Não tem outra explicação: Mossoró acredita em tudo que o Pânico na TV falou sobre a cidade em sua cobertura do Mossoró Cidade Junina. Acredita que só tem gente feia na capital do Oeste; acredita que sua distância de São Paulo é a mesma que separa a civilização do inferno; acredita que misturando feijão, arroz e ovo podre resulta em algo chamado Mossoró. Só existe essa explicação para a onda de rechaço que a participação do humorístico gravada na cidade despertou nos mossoroenses. Síndrome do Patinho Feio.
Não tem como levar o Pânico na TV a sério. Só quem se leva a sério demais pode fazer isso. O humor, por vezes de mau gosto, na maioria grotesco, verdadeiramente sem critérios, não passa disso: humor. E foi exatamente isso que a dupla do Pânico foi fazer no Mossoró Cidade Junina: tirar onda. Não se esperava outra coisa. O Pânico faz sempre matérias de mau gosto, explora descaradamente o bizarrro, não tem padrões de qualidade com o que coloca no ar. Faz sucesso. Mas não tem credibilidade alguma. É só brincadeira mesmo.
Em outras cidades em que estiveram, não pegaram leve com ninguém. Incluindo aí um dos paraísos para quem procura gente bonita, rica e sarada: a ilha de Ibiza, na Espanha. A mesma dupla de comediantes esteve por lá alguns anos atrás. E pegou muito mais pesado com os entrevistados, que não falavam português e não entendiam as ofensas do personagem Crystian Pior (que chamou duas mulheres de “sapatonas”, adjetivou zilhões de homens com palavras como “bichinha” e “michê”, disse que todo mundo era feio e pobre, ridicularizou uma americana dizendo que o cabelo dela parecia “o passarinho do Snoopy com uma rebelião de piolhos” e fez uma gringa dizer em português “sou pistoleira”). Pois é, o Pânico é assim em todo lugar. Por que seria diferente em Mossoró?
A Terra da Resistência é maravilhosa. Tem gente linda, tem muitas riquezas, tem contribuições grandiosas para o panorama histórico-cultural do estado e do Brasil. Expulsou Lampião, libertou os escravos, foi pioneira no voto feminino. São muitas as façanhas do povo mossoroense. Mas a vontade de ser grande, de ser respeitado, vem burlando a visão da cidade. Mais triste ainda é ver a imprensa de lá tentando transformar o factóide em fato político, buscando freneticamente argumentos para responsabilizar a Prefeitura pelo ocorrido. Não é pensando assim que a cidade cresce.
O barulho causado pela matéria do Pânico é uma forma de se indignar pelo que os mossoroenses acham que os outros acham deles. É muita conjectura e pouco argumento. Não se pode pedir desse programa abismal um jornalismo responsável, que mostre realmente como é a cidade de Mossoró. É como se fosse uma revolta causada por ter a mente lida. Mossoró não merece isso. E não estou falando do que o Pânico disse; falo do que os mossoroenses pensam de si mesmos.
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Pra quem está por fora, vejam o que o Pânico aprontou em Mossoró:
Em seu texto Como vencer na crise, Carlos Fialho fala das tramóias que alguns famosos natalenses usam para ganhar dinheiro. Mas meu querido amigo Fialho, movido por sua elegância, prefere usar pseudônimos, técnica que já virou sua marca registrada. Eu, deselegante e sem técnica, não tenho o mesmo escopo moral do meu amigo: assim, leia-se Thaísa Galvão onde vemos Talita Pavão.
Fiz esse preâmbulo para justificar uma coisa: faz tempo que sinto vontade de escrever umas palavrinhas sobre Thaísa Galvão. Por sua parcialidade disfarçada de imparcialidade; por seu talento em manipular a verdade; por sua maestria em conseguir anunciantes de peso pro seu blog (do qual não postarei o link por uma simples questão: não quero dar mais acessos a ela); e também porque apesar de não ser a única a fazer jornalismo tendencioso, se tornou um exemplo dessa prática detestável.
Ovacionada como comentarista política, sem lastro para tal, Galvão conquistou audiência na internet, grandes anunciantes e renome. Mas nem por isso sacramentou um compromisso com a verdade. A blogueira é um exemplo clássico do subproduto gerado da relação promíscua entre jornalismo e poder. Afinal, qual a credibilidade de um blog sobre política no qual os principais anunciantes são Prefeitura do Natal, Governo do Estado e Câmara Municipal?
Mas ela não ataca de tendenciosa só na política. Pelo que se nota, basta oferecer uma contrapartida interessante para que Galvão fique do lado de alguém. Um exemplo: em nota publicada dia desses sobre Marina Elali, a jornalista enaltece o fato de a tentativa de artista supostamente estar numa lista de poderosos da indústria fonográfica mundial. “Marina Elali é mesmo o poder”, inicia ela sua prestação de serviço. Mas em nenhum momento Galvão menciona que a tal lista é, na verdade, uma compilação dos clientes do produtor musical Dana Jon Chapelle. E que o único critério para estar ali é ter contratado o cara. Terá sido um deslize do dia-a-dia? Uma falta de checagem de informação? Não. O link que ela disponibiliza leva direto a tal lista, no site do produtor. E está bem claro do que se trata pelo título da página: “Dana Jon Chappelle – Selected Discography”. Ou seja: jabá, amigos, jabá.
Já na eleição municipal de 2008, Galvão foi além de todos os conceitos de antijornalismo. Repercutia caminhadas felizes de Micarla enquanto dava destaque para acusações de abuso de poder da coligação de Fátima. Mas como uma boa antiprofissional da comunicação, não mentia. Porque pseudojornalista que se preze usa somente a verdade: manipulada, distorcida, filtrada, mas a verdade.
Me dei ao trabalho de ir ao blog de Thaísa Galvão e fazer uma busca por notícias referentes a Micarla e Fátima durante o período eleitoral. Coletei referências sobre os dois lados publicadas sempre no mesmo dia. Compare:
02.10
- Micarla lembra voto de Fátima a favor de taxar os salários dos aposentados e inativos.
- Tribuna do Norte publica pesquisa que aponta vitória de Micarla no primeiro turno.
03.10
- Fátima é massacrada por todos os candidatos no debate.
- Micarla é aplaudida ao entrar na capela e ganha presentes de seminaristas.
04.10
- Fátima ultrapassa Miguel Mossoró e assume liderança entre os mais rejeitados.
- Pesquisa garante vitória de Micarla no primeiro turno.
05.10
- Fátima ignora lei eleitoral e visita seções de votação.
- Filhos de Micarla testemunham voto da mãe candidata.
Ninguém vive sem ganhar dinheiro. Nenhum veículo de comunicação sobrevive sem anunciantes. Por isso, em respeito aos seus leitores, muitos blogueiros sinalizam com “post pago” as notas que foram patrocinadas por alguma empresa. É uma questão de transparência. Outros, entretanto, preferem bancar os imparciais para ganhar credibilidade e, assim, conseguir mais benesses pessoais de seus, vá lá, patrocinadores. É a forma como essas relações entre imprensa e poder são tratadas (claramente ou de maneira obscura) que definem o caráter de um veículo. Ou, no caso do blog de Thaísa Galvão, a falta de.
Sem julgamentos de valores, ok? O deputado federal Ex de Galisteu (PMN-RN) usou sua verba de passagens da Câmara para pagar viagens de sua então namorada, Adriane Galisteu, de sua então sogra, Emma Galisteu, e de seus então garotos-propaganda do camarote carnatalesco da Academia Athletica, os globais Kayky Brito, Sthefany Brito e Samara Felippo. Isso é um fato. Que o próprio deputado, em nota enviada por sua assessoria de imprensa no início da tarde da última terça (14/04), admitiu.
Com julgamentos de valores agora. O deputado federal Ex de Galisteu (PMN-RN) usou dinheiro público para custear passeios de sua celebridade preferida, da mãe dessa celebridade e de atores globais que estavam a serviço de sua empresa. A notícia, quando lida nas páginas da Folha de São Paulo, sem o verniz de cordialidade que a imprensa local costumeiramente empresta aos famosos potiguares, soa ainda mais contundente. E vergonhosa.
Contundente porque é clara a irregularidade. Apontado como “falha eventual” pelo deputado, o episódio das passagens (noticiado em detalhes em reportagem do site Congresso em Foco) é um retrato cru de como nossos políticos vêm tratando a coisa pública. Ora, se o excelentíssimo senhor Ex de Galisteu tem uma empresa em Natal, que ela fique bem distante de seu gabinete em Brasília. Geográfica e ideologicamente. Não entendo como uma “falha eventual” pode fazer com que passagens que deveriam ser pagas pela pessoa jurídica Academia Athetlica acabem sendo emitidas pela pessoa pública Gabinete do Deputado. A única explicação é: o supracitado político não separou seus negócios privados dos seus negócios públicos. Se investigarem direitinho, é a essa conclusão que chegarão.
Vergonhosa pela forma como expõe a pequenez de Natal ao resto do Brasil. Para ser o maior camarote do Carnatal, para ser o político mais cool, para ser o mais descolado dos playboys, vale qualquer coisa. Você tem idéia do quanto tudo isso soa ridículo quando cai na imprensa nacional?
Não quero ser do tipo que vive de revirar o passado. Mas o deputado metrossexual já foi alvo de denúncias semelhantes aqui no Estado. Na campanha de 2006, embarcou com seu pai num vôo de Natal a Pau dos Ferros para fazer campanha no carnaval fora de época desse interior. O único problema é que eles pegaram um avião oficial do Governo do Estado. Como era período eleitoral, como o papai tinha cargo público e como o filhote era candidato, ficou bem claro o uso de bem público para fins eleitoreiros. Pegos em flagrante, ambos foram inocentados, eleitos e o resto da história você já conhece.
Talvez por isso Ex de Galisteu não tenha se preocupado com a origem do dinheiro que pagou tantas idas e vindas pelo mundo aos seus coleguinhas. Houvesse sido penalizado pela primeira “falha eventual”, a segunda jamais teria ocorrido. Estaria, agora, poupado de tanto vexame. Como, por exemplo, a declaração da assessoria de imprensa de sua ex: “Adriane paga suas passagens. Teve momentos em que até pagou para ele. Mas quando eles estavam namorando, teve momentos em que, de repente, ele pagou. Mas ela não tinha conhecimento da origem do dinheiro para esses pagamentos”. O amor é lindo, não é?
O que mais falta acontecer para que o mais famoso playboy potiguar compreenda que não deve misturar carnavais fora de época com vôos suspeitos? O que mais precisa acontecer para que o papa-jerimum pegador de celebridades entenda que sua academia não é em Brasília? O que mais precisa acontecer para que o excelentíssimo filhinho de papai perceba que a política não é uma área VIP de boate local em que tudo acontece como ele quer só porque está pagando? E a propósito: o Ex de Galisteu é Fábio Faria. É que se eu não o chamasse assim, ninguém ia saber de quem eu estava falando.
Sucumbindo ao lobby das empresas de entretenimento, a Câmara aprecia projeto de lei que limita em 40% o número de ingressos com desconto estudantil em shows, cinemas e afins. Segundo a nova lei, ao alcançar o teto de 40%, o empresário não é mais obrigado a vender ingresso com desconto para seu ninguém. Entidades ligadas ao showbizz estão alardeando pelos quatro cantos do mundo que a nova lei fará com que os preços dos ingressos caiam. Mas se a coisa toda continuar funcionando como acontece agora, vai ser trocar seis por meia dúzia.
Vide o velho golpe do “preço promocional com 50% de desconto”. Funciona assim: o ingresso custa 30, mas anunciam como se custasse 60 com um superdesconto de 50% pra todo mundo. Ou seja, no fim das contas, estudantes e não estudantes pagam a mesma coisa. Sem desconto algum, claro. Você, com certeza, já foi alvo desse golpe por aí. E nessas horas, é difícil ter a determinação de gente como a estudante Priscila Pivatto, paulista que processou a empresa CIE Brasil (atual Time For Fun) por não vender a ela ingresso com desconto para o show de Oasis no Credcard Hall, em 2006.
Em São Paulo, onde uma lei municipal já estabeleceu a tal cota, Priscila tentou comprar o ingresso antecipadamente, mas o lote de estudantes já estava esgotado. Consciente de seus direitos, ela comprou o ingresso pagando inteira, viu o show e depois foi à Justiça pedir ressarcimento. Em 2ª instância, a Justiça Estadual deu ganho de causa à estudante considerando o sistema de cotas inconstitucional. Mas a briga deve ir ao Supremo. Vale lembrar: a Justiça considerou a lei das cotas inconstitucional em São Paulo porque uma lei federal garante o direito à meia-entrada (e pelo nosso sistema de direito, nenhuma lei municipal pode ir contra uma federal). Mas é justamente essa lei federal que pretendem mudar.
Ainda em Sampa, não se tem notícia de que a tal cota de estudantes tenha feito com que o preço dos ingressos baixem. O show da banda Radiohead, por exemplo, custou 200 paus cada ingresso. Baratinho, né? Estudante pagava meia. Mas quem conseguiu ingressos da cota? Quem? Nos cinemas, o mesmo assalto. A média de preço é entre 15 e 20 mangos a entrada inteira. Não muito diferente de onde não tem cota. Cadê o preço baixo, então?
Estabelecer cotas é sempre um problema. As normas são dúbias (como na cota de negros nas universidades), os responsáveis por fiscalizar não são apontados claramente e todo mundo passa a fingir que está funcionando quando na verdade está se criando um problema maior em longo prazo. No caso da cota para descontos a estudantes, cria-se uma perigosa distorção: estabelecer limites para um direito adquirido é o primeiro passo para enfraquecer sua importância. Daí para suspender esse direito é um pulo.
Não quero ser fatalista, mas essa nova lei é uma furada. Os artistas dizem que será importante para fomentar a cultura, mas na prática os 40% com desconto sempre estarão esgotados quando você tentar comprar um ingresso com sua carteira de estudante. Ou seja, metade da utilidade da carteirinha vai se perder. Com isso, por tabela, as falsificações vão diminuir drasticamente. O empresário vai ganhar mais; o Governo vai economizar com fiscalização; o artista vai ter um público mais adulto; e o estudante… bem, quem mandou estudar, né?
Sabe aquelas campanhas publicitárias que têm tudo pra ser sensacionais, mas quando vão pro ar ninguém acha a menor graças? Pois é, esse é o caso do concurso cultural “Redondo é rir da vida”, criado pela agência paulista F/Nazca pra Skol.
A idéia é de primeira: convocar o público a enviar vídeos em que contem histórias engraçadas pelas quais passaram (do tipo “um dia ainda vou rir disso tudo”). Todos os vídeos serão hospedados no site da ação. E os melhores virarão peças publicitárias da Skol e serão veiculados na TV aberta. Para divulgar o concurso, vídeos com estrelas do stand-up comedy nacional (no caso, Rafinha Bastos e Danilo Gentili, ambos do CQC) contando histórias engraçadas foram postados na internet.
Foi com esse tipo de vídeo que os dois (e mais uma galera afiada) fez fama na internet e passou a lotar teatros por todo o Brasil. O stand-up comedy chegou para ficar. Um ator, um palco, um bom texto: pronto, garantia de gargalhadas. E foi essa fórmula que a F/Nazca quis reutilizar em seus vídeos para a Skol. Como exemplo, peguei a peça estrelada por Rafinha Bastos.
Como você mesmo pôde ver, não funcionou. Qualquer outro vídeo de Rafinha Bastos (incluindo aí os excelentes esquetes do espetáculo Improváveis postados no YouTube) é mais engraçado que essa peça produzida pela F/Nazca. A exemplo do que aconteceu com Ruth Lemos (lembra dela?), tiraram a espontaneidade do cara e deixaram tudo com gosto de plástico. Pra quem não lembra de Ruth Lemos, ela foi aquela nutricionista que gaguejou numa entrevista ao vivo e virou uma das primeira webcelebridades do Brasil. A companhia telefônica Intelig contratou a coitadinha pra fazer um comercial e resultado deu vergonha alheira. O mesmo sinto ao ver esse vídeo do Rafinha Bastos.
Não é culpa dele, claro. Nem de Danilo Gentili. Ambos já provaram que têm talento de sobra pro stand-up comedy, fazendo as platéias se rasgarem em gargalhadas com seus textos. O problema é que algumas agências ainda pensam que basta reproduzir fórmulas. Esquecem que o público já está mais que atento às pasteurizações da publicidade. E não engole qualquer coisa.
Pra completar o festival de arrogâncias, um fato triste acabou colado à campanha. O comediante Ronald Rios (que inclusive é amigo de Rafinha Bastos) resolveu postar uma paródia da campanha na internet. No vídeo, ele conta histórias de desastres de automóveis e espancamentos de um pai alcoólatra como se fossem a coisa mais engraçada do mundo. A intenção era apenas fazer rir. Mas a F/Nazca provou – pela segunda vez, inclusive – que não tem senso de humor. Enviou e-mail pro cara pedindo a retirada do vídeo do ar, alegando uso indevido da marca Skol. Ou seja, a agência cagou para o fato de que estava fazendo uma campanha pretensamente viral – e que um dos efeitos de uma bem-sucedida campanha viral é justamente a paródia. Sem querer confusão, Ronald Rios substituiu o vídeo por uma versão “censurada”, sem menções à Skol. E quer saber? É muito mais engraçado que a versão original.
Fica a pergunta: se redondo é rir da vida, porque escolher uma ag~encia que não sabe rir de si mesma?
Ler o jornal com visão crítica faz a gente enxergar coisas impressionantes. Não que eu tenha a mais apurada das visões críticas. Definitivamente não. Mas alguns fatos, por tão gritantes, não me escapam. Um desses é a notícia de que a Secretaria Estadual de Segurança Pública trata como prioridade total a investigação da morte do sueco Gert Bjorn Skytte Sandgren.
O crime aconteceu no domingo, dentro de um dos mais luxuosos hotéis da praia de Pipa. Um assaltante, ainda não identificado, invadiu o resort e rendeu o porteiro. Com ele, foi de quarto em quarto procurando algo para roubar. Quando invadiu o do sueco, diante do susto da mulher que acompanhava o turista, acabou disparando antes de fugir. A bala atingiu em cheio o coração de Gert Bjorn, que faleceu no local. Um crime brutal, sem dúvidas. Mas infelizmente, apenas mais um crime.
Na edição de hoje do Diário de Natal, página 3 do caderno Cidades, a notícia de que um efetivo policial de 80 homens foi mobilizado para prender o assassino (que, suspeita a polícia, é um morador da região responsável por outros assaltos a pousadas) toma uma página inteira. E quase ofusca outra triste tragédia: uma estudante de 16 anos foi estuprada por dois homens armados no Golandim, em São Gonçalo do Amarante, por volta das 22h da segunda-feira. Até o momento, nenhum efetivo extra foi destacado para investigar o crime.
O paradoxo exposto pelas duas notícias é perturbador. Não existe um crime pior que o outro, claro. Em ambos, pessoas foram atingidas, vidas foram destroçadas e danos irreversíveis foram perpetrados. Justamente por isso, não consigo entender quais os motivos que levaram a Secretaria de Segurança a tratar o assassinato do sueco como prioridade. Impossível não concluir: ser assassinado em Pipa é mais vantajoso que ser estuprado no Golandim.
Evitarei entrar na discussão legal desses fatos (por mais que, em meu parco conhecimento do Direito Penal, entenda que um estupro é mais brutal que um latrocínio). Enveredo, ao invés disso, pelas teorias da comunicação. Acredito que o esforço da polícia em prender o assassino do sueco se deve, unicamente, à repercussão do caso. Meninas do Golandim são estupradas todos os dias, ora bolas. Não dá Ibope. Mas um turista sueco, gente, não é todo dia que é friamente abatido.
O secretário estadual de Segurança Pública e Defesa Social, Agripino Oliveira Neto, afirmou que o efetivo extra já estava nos planos da polícia antes do crime. Abre aspas: “A prioridade era o carnaval. Mas tínhamos planos de enviar reforços para a região depois das festividades”. No melhor estilo “desculpa de amarelo é comer barro”, a declaração do secretário soa muito mais como uma antecipação às críticas que por ventura viessem a surgir diante de tamanho empenho em solucionar o tal crime que abalou a Pipa. Sejamos sinceros: se a vítima houvesse sido o porteiro ao invés do turista, nenhum efetivo extra seria deslocado pra região.
O triste quadro da segurança pública brasileira é pintado dessa forma. Quanto mais repercussão tem um caso, mais competência demonstram as autoridades para resolvê-lo. É a distorção da Era BBB: conta muito mais aquilo que é noticiado do que aquilo que efetivamente aconteceu. Por essa lógica cruel, os crimes solucionados que não ganham páginas de jornal, criando, portanto, repercussão zero, são tratados apenas como páginas de um arquivo-morto.
Conselho: da próxima vez que você for vítima de violência, faça bastante barulho. Se deseja mesmo que o crime seja solucionado, rasgue as próprias roupas, finja que perdeu um bebê, cometa automutilação. Se você estiver no Brasil, vai dar muito resultado.
>>>>>>>>>> "Todos os anos milhares de garotas indianas são assassinadas só porque são garotas". Anistia Internacional.
A Globo é especialista em forçar a barra. Mas com “Caminho das Índias” foi longe demais. A novela tem o claro objetivo de se tornar uma moda e emissora nem disfarça: antes da estréia, já alardeava que os motivos indianos estavam tomando conta das ruas. Seria muito bom que fosse um fracasso, pra ensinar a Globo umas boas lições sobre os limites da formação de opinião. Pelos índices do Ibope, resta uma esperança: a trama de Glória Perez patina com uma média de 36 pontos. “A Favorita”, a antecessora, teve média de 45 (que já foi baixa pros parâmetros globais).
A Globo está fazendo de tudo. Matérias sobre a índia no Fantástico, Globo Repórter especial, Jornal Hoje noticiando que as roupas de Maya conquistaram as mulheres. Só o que não fez foi o principal: investir numa boa história.
“Caminho das Índias”, como toda novela de Glória Perez, é uma sucessão de acontecimentos sem sentido falsamente baseados em uma cultura distante. Ou seja, a Índia não é daquele jeito. Em uma entrevista, comparando-se à Janete Clair, Glória Perez disse que era uma ficcionista e não uma jornalista. “Eu invento histórias, elas não precisam ser reais”, argumentou a autora. Eu discordo taxativamente. As melhores histórias que já li, por mais inventivas que fossem, jamais perdiam uma característica primordial: a verossimilhança. De “O Estrangeiro” de Alberto Camus (um homem não demonstra emoções com a morte de sua mãe e é preso como suspeito) até “Admirável Mundo Novo” de Aldous Huxley (no futuro, a reprodução é assistida, o amor é proibido e os seres humanos são criados segundo a função que vão desempenhar), todas as histórias eram plausíveis.
Assisti apenas ao primeiro capítulo de “Caminho das Índias” e foi o suficiente. Se eu só assistir ao último, entenderei a história por completo. Primeiro, a facilidade com a qual os personagens voam do Brasil pra Ásia – sem demonstrar cansaço ou desconforto com o fuso horário, sem ter problemas de visto, muito menos qualquer preocupação com o dinheiro – é irritante. O fato de todo mundo falar português (independente do país em que está) e de vez em quando soltar uma expressão em indiano é outra coisa que me tira do sério. Outro ponto fraco é o didatismo sobre a cultura hindu. Já falaram tanto de brâmanes e coisas afins, que fica difícil torcer pelos personagens: eles parecem mesmo catedráticos de cultura indiana num mestrado chatíssimo sobre culturas exóticas (aliás, a própria expressão “cultura exótica”, repetida à exaustão nos telejornais da emissora, me dá náuseas).
Mas tudo isso é o de menos, afinal defeitos aparecem em diversas obras da televisão e a gente passa por cima e continua achando bom. “Lost”, “Heroes”, “CSI”, até mesmo meu xodó “Fringe”, dão lá suas escorregadas. Mas compensam por nos apresentar tramas bem boladas, muitas delas originalíssimas. Não é o caso da história da Globo.
Toda novela de Glória Perez é igual. Compare. A começar pela cultura distante. “Explode Coração” e os ciganos, “O Clone” e os árabes, “América” e os estadunidenses, e agora nos empurram a Índia. O segundo passo da receita de bolo de Glória Perez é uma protagonista que quer ir contra as tradições. Dara, Jade, Sol, Maya: todas elas são iguais. Além de terem nomes de cachorro poodle, foram obrigadas a se casar com um homem que não amam e são apaixonadas por outro. Dara tinha o cigano Igor (numa atuação histórica, na qual a tentativa de ator Ricardo Macchi expressava emoções com o pâncreas), Jade tinha Saydi, Sol tinha o americano sem graça e Maya tem Márcio Garcia. Elas passam a novela toda sofrendo para se adaptar a uma cultura estranha, de onde quer que ela seja, e no final, após litros e mais litros de lágrimas, provam que correr atrás dos próprios sonhos vale a pena. Acho que vou vomitar.
“Caminho das Índias” é mais um excremento viscoso escorrendo de nossas telinhas. E não incomodaria tanto se a Globo deixasse de tentar empurrá-lo nossa garganta abaixo. Apesar de não estar assistindo à novela, sei de tudo que acontece nela. É impossível permanecer alheio. A índia está em todos os lugares, de comerciais no meio da programação a sites de notícias. Uma pena. Gosto de histórias. Gosto de novelas. O problema é que as nossas estão cada vez piores. Sinto uma imensa saudade de quando ninguém sabia quem matou Odete Roitmann.
Em conversa com Giovanni Sérgio, fotógrafo e amigo, fui alertado para um fato: os 80 anos da passagem de Mário de Andrade por Natal. O escritor paulistano – que foi a voz maior do modernismo – visitou Natal em uma de suas famosas viagens etnográficas. E hoje, 27 de janeiro de 2009, completam exatos 80 anos de sua partida da província após uma estada de 45 dias. Busquei na internet mais sobre o assunto. Não foi tarefa fácil. O material disponível sobre o episódio é bem pequeno. Mas descobri algumas coisas interessantes.
A Semana de Arte de 1922, evento que marcou de vez a chegada do modernismo ao Brasil, já havia se encarregado de transformar Mário de Andrade numa espécie de mito. A partir de 1924, ele passou, então, a manter correspondência com Câmara Cascudo. E nesse vai e vem de informações, decidiu fazer sua segunda viagem etnográfica em 1928. A primeira havia sido no ano anterior, no qual visitou e investigou a Região Norte. Dessa vez voltada ao Nordeste, sua pesquisa aportaria de mala e cuia em Natal, topando de frente com o boi, o pastoril, a chegança e tantas outras riquezas da nossa cultura. Avesso aos “pesquisadores de gabinete”, como resumia, Andrade queria ver de perto essas manifestações.
Mário de Andrade: a maior voz do modernismo
O autor chegou em Recife no dia 3 de dezembro de 1928. A Veneza brasileira seria sua primeira parada na viagem, que inclua ainda Natal e João Pessoa (que na época ainda se chamava Parahyba). Em 14 de dezembro, Mário chegou à Natal e foi recepcionado por Câmara Cascudo. O “príncipe do Tirol”, alcunha de nosso maior escritor em menção à sua posição social, tinha contato então com outro tipo de intelectual. O autor de “Macunaíma”, que buscava como um alquimista a brasilidade na literatura – e que afirmava, pioneiramente, que a verdadeira cultura não estava nas capitais – abriu de vez a cabeça de Câmara Cascudo para coisas que sempre estiveram bem diante dele (e que seriam, posteriormente, a maior razão de seu nome entrar para a posteridade): o valor das tradições folclóricas, a beleza dos rituais populares, a verdadeira cultura impregnada no que via cotidianamente.
Mário acabou ficando mais tempo em Natal do que nas outras cidades. Fez amigos, se encantou pelos banhos de mar na Redinha e deixou saudades quando partiu. O engenheiro agrônomo potiguar Garibaldi Dantas, em crônica publicada n’A Republica, validava a iniciativa de Mário de Andrade em pesquisar as tradições nordestinas, mostrando aos intelectuais locais a importância do que possuímos. Dantas criticou a inteligentsia potiguar, afirmando que “ao invés de ficarem nas eternas questiúnculas bizantinas de escolas estrangeiras, fossem ao nosso interior, e de lá trouxessem estes motivos interessantes que um dia poderão ser gênese de algum trabalho formidável e original”.
Cãmara Cascudo: os rumos de sua obra podem ter sido mudados por Mário de Andrade
Diz-se que depois da partida de Mário de Andrade, Câmara Cascudo voltou-se de vez aos estudos populares. Tanto é que se firma como historiador e folclorista justamente na década de 30, imediatamente após a passagem de Andrade. A mudança em sua obra, provocada ou não pelo paulistano, transformou o “príncipe do Tirol” no maior intelectual potiguar.
No diário de viagem de Andrade, calhamaço que posteriormente viraria o livro “O turista aprendiz”, Mário afirma que Natal é uma cidade de “gente suavíssima que me quer bem”. Mal sabia ele que 80 anos depois, mesmo com toda a importância histórica de sua visita, ela seria completamente ignorada. Nenhum ato público, nenhuma manifestação, nenhuma comemoração. Parece mesmo que o ensinamento de Mário de Andrade foi seguido à risca: mas passamos a olhar tanto para o que produzimos que quase não vemos mais as coisas ao nosso redor.
Poucas vezes vi imagens tão impressionantes como as da posse de Barack Obama. E, portanto, serei mais um a falar do tema. O primeiro presidente negro dos Estados Unidos, ungido pela maioria da população americana ao cargo de libertador de um país moralmente falido. A mudança encarnada em um sorriso aterrador, vindo da pobreza diretamente ao cargo mais alto do planeta. O paladino da liberdade que chega à Casa Branca após oito anos de famigerado bushismo. Pronto, acho que já usei todos os clichês sobre o assunto no primeiro parágrafo.
Dentre todos que falaram, falaram, falaram (e como falaram) de Barack Obama esses dias, não fico nem com o otimismo de Lula (que elegeu Obama como salvador do planeta em diversas declarações), nem com o sensacionalismo de Carlos Heitor Cony (que comentou em sua coluna na CBN, em tom de previsão catastrófica, que “Getúlio Vargas também tropeçou na hora da posse… e terminou se matando”). A opinião mais sóbria a respeito do início da Era Obama veio de Cristovam Buarque, senador do Brasil, em excelente e memorável artigo publicado no jornal espanhol El País.
Para Buarque, Obama tem que ir além do título de “primeiro presidente negro dos Estados Unidos”. Ele tem que ser “o primeiro presidente americano do século XXI”. Isso significa que Obama deve deixar pra trás todas as atitudes anacrônicas que os presidentes estadunidenses vêm tomando nas últimas décadas e assumir a dianteira de uma revolução de pensamento político. Ou seja, o negão tem desafios bem maiores que uma crise econômica global. A parte boa é que ele está com a faca e o queijo na mão.
Vamos voltar no tempo, naquela época em que todos odiavam os Estados Unidos. Era ano passado? Não importa. Naquele tempo, o país era o sinônimo de tudo de ruim que acontecia no mundo. Pobreza dos países subdesenvolvidos? Culpa dos embargos econômicos. Aquecimento global? Culpa do consumo desenfreado. Guerras sem propósito? Indústria bélica estadunidense, claro. Enfim, os EUA se tornaram os bodes expiatórios de um mundo complicado demais. Mas o pior é que tinham razão.
Pois bem, a posse de Obama (mais: a derrota de McCain e, conseqüentemente, do bloco liderado por Bush) representam uma ferida a menos no mundo. Seria duro ver a perpetuação do bushismo num momento em que todos estão cansados de atrocidades e querem só um pouquinho de esperança. Obama, então, deu esse sopro de alívio ao planeta. A década, que começou bem mal com os ataques ao World Trade Center, parece que se encaminha pra terminar com boas notícias. O problema é que Bush fez tanta merda que fica difícil voltar a ter fé na América. Vem trabalho duro pela frente, Obama.
Para mim, o negão só entrará pra História de verdade se fizer mais que ganhar uma eleição contra um candidato sem carisma. Obama não deve, como bem disse Buarque em seu artigo, “ser apenas negro, mas também verde, vermelho e branco”. Verde pela determinação em construir um planeta sustentável, vermelho pela visão humanitária associada à esquerda e branco pela difusão irrestrita da paz.
Muito bem, Obaminha, meu brother, comece a se tornar o divisor de águas desse século tão conturbado assinando o Protocolo de Kioto. Esse documento, ignorado há anos e anos pelos Estados Unidos, estabelece limites para um desenvolvimento sustentável das nações. Esses limites passam, obrigatoriamente, pela redução da emissão de gases tóxicos na atmosfera. Mas isso representaria uma grande adaptação das indústrias a uma nova realidade global. Até hoje, nenhum presidente dos Estados Unidos teve coragem de enfrentar os megaempresários e fazer valer a máxima de que o planeta, enfim, é mais importante. É sua chance, Obama, vai que tu é bom.
Depois de consagrar-se com esse ato inédito, tire de letra outro desafio. Acabe com os embargos econômicos que vitimam países pobres como Cuba. Não é possível que em pleno século XXI, Obama, um país haja com tanta arrogância, se sentindo no direito de penalizar outras nações que não concordam com suas ideologias. Claro, os embargos não ocorrem apenas por opiniões divergentes. Mas, no fim das contas, acabam virando isso: uma briga pra ver quem tem o pau maior. Coloque sua hombridade pra fora, Obama. Sele a paz com o Terceiro Mundo de uma vez, acabando não só com os embargos mas também com intervenções sinistras na soberania alheia (as bélicas, as políticas, as escusas, todas). Enfim, deixe o resto do mundo em paz.
E por falar em paz, vem o maior dos desafios. Acabe com as guerras. Principalmente com essa tal Guerra Contra o Terror iniciada por Bush, que não passou de um artifício baixo do ex-presidente para se fazer necessário. Erga uma nação que fomenta a educação, que gera um ideal realmente diferenciado para esse milênio, inicie essa nova era não apenas com festas: mas com ações verdadeiramente inovadoras. Os EUA de Obama têm a obrigação de se tornar a nação mais pacificadora do planeta. Já está na hora. Mas não é só isso: passe a respeitar as convenções internacionais, porque isso vai significar respeito pelo mundo inteiro, por cada cidadão do planeta. Submeter-se às regras dos tribunais internacionais, acatar as resoluções da ONU e firmar pactos bilaterais com as nações não dói. Todo mundo faz isso. Tá na hora dos EUA fazerem também.
Depois disso, aí sim, Obama estará para sempre nos livros de História. E melhor: estará na história de todos, de cada um de nós, que teremos um mundo mais justo, preparado para o futuro e livre de arbitrariedades sem sentido. Mas até lá, nada mudou. Muito embora o tempo seja de esperança, os americanos continuam tendo responsabilidades enormes sobre os problemas globais. E para que Obama entre definitivamente pra História, é preciso apenas uma coisa: parar de olhar pro próprio umbigo.
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