Sou escritor, jornalista, publicitário e um dos fundadores da Editora Jovens Escribas. Já publiquei dois livros: o romance Lítio e a coletânea de contos A Cega Natureza do Amor. Aqui no PLOG escrevo sobre tudo. E até sobre nada.
Como alguns já sabem, o Baixo de Natal vem aí. O que começou como uma brincadeira da atriz Quitéria Kelly no Twitter (“Ah, gente, em vez de um Auto de Natal, vamos fazer um Baixo de Natal”) acabou se transformando no Circuito Cultural Baixo de Natal, grande evento que vai movimentar a cidade durante cinco dias, entre 15 e 19 de dezembro.
Entre música, dança, teatro, performances, saraus e etc, está o espetáculo itinerante “The Baixo de Natal”, ponto alto do evento e meu maior desafio do ano: a pedido dos organizadores, eu e Carlos Fialho assumimos a dramaturgia da peça. Em única apresentação, dia 18 de dezembro, na Praça André de Albuquerque, no Centro, a partir das 17h.
A programação completa do Circuito cultural Baixo de Natal você confere logo mais:
Baixo de Natal
Programação
15/12 – QUARTA
Oficina de clown com Berto Matys
Local: Circo Tropa Trupe (ao lado do campo de futebol da UFRN)
Hora: 10h
Inscrições: baixodenatal@gmail.com | 9921 7895.
Performance “Primeiro estranha-se, depois entranha-se”, com a atriz Carol Piñheiro
Local: passarela do Natal Shopping
Hora: 16h
Mesa-redonda “Arte e Independência – Novas Formas de Sobrevivência”
Local: Casa da Ribeira (rua Frei Miguelinho, 52, Ribeira)
Hora: 18h
Esquete Palhaços, com a Tropa Trupe Cia de Arte, stand-up comedy com Rhiana Negreiros e shows
de Los Costeletas Flamejantes, Lunares, Simona Talma e Clara e a Noite
Local: Buraco da Catita (rua Câmara Cascudo, 185, Ribeira – próximo ao Teatro Alberto Maranhão)
Hora: 20h
16/12 – QUINTA
Oficina de clown com Berto Matys
Local: Circo Tropa Trupe (ao lado do campo de futebol da UFRN)
Hora: 10h
Palestra sobre arte contemporânea: “Desentendimento sofisticado em palcos pós-estruturados”, com
a professora Naira Ciotti
Local: Casa da Ribeira (rua Frei Miguelinho, 52, Ribeira)
Hora: 16h
Bode-arte: mostra de performance arte
Local: Tecesol (rua Governador Valadares, 4853, conjunto Pirangi)
Hora: 18h
17/12 – SEXTA
Espetáculo “ReCiclus”, com Berto Matys
Local: Circo Tropa Trupe (ao lado do campo de futebol da UFRN)
Hora: 17h30
Exposição de diversos artistas e jantar temático
Local: Bardallo’s (rua Gonçalves Ledo, 678, Cidade Alta)
Hora: 19h
18/12 – SÁBADO
Espetáculo itinerante “The Baixo de Natal”
Locais: rua João Pessoa (Cidade Alta), praça André de Albuquerque (Cidade Alta) e largo Dom Bosco (Ribeira)
Saída: 17h
Shows com as bandas Curta-metragem, Evol, O Holandês Voador, Dessituados, Calistoga e Projeto Trinca
Local: Centro Cultural DoSol (rua Chile, Ribeira)
Hora: 21h30
19/12 – DOMINGO
Peça “Cleansed”, do Projeto ES3
Local: Departamento de Artes da UFRN
Hora: 16h
Espetáculo “Achado não é roubado”, da Tropa Trupe Cia de Arte
Local: Circo Tropa Trupe (ao lado do campo de futebol da UFRN)
Hora: 17h
Peça “Alice”, com Carol Piñheiro / show de encerramento com o grupo Pau e Lata
Local: Tecesol (rua Governador Valadares, 4853, conjunto Pirangi)
Hora: 19h
BAIXO DE NATAL
Dias: 15 a 19 de dezembro
Atrações: música, dança, teatro, exposições, mesa-redonda, palestra, cortejo e oficinas.
Entrada gratuita
Mais informações: www.baixodenatal.blogspot.com.br
Essa semana, finalmente, caiu na rede a polêmica performance do artista Pedro Costa. Dentro do Salão de Artes de Visuais de Natal, organizado pela Funcarte, o artista tirou a roupa, ajoelhou-se e retirou um terço de dentro do ânus. Lentamente. Sob o olhar de toda a platéia. E tudo devidamente registrado pela curadoria do evento.
Depois, com a polêmica que a performance gerou, Pedro Costa explicou em matéria publicada no site Revista Catorze: “É uma forma de expressar a descolonização do corpo através da excretação do terço, um dos símbolos do domínio colonialista. E, ao mesmo tempo, expurgar a interdição católica sobre o prazer anal e afirmar o prazer da sodomia”.
Performance de Pedro Costa:
Há muito tempo – muito mesmo, pra lá de 10 anos – que eu não via meus companheiros de trabalho discutindo arte contemporânea. Veja bem, discutindo – apaixonadamente, defendendo seus pontos de vista, concordando e discordando. E olha que trabalho num meio que, teoricamente, tem alto nível cultural. A provocação da discussão, a meu ver, foi a grande contribuição de Pedro Costa para a – combalida – cultura local. A performance dele despertou opiniões iradas no Twitter, gerou discussões em mesas de bar, foi contada como piada, como episódio bizarro, como absurdo. Mas ninguém ficou indiferente. Isso é bom.
A parte ruim – e sim, sempre há uma parte ruim – é que é difícil enxergar arte na tal performance, por mais legendas e explicações e sobrescritos que se coloquem nela. Peço desculpas a meus amigos e leitores que, por ventura, tenham se solidarizado com Pedro Costa. Mas, sinceramente, de arte a coisa toda tem muito pouco. Talvez protesto. Arte, meus amigos, é um pouco mais.
Não estava em Nalva Melo no dia da performance, por isso esperei pacientemente ver o vídeo antes de emitir qualquer opinião. Não esperava que a performance fosse essa coisa seca de sentidos, recheada de aplausos nervosos, desprovida emoções. Quando soube do terço descomido, imaginei algo mais elaborado. Talvez o ponto culminante de um poema sobre sodomia. Ou, quem sabe, o gran-finale de coreografia visceral que revelava um erotismo velado. Mas não. Foi – como se pode ver no vídeo – simples assim: em dado momento, ele tirou a roupa, se prostrou de joelhos e retirou um terço do ânus.
E eu fiquei com essa cara de trouxa que estou até agora, pensando que passo mais de dois anos escrevendo um romance, suando em noites de insônia, cansado em minhas lesões por esforço repetitivo, para ver algo tão pobre ser chamado de arte.
(Arte, pra mim, é a confusão mental e o embrulho no estômago que dá quando encaramos de frente o quadro “Guernica”, de Pablo Picasso, que retrata a matança da Guerra Civil Espanhola num cubismo embasbacante – pessoas mutiladas, sangue, carrancas diabólicas, tudo misturado e tão harmônico que se torna lindo. Perfeito. Numa tela gigante, que mede mais de 7m x 3m. Que nos mostra como somos pequenos em relação aos gênios.
Arte é a sensação de completude que a gente sente quando sai de um Clarice Lispector, após sermos arrebatados pelo talento mágico da escritora em trabalhar seu texto como se fosse um organismo vivo, tudo tão perfeitamente encaixado para soar bem, fazer sentido, ser esteticamente agradável na página. Como quando no romance “Perto do coração selvagem”, ela compôs: “Ainda não se cansara de existir e bastava-se tanto que às vezes, de grande felicidade, sentia a tristeza cobri-la como a sombra de um manto, deixando-a fresca e silenciosa como um entardecer.”
A gente sai dessas coisas sem dúvida de que viveu arte. E pra mim, em minha pouquíssima experiência artística, a arte não deixa dúvidas de que é arte. Contestadora, sim. Gratuita, jamais.)
Parabenizo Pedro Costa pelo ato de coragem, pela polêmica que gerou, pelo choque elétrico de realidade que deu numa cidade acostumada a nunca ser perturbada em seu eterno sono de final de tarde. Mas não pela arte. É preciso mais que um terço excretado para provocar meu aplauso.
Mais uma edição do projeto “Nalva faz minha cabeça” sai às ruas. Dessa vez, com a escritora potiguar Civone Medeiros e o fotógrafo Flávio Aquino. O projeto transforma clientes do Nalva Melo Café Salão em ícones pop através de uma ensaio fotográfico cuidadoso, criativo e cheio de ousadia.
Por ele já passaram a arquiteta Manu Albuqerque encarnando uma melindrosa e a empresária Larissa Borges transformada em Amy Winehouse. Agora, é a vez da musa das letras, a inquieta e transgressora Civone Medeiros, emprestar seu corpo para Janis Joplin. Veja uma amostra grátis do ensaio. Pra tudinho, incluindo making-of, é só ir no site de Nalva Melo Café Salão.
FICHA TÉCNICA
Personal Hair & Make-Up Stylist: Nalva Melo
Foto: Flávio Aquino
Modelo: Civone Medeiros
Apoio: Allan Talma & Vírginia
Vivemos uma época de transição, em que a tecnologia muda tão rapidamente (e afeta tão rapidamente nossas vidas que só nos deixa uma saíde: experimentar. Propor o novo. Fomentar algo que talvez não tenha significado agora, mas que pode abrir portas para infinitos significados no futuro. É mais ou menos isso que o coletivo paulista C.A.O.S (Coletivo de Amor e Ódio em Segundos) está fazendo ao unir Twitter, blog e QR Codes (aquele novo código de barras que pode ser lido por câmeras de celular) num só projeto.
Trata-se do auto-intitulado livro vivo “Instantes de Amor e Ódio”. Uma inteligente brincadeira que leva às ruas os instantes de amor e ódio coletados diretamente do Twitter. Como? Usando criatividade e tecnologia para compor arte.
Explico…
O coletivo criou um perfil no Twitter (@caos_euconcordo). Se você passa a seguir este perfil, concorda automaticamente em ceder os direitos das postagens que contêm as palavras AMOR ou ÓDIO. Essas postagens são republicadas no site do projeto e de lá ganham as ruas em cartazes que usam tecnologia QR Code (ou seja, as pessoas, na rua, poderão ler os instantes de amor e ódio simplesmente fotografando os cartazes). Mas por enquanto, os tais cartazes só estão espalhados por São Paulo.
No manifesto do projeto, o coletivo C.A.O.S. enfatiza que este será “o primeiro livro vivo do mundo. escrito por imagens que só podem ser lidas em um celular”. E completa: “Páginas vivas, de conteúdo efêmero, mudando randomicamente a cada semana. Frases verdadeiras, vindas do mundo virtual, invadindo o mundo real por meio de uma enigmática poesia visual”.
Pode não ter significado algum hoje. Mas é essencial que experimentemos esse tipo de convergência de tecnologia para descobrir até onde elas poderão nos levar. Afinal, quando inventaram o raio laser ele não tinha utilidade alguma.
Mais uma semana em que não cumpri totalmente meu objetivo.
“A ponto de explodir”, do autor mineiro Sérgio Fantini, apresenta contos ágeis e por vezes bem curtos, daqueles que a gente lê em uma sentada. O efeito dessa concisão é devastador. E foi devastador também para minha meta: livros de conto dão a chance de pular algumas partes e ler só o que realmente interessa naquele momento. Não era minha intenção e por isso estou sendo honesto: pulei alguns contos, mas li quase todos.
Tive a oportunidade de conhecer Fantini em outubro de 2011, quando ele veio a Natal a convite do Jovens Escribas para ministrar uma oficina de contos dentro da Ação Potiguar de Incentivo à Leitura. Sua fala tranquila e seu jeito sem afetações destoa totalmente da linguagem que exibe em seus contos: direto, por vezes violento, sem meneios desnecessários, Fantini exibe personagens fortes e controversos, que nos dão uma boa visão sobre os tipos urbanos mais comuns dos dias de hoje.
A leitura é recomendadíssima por dois motivos. O primeiro: a linguagem livre, sem editorialismos, permite mergulhar fundo no universo do autor a cada nova história. O segundo: Fantini sabe contar histórias. E mesmo naquelas mais pós-modernas, em que o conto passeia apenas por uma cena, sem nos dar muitas informações sobre os personagens, não deixa a sensação de incompletude. Suas histórias, por mais pós-modernas que sejam, sempre têm começo-meio-fim. O cara sabe o que está fazendo.