22 fevereiro 2010 §
A respeitada atriz, diretora e dramaturga Cláudia Magalhães, com a qual gozo de relação amistosa e simpatia mútua, escreve abaixo os motivos que a fizeram pedir exoneração do cargo de Coordenadora do Núcleo de Documentação (Chefe da Biblioteca Pública Esmeraldo Siqueira) da FUNCARTE. Não é segredo pra ninguém que a FUNCARTE, na gestão da Borboleta, virou uma bagunça das grandes. Na carta aberta abaixo, enviada aos artistas e à imprensa, Cláudia Magalhães deixa bem claros seus motivos para sair desse mar de incompetência que é a atual Prefeitura de Natal. Republico aqui a carta por dois motivos: 1) Pelo que tem de contundente, expondo através dos olhos de quem estava lá dentro como as coisas realmente acontecem na gestão cultural de Micarla de Sousa; 2) Pelo respeito e pela simpatia que tenho por Claudia Magalhães, que sempre se mostrou profissional e estimulada quando se tratava de fazer um bom trabalho cultural. Segue a carta.
Carta aberta
Por Cláudia Magalhães
Na qualidade de Coordenadora do Núcleo de Documentação (Chefe da Biblioteca Pública Esmeraldo Siqueira), cargo que ocupei de janeiro de 2009 a janeiro de 2010 (quando fui exonerada a pedido), comunico a todos os citados acima que não faço mais parte da coordenação geral do ENE (Encontro Natalense de Escritores), atual, ELE (Encontro Lusófono de Escritores). Esta carta se faz necessária para esclarecer alguns pontos que dizem respeito ao meu relacionamento com o mundo cultural local e a sociedade em geral, aos quais devo prestar contas enquanto ocupante que era de um cargo público.
1- Por convite do então presidente da FUNCARTE, César Revoredo, aceitei a coordenação geral do então ENE. Portanto, auxiliada por um conselho formado por: Carlos Fialho, Petit das Virgens, Margot Ferreira, Lívio Oliveira e Isabel Vieira, foram enviados convites via e-mail (oficial da FUNCARTE, em nome do presidente César Revoredo, com cópia para o meu e-mail) para: José Eduardo Agualusa, Paulo Lins, Marçal Aquino, Arthur Dapieve, Xico Sá, Ziraldo, Pedro Bandeira, Marcelino Freire, Cassiano Elek Machado, Joca Reiners, Mário Bortolloto, Eduardo Bueno, Shiko, Fernando Bonassi, Milena Azevedo, Chico César, Tárick de Sousa, Edney Silvestre, Antônio Cícero, Tarcísio Gurgel, Gabriel O Pensador, Tácito Costa, Clotilde Tavares, Carlos Magno, Nivaldete Ferreira, Isabel Vieira, Túlio Andrade, Danilo Guanais, Buca Dantas, Abimael, Nei Leandro de Castro, Lívio Oliveira, Sérgio Vilar, Diogo Guanabara e Macaxeira Jazz, Agregados Família do Rap, Cordel do Fogo Encantado. Além do contato com diversos artistas plásticos, poetas e jornalistas que contribuiriam para o ENE.
2- Depois de meses de trabalho, com planilha total feita, convites prontos e confirmados com a garantia do então presidente César Revoredo, a prefeita Micarla de Sousa até então não tinha posição nenhuma sobre um possível cancelamento ou adiamento do ENE, o encontro literário estava confirmado para os dias 26, 27 e 28 de novembro de 2009. Contudo faltando poucos dias para o início do ENE, César Revoredo pede exoneração da FUNCARTE e o vice Rodrigues Neto assume.
3- Dias antes, fui chamada para uma reunião na qual César Revoredo, na presença do então vice presidente, Rodrigues Neto e do Chefe de atividades culturais, Josenilton Tavares, me comunica que não teríamos mais o ENE, e sim, o ELE e que este seria realizado em março de 2010. Confirmou o meu nome na coordenação geral do mesmo, onde manteríamos a participação de todos os que foram convidados para o antigo ENE. Desta feita, comuniquei – via telefone – aos escritores convidados a mudança do nome e da data. Além de pesquisar possíveis escritores internacionais para o ELE.
4- Contudo, após assumir a presidência da FUNCARTE, Rodrigues Neto não me procurou para confirmar ou retirar o meu nome da coordenação geral do ELE. Semanas depois, comunico ao vice presidente Gustavo Wanderley a minha decisão de sair da coordenação do ELE, mas de permanecer na função de chefe da Biblioteca Pública Municipal Esmeraldo Siqueira, visto que várias atividades por mim desenvolvidas na gestão de César Revoredo estavam em andamento ou com editais publicados, o que detalharei nos próximos tópicos.
5- Semanas depois, diante do silêncio apresentado, posto que o presidente Rodrigues Neto não teve nenhuma conversa oficial sobre o ELE e nem sobre outros assuntos do meu núcleo e também observando pela imprensa a conduta e a atuação da presidência, tomei a decisão de pedir exoneração em janeiro de 2010.
6- Uma vez tendo pedido exoneração surpreendi-me com contatos de escritores locais e nacionais, artistas e jornalistas me perguntando sobre o ELE. Percebi, então, que a presidência não comunicou a ninguém que eu não apenas não era mais a coordenadora do Núcleo de Documentação como também não estava mais na coordenação do ELE, antigo ENE.
7- Artistas e produtores culturais envolvidos em projetos que iniciei me procuram por e-mail e por telefone para saber detalhes dos mesmos. Projetos como o CONCURSO DE REDAÇÃO -“O que é ser um cabra das Rocas”, CONCURSO DE FOTOGRAFIA ESCRITORES POTIGUARES com o tema “Escritores potiguares vivos” foram negligenciados, e pior, não houve comunicação aos artistas envolvidos. No dia da Poesia, o qual fui coordenadora geral, O então presidente César Revoredo com a presença da prefeita Micarla de Sousa, comunicou a todos os presentes não somente a continuação dos CONCURSOS CÂMARA CASCUDO E OTHONIEL MENEZES, mas também, além da premiação em dinheiro, a publicação dos livros dos vencedores. Infelizmente, estes dois concursos também foram negligenciados.
8- Na gestão de César Revoredo o meu núcleo ficou responsável pela nova revista cultural da FUNCARTE, A “Ginga”. Ao longo de meses de trabalho, a revista, por meio do editor contratado, Sérgio Vilar com a sua equipe de jornalistas produziu 100% da revista que estava pronta para ir pra gráfica. Com a mudança da presidência a revista teve o lançamento adiado para março de 2010, eu soube disso através do editor Sérgio Vilar, pois nada me foi comunicado oficialmente.
9- Diante disso, por respeito a todos os que estavam envolvidos nesses projetos, aos artistas e amigos, torno todos estes fatos públicos, de maneira a evitar dúvidas, mal entendidos e conversas de bares e corredores que tanto empobrecem e aviltam a cultura natalense. Saio da FUNCARTE com a sensação do dever cumprido, com coragem de me olhar no espelho todos os dias e com o respeito do mundo artistico e cultural, bem mais precioso que consegui nestes meses de FUNCARTE.
Cláudia Magalhães
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Após a publicação desta carta aberta, o atual presidente da FUNCARTE, o desacreditado Rodrigues Neto, deu declarações em que negava a versão de Claudia Magalhães. A coisa começa a pegar fogo a partir daqui, com a réplica de Claudia às acusações do presidente da FUNCARTE.
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Resposta de Claudia Magalhães às declarações de Rodrigues Neto
(extraído do blog de Sergio Vilar)
Resposta da dramaturga e atriz Cláudia Magalhães às declarações do presidente da Funcarte, Rodrigues Neto, ao Novo Jornal:
1- Rodrigues disse quanto ao ENE, atual ELE: “se houve negligência, a culpa foi da própria Cláudia Magalhães”. Ora, se eu era a coordenadora geral do evento, acredito que eu era a principal interessada em que o mesmo acontecesse e que fosse um sucesso. Ademais, como coordenadora, não tinha o poder para liberar dinheiro, fazer empenho ou poder político algum, quem os tinham ou têm são justamente, o presidente da FUNCARTE, Rodrigues Neto e a Prefeita, Micarla de Sousa.
2- Rodrigues Neto afirmou que “ao assumir a presidência do órgão, dei carta branca para Cláudia Magalhães seguir no projeto do ELE”. Se eu tivesse “carta branca” o ENE teria acontecido em novembro de 2009, não teriam nem tempo para mudar de letra!
3- “Rodrigues Neto confirmou o ELE para os dias 29, 30 de abril e 1 de maio no Teatro Alberto Maranhão”, contudo a classe artística não sabe disso e a divulgação fraca atesta a falta de comunicação entre a FUNCARTE e os artistas. Quais os nomes dos escritores locais já convidados? Serão mantidos os nomes já confirmados para o evento ou eles também serão negligenciados pela FUNCARTE? Houve algum conselho pra a escolha dos nomes? O conselho anterior (Carlos Fialho, Petit das Virgens, Margot Ferreira, Lívio Oliveira e Isabel Vieira) também foi negligenciado pela presidência da FUNCARTE?
4- Rodrigues diz que “Cláudia passou quase dois meses sem aparecer na capitania”. Ora, se foi assim por que não fui exonerada logo no primeiro mês de ausência? No fim das contas, eu pedi exoneração, assim como outros que não concordaram com a nova política da FUNCARTE. Mas a frase de Rodrigues é reveladora. Então ele aceitaria ou aceita na sua equipe pessoas que ficam dois meses sem aparecer? Interessante sabermos disso.
5- Rodrigues disse que tentou entrar em contato comigo. Ridículo. Meu e-mail e telefone estão na agenda do gabinete da FUNCARTE e na SEPLAN. Além disso, todo o mundo artístico cultural tem os meus contatos, inclusive o próprio presidente da FUNCARTE. Afinal, Rodrigues telefonou do número da presidência para o meu celular na noite de 16 de novembro de 2009 para pedir o telefone do meu marido, o jornalista Cefas carvalho. A conversa dos dois está registrada no blog de Cefas (www.cefascarvalhojornalista.blogspot.com) em postagem no dia 17 de novembro de 2009. Para completar eu e Rodrigues fazemos parte da comunidade social da internet, o orkut, também um excelente maio de comunicação. Como muitas pessoas da sua equipe pode testemunhar, passei tardes inteiras em seu gabinete na esperança de ser atendida.
6- Rodrigues disse: “Ela sequer enviou e-mails para os escritores” Fiz bem melhor que isso, telefonei para os escritores informando a mudança do nome e da data e a confirmação de seus nomes no novo evento. Ficou acertado em reunião que eu não passaria e-mails e sim telefonaria para os escritores. Nesta reunião, além de mim e de Rodrigues Neto, estavam presentes o então presidente da FUNCARTE e já demissionário, César Revoredo, o chefe do departamento de atividades culturais, Josenilton Tavares, e o então assessor de comunicação, Dionísio Outeda.
7- Com relação aos concursos Câmara Cascudo e Othoniel Menezes, Rodrigues disse que “os editais dos concursos estão prontos e no início de março vamos convocar uma coletiva para divulgar as datas dos editais”. Os editais já estavam prontos desde setembro de 2009 e deveriam ter sido lançados em outubro/novembro do mesmo ano para que em março de 2010, no Dia da Poesia, fossem divulgados os vencedores, como foi prometido pelo então presidente César Revoredo, e pela prefeita Micarla de Sousa. Coletiva para divulgar os editais? Ridículo. Não há nenhum mérito nisso, esses concursos já são realizados há mais de vinte anos e com grande sucesso! Aliás, os concursos poderiam ser viabilizados com uma pequena fração dos recursos gastos no duvidoso Natal em Natal.
8- Sobre a revista GINGA, Rodrigues Neto não deu previsão. “Só vou lançar, quando tiver dinheiro para pagar e mantê-la”. Bem, as palavras de Rodrigues Neto atestam quase tudo que eu escrevi na carta e revelam a triste realidade da política cultural natalense!
Claudia Magalhães
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Amanhã, aqui no PLOG, escrevo texto comentando toda esta situação. Aguardem.

24 junho 2009 §

Quando se está longe, a gente compreende melhor as cores do nosso país, o nosso povo, os nossos costumes.
Marcello Quintanilha, que antes assinava Marcello Gaú, comprovou que essa afirmativa é mais do que verdadeira com o álbum Sábado dos meus amores (63 páginas, colorido, capa dura, R$ 39,00), da Conrad Editora.
Morando a algum tempo em Barcelona, na Espanha, Quintanilha retrata diversas personagens brasileiríssimas, num sotaque carioca de ontem, ainda que atual, nas seis histórias em quadrinhos que compõem o já citado álbum. Algumas dessas histórias foram publicadas no Brasil, em revistas como a extinta General Visão.
Num tom prá lá de realista, o qual lhe rendeu o epíteto de “o Rosselini tupiniquim”, por Aldir Blanc, Quintanilha passeia nas asas de uma borboleta amarela, mostra o que uma superstição futebolística pode fazer com uma pessoa, expõe as marcas psicológicas que a escravidão deixou nos negros livres, conta como a criatividade de um coração apaixonado ajuda uma moça que está na alfabetização para adultos, brinca com os momentos nos quais a gente deixa a sorte escapar e finaliza com uma pendenga entre um policial e um “amarra-cachorro” de circo.
Escolher a história preferida de Sábado dos meus amores é complicado, mas confesso que “De como Djalma Branco perdeu o amigo em dia de jogo” foi a que mais tocou. Tenho minhas superstições e sei o quão desagradável é quando alguém as viola.
O tema “futebol”, aliás, é comum nas obras do Quintanilha. Em Fealdade de Fabiano Gorila, por exemplo, ele homenageou o seu pai, que foi jogador de futebol no Rio de Janeiro, na década de 1950.

As histórias do Quintanilha retratam um Brasil com um quê de estética do cinema marginal, de Rogério Sganzerla e Julio Bressane, misturado com a sutil poetização da realidade, presente nos filmes de Vitório De Sica.
Há homens pançudos, crianças banguelas, mulheres de bobs no cabelo, pessoas iletradas, enfim, tudo o que não se vê em algumas HQs nacionais, pasteurizadas, que optam por copiar o modelo que vem de fora.
Por Milena Azevedo

13 maio 2009 §

Boas histórias sempre ficam na lembrança.
Um bom argumento, que tem um roteiro bem trabalhado e um desenhista que dê vida ao preto e branco das palavras, é o ponto de partida para uma obra singular.
O traço limpo e perfeito de Milo Manara, desenhista italiano que sabe como poucos retratar a anatomia feminina nos quadrinhos, muitas vezes encobre roteiros fracos, como os da série O Clic e do álbum Kamasutra. Embora a maioria dos seus roteiros seja de conteúdo erótico, isso não implica que a trama deva ser constantemente meia-boca.
Manara torna-se excelente quando encontra parceiros que conduzam o seu lápis a caminhos mais ousados, como Federico Fellini, em Viagem a Tulum, Hugo Pratt, em Verão Índio e El Gaucho, e Alejandro Jodorowsky, na inacabada série Bórgia.
Verão Índio foi uma das primeiras parcerias entre Manara e Pratt, escrito, desenhado e pintado no início dos anos de 1980, para a revista Corto Maltese, e uma das obras mais poéticas e menos explícitas do quadrinho erótico mundial.
Recém relançado no Brasil pela editora Conrad (152 páginas, capa dura, papel couché colorido, R$ 49,90), Verão Índio era um dos álbuns mais requisitados por quem aprecia quadrinhos de arte, haja vista a sua tiragem estar esgotada há anos – do tempo em que a editora Martins Fontes apostava em bons quadrinhos –, além de a edição portuguesa da Meribérica aparecer em leilões, pela internet, a preços pra lá de salgados.

Quando o verão índio estava para chegar, os ânimos dos silvícolas norte-americanos ficavam mais exaltados. Isso levou um guerreiro índio e um holandês, ambos da tribo de Squando, a estuprarem uma jovem branca puritana, sobrinha de um pastor com reputação duvidosa, do vilarejo de Nova Canaã, na conturbada América do século XVII.
Essa sequência que abre a referida obra tornou-se clássica, toda em narrativa visual, cujo clímax é o barulho da espingarda de Abner, que atira duas vezes para matar e escalpelar os aproveitadores da sua amada.
A partir desse prólogo trágico, somos apresentados à “mulher-demônio”, a senhora Lewis, e aos seus outros filhos, os meio-irmãos de Abner.
Dos milharais, os índios da tribo de Squando veem o movimento na casa da senhora Lewis e resolvem partir para a desforra.
As cenas de luta entre índios e brancos são belíssimas, pois a aquarela de Manara dá um quê de requinte aos combates sanguinolentos.
E quando tudo parecia estar se resolvendo, velhos segredos são revelados e, dessa vez, os brancos expiam suas consciências pesadas.
O que é mais explícito em Verão Índio é a vergonha de um continente pela falsa moral de quem se dizia o “civilizador”.
Por Milena Azevedo

7 maio 2009 §

Já temos os três ganhadores da promoção “PLOG/Mano Celo” que ganharão um exemplar do novo livro de Carlos Fialho. Os vencedores são:
- Maria José Azevedo
- Ana F.
- Tete Bezerra
Os vencedores já foram avisados por e-mail e devem estar no lançamento do livro hoje para receber seus exemplares.
O sorteio aconteceu da seguinte maneira. Conforme fui recebendo os comentários, organizei todos numa lista em ordem numérica. Cada comentário, portanto, tinha um número. Quem comentou mais, tinha mais chances de ganhar.
Às 18h30, postei a seguinte mensagem no Twitter: “Me ajudem a realizar o sorteio PLOG/Mano Celo. É só me dizer um número de 1 a 120. Vamo lá, aguardo os replys”. A primeira resposta veio de Milena Azevedo (@MilenaAzevedo), indicando o número 3, que deu o primeiro exemplar para Maria José Azevedo. Em seguida, Leonardo Seabra (@leonardoseabra) indicou o número 23, sorteando o segundo livro para Ana F.
O terceiro número foi polêmico. Milena Azevedo, mais uma vez, indicou um número: 100. Isto deu o livro para Tiago Moralles. Mas uma das regras da promoção é que para ganhar o livro o sorteado deveria comparecer ao lançamento de hoje à noite. Como Tiago mora em São Paulo, sua presença seria impossível. Assim, aguardei a indicação de mais um nome.
Pouco depois, Roberto Wolvie (@RobertoWolvie) indicou o número 6. E o terceiro exemplar, foi portanto, para Tete Bezerra. Que, espero, more em Natal.
Assim, aguardo os três vencedores hoje, a partir das 18h, na Siciliano do Midway Mall, para o lançamento de Mano Celo – O rapper natalense” de Carlos Fialho. Os nomes de vocês estarão com Carlos Fialho. Assim, é só seguir os passos que indico por e-mail para receber seu exemplar autografado.
Obrigado a todos que participaram dessa promoção, quer seja comentando ou ajudando no sorteio. E até a próxima.

4 maio 2009 §

O cérebro humano é mesmo algo incrível. Para nos salvaguardar de experiências traumáticas, simplesmente deleta as imagens, confundindo a nossa memória. Mas o que fazer quando pequenos flashes de lembranças desagradáveis se manifestam em forma de sonhos?
O cineasta Ari Folman resolveu fazer um documentário em formato de animação, desenhado por David Polonsky, chamado Valsa com Bashir – que também resultou numa história em quadrinhos, publicada recentemente, no Brasil, pela L&PM (colorido, papel couché, R$ 46,00) –, para contar ao mundo a sua experiência com os mistérios da falta de memória sobre a sua participação na Guerra do Líbano, mais especificamente no massacre ocorrido nos campos de refugiados de Sabra e Chatila, no ano de 1982, quando os cristãos falangistas mataram sem dó nem piedade os palestinos muçulmanos.
A história toda tem início quando um amigo de Folman lhe relata um estranho sonho com cachorros, intrigando-o porque esse sonho remetia à lembranças da Guerra do Líbano, lembranças essas que ele não tinha, mesmo sabendo que esteve lutando, como soldado, por lá.

Não entendendo o que está acontecendo e sendo perturbado por um sonho recorrente, onde ele e mais dois amigos, dos tempos da citada guerra, saiam do mar e caminhavam nus, em direção à Beirute, parte para encontrar esses amigos e descobrir o que é real e o que é “construção” da sua memória.
Para surpresa de Folman, alguns desses amigos também não lembram de várias passagens da Guerra do Líbano. Isso faz com que ele fique ainda mais confuso, até que conversa com a professora Zehava Solomon, a qual lhe explica sobre o “evento dissociativo”, um trauma de guerra bastante comum.
Apesar de tudo o que descobre, as memórias sobre o massacre de Sabra e Chatila ainda não são claras. Folman averigua mais um pouco. Sua mente culpada não lhe permitia enxergar, então ele relembra que esteve mesmo lá, disparando sinalizadores noturnos, mas logo declara que não viu nada da matança. E então, quando as memórias mais dolorosas regressam à sua mente, as imagens passam a ser fotografias, não mais desenhos. Foi real. Foi desumano. Foi algo a ser esquecido, mas que não podia ser apagado dos olhos do mundo.
Por Milena Azevedo


23 abril 2009 §

Nicolas Cage quer ser um heroi a todo custo.
Ele já perdeu o papel de Superman, errou a mão ao manusear as correntes e pilotar a moto do Motoqueiro Fantasma, foi ladrão de carro forçadamente cool, chegou a ser um vidente bonzinho, e em Presságio ele encara o fim do mundo.
Presságio (Knowing, 2009) é a nova produção de Alex Proyas (Eu, robô, O Corvo), e traz Nicolas Cage como o astrofísico viúvo e solitário John Koestler, cujo filho Caleb começa a escutar ruídos e a ver um homem com um capote preto, após abrir o envelope de Lucinda Embry, que ao invés de ter desenhado como seria o futuro em 2009 – quando era uma garotinha, cinquenta anos atrás, para a cápsula do tempo de sua escola –, preencheu o papel com uma porção de números aparentemente sem sentido.
John descobre que os números são datas de graves acidentes ao redor do mundo, nos últimos cinquenta anos. Ele pensa que se tivesse como saber desses acidentes, com antecedência, poderia ter salvado a sua esposa. Como restam três datas que informam sobre eventos atuais, algumas marcando inclusive a latitude e a longitude exata do local a ser atingido, John agarra com unhas e dentes a chance de poder alertar e salvar as pessoas.

Com o futuro da humanidade em jogo, ele parte para encontrar a filha de Lucinda, Diana (Rose Byrne, da excelente série de TV Damages), e descobre que ela tem uma menina chamada Abby, da mesma idade de Caleb e tão inteligente quanto.
Diante da situação inusitada, John passa a rever seus posicionamentos teóricos e começa a aceitar a possibilidade de uma força maior que atua no universo, interferindo na natureza das coisas, quando se faz necessário.
O ponto alto de Presságio são os efeitos sonoros e as tomadas de câmera nas cenas dos acidentes, as quais nos colocam na pele de John Koestler, sentido bem de perto o perigo (a gente até chega a movimentar a cabeça, num reflexo involuntário, para se proteger). No entanto, nas duas horas de filme, o que se vê mesmo é Nicolas Cage passando de um sujeito apático a candidato a mártir do planeta Terra, correndo pra lá e pra cá.
Alex Proyas é um diretor que gosta de mesclar ação e suspense em seus filmes, e Presságio não foge à regra. Porém, se você for ao cinema querendo algo mais, pode se decepcionar.
Por Milena Azevedo


6 abril 2009 §

Educar é uma tarefa árdua, principalmente educar a quem não recebe educação em casa. Como consolo, fica a máxima “quem educa sempre aprende”. Os professores, sejam eles do ensino fundamental, médio, superior, aprendem que paciência é a palavra-chave para contornar todos os problemas pelos quais perpassam a educação hodierna, incrivelmente pós-moderna, centrada nos “direitos” dos alunos, buscando assim concertar erros do passado, os quais privavam os discentes de voz dentro da sala de aula.
De uns anos pra cá, as novas teorias pedagógicas apontam que o ensino deve ser mais “humano”, ou seja, que o professor deve procurar compreender e estimular os seus alunos, facilitando o processo da aprendizagem, além de respeitar e lidar com as diferenças intelectuais, étnicas, culturais e socais de cada aluno. A voz do professor precisava diminuir para que a dos alunos começasse a ser escutada. Foi uma conquista e tanto dos estudantes, pois se antes temiam os castigos físicos e psicológicos que os professores empregavam, agora já podem denunciar abusos de quaisquer tipo, praticados pelos seus mestres.
Entre os Muros da Escola (Entre Les Murs – 2008), filme do diretor politizado Laurent Cantet (Recursos Humanos, Em Direção ao Sul), ganhador da Palma de Ouro em Cannes ano passado, dramatiza escancaradamente o que acontece numa sala de aula de uma escola pública francesa nos dias de hoje. Essa visão tão próxima do real ocorre porque o filme é uma adaptação do romance homônimo, escrito pelo professor François Bégaudeau que, além de assinar o roteiro junto com Cantet, interpreta o professor François Marin.
O início do filme mostra a reunião dos professores antes de começar o semestre letivo. Todos os professores se apresentam e recebem seus horários, os professores “da casa” aconselham os novatos, informando sobre os alunos bem comportados e sobre os mais trabalhosos. A partir de então, Cantet nos conduz às aulas do professor de francês François Marin.
Marin é um professor bacana, empenhado em fazer com que seus alunos assimilem o conteúdo das aulas de forma dinâmica, seguindo à risca a cartilha da pedagogia do século XXI. O mínino que Marin exige dentro da sala de aula é respeito, tanto de aluno para professor quanto de aluno para aluno e de professor para aluno.
Desde o início das aulas já se pode notar o clima tenso (disfarçadamente descontraído) que vai aumentando até chegar ao ponto de Marin perder a cabeça e insultar duas alunas. Esse incidente termina por gerar uma grande confusão quando um aluno negro se revolta e sem querer acerta a mochila no supercílio de uma colega, fazendo o seu rosto ficar ensangüentado, e termina saindo da sala sem a permissão do professor. Tal incidente vai parar em um Conselho Disciplinar, que é o único resquício de poder que a escola tem.
Ao final do semestre, Marin questiona seus alunos sobre o que cada um aprendeu nas disciplinas que cursaram, fazendo-os perceber como é prazeroso conhecer um pouco sobre algum assunto, mostrando porque eles precisam da escola para crescer tanto intelectualmente quanto como seres humanos.
A realidade mostrada em Entre os Muros da Escola, apesar de enfocar o ensino público francês, não é muito distante da nossa. Lá, pelo menos, os professores ainda recebem um salário digno, enquanto aqui receber o contra-cheque no fim do mês equivale a ganhar na loteria para o corpo docente das escolas públicas municipais e estaduais.
Filmes como esse servem para abrir os olhos da sociedade.
Ser professor no século XXI é para poucos abnegados, porque a velocidade e a democratização da informação trazidas pela internet estão aí, fazendo com que o valor da transmissão do conhecimento dentro da sala de aula seja menosprezado, o que afeta diretamente o status de poder do professor. Mas é justamente aí que a figura “humana” dos docentes é requisitada, embora as modernas teorias pedagógicas ainda não enxerguem isso. Haja paciência.
Milena Azevedo é Mestre em História pela UNISINOS (RS), empresária, poeta, contista e roteirista de HQ. Tem dois livros de poemas publicados: O Perfil da Águia (1999) e Prometeu Livre – um outsider no Olimpo (2005), já ganhou prêmios no Rio Grande do Sul e no Rio de Janeiro (participando inclusive da coletânea com os 100 melhores poemas dos anos de 2003/04 e 2004/05, além de estar presente também no Livro de Ouro da Poesia Brasileira Contemporânea/2005, todos da Câmara Brasileira dos Jovens Escritores). Tem contos e poemas publicados aqui e acolá nessa imensa teia eletrônica que é a Internet, além de participar de antologias da Câmara Brasileira dos Jovens Escritores e da AGEI – Associação Gaúcha dos Escritores Independentes.

31 março 2009 §

Clint Eastwood é um dos nomes mais “up” em Hollywood nessa primeira década do século XXI. Apesar de ter começado sua carreira cinematográfica em faroestes spaghetti e se popularizado como o policial durão Dirty Harry, na maturidade é que tem se mostrado como artista completo, pois se permitiu deixar aflorar o seu lado mais sensível – mesmo assim não perdendo nunca a pecha de machão –, fosse atuando ou dirigindo seus próprios filmes.
A aventura atrás das câmeras começou na década de 1970, mas Eastwood teve que esperar alguns anos para ser reconhecido como diretor. O primeiro passo foi Bird (Bird – 1988), uma cinebiografia do saxofonista Charlie Parker, depois veio a consagração com Os Imperdoáveis (Unforgiven – 1992), quando Eastwood revisitou o gênero faroeste, e Menina de Ouro (Million Dollar Baby – 2004), drama sobre uma mulher cujo sonho era ser boxeadora profissional. Mas ele queria mais.
Em 2006, Eastwood dirigiu dois dramas históricos, revisitando a Batalha de Iwo Jima, um sob o ponto de vista norte-americano (A Conquista da Honra/Flags of Our Fathers) e o outro sob o ponto de vista japonês (Cartas de Iwo Jima/Letters from Iwo Jima). O Oscar praticamente ignorou ambos os filmes, mas a crítica foi justa e soube valorizar o trabalho do diretor que já ostentava cabelos brancos, muitas rugas e marcas de expressão, porém que tinha um porte físico de fazer inveja aos garotões de hoje em dia.
Seus dois filmes mais recentes são: A Troca (The Challeging – 2008) e Gran Torino (Gran Torino – 2008), esse último em cartaz nos cinemas brasileiros nesse mês de março.
Gran Torino marca a despedida de Eastwood como ator, e no filme ele interpreta um velho chato, quadrado e preconceituoso, chamado Walt Kowalski, que guarda velhas feridas da Guerra da Coreia e não consegue se aproximar dos dois filhos e dos netos. Após a morte de sua esposa, passa os dias conversando com amigos ou sentado em sua varanda, tomando cerveja e observando a rua, lastimando a “invasão” asiática e latina ao outrora pacato bairro em que vive.
O bem mais precioso de Kowalski é um Ford Gran Torino, modelo 1972, bem cuidado e conservado em sua garagem – simbolizando o seu apego aos valores do passado. Uma noite, o vizinho Thao (descendente da etnia Hmong), tenta roubar o Gran Torino, como uma prova de iniciação à gangue de seu primo, mas é surpreendido por Kowalski e seu rifle. A família se sente humilhada pelo gesto do rapaz e passa a encher Kowalski de presentes, mas esse rejeita tudo o que recebe. A aproximação entre Kowalski e a família Hmong só acontece através da irmã de Thao, Sue, que enfrenta com bom humor a antipatia do velho ranzinza e ainda lhe diz umas verdades. Aos poucos, o gelo vai se quebrando e Kowalski tem a chance de fazer boas ações e se livrar dos fantasmas que o perseguem há tanto tempo.

A trama pode ser previsível, a história pode ser clichê, mas o que torna Gran Torino um filme marcante é justamente a atuação de Clint Eastwood, cujo timing é preciso tanto em momentos cômicos (Kowalski enfrentando três rapazes negros que estavam incomodando Sue) quanto em instantes de emoção intensa (Sue chegando em casa após ter sido estuprada pela gangue do seu primo).
Em Gran Torino, Kowalski (e a América do Norte como um todo) reconhece o valor dos imigrantes, quando se dá conta de que são apenas seres humanos, e assim percebe que há imigrantes de boa índole e imigrantes mal caráter. No entanto, na hora do “vamos ver”, quem parte pra briga e resolve a parada é o heroi/mártir estrategista e individualista norte-americano, bem ao estilo John Wayne.
Em sua despedida da frente das câmeras, Clint Eastwood faz uma volta ao seu começo, ou seja, um valentão que defende com unhas e dentes o seu quinhão, fazendo valer os ensinamentos da velha escola, da velha América, frente às ressignificações culturais, étnicas, políticas e econômicas que vem ocorrendo no mundo todo; embora dê algum crédito ao novo, deixando que ele siga o seu caminho, sob algumas concessões, é claro.
Milena Azevedo é Mestre em História pela UNISINOS (RS), empresária, poeta, contista e roteirista de HQ. Tem dois livros de poemas publicados: O Perfil da Águia (1999) e Prometeu Livre – um outsider no Olimpo (2005), já ganhou prêmios no Rio Grande do Sul e no Rio de Janeiro (participando inclusive da coletânea com os 100 melhores poemas dos anos de 2003/04 e 2004/05, além de estar presente também no Livro de Ouro da Poesia Brasileira Contemporânea/2005, todos da Câmara Brasileira dos Jovens Escritores). Tem contos e poemas publicados aqui e acolá nessa imensa teia eletrônica que é a Internet, além de participar de antologias da Câmara Brasileira dos Jovens Escritores e da AGEI – Associação Gaúcha dos Escritores Independentes.

11 fevereiro 2009 §

Corpos sarados e rostinhos bonitos foram e continuam sendo essenciais para a contratação de alguns atores em Hollywood, muitas vezes em detrimento de suas capacidades de interpretação.
Tem-se inúmeros exemplos de atores que eram esportistas famosos antes de se aventurarem no mundo do cinema, como o campeão mundial de natação Johnny Weissmuller (o Tarzan das décadas de 1930 e 1940), o astro negro do futebol americano e também lutador profissional de luta livre Woody Strode (Spartacus, Era uma vez no Oeste) e o fisiculturista “Mister Universo” Arnold Schwarznegger (Conan, Exterminador do Futuro).
Em contrapartida há astros que se cansam de atuar e viram desportistas, como Mickey Rourke.
Embora Rourke tivesse lutado boxe durante uma fase de sua adolescência, foi em 1991 que ele resolveu dar um tempo às telas e encarar o ringue como boxeador profissional. Não que ele tenha abandonado Hollywood de vez, apenas fazia um filme aqui e outro ali no intervalo de suas lutas.
Como ele já não era um garotão (e se arrebentou feio em algumas lutas, quebrando nariz, dedos do pé, costelas, precisando fazer cirurgias que lhe deformaram o belo semblante), preferiu se aposentar como boxeador e voltar a atuar, em 1995.

É, mas o ator de O Selvagem da Motocicleta, 9/2 Semanas de Amor e Coração Satânico também não encontrou vida fácil nesse regresso.
Foram participações desastrosas em filmes questionáveis e pouquíssimo vistos, com Rourke fora de forma (leia-se inchado) e com uma cara totalmente desfigurada. Porém, em 2005, sua sorte começava a mudar. Assim como John Travolta teve sua chance de dar a volta por cima com Pulp Fiction (Rourke recusou o papel do boxeador Butch Coolidge, que ficou a cargo de Bruce Willis), Rourke voltou à cena interpretando o grandalhão e sensível anti-heroi Marv, na adaptação cinematográfica da série de quadrinhos Sin City. Ganhou quatro prêmios de melhor ator coadjuvante pelo papel. Após Sin City, roteiros mais “classe A” foram aparecendo para ele, até que em 2008 veio O Lutador (The Wrestler).
Em O Lutador, Rourke interpreta o fictício lutador profissional de luta livre, Randy “The Ram” Robinson, outrora famoso na década de 1980 (com direito a jogo do Nintendo e action figure), que hodiernamente sobrevive de sua antiga glória, embora ainda suba constantemente no ringue. E é após uma dessas lutas ensaiadas que Randy sofre um enfarte e precisa parar de lutar para continuar vivo. O que se torna um grande dilema para ele, pois sua vida é a luta livre. Vê-se obrigado a arranjar trabalho em um super mercado, vai à procura da filha que ele havia abandonado durante os anos de ouro de sua fama, e tem como única amiga a stripper Cassidy (Marisa Tomei).
Numa atuação tão honesta que nocauteia quem assiste ao filme, Rourke passa toda a decadência e solidão de um homem que tenta a todo custo acertar na vida, tendo como motivação a empolgação da sua platéia, dos seus fãs (até quando está atendendo aos clientes atrás do balcão, no super mercado, ele procura “dar um show”, tratando a todos com bom humor e simpatia).
Não foi à toa que Mickey Rourke ganhou o Globo de Ouro e o BAFTA de Melhor Ator esse ano, e está concorrendo também ao Oscar por O Lutador.
O papel de Randy encaixou como um golpe perfeito para Rourke, mais até do que o de Johnny Walker, o boxeador de Homeboy (cujo roteiro ele assinou), que ele interpretou no ano de 1988, porque Randy é a essência de Rourke: um cara que já esteve no topo, fez uma besteira atrás da outra e está procurando fazer as pazes consigo mesmo.
Por Milena Azevedo

30 janeiro 2009 §

>>>>>>>>>> O CABRIÃO
Os imigrantes que chegaram ao Brasil entre os séculos XIX e XX impulsionaram a olhos vistos a nossa economia. Porém, teve um que foi além. Ele colocou o Brasil entre os primeiros países do mundo a criar uma mídia chamada “história em quadrinhos”. O nome dele: Angelo Agostini.
Agostini, um rapazote italiano de dezesseis anos de idade, aportou em São Paulo no ano de 1859. Ele já havia estudado belas artes na Itália e em Paris, tinha uma personalidade contestadora agudíssima e fazia questão de propagar o papel de conscientização político-social do artista.
Isso fez com que Agostini criasse um hebdomadário satírio chamado Diabo Coxo, em 1864, inspirado em outros hebdomadários europeus e no famoso hebdomadário carioca Semana Ilustrada, fundado quatro anos antes, por Henrique Fleiuss.

>>>>>>>>>> ZÉ CAIPORA
O Diabo Coxo fechou suas portas em 1865, mas em 1866, Agostini já criava O Cabrião, que apesar da existência efêmera devido às perseguições e pressões que Agostini sofria porque que fazia um jornalismo sem rabo preso e sem papas na língua, em sua penúltima edição, a de número 50, do ano 1867, já trazia uma página com uma história chamada As Cobranças, a qual apresentava desenhos em sequência, emoldurados em requadros, com textos sob os desenhos.
Não vendo outra alternativa a não ser fugir para o Rio de Janeiro, Agostini parte e por lá também não consegue se conter por muito tempo. Cria e participa de vários hebdomadários satíricos, entre eles: O Arlequim (1867), Vida Fluminense (1868) e Revista Illustrada (1876), sempre fazendo caricaturas e charges mordazes, criticando principalmente os artistas Pedro Américo e Victor Meirelles, e todos os artistas, políticos, literatos e jornalistas brasileiros contrários às causas abolicionista e republicana.
Foi nas páginas do Vida Fluminense, inclusive, que ele deu vida ao primeiro personagem de história em quadrinhos do Brasil, chamado Nhô-Quim, numa história de página dupla chamada As Aventuras do Nhô-Quim ou Impressões de uma viagem à Corte, publicada em 30 de janeiro de 1869.

>>>>>>>>>> NHÔ QUIM
Antes do Nhô-Quim, podemos citar como personagens precursores das histórias em quadrinhos o suíço M. Vieux-Bois, de Rodolphe Töpffer (1827), e os encapetados Max und Moritz, do alemão Wilhem Busch (1865).
O Nhô-Quim era um rapaz que habitava uma província do interior do Brasil e que pela primeira vez ia ao Rio de Janeiro, sede da Corte, e se maravilhava – e se atrapalhava – com os costumes, os trejeitos e a vida nova que descobriu por lá. Foi um sucesso absoluto, sendo republicado bem depois nas páginas de O Malho.
No entanto, o sucesso maior ainda estava por vir. Em 1884, na Revista Illustrada, Agostini criou o primeiro fenômeno de mídia impressa nunca antes visto no Brasil. Foram as histórias de um personagem chamado Zé Caipora, cujo título era As Aventuras de Zé Caipora, com o qual Agostini fazia uma magnífica caricatura de costumes dos oitocentos tupiniquim.
O Zé Caipora foi um dos responsáveis pelas vendas extraordinárias da Revista Illustrada, que chegou a ter quatro mil assinantes – os analfabetos a compravam e se divertiam apenas vendo as imagens das histórias do Zé Caipora – e se manteve como um periódico independente até 1889 (não aceitava anúncios publicitários ou de membros da Corte), quando Agostini teve que fugir do Brasil por questões pessoais e a deixou sob o comando do também caricaturista Pereira Neto, o qual terminou desvirtuando a linha editorial concebida por Agostini, que por sua vez teve tanto desgosto de saber do ocorrido ao voltar ao Brasil, que vendeu a sua parte e fundou o Dom Quixote (1895).

>>>>>>>>>> ZÉ CAIPORA
Nos períodos em que Agostini deixou de publicar as aventuras de José Corimba (o nome verdadeiro do Zé Caipora), a Illustrada recebeu cartas de leitores de várias províncias e também do Rio de Janeiro, suplicando pelo retorno daquele anti-herói à brasileira. A popularidade era tamanha, que ele continuou sendo publicado no Dom Quixote e na histórica revista O Tico-Tico.
Agostini faleceu no dia 23 de janeiro de 1910.
A partir de seu trabalho, que não se resumiu apenas às caricaturas, charges e histórias em quadrinhos, haja vista o importante papel de Agostini como crítico de arte, outros artistas do traço foram surgindo, passando a tomá-lo como exemplo, estudando o seu traço e estilo, sendo J. Carlos um dos mais ilustres.

>>>>>>>>>> J. CARLOS
Nesse ano de 2009, comemoramos 140 anos de histórias em quadrinhos no Brasil. De lá pra cá, foram diversas publicações, com períodos áureos de produção e destaque para os artistas nacionais. Hoje o cenário está muito bom, com uma garotada que insiste em dizer a que veio, chamando a atenção até mesmo do país em que alguns dizem que as histórias em quadrinhos foram criadas, devido a um certo garoto amarelo.
