[ARTIGO]
AO MEU BROTHER OBAMA
Posted: janeiro 23rd, 2009 | Author: Patrício Júnior | Filed under: TELESCÓPIO | Tags: artigo, internacional | 2 Comments »
Poucas vezes vi imagens tão impressionantes como as da posse de Barack Obama. E, portanto, serei mais um a falar do tema. O primeiro presidente negro dos Estados Unidos, ungido pela maioria da população americana ao cargo de libertador de um país moralmente falido. A mudança encarnada em um sorriso aterrador, vindo da pobreza diretamente ao cargo mais alto do planeta. O paladino da liberdade que chega à Casa Branca após oito anos de famigerado bushismo. Pronto, acho que já usei todos os clichês sobre o assunto no primeiro parágrafo.
Dentre todos que falaram, falaram, falaram (e como falaram) de Barack Obama esses dias, não fico nem com o otimismo de Lula (que elegeu Obama como salvador do planeta em diversas declarações), nem com o sensacionalismo de Carlos Heitor Cony (que comentou em sua coluna na CBN, em tom de previsão catastrófica, que “Getúlio Vargas também tropeçou na hora da posse… e terminou se matando”). A opinião mais sóbria a respeito do início da Era Obama veio de Cristovam Buarque, senador do Brasil, em excelente e memorável artigo publicado no jornal espanhol El País.
Para Buarque, Obama tem que ir além do título de “primeiro presidente negro dos Estados Unidos”. Ele tem que ser “o primeiro presidente americano do século XXI”. Isso significa que Obama deve deixar pra trás todas as atitudes anacrônicas que os presidentes estadunidenses vêm tomando nas últimas décadas e assumir a dianteira de uma revolução de pensamento político. Ou seja, o negão tem desafios bem maiores que uma crise econômica global. A parte boa é que ele está com a faca e o queijo na mão.
Vamos voltar no tempo, naquela época em que todos odiavam os Estados Unidos. Era ano passado? Não importa. Naquele tempo, o país era o sinônimo de tudo de ruim que acontecia no mundo. Pobreza dos países subdesenvolvidos? Culpa dos embargos econômicos. Aquecimento global? Culpa do consumo desenfreado. Guerras sem propósito? Indústria bélica estadunidense, claro. Enfim, os EUA se tornaram os bodes expiatórios de um mundo complicado demais. Mas o pior é que tinham razão.
Pois bem, a posse de Obama (mais: a derrota de McCain e, conseqüentemente, do bloco liderado por Bush) representam uma ferida a menos no mundo. Seria duro ver a perpetuação do bushismo num momento em que todos estão cansados de atrocidades e querem só um pouquinho de esperança. Obama, então, deu esse sopro de alívio ao planeta. A década, que começou bem mal com os ataques ao World Trade Center, parece que se encaminha pra terminar com boas notícias. O problema é que Bush fez tanta merda que fica difícil voltar a ter fé na América. Vem trabalho duro pela frente, Obama.
Para mim, o negão só entrará pra História de verdade se fizer mais que ganhar uma eleição contra um candidato sem carisma. Obama não deve, como bem disse Buarque em seu artigo, “ser apenas negro, mas também verde, vermelho e branco”. Verde pela determinação em construir um planeta sustentável, vermelho pela visão humanitária associada à esquerda e branco pela difusão irrestrita da paz.
Muito bem, Obaminha, meu brother, comece a se tornar o divisor de águas desse século tão conturbado assinando o Protocolo de Kioto. Esse documento, ignorado há anos e anos pelos Estados Unidos, estabelece limites para um desenvolvimento sustentável das nações. Esses limites passam, obrigatoriamente, pela redução da emissão de gases tóxicos na atmosfera. Mas isso representaria uma grande adaptação das indústrias a uma nova realidade global. Até hoje, nenhum presidente dos Estados Unidos teve coragem de enfrentar os megaempresários e fazer valer a máxima de que o planeta, enfim, é mais importante. É sua chance, Obama, vai que tu é bom.
Depois de consagrar-se com esse ato inédito, tire de letra outro desafio. Acabe com os embargos econômicos que vitimam países pobres como Cuba. Não é possível que em pleno século XXI, Obama, um país haja com tanta arrogância, se sentindo no direito de penalizar outras nações que não concordam com suas ideologias. Claro, os embargos não ocorrem apenas por opiniões divergentes. Mas, no fim das contas, acabam virando isso: uma briga pra ver quem tem o pau maior. Coloque sua hombridade pra fora, Obama. Sele a paz com o Terceiro Mundo de uma vez, acabando não só com os embargos mas também com intervenções sinistras na soberania alheia (as bélicas, as políticas, as escusas, todas). Enfim, deixe o resto do mundo em paz.
E por falar em paz, vem o maior dos desafios. Acabe com as guerras. Principalmente com essa tal Guerra Contra o Terror iniciada por Bush, que não passou de um artifício baixo do ex-presidente para se fazer necessário. Erga uma nação que fomenta a educação, que gera um ideal realmente diferenciado para esse milênio, inicie essa nova era não apenas com festas: mas com ações verdadeiramente inovadoras. Os EUA de Obama têm a obrigação de se tornar a nação mais pacificadora do planeta. Já está na hora. Mas não é só isso: passe a respeitar as convenções internacionais, porque isso vai significar respeito pelo mundo inteiro, por cada cidadão do planeta. Submeter-se às regras dos tribunais internacionais, acatar as resoluções da ONU e firmar pactos bilaterais com as nações não dói. Todo mundo faz isso. Tá na hora dos EUA fazerem também.
Depois disso, aí sim, Obama estará para sempre nos livros de História. E melhor: estará na história de todos, de cada um de nós, que teremos um mundo mais justo, preparado para o futuro e livre de arbitrariedades sem sentido. Mas até lá, nada mudou. Muito embora o tempo seja de esperança, os americanos continuam tendo responsabilidades enormes sobre os problemas globais. E para que Obama entre definitivamente pra História, é preciso apenas uma coisa: parar de olhar pro próprio umbigo.




Mutcho bacana o texto. Não concordo muito quando fala de Cuba. Porque a posição dos EUA é simples e as pessoas esquecem: quando Cuba convocar eleições democráticas, o embargo terá seu fim naturalmente. Ou seja… Está também na mão de Cuba o fim deste embargo. Sei que é incoerente, que os EUA não embargam outras não-democracias, mas seria um fim mais digno do que Obama simplesmente colocar um fim no embargo e a família Castro continuar pedindo extradição de boxeador que não quer mais viver na ilha.
Só considero arrogante que os EUA se julguem no direito de interferir na política de Cuba. Dizer “acabamos com o embargo se vcs convocarem eleições diretas” é como dizer “faça o que quero se não fodo vcs”. E a soberania de um país merece respeito dos outros. Não é correto agir como dono da bola, obrigando os países a fazer o que a América deseja por meio de forças econômicas.