Sou escritor, jornalista, publicitário e um dos fundadores da Editora Jovens Escribas. Já publiquei dois livros: o romance Lítio e a coletânea de contos A Cega Natureza do Amor. Aqui no PLOG escrevo sobre tudo. E até sobre nada.
Impossível não se sentir vingado com a sapatada que Bush levou de um jornalista iraquiano. Em visita surpresa ao país, foi essa a saudação que Bush recebeu na sala de imprensa. A sapatada é considerada uma grande ofensa no Iraque. Principalmente quando vem acompanhada de um grito de “esse é seu beijo de adeus, cachorro!”. Veja o vídeo e refestele-se.
Há luzes em minha janela. Elas sinalizam muito mais que brilhos, um pouco menos que concretudes. São coloridas e minúsculas, piscam e parecem dançar, disfarçam de belo o que há dois dias (nem três, meu Deus!) era cinza. Agora, brilham em minha janela. Embaladas por uma música que parece não ter fim, já que nunca têm fim essas melodias de realejo que imitam sinfônicas. Há luzes em minha janela.
Meu descontentamento – se é descontentamento, porque é mais um misto de alegria forçada e tristeza por forçar – meu descontentamento vem do fato de saber que não é belo o que está belo. A rua, a cidade, o mundo. A recepção do meu trabalho e a sala de estar da minha casa. O shopping. Nada disso é belo como está. É preciso disfarçar o mundo, imitar outro que não existe, para sentir alguma magia, alguma ilusão de felicidade, algum resquício que seja de sorriso.
Olho através do vidro, acendo um cigarro, tento não ser mal humorado. E é tentando que mergulho nessa beleza de brilhos automáticos, sorrisos com exagero, abraços sem alma. Solicitudes forçadas pelo especial de Roberto Carlos. Beleza construída no Projac.
Há luzes em minha janela. Azuis, vermelhas, verdes, amarelas. Intercalam-se num balé que me remete a tantos outros que já assisti, imberbe e diminuto, sentado ao pé de uma árvore de plástico, metido em roupas novas, aguardando com o coração pela boca a chegada de um certo senhor de barbas. Agora, revendo tudo, sei que não esperava este ou aquele de gorro vermelho. Não era a presença, não era o presente. Esperava uma prova. Uma evidência. Que fosse além da maquiagem exagerada da minha mãe, e das tias que não se suportavam enfim se abraçando, e da inevitável cidra que todos bebiam fingindo champanhe, e das bolas de vidro fino que se partiam tão facilmente quanto as esperanças de que aquela festa fosse real. Desde criança já não existia mais em mim a tal da fé. E a chegada brilhante pela chaminé imaginária da minha casa seria a comprovação de que eu estava errado. A redenção.
Mas não. Nem existia, nem existe, tampouco existirá. Chega mais um dezembro e eu luto para não ser amargo, mas é sempre isso de luzes piscando, promoções pipocando, doces melodias espocando, um gerúndio de lugares-comuns que acontecem gradativamente ao meu redor, enquanto eu afundo cada vez mais numa descrença aterrorizante em relação ao belo. Não somos belos. Eu, você, nós que nos forçamos humanos. Não somos.
Há luzes em minha janela. Até lá, vou fumando meu cigarro, tentando ser mais doce, mantendo em mim não a esperança, mas a espera de que tudo isto seja real. Esperanças já não tenho. Porque são anos chorando antes da ceia sem que ninguém veja (e sem motivos, pensariam, e sem razões), anos vestindo roupas novas que foram compradas em infernais últimas horas, anos brindando a uma magia que não mais acredito, que a mim não se revela, que nunca efetivamente acontece. Há luzes em minha janela. Então, o cigarro acaba e eu fecho a cortina.
Excelente a iniciativa do blog EntreRios, do meu bróder Modrack Freire. Inspirado numa iniciativa americana chamada book crossing, Modrack convida a todos os leitores que libertem um livro neste Natal.
Como funciona? Faço minhas as palavras de Modrack: “É só você pegar um livro. Um que você goste — não pode ser qualquer porcaria — e largar ele em um lugar público. Vale shopping, dentro de ônibus, na faculdade, em qualquer canto. Dentro, você deixa um bilhete explicando o que é o movimento e como participar, ou seja, depois de terminar de ler, deve-se libertar o livro novamente. Ao libertar um livro, você liberta mentes.”
A idéia de Modrack inclui selo promocional (postado mais acima) e também uma ótima alternativa pra quem tem preguiça de escrever: um marca-página que pode ser impresso e deixado dentro do livro. Neles, um texto explica a idéia e poupa você de qualquer trabalho. Faça o download do marca-página e pode começar a libertar livros.
O mais legal é que quem pega o livro vai estar motivado a libertá-lo após a leitura, criando um ciclo de libertação de mentes. Eu já vou libertar o primeiro esse fim de semana e vai ser “Admirável Mundo Novo” de Aldous Huxley. Espero que você tenha a sorte de encontrá-lo.
O que me diz a moça do aquário? Com os olhos perdidos, aquosos quando fitam algo além das paredes de vidro, incandescidos pelo brilho lá de fora; com as unhas pintadas e a tanto custo intactas, visto que a fome, o tédio e a ansiedade chegam com hora marcada tal maré alta, infalíveis, britânicos, a primeira às doze, o segundo às quatro, a terceira às nove; com o cabelo quase crespo, quase mesmo, maltratado que está por tantas escovas, chapinhas, formóis (não deveriam alisá-lo?, talvez se pergunte após tanto nadar nas mil possibilidades cosméticas dos dias de hoje, crente de que tentar ser mais bonita jamais vai torná-la feia).
O que me diz a moça? Enquanto vaga a esmo naqueles seis metros quadrados, boiando entre as arestas do cubículo, retângulo branco, asséptico, iluminado. Enquanto caminha de uma parede a outra, esperando, esperando, esperando (não de esperar, mas de esperança). O que me diz? Talvez que tenha uma vida de verdade fora dali, pais, irmãos, amigas, namorados, sonhos; talvez que aquilo seja uma bolha de ar que estourará logo mais, uma condição passageira, só até terminar a faculdade de psicologia, de música, de engenharia quiçá; talvez que odeie o aquário, os sapatos nas gôndolas do aquário, os clientes que não entram no aquário. O salário.
O que me diz ela, tão calada, tão sozinha, tão à deriva? Encostada num balcão de mármore, fantasmagórica em sua farda branca, indo de par em par, arrumando o que já está arrumado, mexendo minuciosamente no que já é minuciosamente perfeito. Os arquitetos, lembra-se bem, arrumaram tudo. Ela pega uma escada, sobe ignorando as dificuldades do salto alto, atenta ao par de mocassins marrons deitados no topo da estante. Estão milimetricamente bem colocados, mas ela mexe um pouco. Empurra pra direita, depois pra esquerda, centraliza com base na prateleira, dá-se por satisfeita. Ficam exatamente como estavam antes. E o que ela sente, então? O que sente a moça prisioneira do aquário? A certeza da utilidade é o que sente, como dependesse dela a existência dos sapatos de bico fino, dos sapatênis, das sandálias. Uma escafandrista: mas o tesouro que busca é apenas uma justificativa para estar ali. Guarda a escada, vem bem perto da parede de vidro, comprova que não vai entrar ninguém, volta a se encostar no balcão e mirar o nada.
O nada lá fora. Que a bem da verdade é o tudo. As crianças passando com algodões doces, os casais dividindo casquinhas de creme, os adolescentes trocando mensagens de celular às gargalhadas. É a vida lá fora, moça do aquário, o tudo que aos teus olhos soam como um nada. Enquanto você aí dentro com blusas leves e largas disfarçando os pneus, com chumaços de algodão protegendo os dedos das calosidades, com um sanduíche de pão com queijo aguardando a hora do instinto, enquanto isso, a vida lá fora. O que você me diz, moça do aquário? Talvez que seja crueldade afogá-la diariamente neste cubículo; talvez que seja preciso alguns no aquário enquanto o resto em liberdade; talvez que entenda a dádiva alheia em relação ao próprio calvário.
Ela remexe os cantos das unhas com as próprias unhas, suspira exausta e profundamente. Mas suspira não de desejos. Suspira de nada. Pois são brancas as paredes, fluorescentes as luzes, alvas como nuvens as gôndolas, ela, sua farda. O que deve aparecer são os sapatos e só, disseram os arquitetos, assim damos mais vida ao produto. E talvez ela tenha concluído em pensamento: dão vida a eles enquanto tiram a minha.
Uma coadjuvante dos sapatos. É o que é. E quando por ventura alguém entra, displicente observando as estantes, o olhar guiado pela iluminação, se ela não falar nem é percebida. Precisa dizer “posso ajudar” e ser simpática; e torcer para que não respondam “estou só olhando”. Pois pode sentir, e com demasiada probabilidade, pode sentir vontade de chorar ao ouvir esta frase. Estou só olhando: pode ser isso o que ela me diz. Posto que está constantemente apenas olhando.
Recostada no balcão de mármore, líquida, misturada à luz, às paredes, às prateleiras, a moça do aquário já quase nem existe. Deveria mesmo era pegar a bolsa, lacrar o aquário, sair pela tarde em busca de vida. Mas teme ser como um golfinho adestrado que morre de fome se libertado no oceano. A gente se acostuma ao cativeiro. Talvez não me esteja dizendo nada, a moça do aquário.
Acabo de receber e-mail de Marlos Ápyus. Ele me informa que os problemas de programação do site estão resolvidos. Ou seja: tudo certo pra estrear! Desativarei o antigo PLOG no dia 31 de dezembro de 2008. E em 1º de janeiro, migro de vez pra esse.
A Diesel colocou no ar sua nova campanha há duas semanas. O garoto-propaganda da ação, focada no mercado europeu, nada mais é que Pete, o boneco de carne. Parece louco? Você ainda não viu nada.
O viral produzido e já devidamente postado no Youtube conta a história de Pete através de um vídeo de quase quatro minutos. Nele, descobrimos que Pete é criação de uma açougueira triste e sem filhos que, motivada pela carência, resolveu fazer um boneco de carne (!). Após esculpi-lo com os melhores pedaços de bife e bacon (!!), a açougueira resolveu amamentá-lo (!!!). Este gesto deu vida a Pete, “the meat puppet” (!!!!!!!!!!!!).
Não consegui o vídeo legendado, mas mesmo sem sacar inglês, dá pra entender a incrível biografia de Pete. O jingle, que mistura estilos diversos como folk e rock, é um capítulo à parte.
A campanha é criação da agência FarFar, da Suíça, e tem ainda um excelente site onde você pode ver o vídeo que postei em alta qualidade, além de conhecer a coleção nopva da Diesel.
O anúncio acima é da agência belga Air, de Bruxelas, e propõe uma nova forma de resolver o problema “Como vender livros”.
A campanha usou como exemplo o livro “A metamorfose”, de Franz Kafka. Em cima desse livro, usou um recurso comum na publicidade de livros: tornar real as imagens que visualizamos quando lemos um livro. Cada anúncio é inspirado num tipo de filme (de cassino, de terror, de Bollywood).
A diferença aqui é o nível de realismo das imagens. Chega a dar nós no estômago. Veja as outras peças.
FICHA TÉCNICA
Agência: Air, Brixelas, Bélgica
Direção de criação: Véronique Sels
Direção de arte: Sophie Norman, Nam Simonis, Anthony Hirschfeld
Redação: Véronique Sels
Fotógrafo: Marc Paeps
Demorou mas rolou. O escritor e bróder Carlos Fialho resistiu o quanto pôde mas finalmente fez um blog. O dito-cujo se chama O Fiasco e, dentre outras coisas, registrará o processo de criação e publicação de seus dois novos livros: “Cantos da Cidade” e “Mano Celo – Rapper Natalensis”.
Mais uma semana em que não cumpri totalmente meu objetivo.
“A ponto de explodir”, do autor mineiro Sérgio Fantini, apresenta contos ágeis e por vezes bem curtos, daqueles que a gente lê em uma sentada. O efeito dessa concisão é devastador. E foi devastador também para minha meta: livros de conto dão a chance de pular algumas partes e ler só o que realmente interessa naquele momento. Não era minha intenção e por isso estou sendo honesto: pulei alguns contos, mas li quase todos.
Tive a oportunidade de conhecer Fantini em outubro de 2011, quando ele veio a Natal a convite do Jovens Escribas para ministrar uma oficina de contos dentro da Ação Potiguar de Incentivo à Leitura. Sua fala tranquila e seu jeito sem afetações destoa totalmente da linguagem que exibe em seus contos: direto, por vezes violento, sem meneios desnecessários, Fantini exibe personagens fortes e controversos, que nos dão uma boa visão sobre os tipos urbanos mais comuns dos dias de hoje.
A leitura é recomendadíssima por dois motivos. O primeiro: a linguagem livre, sem editorialismos, permite mergulhar fundo no universo do autor a cada nova história. O segundo: Fantini sabe contar histórias. E mesmo naquelas mais pós-modernas, em que o conto passeia apenas por uma cena, sem nos dar muitas informações sobre os personagens, não deixa a sensação de incompletude. Suas histórias, por mais pós-modernas que sejam, sempre têm começo-meio-fim. O cara sabe o que está fazendo.