Sou escritor, jornalista, publicitário e um dos fundadores da Editora Jovens Escribas. Já publiquei dois livros: o romance Lítio e a coletânea de contos A Cega Natureza do Amor. Aqui no PLOG escrevo sobre tudo. E até sobre nada.

[ARTIGO] TURISMO SEXUAL X COPA 2014: UMA EQUAÇÃO IGNORADA EM NATAL

Posted: fevereiro 19th, 2010 | Author: Patrício Júnior | Filed under: TELESCÓPIO | Tags: , , , , , , | 2 Comments »

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Acabo de ler texto do site Repórter Brasil sobre a exploração sexual de crianças e adolescentes em Natal. E estou chocado. A reportagem, escrita por Bianca Pyl, alerta para um fato perturbador: apesar de toda a verba disponibilizada para Natal depois de sua escolha como cidade-sede da Copa2014, nenhuma ação para combater o turismo sexual que envolve crianças e adolescentes está planejada.

Escreve a repórter, que veio à Natal em setembro de 2009: “Este tipo de ocorrência não se restringe apenas ao período de folia e pode vir associado a outros grandes eventos turísticos que atraem massas de dentro e de fora do país. Álbuns com fotos de adolescentes circulam dentro de um shopping center no bairro de Ponta Negra, na capital potiguar. Escolhida como uma das cidades-sede da Copa do Mundo de futebol de 2014, Natal (RN) já se agita com os preparativos (e as expectativas econômicas) dos jogos.”

Mais à frente, alerta: “A empolgação com as perspectivas de melhoria da infra-estrutura e de atração de investimentos com a Copa do Mundo não se repete quando o assunto é outro: os problemas sociais decorrentes de uma competição esportiva desse porte. O possível aumento da exploração sexual de crianças e adolescentes, que preocupa organizações da sociedade civil e do poder público que atuam na área, está entre as potenciais consequências negativas da Copa.”

Bianca procurou o secretário estadual-adjunto de Turismo, Túlio Serejo, para saber quais ações o Comitê Estadual da Copa 2014 está desenvolvendo para prevenir o aumento da exploração sexual de crianças e adolescentes durante o evento. Ele confirmou que não há representantes da sociedade civil ou de órgãos que trabalhem com a exploração sexual infanto-juvenil no Comitê, criado especialmente para a ocasião e coordenado pelo secretário de turismo Fernando Fernandes de Oliveira. “Esse tema [exploração sexual de crianças e adolescentes] nem deveria ser tratado aqui na Secretaria de Turismo. Nós não temos mecanismos de repressão. O que fazemos é tomar cuidado com a publicidade, que não é focada na exposição das mulheres e adolescentes”, declarou o secretário-adjunto.

Ou seja: seguimos na política do “esse problema não é meu”. Política do empurra-empurra que garantiu que a exploração sexual se tornasse um problema crônico em Natal e saísse totalmente de controle. Durante anos, as autoridades ignoraram o folia de sexo e drogas que vinha acontecendo em Ponta Negra. Durante anos, o sexo-turismo se alimentou desta plácida conivência e foi crescendo, se enraizando e se multiplicando em Natal. Hoje, não está mais restrito ao bairro mais turístico da cidade.

Uma verdadeira cadeia de agentes aliciadores se ramificou pela cidade, indo desde o agente de viagens que oferece meninas, passando pelo taxista que indica lugares onde conseguir sexo fácil com crianças e adolescentes, chegando até os donos de hotel que ignoram a prática e aceitam a presença de turistas acompanhados de menores de idade em seu estabelecimento. Ao contrário do que pensamos, não são apenas europeu idosos que alimentam esta cadeia criminosa. A reportagem traça um perfil do turista sexual e chega a uma conclusão alarmante: mo maior problema são os turistas que chegam sem esta intenção mas, devido a oferta, acabam explorando sexualmente crianças e adolescentes.

Sim, a oferta. Depois de tantos anos de sexo-turismo, tornou-se normal entre crianças e adolescentes carentes adquirir status social se prostituindo. Durval Muniz de Albuquerque Lopes, doutor em História pela Universidade de Campinas (Unicamp) e professor da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), foi ouvido pela reportagem e concluiu: “A identidade do adolescente no seu grupo social é dada pela marca que ele consome. Se ele não consome, é excluído. Para ter acesso, ele se submete à exploração sexual. Estou falando de outro nível de consumo, não de alimentos.” Em outras palavras: o buraco é bem mais embaixo, pois já chegamos ao nível em que os explorados fazem questão de ser explorados.

Recomendo que você leia na íntegra a reportagem clicando aqui. E depois, pense consigo mesmo: o que temos feito para evitar que nossas crianças e adolescentes acabem nas mãos de aproveitadores que enriquecem às custas da perda de sua inocência?

Reportagem na íntegra: Risco de abuso sexual de crianças e adolescentes ronda Natal, por Bianca Pyl.


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