quer ser um milionário?” – uma espécie de Show do Milhão indiano –, e é suspeito de ter fraudado as respostas. Na delegacia, ele recebe tratamento especial (apanha, é torturado, toma choque), mas convence o delegado que cada momento de sua vida continha a resposta para cada pergunta que lhe foi feita no programa, seguindo o princípio árabe do maktub. Também ficamos sabendo que Jamal não está interessado no prêmio em dinheiro. Ele quer é um meio de reencontrar o seu amor, a jovem Talika, que está sob o poder de um chefão do submundo local, para quem seu irmão trabalha.
Pela descrição acima, os mais afoitos podem pensar que se trata de um novelão mexicano que tem como cenário a Índia do ano de 2006 (período em que se passa a trama). Poderia até ser, mas o ritmo empregado por Boyle, entrelaçando sequências de passado e presente, alternando momentos dramáticos, românticos, de ação e de suspense – todos envoltos na excelente trilha sonora de A.R. Rahman – em quase duas horas de projeção, ingredientes de um legítimo bollywood (com direito até a cena de dança – o item number – no final), e o estreante Dev Patel (que antes só havia feito a série de TV Skins), como Jamal Malik, que fala ao delegado como se estivesse falando para nós, os espectadores, ora timidamente, ora de forma mais descontraída, relembrando os fatos mais significativos de sua vida e sua persistência de seguir à procura da amada.
A premiação de Slumdog Millionaire é uma forma de Hollywood prestar reverência à maior indústria cinematográfica de língua hindi, extremamente popular e rentável em toda a Índia, e que vem conquistando pouco a pouco o ocidente (eita, até a nova novela de horário nobre da Rede Globo agarra com unhas e dentes essa estética!).
Na lista dos indicados ao Oscar 2009, o filme de Danny Boyle concorre em dez categorias, contra treze de Benjamin Button, inclusive batem de frente em: melhor filme, melhor diretor, melhor roteiro adaptado, melhor fotografia, melhor efeitos sonoros, melhor montagem e melhor trilha sonora.
Tradicionalmente, o Globo de Ouro é uma premiação menos comercial do que o Oscar – e o O Curioso Caso de Benjamin Button tem cheiro, trejeito e formato de Oscar, isso é inegável para quem o assiste –, mas aposto minhas fichas numa parelha acirrada esse ano, pois Benjamin Button é Brad Pitt e Taraji P. Henson (que concorre a melhor atriz coadjuvante), já Quem quer ser um milionário? é uma inspiração coletiva.
Milena Azevedo é Mestre em História pela UNISINOS (RS), empresária, poeta, contista e roteirista de HQ. Tem dois livros de poemas publicados: O Perfil da Águia (1999) e Prometeu Livre – um outsider no Olimpo (2005), já ganhou prêmios no Rio Grande do Sul e no Rio de Janeiro (participando inclusive da coletânea com os 100 melhores poemas dos anos de 2003/04 e 2004/05, além de estar presente também no Livro de Ouro da Poesia Brasileira Contemporânea/2005, todos da Câmara Brasileira dos Jovens Escritores). Tem contos e poemas publicados aqui e acolá nessa imensa teia eletrônica que é a Internet, além de participar de antologias da Câmara Brasileira dos Jovens Escritores e da AGEI – Associação Gaúcha dos Escritores Independentes.
Assustador. O filme é realmente assustador. Estou falando de [REC], longa espanhol que estreou essa semana no Brasil. Quem procura sustos, tensão e medo, não vai se arrepender. Se você não acredita, veja abaixo a reação da platéia ao assistir o filme no Festival de Sitges, na França. Depois de ver, você continua lendo.
O filme usa de um artifício interessante para contar sua trama. Um programa de TV está cobrindo a noite em um quartel de bombeiros. A intenção do programa é mostrar tudo (como comem, como dormem, até mesmo uma eventual chamada). O que o espectador assiste é justamente a fita dessa gravação. Ou seja, vemos a repórter Angela olhando pra câmera, fazendo passagens, narrando o fato.
O terror começa quando moradores de um prédio chamam os bombeiros para socorrer uma vizinha que está gritando em seu apartamento. Os bombeiros chegam, vêem a mulher totalmente fora de controle e em pouco tempo a vigilância sanitária isola o prédio e proíbe a saída de todos. Existe um mal muito mais letal ali do que uma simples senhora passando mal. E a cada susto, vamos acompanhando a história através da câmera de Pablo, o cinegrafista do programa. O recurso usado no filme torna tudo muito mais aterrorizante. Logo de início você percebe uma atuação tão natural que chega a lembrar um desses filmes caseiros. Quando o horror começa, é impossível lembrar que é apenas um filme. Parece um documentário mesmo. Veja só o trailer:
Já havia visto esse recurso ser aplicado num antigo episódio do Arquivo X, em que Fox Mulder e Dana Scully acabam investigando um caso acompanhados pelas câmeras do programa COPS (famoso seriado americano em que jornalistas acompanham equipes da polícia sem desligar a câmera um só minuto). Em [REC] esse recurso torna tudo mais aterrador: a câmera sofre avarias, o áudio oscila, ela é desligada para economizar bateria. E a cada dano sofrido pela câmera, a imagem fica pior e o terror aumenta.
[REC] é uma boa lição para Hollywood. Prova que um bom roteiro supera qualquer dificuldade (de mercado, de orçamento, de distribuição). Afinal, quer seja de terror, quer seja de ação, quer seja de drama, o bom cinema sempre é construído em cima da mesma coisa: grandes idéias.
FICHA TÉCNICA
Título: [REC]
Ano/país: Espanha/2007
Direção: Jaume Balagueró
Roteiro: Jaume Balagueró,Luiso Berdejo,Paco Plaza
Elenco: Manuela Velasco, Ferran Terraza, Pablo Rosso, Martha Carbonell, Vicente Gil
Cotação: 9,0
O que mais incomoda em Ensaio sobre a cegueira é aquilo que você não vê. Sem trocadilhos baratos, dá pra perceber nitidamente a intenção do diretor de incomodar com imagens sugeridas. Ou seja, o que ele não mostra é o que tem mais força. E essa sacada genial faz de “Ensaio” o melhor filme do ano.
A trama é a seguinte: um surto de cegueira se espalha por uma cidade de forma contagiosa, forçando o Governo a isolar os infectados numa espécie de campo de concentração. Juliane Moore faz a única personagem que não é contaminada pela enfermidade e, por assim dizer, funciona como nossos olhos nesse universo de cegos. E que universo. Tem de tudo: lutas por comida, sujeira por todo canto, pernas infeccionadas à beira da gangrena, estupros. Ou seja, tudo que passa quase desapercebido aos cegos, mas dilacera o olhar de quem enxerga. No caso, Juliane Moore. Por tabela, nós.
Baseado no romance homônimo de José Saramago, único escritor de língua portuguesa a ter um Nobel em seu currículo, “Ensaio” foi transposto pra tela grande pelo diretor brasileiro Fernando Meirelles, o mesmo de “Cidade de Deus”. E olha, o cara está na sua melhor forma. Na cena inicial, quando um dos personagens cega repentinamente em meio ao engarrafamento de uma grande metrópole não identificada, já se revela a malandragem do diretor: na confusão de carros passando, sinais fechando, pessoas correndo, placas de publicidade, o público quase não vê o que realmente acontece. Mas entende perfeitamente.
O filme segue assim: sem mostrar, mas se fazendo compreender. Uma grande forma de trazer pra tela o que está no livro: de certa forma, Saramago usou a limitação do livro (a de não conter figuras) para compor imagens fortíssimas. Meirelles seguiu o mesmo raciocínio e acertou. Inclusive, acertou ainda mais em manter detalhes do livro que fazem a diferença. Os personagens, por exemplo, não têm nome. É a mulher do médico, o médico, a mulher de óculos. Quem leu o livro, como eu, sai extasiado. Quem não leu, nem se preocupe, dá êxtase também.
FICHA
Título original: Blindness
Diretor: Fernando Meirelles
Elenco: Juliane Moore, Mark Rufalo, Gael Garcia Bernal, Alice Braga, Danny Glover
Ano: 2008
Site oficial: www.ensaiosobreacegueirafilme.com.br
Cotação: 10,0
Mais uma semana em que não cumpri totalmente meu objetivo.
“A ponto de explodir”, do autor mineiro Sérgio Fantini, apresenta contos ágeis e por vezes bem curtos, daqueles que a gente lê em uma sentada. O efeito dessa concisão é devastador. E foi devastador também para minha meta: livros de conto dão a chance de pular algumas partes e ler só o que realmente interessa naquele momento. Não era minha intenção e por isso estou sendo honesto: pulei alguns contos, mas li quase todos.
Tive a oportunidade de conhecer Fantini em outubro de 2011, quando ele veio a Natal a convite do Jovens Escribas para ministrar uma oficina de contos dentro da Ação Potiguar de Incentivo à Leitura. Sua fala tranquila e seu jeito sem afetações destoa totalmente da linguagem que exibe em seus contos: direto, por vezes violento, sem meneios desnecessários, Fantini exibe personagens fortes e controversos, que nos dão uma boa visão sobre os tipos urbanos mais comuns dos dias de hoje.
A leitura é recomendadíssima por dois motivos. O primeiro: a linguagem livre, sem editorialismos, permite mergulhar fundo no universo do autor a cada nova história. O segundo: Fantini sabe contar histórias. E mesmo naquelas mais pós-modernas, em que o conto passeia apenas por uma cena, sem nos dar muitas informações sobre os personagens, não deixa a sensação de incompletude. Suas histórias, por mais pós-modernas que sejam, sempre têm começo-meio-fim. O cara sabe o que está fazendo.