Sou escritor, jornalista, publicitário e um dos fundadores da Editora Jovens Escribas. Já publiquei dois livros: o romance Lítio e a coletânea de contos A Cega Natureza do Amor. Aqui no PLOG escrevo sobre tudo. E até sobre nada.

[ARTIGO]
MÁRIO DE ANDRADE EM NATAL: O QUE SERIA DE CÂMARA CASCUDO SEM ELE?

Posted: janeiro 27th, 2009 | Author: Patrício Júnior | Filed under: TELESCÓPIO | Tags: , | 4 Comments »
Mário de Andrade e Câmara Cascudo: o encontro

Mário de Andrade e Câmara Cascudo: o encontro

Em conversa com Giovanni Sérgio, fotógrafo e amigo, fui alertado para um fato: os 80 anos da passagem de Mário de Andrade por Natal. O escritor paulistano – que foi a voz maior do modernismo – visitou Natal em uma de suas famosas viagens etnográficas. E hoje, 27 de janeiro de 2009, completam exatos 80 anos de sua partida da província após uma estada de 45 dias. Busquei na internet mais sobre o assunto. Não foi tarefa fácil. O material disponível sobre o episódio é bem pequeno. Mas descobri algumas coisas interessantes.

A Semana de Arte de 1922, evento que marcou de vez a chegada do modernismo ao Brasil, já havia se encarregado de transformar Mário de Andrade numa espécie de mito. A partir de 1924, ele passou, então, a manter correspondência com Câmara Cascudo. E nesse vai e vem de informações, decidiu fazer sua segunda viagem etnográfica em 1928. A primeira havia sido no ano anterior, no qual visitou e investigou a Região Norte. Dessa vez voltada ao Nordeste, sua pesquisa aportaria de mala e cuia em Natal, topando de frente com o boi, o pastoril, a chegança e tantas outras riquezas da nossa cultura. Avesso aos “pesquisadores de gabinete”, como resumia, Andrade queria ver de perto essas manifestações.

Mário de Andrade: a maior voz do modernismo

Mário de Andrade: a maior voz do modernismo

O autor chegou em Recife no dia 3 de dezembro de 1928. A Veneza brasileira seria sua primeira parada na viagem, que inclua ainda Natal e João Pessoa (que na época ainda se chamava Parahyba). Em 14 de dezembro, Mário chegou à Natal e foi recepcionado por Câmara Cascudo. O “príncipe do Tirol”, alcunha de nosso maior escritor em menção à sua posição social, tinha contato então com outro tipo de intelectual. O autor de “Macunaíma”, que buscava como um alquimista a brasilidade na literatura – e que afirmava, pioneiramente, que a verdadeira cultura não estava nas capitais – abriu de vez a cabeça de Câmara Cascudo para coisas que sempre estiveram bem diante dele (e que seriam, posteriormente, a maior razão de seu nome entrar para a posteridade): o valor das tradições folclóricas, a beleza dos rituais populares, a verdadeira cultura impregnada no que via cotidianamente.

Mário acabou ficando mais tempo em Natal do que nas outras cidades. Fez amigos, se encantou pelos banhos de mar na Redinha e deixou saudades quando partiu. O engenheiro agrônomo potiguar Garibaldi Dantas, em crônica publicada n’A Republica, validava a iniciativa de Mário de Andrade em pesquisar as tradições nordestinas, mostrando aos intelectuais locais a importância do que possuímos. Dantas criticou a inteligentsia potiguar, afirmando que “ao invés de ficarem nas eternas questiúnculas bizantinas de escolas estrangeiras, fossem ao nosso interior, e de lá trouxessem estes motivos interessantes que um dia poderão ser gênese de algum trabalho formidável e original”.

Cãmara Cascudo: os rumos de sua obra podem ter sido mudados por Mário de Andrade

Cãmara Cascudo: os rumos de sua obra podem ter sido mudados por Mário de Andrade

Diz-se que depois da partida de Mário de Andrade, Câmara Cascudo voltou-se de vez aos estudos populares. Tanto é que se firma como historiador e folclorista justamente na década de 30, imediatamente após a passagem de Andrade. A mudança em sua obra, provocada ou não pelo paulistano, transformou o “príncipe do Tirol” no maior intelectual potiguar.

No diário de viagem de Andrade, calhamaço que posteriormente viraria o livro “O turista aprendiz”, Mário afirma que Natal é uma cidade de “gente suavíssima que me quer bem”. Mal sabia ele que 80 anos depois, mesmo com toda a importância histórica de sua visita, ela seria completamente ignorada. Nenhum ato público, nenhuma manifestação, nenhuma comemoração. Parece mesmo que o ensinamento de Mário de Andrade foi seguido à risca: mas passamos a olhar tanto para o que produzimos que quase não vemos mais as coisas ao nosso redor.


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