ANA AMÉLIA AMBRÓSIO DELLA FLEUR DE LYS: LE BARBECUE
Ana Amélia Ambrósio Della Fleur de Lys perdeu tudo, menos a pose. Tanto que fazia questão de ensinar a pronúncia correta do seu último sobrenome aos novos vizinhos da favela Rosa de Pedra ― comunidade na qual passou a morar depois que seu marido foi preso por corrupção. “Você tem que falar ‘Dê Lá Flôr Dê Lís’, semicerrando os lábios na letra ‘O’ e prolongando a fricção do ‘R’…”, dizia ela para a vizinha enquanto beliscava deliciosos canapés de pão dormido e patê de Kitut de Boi. “Aceita mais uma chávena da infusão, Dona Rildete?”, acrescentava levantando-se, comentando que o gosto da carne em conserva lembrava vagamente, bem lá no finalzinho, um caviar que havia comido em suas últimas férias em Mônaco.
Foi da própria Dona Rildete, inclusive, que partiu a ideia do churrasco. “Um barbecue? Que pitoresco!”, exclamou Ana Amélia Ambrósio Della Fleur de Lys. “É um excelente approach para um open house, mon amour”, disse ela diante da testa franzida da sua vizinha.
Foram juntas ao açougue barganhar um desconto na carne de segunda. “Que boucherie mais interessante o senhor mantém, Dr. José Amâncio”, disse ela quando encarou Zé das Carne e seu avental ensanguentado e encardido. “Onde estão os cortes nobres?”, perguntou, ao que foi prontamente conduzida ao balcão onde acém com osso e retalhos de carne disputavam espaço com moscas-varejeiras. “Esses retalhos são perfeitos para fazer finger foods”, concluiu com um sorriso radiante.
Dona Rildete alertou para a necessidade de servir uma travessa de farofa de ovo já no início da festa, a fim de que a carne rendesse o dia todo. “Servir uma entrada é realmente uma atitude sensata”, respondeu Ana Amélia Ambrósio Della Fleur de Lys enquanto seu salto afundava nas ruas de barro da comunidade. “Onde fica o empório mais próximo?”
No domingo, o céu cintilava num turquesa idêntico ao do verão em Paris. Ana Amélia Ambrósio Della Fleur de Lys pediu que Chico Milonga montasse a roda de carro que serviria de churrasqueira no quintal, não sem antes observar o quão rústico era aquele réchaud. Deu instruções a Dona Rildete para que a mesa do buffet ficasse o mais perto possível da área de bebidas ― e como não entendeu nada, a vizinha dispôs a mesa de plástico com vinagrete e farofa ao lado do isopor grande de tampa quebrada.
Cada convidado que chegava era alertado por Chico Milonga que as cervejas deveriam ser depositadas no isopor. E Ana Amélia Ambrósio Della Fleur de Lys achou elegantíssimo que todos trouxessem uma beverage a seu open house (o gesto carinhoso lembrava quando seus convidados levavam uma garrafa de Veuve Clicquot aos jantares que oferecia no Solar Fleur de Lys).
O pagode começou exatamente ao meio dia. “Optei por música mecânica”, ela afirmou a Zé das Carne, apontando para um microsystem de 1992 cedido pelo pessoal da rádio comunitária, “A discotecagem está em alta nos grandes salões da Europa, Dr. José Amâncio”, completou dando uma suave reboladinha ao som de “A Dança da Vassoura”.
Sacolejando com bastante cuidado para não quebrar o salto do último Yves Saint Laurent de sua finada coleção de 839 pares, Ana Amélia Ambrósio Della Fleur de Lys pedia que Chico Milonga abastecesse de vez em quando sua taça de cristal. As borbulhas da cerveja — em parte recolhida de um caminhão que tombou na BR ― subiam suavemente até a superfície do cálice, enquanto ela afirmava com veemência: “Eu abro mão do prosecco, mas da taça jamais”.
No meio da festa, já de pilequinho, acabou deixando-se seduzir pelo cheiro másculo de acém com osso que exalava de Zé das Carne. “Você é mesmo encantador, Dr. José Amâncio”, flertou ela, abrindo um sorriso luminoso que só não ofuscou o pedaço de cheiro verde no incisivo superior. O amor berrou mais alto e deu-se ali mesmo no banheiro, que tinha um péssimo isolamento acústico por ser vedado apenas por uma cortininha de chita. Não demorou para que fosse fotografada em poses nada elegantes através do cobogó da toilette.
No dia seguinte, Ana Amélia Ambrósio Della Fleur de Lys descobriu que um ensaio fotográfico de suas peripécias com Zé das Carne fora postado no blog Comunidade News. Com o rímel Lancôme derramando-se em rios de desolação, prostrada na chaise longue que improvisou com uma cadeira de plástico e uma caixa de laranja, tomou uma aspirina que conseguiu no posto de saúde e concluiu: aquela festa não tinha sido tão diferente das que costumava oferecer na terraza do Solar Fleur de Lys; mas naquela época, ao menos, a pia era de mármore de Carrara.

Sou escritor, jornalista, publicitário e um dos fundadores da
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Patrício Jr., adorei muito ler o seu conto. Irônico e irreverente do jeito que eu gosto. Dei várias risadas durante a leitura. Parabéns pela criatividade.