Há muitos deve causar estranheza uma animação concorrendo ao Oscar de melhor filme. Foi o que aconteceu com “Up – Altas aventuras”, aposta da Pixar com direção de Pete Docter e Bob Peterson. De todos que comentei sobre a indicação, ouvi a pergunta: “Está concorrendo a melhor animação?”. Também. Mas o prêmio de maior envergadura que a película disputa é outro: o de melhor filme. Com fortes concorrentes como “Avatar”, “Amor sem escalas”, “Guerra ao terror” e “Bastardos inglórios”.
O fato é que a indicação inédita (a segunda de melhor filme para uma animação, e a primeira nesta categoria para a Pixar) pode, sim, render um Oscar inédito. “Up – Altas aventuras” tem todos os elementos do que chamam de “filme de Oscar”. Uma história universal, protagonistas carismáticos, um enredo cheio de reviravoltas, um roteiro bem amarrado e original, e um final de tirar o fôlego, que mescla aventura, comédia e drama de forma que poucos filmes conseguem.
Tudo começa quando Karl Fredricksen (dublado em inglês por Ed Asner e em português por Chico Anysio), um vendedor de balões de 78 anos, finalmente realiza seu grande sonho: conhecer as Cataratas do Paraíso, na América do Sul. Para isso, Karl prende milhares de balões à sua casa e voa com ela para as florestas. Mal decola, descobre que um escoteiro de 8 anos chamado Russell embarcou com ele na aventura. E a criança é tão otimista, mas tão otimista, que de cara percebemos que essa viagem será um martírio.
O enredo estapafúrdio de um velhinho voando por aí com sua casa-balão acompanhado de um escoteiro otimista rende seqüências eletrizantes, emocionantes e inesquecíveis. E a condução do filme não cai na roubada de explorar unicamente a relação dos dois (naquele esquema “duas pessoas completamente diferentes presas numa situação cômica). Não. “Up” vai além e constrói um panorama muito mais universal dessa relação, ao ponto de conseguir a façanha de fazer cachorros falantes, pássaros gigantes e livros de memória em branco não soarem como elementos bizarros dentro da narrativa.
Para preservar a força do enredo, não contei o principal fio condutor que une todas essas pontas e transforma “Up” numa história sobre reaprender a viver, descobrir novos sentidos e valorizar a própria trajetória de vida. Assistam o filme, é isso que posso afirmar sem estragar nenhuma surpresa.
Além do prêmio de melhor filme, “Up” ainda concorre a mais quatro estatuetas: melhor animação, melhor trilha sonora, melhor roteiro original e melhor edição de som. A julgar pela tradição do Oscar (e também pela força do fenômeno “Avatar”) somente uma zebra muito grande daria o Oscar máximo a “Up”. Provavelmente a Pixar terá de se contentar com uma das outras quatro indicações. Uma pena. Sem comparar com seus concorrentes, “Up” é um filme que merece o prêmio de melhor do ano. Assista e você vai entender.
Só pra contextualizar, segue lista completa de indicados a melhor filme do Oscar 2010:
“Avatar”, de James Cameron
“Um sonho possível”, de John Lee Hancock
“Distrito 9″, de Neill Blomkamp
“Educação”, de Lone Scherfig
“Guerra ao terror”, de Kathryn Bigleow
“Bastardos inglórios”, de Quentin Tarantino
“Preciosa”, de Lee Daniels
“Um homem sério”, de Ethan e Joel Coen
“Up – Altas aventuras”, de Pete Docter e Bob Peterson
“Amor sem escalas”, de Jason Reitman
Interessante a idéia do pessoal do recém-criado Curso de Cinema da Unp. Em vez de criar um comercial para promover a nova carreira, fizeram um trailler do curso. Usando a mesma linguagem de traillers, com aquela sonorização marcante e as frases entrecortadas características, o comercial de 30” está sendo veiculado nos cinemas de Natal. A criação e direção é de Fábio DeSilva (aquele que dirigiu o documentário Sangue no Barro para o projeto DocTV), que acumula também a função de diretor do Curso de Cinema da UnP.
Ficha técnica
Título: Curso de cinema
Direção: Fábio DeSilva
Edição: Rudá Virgínio
Produtora: Mais Vídeo
Sonorização: Arthur Henrique
O curso de Comunicação Social – Habilitação em Cinema da UnP já está com matrículas abertas. Para maiores informações, clique aqui.
Em 1996, Genildo Ferreira de França matou a tiros 13 pessoas. Incluindo entre os mortos a sua esposa. O massacre aterrorizou a pequena cidade do interior do Rio Grande do Norte, Santo Antônio do Potengi, no município de São Gonçalo do Amarante.
Um grande efetivo de policiais foi deslocado pra área, a imprensa local cobriu o fato com grande destaque e a comoção foi geral. Mesmo assim, Genildo continuou mantando por quase 24h. 12 anos depois, os diretores Fábio de Silva e Mary Land Brito lançam o documentário “Sangue no Barro”, no qual investigam as razões que motivaram Genildo a empreender a matança.
Contemplado pelo edital Doc TV 4 – 2008 da TV Brasil, “Sangue no Barro” estreará em junho. Abaixo você pode ver o trailler impressionante do documentário. E ir logo se preparando para se supreender com as rfevelações que os diretores trazem sobre o crime.
A onda do curta-metragem para fazer promoção de produtos veio pra ficar desde que a BMW contratou Madonna e Clive Owen para estrelar um curta escrito e dirigido por Guy Rithcie. O filme tinha quase sete minutos, se passava quase que inteiramente dentro de uma BMW, fez sucesso pelo mundo e catapultou o investimento em curtas-metragens ao topo das estratégia de advertainment (publicidade + entretenimento).
Anos depois, a Adobe entra na moda do curta e contrata ninguém menos que o brasileiro Denis Kamioka (também conhecido como Cisma), paulista e ex-grafiteiro, para dirigir o curta “Le Sens Propre”. O filme conta a história de Magritte, uma menininha pra lá de linda que vive num mundo totalmente surrealista. A conexão com o produto não poderia ser mais direta: a única exigência da Adobe era que os efeitos especiais do filme fossem todos feitos com softwares do pacote CS4. Tiro certeiro.
Abaixo, confira o trabalho de Cisma para a Adobe. Uma história criativa, emocionante e completamente desenvolvida com os produtos do cliente.
Pra quem ainda não viu o curta da BMW com Madonna, abaixo tem um bonustrack desse post.
Cuidado ao assistir um curta-metragem novamente. Pode ser que você esteja vendo um comercial longo e nem perceba.
O cérebro humano é mesmo algo incrível. Para nos salvaguardar de experiências traumáticas, simplesmente deleta as imagens, confundindo a nossa memória. Mas o que fazer quando pequenos flashes de lembranças desagradáveis se manifestam em forma de sonhos?
O cineasta Ari Folman resolveu fazer um documentário em formato de animação, desenhado por David Polonsky, chamado Valsa com Bashir – que também resultou numa história em quadrinhos, publicada recentemente, no Brasil, pela L&PM (colorido, papel couché, R$ 46,00) –, para contar ao mundo a sua experiência com os mistérios da falta de memória sobre a sua participação na Guerra do Líbano, mais especificamente no massacre ocorrido nos campos de refugiados de Sabra e Chatila, no ano de 1982, quando os cristãos falangistas mataram sem dó nem piedade os palestinos muçulmanos.
A história toda tem início quando um amigo de Folman lhe relata um estranho sonho com cachorros, intrigando-o porque esse sonho remetia à lembranças da Guerra do Líbano, lembranças essas que ele não tinha, mesmo sabendo que esteve lutando, como soldado, por lá.
Não entendendo o que está acontecendo e sendo perturbado por um sonho recorrente, onde ele e mais dois amigos, dos tempos da citada guerra, saiam do mar e caminhavam nus, em direção à Beirute, parte para encontrar esses amigos e descobrir o que é real e o que é “construção” da sua memória.
Para surpresa de Folman, alguns desses amigos também não lembram de várias passagens da Guerra do Líbano. Isso faz com que ele fique ainda mais confuso, até que conversa com a professora Zehava Solomon, a qual lhe explica sobre o “evento dissociativo”, um trauma de guerra bastante comum.
Apesar de tudo o que descobre, as memórias sobre o massacre de Sabra e Chatila ainda não são claras. Folman averigua mais um pouco. Sua mente culpada não lhe permitia enxergar, então ele relembra que esteve mesmo lá, disparando sinalizadores noturnos, mas logo declara que não viu nada da matança. E então, quando as memórias mais dolorosas regressam à sua mente, as imagens passam a ser fotografias, não mais desenhos. Foi real. Foi desumano. Foi algo a ser esquecido, mas que não podia ser apagado dos olhos do mundo.
Ele já perdeu o papel de Superman, errou a mão ao manusear as correntes e pilotar a moto do Motoqueiro Fantasma, foi ladrão de carro forçadamente cool, chegou a ser um vidente bonzinho, e em Presságio ele encara o fim do mundo.
Presságio (Knowing, 2009) é a nova produção de Alex Proyas (Eu, robô, O Corvo), e traz Nicolas Cage como o astrofísico viúvo e solitário John Koestler, cujo filho Caleb começa a escutar ruídos e a ver um homem com um capote preto, após abrir o envelope de Lucinda Embry, que ao invés de ter desenhado como seria o futuro em 2009 – quando era uma garotinha, cinquenta anos atrás, para a cápsula do tempo de sua escola –, preencheu o papel com uma porção de números aparentemente sem sentido.
John descobre que os números são datas de graves acidentes ao redor do mundo, nos últimos cinquenta anos. Ele pensa que se tivesse como saber desses acidentes, com antecedência, poderia ter salvado a sua esposa. Como restam três datas que informam sobre eventos atuais, algumas marcando inclusive a latitude e a longitude exata do local a ser atingido, John agarra com unhas e dentes a chance de poder alertar e salvar as pessoas.
Com o futuro da humanidade em jogo, ele parte para encontrar a filha de Lucinda, Diana (Rose Byrne, da excelente série de TV Damages), e descobre que ela tem uma menina chamada Abby, da mesma idade de Caleb e tão inteligente quanto.
Diante da situação inusitada, John passa a rever seus posicionamentos teóricos e começa a aceitar a possibilidade de uma força maior que atua no universo, interferindo na natureza das coisas, quando se faz necessário.
O ponto alto de Presságio são os efeitos sonoros e as tomadas de câmera nas cenas dos acidentes, as quais nos colocam na pele de John Koestler, sentido bem de perto o perigo (a gente até chega a movimentar a cabeça, num reflexo involuntário, para se proteger). No entanto, nas duas horas de filme, o que se vê mesmo é Nicolas Cage passando de um sujeito apático a candidato a mártir do planeta Terra, correndo pra lá e pra cá.
Alex Proyas é um diretor que gosta de mesclar ação e suspense em seus filmes, e Presságio não foge à regra. Porém, se você for ao cinema querendo algo mais, pode se decepcionar.
Sucumbindo ao lobby das empresas de entretenimento, a Câmara aprecia projeto de lei que limita em 40% o número de ingressos com desconto estudantil em shows, cinemas e afins. Segundo a nova lei, ao alcançar o teto de 40%, o empresário não é mais obrigado a vender ingresso com desconto para seu ninguém. Entidades ligadas ao showbizz estão alardeando pelos quatro cantos do mundo que a nova lei fará com que os preços dos ingressos caiam. Mas se a coisa toda continuar funcionando como acontece agora, vai ser trocar seis por meia dúzia.
Vide o velho golpe do “preço promocional com 50% de desconto”. Funciona assim: o ingresso custa 30, mas anunciam como se custasse 60 com um superdesconto de 50% pra todo mundo. Ou seja, no fim das contas, estudantes e não estudantes pagam a mesma coisa. Sem desconto algum, claro. Você, com certeza, já foi alvo desse golpe por aí. E nessas horas, é difícil ter a determinação de gente como a estudante Priscila Pivatto, paulista que processou a empresa CIE Brasil (atual Time For Fun) por não vender a ela ingresso com desconto para o show de Oasis no Credcard Hall, em 2006.
Em São Paulo, onde uma lei municipal já estabeleceu a tal cota, Priscila tentou comprar o ingresso antecipadamente, mas o lote de estudantes já estava esgotado. Consciente de seus direitos, ela comprou o ingresso pagando inteira, viu o show e depois foi à Justiça pedir ressarcimento. Em 2ª instância, a Justiça Estadual deu ganho de causa à estudante considerando o sistema de cotas inconstitucional. Mas a briga deve ir ao Supremo. Vale lembrar: a Justiça considerou a lei das cotas inconstitucional em São Paulo porque uma lei federal garante o direito à meia-entrada (e pelo nosso sistema de direito, nenhuma lei municipal pode ir contra uma federal). Mas é justamente essa lei federal que pretendem mudar.
Ainda em Sampa, não se tem notícia de que a tal cota de estudantes tenha feito com que o preço dos ingressos baixem. O show da banda Radiohead, por exemplo, custou 200 paus cada ingresso. Baratinho, né? Estudante pagava meia. Mas quem conseguiu ingressos da cota? Quem? Nos cinemas, o mesmo assalto. A média de preço é entre 15 e 20 mangos a entrada inteira. Não muito diferente de onde não tem cota. Cadê o preço baixo, então?
Estabelecer cotas é sempre um problema. As normas são dúbias (como na cota de negros nas universidades), os responsáveis por fiscalizar não são apontados claramente e todo mundo passa a fingir que está funcionando quando na verdade está se criando um problema maior em longo prazo. No caso da cota para descontos a estudantes, cria-se uma perigosa distorção: estabelecer limites para um direito adquirido é o primeiro passo para enfraquecer sua importância. Daí para suspender esse direito é um pulo.
Não quero ser fatalista, mas essa nova lei é uma furada. Os artistas dizem que será importante para fomentar a cultura, mas na prática os 40% com desconto sempre estarão esgotados quando você tentar comprar um ingresso com sua carteira de estudante. Ou seja, metade da utilidade da carteirinha vai se perder. Com isso, por tabela, as falsificações vão diminuir drasticamente. O empresário vai ganhar mais; o Governo vai economizar com fiscalização; o artista vai ter um público mais adulto; e o estudante… bem, quem mandou estudar, né?
Educar é uma tarefa árdua, principalmente educar a quem não recebe educação em casa. Como consolo, fica a máxima “quem educa sempre aprende”. Os professores, sejam eles do ensino fundamental, médio, superior, aprendem que paciência é a palavra-chave para contornar todos os problemas pelos quais perpassam a educação hodierna, incrivelmente pós-moderna, centrada nos “direitos” dos alunos, buscando assim concertar erros do passado, os quais privavam os discentes de voz dentro da sala de aula.
De uns anos pra cá, as novas teorias pedagógicas apontam que o ensino deve ser mais “humano”, ou seja, que o professor deve procurar compreender e estimular os seus alunos, facilitando o processo da aprendizagem, além de respeitar e lidar com as diferenças intelectuais, étnicas, culturais e socais de cada aluno. A voz do professor precisava diminuir para que a dos alunos começasse a ser escutada. Foi uma conquista e tanto dos estudantes, pois se antes temiam os castigos físicos e psicológicos que os professores empregavam, agora já podem denunciar abusos de quaisquer tipo, praticados pelos seus mestres.
Entre os Muros da Escola (Entre Les Murs – 2008), filme do diretor politizado Laurent Cantet (Recursos Humanos, Em Direção ao Sul), ganhador da Palma de Ouro em Cannes ano passado, dramatiza escancaradamente o que acontece numa sala de aula de uma escola pública francesa nos dias de hoje. Essa visão tão próxima do real ocorre porque o filme é uma adaptação do romance homônimo, escrito pelo professor François Bégaudeau que, além de assinar o roteiro junto com Cantet, interpreta o professor François Marin.
O início do filme mostra a reunião dos professores antes de começar o semestre letivo. Todos os professores se apresentam e recebem seus horários, os professores “da casa” aconselham os novatos, informando sobre os alunos bem comportados e sobre os mais trabalhosos. A partir de então, Cantet nos conduz às aulas do professor de francês François Marin.
Marin é um professor bacana, empenhado em fazer com que seus alunos assimilem o conteúdo das aulas de forma dinâmica, seguindo à risca a cartilha da pedagogia do século XXI. O mínino que Marin exige dentro da sala de aula é respeito, tanto de aluno para professor quanto de aluno para aluno e de professor para aluno.
Desde o início das aulas já se pode notar o clima tenso (disfarçadamente descontraído) que vai aumentando até chegar ao ponto de Marin perder a cabeça e insultar duas alunas. Esse incidente termina por gerar uma grande confusão quando um aluno negro se revolta e sem querer acerta a mochila no supercílio de uma colega, fazendo o seu rosto ficar ensangüentado, e termina saindo da sala sem a permissão do professor. Tal incidente vai parar em um Conselho Disciplinar, que é o único resquício de poder que a escola tem.
Ao final do semestre, Marin questiona seus alunos sobre o que cada um aprendeu nas disciplinas que cursaram, fazendo-os perceber como é prazeroso conhecer um pouco sobre algum assunto, mostrando porque eles precisam da escola para crescer tanto intelectualmente quanto como seres humanos.
A realidade mostrada em Entre os Muros da Escola, apesar de enfocar o ensino público francês, não é muito distante da nossa. Lá, pelo menos, os professores ainda recebem um salário digno, enquanto aqui receber o contra-cheque no fim do mês equivale a ganhar na loteria para o corpo docente das escolas públicas municipais e estaduais.
Filmes como esse servem para abrir os olhos da sociedade.
Ser professor no século XXI é para poucos abnegados, porque a velocidade e a democratização da informação trazidas pela internet estão aí, fazendo com que o valor da transmissão do conhecimento dentro da sala de aula seja menosprezado, o que afeta diretamente o status de poder do professor. Mas é justamente aí que a figura “humana” dos docentes é requisitada, embora as modernas teorias pedagógicas ainda não enxerguem isso. Haja paciência.
Milena Azevedo é Mestre em História pela UNISINOS (RS), empresária, poeta, contista e roteirista de HQ. Tem dois livros de poemas publicados: O Perfil da Águia (1999) e Prometeu Livre – um outsider no Olimpo (2005), já ganhou prêmios no Rio Grande do Sul e no Rio de Janeiro (participando inclusive da coletânea com os 100 melhores poemas dos anos de 2003/04 e 2004/05, além de estar presente também no Livro de Ouro da Poesia Brasileira Contemporânea/2005, todos da Câmara Brasileira dos Jovens Escritores). Tem contos e poemas publicados aqui e acolá nessa imensa teia eletrônica que é a Internet, além de participar de antologias da Câmara Brasileira dos Jovens Escritores e da AGEI – Associação Gaúcha dos Escritores Independentes.
Clint Eastwood é um dos nomes mais “up” em Hollywood nessa primeira década do século XXI. Apesar de ter começado sua carreira cinematográfica em faroestes spaghetti e se popularizado como o policial durão Dirty Harry, na maturidade é que tem se mostrado como artista completo, pois se permitiu deixar aflorar o seu lado mais sensível – mesmo assim não perdendo nunca a pecha de machão –, fosse atuando ou dirigindo seus próprios filmes.
A aventura atrás das câmeras começou na década de 1970, mas Eastwood teve que esperar alguns anos para ser reconhecido como diretor. O primeiro passo foi Bird (Bird – 1988), uma cinebiografia do saxofonista Charlie Parker, depois veio a consagração com Os Imperdoáveis (Unforgiven – 1992), quando Eastwood revisitou o gênero faroeste, e Menina de Ouro (Million Dollar Baby – 2004), drama sobre uma mulher cujo sonho era ser boxeadora profissional. Mas ele queria mais.
Em 2006, Eastwood dirigiu dois dramas históricos, revisitando a Batalha de Iwo Jima, um sob o ponto de vista norte-americano (A Conquista da Honra/Flags of Our Fathers) e o outro sob o ponto de vista japonês (Cartas de Iwo Jima/Letters from Iwo Jima). O Oscar praticamente ignorou ambos os filmes, mas a crítica foi justa e soube valorizar o trabalho do diretor que já ostentava cabelos brancos, muitas rugas e marcas de expressão, porém que tinha um porte físico de fazer inveja aos garotões de hoje em dia.
Seus dois filmes mais recentes são: A Troca (The Challeging – 2008) e Gran Torino (Gran Torino – 2008), esse último em cartaz nos cinemas brasileiros nesse mês de março.
Gran Torino marca a despedida de Eastwood como ator, e no filme ele interpreta um velho chato, quadrado e preconceituoso, chamado Walt Kowalski, que guarda velhas feridas da Guerra da Coreia e não consegue se aproximar dos dois filhos e dos netos. Após a morte de sua esposa, passa os dias conversando com amigos ou sentado em sua varanda, tomando cerveja e observando a rua, lastimando a “invasão” asiática e latina ao outrora pacato bairro em que vive.
O bem mais precioso de Kowalski é um Ford Gran Torino, modelo 1972, bem cuidado e conservado em sua garagem – simbolizando o seu apego aos valores do passado. Uma noite, o vizinho Thao (descendente da etnia Hmong), tenta roubar o Gran Torino, como uma prova de iniciação à gangue de seu primo, mas é surpreendido por Kowalski e seu rifle. A família se sente humilhada pelo gesto do rapaz e passa a encher Kowalski de presentes, mas esse rejeita tudo o que recebe. A aproximação entre Kowalski e a família Hmong só acontece através da irmã de Thao, Sue, que enfrenta com bom humor a antipatia do velho ranzinza e ainda lhe diz umas verdades. Aos poucos, o gelo vai se quebrando e Kowalski tem a chance de fazer boas ações e se livrar dos fantasmas que o perseguem há tanto tempo.
A trama pode ser previsível, a história pode ser clichê, mas o que torna Gran Torino um filme marcante é justamente a atuação de Clint Eastwood, cujo timing é preciso tanto em momentos cômicos (Kowalski enfrentando três rapazes negros que estavam incomodando Sue) quanto em instantes de emoção intensa (Sue chegando em casa após ter sido estuprada pela gangue do seu primo).
Em Gran Torino, Kowalski (e a América do Norte como um todo) reconhece o valor dos imigrantes, quando se dá conta de que são apenas seres humanos, e assim percebe que há imigrantes de boa índole e imigrantes mal caráter. No entanto, na hora do “vamos ver”, quem parte pra briga e resolve a parada é o heroi/mártir estrategista e individualista norte-americano, bem ao estilo John Wayne.
Em sua despedida da frente das câmeras, Clint Eastwood faz uma volta ao seu começo, ou seja, um valentão que defende com unhas e dentes o seu quinhão, fazendo valer os ensinamentos da velha escola, da velha América, frente às ressignificações culturais, étnicas, políticas e econômicas que vem ocorrendo no mundo todo; embora dê algum crédito ao novo, deixando que ele siga o seu caminho, sob algumas concessões, é claro.
Milena Azevedo é Mestre em História pela UNISINOS (RS), empresária, poeta, contista e roteirista de HQ. Tem dois livros de poemas publicados: O Perfil da Águia (1999) e Prometeu Livre – um outsider no Olimpo (2005), já ganhou prêmios no Rio Grande do Sul e no Rio de Janeiro (participando inclusive da coletânea com os 100 melhores poemas dos anos de 2003/04 e 2004/05, além de estar presente também no Livro de Ouro da Poesia Brasileira Contemporânea/2005, todos da Câmara Brasileira dos Jovens Escritores). Tem contos e poemas publicados aqui e acolá nessa imensa teia eletrônica que é a Internet, além de participar de antologias da Câmara Brasileira dos Jovens Escritores e da AGEI – Associação Gaúcha dos Escritores Independentes.
- Você já ouviu falar em “Watchmen”?
- Não.
- Ótimo!
- É o quê?
- Um filme. E a gente vai escrever uma resenha sobre ele!
- Vou escrever assim, sem nem saber que filme é esse?
- Sim!
Esse foi o diálogo emeesseênico entre mim e Patrício, no qual eu topei essa espécie de “teste-cego” pra escrever sobre Watchmen – O Filme. A essa hora (terceiro intervalo do dominical “Fantástico”) penso que ele, fã da HQ que originou a película já, deve ter uma resenha rebuscada, profunda e toda amarradinha com argumentos convincentes sobre as suas impressões. Eu fui pro cinema sabendo apenas que era um filme inspirado nos quadrinhos desenhados por Dave Gibbons e escrito por Alan Moore pelos idos de 1985 (o que, de fato, não quer dizer nada a quem vive à margem desse tipo de revista, como eu). Mas senti a importância da matéria quando estava indo, atrasadíssima, ao Cinemark pegar a sessão das três e cinco, e por acaso comentei com meu sobrinho de quinze anos que estava indo ver o tal longa.
- Ai, eu quero ir com você!
- Pois então corra!
Chegamos a tempo, mas ele não pôde entrar. Não imaginei que um filme “de desenho” pudesse ser proibido para menores de dezoito anos. Mas era. E não adiantou dizer que eu era responsável por ele, nem mostrar a identificação de jornalista, que iria escrever um texto, nada. A bilheteira sugeriu que ele fosse assistir ao besteirol “Um hotel bom pra cachorro”, o que lhe soou como um insulto à sua inteligência. À contragosto, teve que se contentar com “Jogo entre Ladrões”, para não ficar boiando durante as mais de duas horas e meia de “Watchmen” que eu tinha pela frente.
Mais ou menos, a ficção mostra uma realidade futurista – só que ambientada nos já passados anos oitenta – na qual super-heróis que curtem uma merecida aposentadoria se reúnem para investigar a morte de um colega. Nisso, descobrem um traidor no grupo e por aí se desenrola uma trama com focos oscilantes os quais o espectador tem que ficar ligado para acompanhar. O fim da Guerra Fria e um relógio que mede a tensão entre os Estados Unidos e a falecida União Soviética está sempre parado nos cinco minutos para a meia-noite, anunciando que uma tragédia pode acontecer a qualquer momento.
A garota da fila de trás não devia ter capacidade intelectual mínima para entender a história e, por isso, se refestelava fazendo comentários óbvios o tempo inteiro. O herói fora assassinado? Ela dizia que ele havia sido assassinado. Em voz alta, friso. Eu, que nunca fui fã de desenhos nem nada, e já estava ali com a capacidade máxima da minha boa vontade, fui ficando aborrecida. Para que o leitor não diga que eu estou sendo injusta, conto que a excelente trilha sonora me fez desistir de abandonar a sala lá pelo final da segunda hora. Me alegrou o coração ouvir a romântica “The Sounds of Silence”, de Simon e Garfunkel; a melódica “Hallelujah”, de Leonard Cohen; e alguns clássicos do trio de inquestionável qualidade Jimmy Hendrix, Janis Joplin e Bob Dylan. E nas horas em que subia o áudio, iupi!, não se podia ouvir a comentarista para quem eu já havia pedido silêncio duas vezes.
A produção jorra um pouco de sangue demais, é verdade, e mostra uma cena de sexo – mas nada que não se veja em um canal de TV aberta, por exemplo. Por isso não vi motivos para uma classificação etária tão alta.
Quando saí, meu sobrinho Mateus já me esperava à porta, com a pergunta ansiosa na ponta da língua:
- E aí?
- Ah, a trilha é muito boa, mas resumindo, eu não gostei não…
- Deve ser mais interessante pra quem gosta mesmo de quadrinhos, como eu, né?
Resumiu o meu conceito final.
Para saber mais sobre “Watchmen”, que lá pelas salas inglesas já desbancou o vencedor do Oscar desse ano, indico acessar a bíblia dos filmes, o IMDB.
Para ler a resenha de quem já leu o gibi “Watchmen”, clique aqui.