Sou escritor, jornalista, publicitário e um dos fundadores da Editora Jovens Escribas. Já publiquei dois livros: o romance Lítio e a coletânea de contos A Cega Natureza do Amor. Aqui no PLOG escrevo sobre tudo. E até sobre nada.
É do CD acima a música “Who’s gonna save my soul?”, canção do Gnarls Barkley que gerou um dos clipes mais interessantes que já vi. E olha, sem pretensões, mas de clipe eu entendo. Sou completamente viciado nessa coisinha inventada nos anos 80.
Achei o clipe de “Who’s gonna save my soul?” tão arrebatador que fiz questão de compartilhar com vocês. Pelo visto, a galera da MTV também achou: o clipe é exibido sempre com legendas nos diálogos, coisa que não é muito comum na MTV.
O som até lembra Moby – apesar de Moby ser muito melhor. Mas o que me fez vidrar nesse clipe foi mesmo o roteiro. Uma espécie de discussão de relação surrealista. Aticei sua curiosidade? Então dê play.
FICHA TÉCNICA: Artista: Gnarls Barkley
Música: “Who’s gonna save my soul?” Direção: Chris Milk
Cotação: 10,0
Ele acha? Eu tenho certeza. A ficha caiu tarde, Ronaldo. A gente se vê quando você for comentarista da Globo, sem aparecer no vídeo porque não cabe nele. Ah, sim, faz Xuxa seguir o exemplo, beleza? Seria um bem inenarrável à humanidade.
Título: Aquecimento Global. Por que se fala tanto disso? Subtítulo: descubra você mesmo no www.mtvswitch.org
Esta criativa ação da Ogilvy/Amsterdã para o MTV Switch (campanha mundial da MTV que pretende esclarecer sobre os riscos do aquecimento global) se serviu dos próprios canais fluviais da cidade para criar uma peça realmente impactante. Simples, direto, criativo e barato.
(Reflexão pros redatores: percebam que o título não tem nenhuma grande artimanha de linguagem. Apenas uma informação direta, uma frase que comumente dizemos, e justamente por isso ganha tanto impacto. Garanto que você pensou que o título poderia ser algo como “Não se afogue na falta de conhecimento sobre o aquecimento global”. Só um conselho: título com duplo sentido é muito anos 80.)
E aproveitando o ensejo, visitem a página do MTV Switch para aprender mais sobre aquecimento global e suas conseqüências. O importante é que ainda podemos evitar muita coisa.
Sabado 22/11, no Galão 29, Largo da Rua Chile, Ribeira. Com The Cashs, Especial Amy Winehouse, Mono, Emblemas Band e DJ Michel Heberton (Loquesea). A partir das 18h. Entrada $5,00.
“Pode ser que eu não esteja tão forte
como penso – admitiu o velho –,
mas conheço todos os truques.”
Ernest Hemingway em O velho e o mar
Às quinze para a meia-noite, quando todos já estavam com seus champanhes em punho, descalços e excitados, devidamente vestidos em branco num alvor que dava ainda mais esperanças no futuro, o velho disse: eu também vou à praia. A frase, ao se estender pela casa, quase sufocou a euforia reinante. Quase mesmo. E só não o fez por completo porque o respeito e alguma noção politicamente correta impediram filhos, netos, genros e noras de tentarem demover o patriarca da idéia.
Estavam a cerca de cem metros da beira-mar e o velho não agüentaria a caminhada. E mesmo que alguns cultivassem a esperança de que ele agüentaria, dificilmente chegariam à praia antes da meia-noite, visto que os passos curtos apoiados na bengala não eram os melhores amigos da pontualidade. Antes que a sensação de impotência recaísse sobre todos os presentes, entretanto, um deles teve a idéia. Vamos de carro. Obviamente, não alcançariam a beira-mar sem que atolassem o veículo, mas encurtariam o máximo de distância possível. Vamos até onde o carro conseguir.
A horda de mais de vinte pessoas, alguns com bebês nos braços, outros carregando frutas, mais alguns de mãos abanando e com o peito recheado de desejos, seguiu caminhando pela avenida. Os passos eram apressados mas contidos, ninguém queria chegar à orla suado ou com os cabelos desfeitos. No caminho, contavam suas uvas, repassavam os pedidos, alguém perguntava pelas romãs. O carro passou por eles próximo ao acesso à praia. Entrou numa viela e seguiu rumo ao mar. O mais próximo que conseguisse. Alguns sorriram ao ver o velho abanando as mãos na janela. Faltavam cinco minutos para a meia-noite.
No estacionamento improvisado, no ponto exato em que o pneu afundou na areia mais que o recomendável e o motorista – tomado de prudência – resolveu não insistir, o velho tentou descer sozinho do carro. Como se mostrasse impossível, contou com a ajuda do filho mais novo e do genro mais velho. Sempre dizendo, é claro, que não precisava, que pode deixar, que eu vou sozinho. Era sabido que não iria. A areia da praia estava fofa, solta, voando com o vento forte daquela noite. Pra completar, a maré estava baixa, aumentando a distância entre o carro e o mar. Faltavam dois minutos para a grande hora quando o patriarca deixou bem claro que fazia questão de molhar os pés.
Fogos iluminaram o céu. Gritos, abraços, aleluias das mais diversas formas. Pois pode prestar atenção: nessa hora, quando todos estouram champanhes e brindam aos próximos 365 dias, fica tudo muito parecido com um louvor de igrejas. Assim, como anjos, abraçados e felizes, a família festejou. Não faltaram beijos na face do velho, todos felizes pela presença dele mas sem saber exatamente por quê – seria o desafio vencido?, ou por não ter causado atrasos?, seria simplesmente porque estava ali?
Com a bengala se enterrando na areia fina e branca, o velho saiu caminhando rumo ao mar. Quase não notavam sua ousadia. Mas o genro correu para apoiá-lo, disfarçando sua preocupação com comentários sobre a beleza dos fogos. Lentamente, como é a fisiologia dos que já viveram muito, o velho tirou as sandálias, deixou a bengala cair para o lado, livrou-se do apoio do genro e avançou três passos para dentro da água. A primeira onda do ano novo tocou, então, seus pés.
O filho veio logo em seguida, preocupado, aturdido, incrédulo. Estancou um pouco atrás, deixou o cigarro cair dos lábios e buscou com sofreguidão a máquina fotográfica nos bolsos. Era inacreditável. Ainda com as luzes estourando sobre suas cabeças, todos puderam ver o patriarca mergulhando sozinho no mar.
O sal, os sargaços, o gelado do mar. O velho sentiu cada um desses elementos em seu corpo. E de alguma forma que não sabia precisar, sentia outras coisas que não deveriam fazer parte do oceano. Sua mãe jogando a água da banheira em sua cabeça, o primeiro beijo em meio à chuva, a farda das forças armadas mergulhada em medalhas, o cheiro do cabelo molhado daquela menina do interior, o suor nas mãos até que o médico anunciasse que era menina, o olhar do primeiro neto quando pediu um copo d’água dizendo vovô. Como uma criança de volta ao ventre, rolou na delícia de uma pequena onda, sorriu do seu desequilíbrio, brincou dentro de sua placenta.
Ao ver tanta vida emanando do velho, do seu sorriso de poucos dentes e muitos sentimentos, do seu olhar cinzento mas incrivelmente brilhante, dos seus cabelos que eram brancos mas de repente estavam prateados, todos os outros esqueceram seus pedidos. Com romãs e uvas sem utilidade, só pensavam numa coisa ao voltar pra casa: se jogariam no mar o quanto antes.
Yo soy un chico, mas também sou Chico. Pois me chamo Francisco e como todos esses franciscos que não têm vergonha da própria matutez disfarçada numa casca cosmopolita, estranho em demasia essas palavras todas diferentes, essa facilidade em ler/dificuldade em ouvir, esse quase não falar que se transforma num silêncio raivoso ao lembrar segundas quartas sextas diante de uma interminável aula de idiomas. Estranho, mas sigo. Numa liberdade de conjugar verbos errados, num aprendizado de dizer apenas o indispensável, no ato falho de soltar sem querer uma frase em português (como se algo quisesse sempre me lembrar que aquela linguagem não é a minha, que apenas simulo uma nova linguagem).
Pelas ruas – que não são ruas, são calles – estranho esses nomes que não me dizem nada. Absolutamente nada. Gregorio Marañon, Príncipe de Vergara, Nuñez de Balboa – quem são?, quem foram?, quem serão? Eu não sei, mas vou deixando que façam parte de mim, que me signifiquem alguma coisa, que digam um pouco do que sou. Afinal, nunca soube mesmo quem era esse tal de Rio Branco – nome de rua em quase todas as capitais do Brasil. Eu sigo.
Já domino, de certo, os palavrões. Muito embora seja estranho topar numa pedra e dizer baixinho, abafado – pra nenhuma senhora que está voltando da igreja se horrorizar – um corriqueiro ¡Hostia!. Em contrapartida, que encanto é dizer alto na mesma situação aquele “Porra!” que fomos educados a conter. Aqui, porra é um desses churros gigantes que se comem com chocolate quente. Aqui eles não sabem a verdadeira carga sócio-político-cultural impregnada num sonoro “Porra!”.
Estranho os horários e isso não é novidade alguma a quem já foi vítima dos fusos. Acordo sem fome, tomo café com leite no almoço, janto feijão com arroz e faço uma boquinha às duas da manhã. Antes de dormir. A mente reclama, diz que já é hora de conhecer as manhãs desse país, mas o corpo, coitado, enterrou seu umbigo numa cidadezinha litorânea às margens de um rio com nome indígena. (E pra quem estranhou, como eu, a parte do feijão, explico: aqui tem sim, mas eles são vendidos em vidros de compota, já vêm prontos e são caríssimos. Feijoada nem pensar.)
De todas essas pequenas diferenças, como era de se supor, nasce um estranhamento de mim mesmo. Como se quando me sirvo de tortilla e explico que no Brasil quase ninguém conhece a Amazônia, não fosse eu falando. Fosse um outro. Que sou eu sim, eu sei, mas age como um outro. Um antropólogo que estudou nossa etnia e pode falar dela com ares de PhD. Um Levi Strauss negro, barbudo, que não sabe dizer onde estão as luvas de lavar pratos pelos simples fato de que não sabe como dizer “pia”. Poucos têm idéia do quanto se pode aprender quando não se sabe dizer “pia”.
Vou levando. Explicando que no Brasil só quem sai nu no carnaval são as mulatas de Escolas de Samba e os travestis; sentindo orgulho quando dizem por aqui que Lula é um bom presidente, mas morrendo de vontade de dizer que poderia ser bem melhor; ensinando pela enésima vez como se samba; tentando descrever a sensação de tomar um copo de suco de mangaba daqueles que deixam os lábios grudentos; falando das comidas que já não como, das praias onde já não me banho, do incrível que é perceber como venho de um país grande.
Aqui não tem essa palavrinha que dói tanto chamada saudade. O mais próximo que podemos chegar é dizendo Yo extraño… Talvez por isso eu estranhe tantas coisas. Talvez.
Passando no AXN e não consigo parar de ver. Esta é a sétima vez. Peixe Grande merece o título de obra-prima de Tim Burton. Faz rir, chorar, refletir, aprender. Quisera eu conseguir escrever uma história dessas algum dia.
Domingo, 04h54. Acabo de conseguir configurar o newsletter no site. Sim é uma espécie de obsessão. Mas a coisa só sai se for assim. Vou dormir. Amanhã tem mais.
Bom, galera, não costumo fazer isso. Indicar um blog só porque o cara é meu amigo é algo que não faz parte de meus princípios. Mas resolvi abrir uma exceção: e recomendo o blog do Saramago.
Sim, José Saramago. Aquele vencedor do Nobel. Aquele de “Ensaio sobre a Cegueira”, “O evangelho segundo Jesus Cristo” e outras pérolas. Meu bróder Saramago.
Agora sério: recomendadíssimo o blog desse genial escritor. O portuga radicado nas Ilhas Canárias parece mesmo disposto a tornar-se multimídia. Depois de ter sua obra adaptada pro cinema com o filme Blindness, Saramago agora é blogueiro. É uma baita concorrência!
No Caderno de Saramago, o autor faz exatamente a mesma coisa que milhares de jovens internautas: bloga. Ou seja, escreve sobre qualquer coisa, dá suas opiniões, expõe um pouco da sua vida e interage com os leitores. Tudo, claro, ao estilo Saramago. Um texto delicioso, inteligentíssimo, daqueles que você lê com gosto e pergunta ao final: tem mais?
O blog, hospedado dentro do site da Fundação Saramago – pra você ter certeza de que não caiu num truque de internet e está lendo um adolescente espinhento que se passa por Prêmio Nobel –, ainda disponibiliza a opção de ser lido em dois idiomas: português (lusitano, claro, visto que o autor não autoriza “traduções” para o português do Brasil) e espanhol.
Abraço, Sara. Não precisa agradecer pela forcinha que eu dei, beleza, véio?
Depois de ler “Sandman” (e reler, e reler, e reler como eu fiz), é difícil se impactar com algum quadrinho. Por isso, leve a sério o que vou dizer: leia “Y – O último homem” de Brian K. Vaughan e Pia Guerra! Mas leia mesmo, não deixe pra depois. Porque trata-se de uma das melhores coisas que surgiram em quadrinhos nos últimos anos. Sem exageros.
A história é simples de doer (e justamente por isso é genial): um surto misterioso mata todos os portadores do cromossomo Y do mundo. Ou seja, todos os machos do planeta. O jovem Yorick e seu macaquinho de estimação são os únicos do gênero masculinos que escapam a essa aniquilição.
Enquanto as mulheres tentam reconstruir um mundo que perdeu quase metade de sua população do dia pra noite, Yorick e seu macaco fogem de feministas extremistas, gangues urbanas, agentes secretos de Israel… enfim, de todos que querem terminar o que o surto misterioso começou.
A série, em 60 edições, terminou sua publicação nos Estados Unidos em outubro do ano passado. E com o sucesso retumbante, claro, já tem roteiro pronto pro cinema. A promessa é que seja uma trilogia, com direção de D.J. Caruso (o mesmo de “Roubando Vidas” com Angelina Jolie).
Até agora, li até o número 8. E tome gangues urbanas de mulheres que arrancam um seio de si mesmas, cidades que só sobreviveram à crise mundial porque eram comandadas por mulheres há anos, intrigas na Casa Branca e Yorick fugindo de tudo e todos que querem ele mortinho da silva.
A publicação no Brasil é pela Editora Pixel. E vale cada balão de diálogo.
Mais uma semana em que não cumpri totalmente meu objetivo.
“A ponto de explodir”, do autor mineiro Sérgio Fantini, apresenta contos ágeis e por vezes bem curtos, daqueles que a gente lê em uma sentada. O efeito dessa concisão é devastador. E foi devastador também para minha meta: livros de conto dão a chance de pular algumas partes e ler só o que realmente interessa naquele momento. Não era minha intenção e por isso estou sendo honesto: pulei alguns contos, mas li quase todos.
Tive a oportunidade de conhecer Fantini em outubro de 2011, quando ele veio a Natal a convite do Jovens Escribas para ministrar uma oficina de contos dentro da Ação Potiguar de Incentivo à Leitura. Sua fala tranquila e seu jeito sem afetações destoa totalmente da linguagem que exibe em seus contos: direto, por vezes violento, sem meneios desnecessários, Fantini exibe personagens fortes e controversos, que nos dão uma boa visão sobre os tipos urbanos mais comuns dos dias de hoje.
A leitura é recomendadíssima por dois motivos. O primeiro: a linguagem livre, sem editorialismos, permite mergulhar fundo no universo do autor a cada nova história. O segundo: Fantini sabe contar histórias. E mesmo naquelas mais pós-modernas, em que o conto passeia apenas por uma cena, sem nos dar muitas informações sobre os personagens, não deixa a sensação de incompletude. Suas histórias, por mais pós-modernas que sejam, sempre têm começo-meio-fim. O cara sabe o que está fazendo.