[DIARIO]
EM OBRAS

27 novembro 2008 § Nenhum comentário ainda

Hoje me ocorreu que este site poderia ser algo coletivo. Não sei, acho que colaborações dariam uma mexida mais interessante no espaço. Precido estudar melhor essa idéia.

Post to Twitter

[NA PASTA]
PLÁGIO: AGÊNCIA DE MOSSORÓ PARECE SER ESPECIALISTA

27 novembro 2008 § 13 comentários

Fico sempre meio triste quando vejo um caso de suposto plágio na propaganda. Principalmente quando o caso ocorre no mercado em que trabalho. No caso abaixo, não foi bem em Natal. Mas pelo fato de ser tão próximo, e num mercado que tenta se afirmar criativamente, fiquei triste do mesmo jeito.

A agência mossoroense Mais Comunicação está sendo acusada de seguidos plágios em um fórum de discussão do Orkut. A pendenga começou com um comercial pra loja Sob Medida, criado pela Mais, que é extremamente semelhante a um comercial da TIM veiculado no início do ano em todo o Brasil. E quando eu digo extremamente semelhante não estou usando um a figura de linguagem. Confira você mesmo:

Comercial da Sob Medida:

Comercial da TIM:

Segundo participantes deste fórum de discussão, a mesma agência de Mossoró é responsável por pérolas do plágio como as que seguem abaixo:

Original:

Suposta cópia:

Original:

Suposta cópia:

Na lista de discussão do Clube de Criação de Pernambuco, da qual faço parte, o publicitário Tomas Bueno deu uma respostas muito interessante á pergunta “Plágio ou referência?”: Eu acredito que referência é quando a publicidade se inspira na vida. Seja arte, cotidiano, qualquer coisa, menos a própria publicidade. Eu acredito em coincidência quando a idéia é a mesma, mas a produção é diferente. Eu acredito em coincidência ducaralho quando não quero acusar ninguém de plágio.

Eu fecho com você, Bueno.

Post to Twitter

[CRONIPOEMONTO]
PORCAS, PARAFUSOS & REJUNTES

26 novembro 2008 § Nenhum comentário ainda

azulejo1

Estava encostado na pia da cozinha olhando fixamente a parede de azulejos brancos – um pouco encardidos – e pensava justamente qual tipo de produto mágico teria o poder de limpar aquelas manchas amareladas dos cantos dos azulejos que eram iguais às pequenas machas amareladas que o tabaco lhe presenteara no canto dos dentes. A chuva podia ser ouvida através dos basculantes da porta da cozinha e também ouvia nitidamente o ranger dos parafusos da cama de metal que vazava por baixo da porta do quarto, sinais de que a vida habitando ali dentro ainda fritava no colchão em busca de sono enquanto ele seguia olhando fixamente os azulejos branco-amarelados como seus dentes que, como os parafusos frouxos da cama do quarto, rangiam sem que ele pudesse dar-se conta, frouxos que estavam seus parafusos, os da cama e também o de alguém muito louco que teve a genial idéia de colocar azulejos brancos numa cozinha – posto que as frituras, os cozidos e os assados dotavam estes gradativamente de uma coloração amarelada de gordura (ou de tabaco, no caso dos dentes, pensava, ao mesmo tempo percebendo que também havia um parafuso frouxo na mente que concebeu dentes brancos, posto que as frituras, os cozidos, os assados, e também o tabaco, lhes dotavam deste aspecto branco-amarelado semelhante a uma carta velha que se perde no desvão da memória). Uma carta velha. Jamais havia parado pra pensar como se assemelhavam a cartas velhas aqueles azulejos que já não cintilavam à luz fluorescente da cozinha, como pareciam contar notícias de frituras, assados, cozidos e tabacos do passado, o amarelo entranhado entre os rejuntes relembrando a todos as coronárias entupidas, os dentes amarelados, a perda de vida. De repente a chuva estava mais grossa, mas não conseguia abafar o ranger irritante dos parafusos frouxos – e também das porcas, pois costumamos culpar somente os parafusos, quando é sabido que nunca se afrouxam sozinhos. De fato, algo estava frouxo. Entre os rejuntes daquilo que soçobrava no ar entre a vida encostada à pia da cozinha e a vida fritando na cama de porcas frouxas: algo estava solto. Como uma carta que fala de coisas lindas e antigas, sim, uma carta velha e amarelada que adquire outro sentido depois de alguns anos. Havia algo solto entre as frases belicosas que tropeçavam dentes amarelos afora, caíam como azulejos no chão e saíam cortando tudo. Havia algo solto quando se deitavam na cama de ranger ininterrupto e se diziam boa noite. Havia algo solto, um parafuso, uma porca, estavam ambos desenroscados um do outro. Ou desenroscando-se. Pois o bolor que persistia na parede branca de alguma maneira fazia que os azulejos soassem como um só: o mesmo bolor dessas cartas antigas que muda seu significado mas, sem que percebamos, mantém nelas algum significado. Qualquer que seja. Afinal, que significam esses momentos em que penetramos no mais íntimo do todo e notamos que cada ínfima parte produz um equilíbrio sutil para soar, então, como um todo? O que significa, afinal, o significado das coisas? Era o que se perguntava ainda com os olhos nos azulejos, ainda com os ouvidos no ranger da cama, ainda com algumas palavras cravadas no peito como… cacos de azulejo?… pedaços de dentes?… gorduras amarelas? Estava entalado. Por dentro, por fora, estava entalado das palavras que ouviu, das palavras que não disse, das palavras que não conseguia entender o significado. Que significa pessimicerteza? Pois era o que sentia. A pessimicerteza de que os azulejos estavam pontiagudos, os dentes estavam tortos, a cartas estavam tão amareladas – mas tão amareladas – que já não se podia ler seus códigos. Um a um, frituras, assados, cozidos, todos foram perdendo o sabor de domingo. Eram uma segunda chuvosa. Mas enfim: era uma segunda chuvosa. Pois já passava da meia-noite, pois a chuva caía implacável, pois seus sentimentos estavam todos focados em uma única coisa: conseguir um produto de limpeza mágico que conseguisse tirar a sujeira entranhada entre os azulejos. Sabia que o rejunte não iria agüentar tanta merda.

Post to Twitter

[NO TORRENT]
FRINGE: O NOVO SUCESSO DO CRIADOR DE “LOST”

26 novembro 2008 § Nenhum comentário ainda

J.J. Abrams já era milionário quando criou “Lost”. Seu primeiro grande sucesso foi a série de espionagem “Alias”, que já tinha lhe rendido fama e dinheiro. Com “Lost”, ele conseguiu reconhecimento artístico. Com “Fringe”, sua mais recente criação, J.J. Abrams quer dizer que é uma fonte inesgotável de histórias surpreendentes. Até onde assisti, ele está conseguindo.

“Fringe” começa de maneira propositadamente semelhante a “Lost”: dentro de um avião. Um homem, manipulando uma ampola, libera alguma misteriosa toxina no ar. O resultado é que as pessoas do vôo simplesmente desintegram! Ao longo do primeiro episódio, porém, dá pra perceber que este acidente foi apenas a ponta do iceberg.

Entra em cena a Agente Olivia Dunham, que requisita a ajuda de um gênio da ciência experimental para solucionar o caso. Esse gênio é o Dr. Walter Bishop, que está num manicômio e só pode sair de lá com a autorização do filho e tutor, o também gênio Peter Bishop. Os três (numa dinâmica que inclui tensão afetiva entre pai e filho, tensão sexual entre agente e tutor e tensão profissional entre agente e cientista) vão se reunir para investigar casos aparentemente inexplicáveis pela ciência tradicional, mas totalmente plausíveis na ciência de borda – ou fringe science, que nada mais é que as coisas teoricamente possíveis, mas nunca comprovadas na prática.

A grande trama da série é exatamente essa: um misterioso grupo, chamado de “O Padrão”, está colocando em prática algumas teorias nunca utilizadas da ciência. E o laboratório que eles estão usando é justamente o mundo. Nessa realidade em que todos são ratos brancos, a agente Dunham, o Dr. Bishop e seu filho Peter estão a voltas com coisas aparentemente inexplicáveis como uma bomba que transforma o oxigênio em resina (!), um recém nascido que morre de velhice sete minutos após nascer (!!) e um homem careca que está sempre presente a grandes eventos da história, do assassinato de JFK ao de Malcolm X (!!!).

A comparação com Arquivo X é inevitável. E realmente é muito parecido. A diferença de outras imitações da série clássica, como a fraquinha “Eleventh hour” da Warner (criada por Jerry Bruckheimer, o mesmo da franquia CSI), é que “Fringe” é muito bem feita. Tudo apresentado na série é teoricamente possível – até agora – e isso valoriza o roteiro. Os mistérios vão crescendo gradativamente e aos poucos já se cria a mitologia Fringe.
(A série também é responsável por um novo modelo publicidade: a Fox americana, responsável pela série, cortou metade dos comerciais e adicionou merchandisings inteligentes agregados à trama. Dessa forma, mesmo que você baixe os episódios, estará exposto à propaganda. Segundo os produtores, esses merchandisings já pagam o filhote.)

“Fringe” tem estréia prevista no Brasil para fevereiro de 2009. O canal que transmitirá o novo hype de J.J. Abrams é o Warner Channel.

Post to Twitter

[DIÁRIO]
MTV LAB CLÁSSICOS

26 novembro 2008 § Nenhum comentário ainda

Qdo as músicas que vc realmente gosta só passam na faixa de clássicos, vc está ficando velho. “Da lama ao caos”, Chico Science; “Only happy when it rains”, Garbage; “Supersonic”, Oasis: uma atrás da outra. E eu suspirando: ai, ai, bons tempos aqueles…

Post to Twitter

[CONTO]
2079

24 novembro 2008 § Nenhum comentário ainda

Ah, que saudade daquele tempo. Os carros eram bicombustíveis e podíamos optar por álcool ou gasolina. Sim, gasolina. Um composto líquido à base de petróleo que todos sabiam que iria acabar. Pois é, acabou. E dá saudade de parar no posto e dizer “Põe vinte reais de gasolina, por favor”.

Saudade do real. Nessa época, a língua mais falada do mundo era o inglês, a moeda de maior circulação era o dólar americano e a única superpotência bélica e econômica eram os Estados Unidos. Sim, ali no meio da América do Norte. País grande, mas com apenas dois partidos fortes: democratas e republicanos. Saudade do George W. Bush, né não? Todo mundo dizendo que ele era um assassino em massa e ninguém consegue explicar direito por quê os rumos do planeta ficaram tanto tempo nas mãos dele. Era bom ter alguém para odiar naquela época.

Sinto saudades da música em mp3 e da indústria fonográfica. Explico: mp3 era um arquivo de compactação (coisa mais antiga!) usado para trocar músicas pelo computador. Antes dele, a gente comprava CDs (disquinhos metálicos que continham de 12 a 20 faixas e custavam uma fortuna). Depois dele, foi a época de ouro. Lembro que eu tinha mp3 de bandas do mundo inteiro. Sem pagar um tostão. Nessa época, a internet era uma terra de ninguém. Tinha se propagado freneticamente há pouco mais de uma década e todo mundo se encantava com as facilidades que ela possibilitava. Trocávamos fotos, clipes, filmes inteirinhos, temporadas de séries, pornografia. É, tinha pornografia na internet. Lembra do Google? Nossa, tanta coisa que fica pra trás.

Naquele tempo, pra ser gente, você tinha que ter câmera digital (a de sete megapixels era top de linha) e iPod (um aparelhinho que servia pra ouvir os tais mp3). A maioria dos computadores ainda era composta pela tríade monitor-gabinete-periféricos, muito embora já existissem os laptops. Eram computadores portáteis que pesavam cerca de dois quilos (!) e que, a despeito de qualquer dor de coluna, eram transportados por seus donos para todos os cantos. Com muito orgulho, diga-se de passagem. Lembra daquele bando de gente acessando sites nas praças de alimentação dos shoppings? Hoje é impossível não gargalhar!

Por falar em internet (e já que citei o finado Google), quem se lembra do Orkut? Uma foto no canto da tela, um questionário dizendo quem você era, um espaço para receber recados. Pronto, você já podia se conectar com qualquer pessoa no mundo. Vivia dando erro e travando. Mas também, com a internet naquela velocidade! Hoje me pergunto como era possível fazer tanta coisa com conexão de 1 mega por segundo. Tenha santa paciência!

A televisão tinha horários pré-estabelecidos. Quer assistir o jornal? Espera até oito da noite. Não pode? Não assiste. Ou então grava. Numa fita que a gente chamava de VHS pra colocar num aparelho chamado videocassete. Quase ninguém tinha mais esse dinossauro do entretenimento, eles haviam sido substituídos pelo DVD (alguém lembra do DVD?).

Rock era coisa de jovem. Música eletrônica também.

Sinto saudades do meu “Cavaleiro das Trevas” impresso em papel couchê – no tempo em que imprimir literatura em papel não era crime ambiental porque, vá lá, tínhamos poucas florestas, mas ao menos tínhamos. No verão era quente, no inverno era frio. E tinha duas estações a mais: primavera e outono. Uma com flores (sim, flores!, coloridas, perfumadas, encantadoras), outra com folhas secas. Sinto saudades dos livros também. Eu tinha tantos. Todos de papel, a gente tocava enquanto lia, ia passando as páginas uma a uma com a ponta dos dedos, cheirando – tinta fresca quando era novo, ácaro e bolor quando dos clássicos. Naquele tempo, escritores eram imortais.

Alguém lembra do carnaval de Olinda? E do celular com câmera? Quem se lembra das novelas da Globo? Aliás, alguém lembra da Globo? Alguém se recorda como eram bonitas as casas de madeira? Lembra que dava pra passar férias no campo ou na praia? Dou um doce pra quem lembrar o nome do primeiro presidente de esquerda eleito por voto direto no Brasil. Alguém? Alguém?

Ah, que saudade daquele início de século. Não tinha tantas guerras, não tinha esse bando de doenças novas que nem consigo dizer o nome, não tinha esterilidade em massa. Tinha um monte de outras coisas ruins sim, não vou negar. Mas a gente se tocava pra fazer sexo. E isso curava qualquer mal da humanidade.

Post to Twitter

[AGENDA]
“PQ NUNCA NOS TRATARAM COM AMOR” NA CASA DA RIBEIRA

24 novembro 2008 § Nenhum comentário ainda

O Grupo Beira de Teatro estréia nesta quinta (27), às 20h, na Casa da Ribeira, o seu mais novo espetáculo “…pq nunca nos trataram com amor”, com direção de Carolline Cantidio, em única apresentação. Informações: (84) 3211.7710.

Post to Twitter

[NA REDE]
GENGIBRE: O PODCAST MAIS SIMPLES DO MUNDO

24 novembro 2008 § Nenhum comentário ainda

Já pensou se fizessem um sistema de podcast muito, mas muito simples de postar? Do tipo: você liga prum número, grava uma mensagem e ela automaticamente é publicada na rede. Já pensou se esse sistema fosse gratuito e o custo da ligação fosse o de uma chamada local, independente de onde você está? Já pensou se esse serviço disponibilizasse um código embed pra você colar o seu player no blog, ou no Orkut, ou onde quer que você quisesse divulgá-lo? Pois é, alguém pensou nisso tudo. E criou o Gengibre, um site de podcast realmente diferente.

O site abre possibilidades infinitas. Por exemplo: você está num show, consegue entrar no camarim e resolve entrevistar o cantor. É só ligar pro Gengibre e fazer a entrevista com o celular. Ela é postada imediatamente na sua página sem custo algum. Depois, em casa, de ressaca, é só espalhar o player por aí. É ou não é crasse A?

Quem andou experimentando o Gengibre foi Xico Sá, jornalista e escritor, do qual sou fã incondicional. Xico escreve no blog O Carapuceiro e é autor de livros como “Caballeros solitários rumo ao sol poente”, o primeiro romance brasileiro escrito em portunhol. No seu momento Gengibre, ele leu um trecho de “Catecismo de Devoções, Intimidades e Pornografias”. Prepare os ouvidos.

Post to Twitter

[DIÁRIO]
EM CONSTRUÇÃO

22 novembro 2008 § Nenhum comentário ainda

Decidi fazer uma migração lenta do antigo PLOG para este. Então venho postando conteúdo lá e cá antes de divulgar o novo endereço. Pró: estou aprendendo as novas ferramentas sem pressão. Contra: agora tenho trabalho em dobro.

Post to Twitter

[NO PLAY]
ZÉLIA DUNCAN CRESCE EM “PRÉ PÓS TUDO BOSSA BAND”

22 novembro 2008 § Nenhum comentário ainda

Até me surpreendi quando descobri no Google que “Pré pós tudo bossa band”, oitavo disco de Zélia Duncan, tinha sido lançado em 2005. Ou eu ando muito desatualizado em relação aos artistas que admiro, ou Zélia Duncan está trilhando uma carreira cada vez mais discreta em relação à mídia. A resposta é: 50/50. Tanto eu ando meio desligado, como Zélia Duncan fez a inteligente escolha de se distanciar um pouco dos holofotes.

Na primeira canção título, que abre o CD, ela já deixa bem clara essa estratégia. A música “Pré pós tudo bossa band” fala exatamente da era das celebridades, da necessidade de aparecer, de ser o melhor. Com uma elegante ironia, tanto na letra quanto na interpretação, a música diz: Todo mundo quer ser bacana / Álbuns, fotos, dicas pro fim de semana / Filmes, sebos, modas, cabelos / Cabeça-feita, receitas perfeitas / Descobertas geniais. Um bom começo.

Em seguida vem “Carne e osso”, que foi tema de abertura da novela Sete Pecados. Nela, Zélia exalta o pecado como forma de ser mais humano. Com uma dose sensata de incorreção política, se tornou chatinha depois de seis meses no ar diariamente. Mas depois desse momento rede Globo, o CD cresce. E muito. “Vi não vi” é uma canção de amor à primeira vista às avessas. “Primeira vez que eu te vi / Meu coração não fez clique”, canta Zélia com originalidade.

Em seguida, o blues “Mãos atadas”, em parceria com Frejat, faz lembrar aquela cantora de “Intimidade”. Suave, romântica e sem pieguices. O grande momento do disco continua com “Benditas”. A música fala da efemeridade do amor em relação ao famoso “Eu vou te amar pra sempre” que os amantes costumam se dizer. “A vida é curta / Mas enquanto dura / Posso durante um minuto ou mais / Te beijar pra sempre / O amor não mente / Não mente jamais”, canta ela.

Depois disso, um momento estranho. Diante de tanta poesia, “Braços cruzados” fala sobre violência urbana. Definitivamente, não encaixa no clima das primeiras músicas. E prejudica a audição de “Eu não sou eu”, balada romântica que soa mais melosa do que deveria.

Mas Itamar Assumpção , sempre ele!, salva a pele da cantora. Escrita com Alice Ruiz, “Tudo ou nada” tem a cara das músicas do autor. “Come on, baby / Transformar esse limão em limonada”, diz a letra, que é uma declaração de amor e de humor ao mesmo tempo, com uma bem-vinda pitada de rock’n’roll. Divertida e poética como só Assumpção  sabe fazer.

A primeira metade do CD vale por todo ele. Por isso, pulo da música 8 direto pra 16 (o que fica nesse ínterim é a falta de surpresa, com sambas que soam antigos e até são bons, uma homenagem a Gilberto Freire numa vinheta dispensável, exaltações ao Rio, etc – tudo realmente acessório, muito embora bom de ouvir). “Milágrimas”, essa sim, encerra em grande estilo “Pré pós tudo bossa band”.

Mais uma letra de Itamar Assumpção e Alice Ruiz, “Milágrimas” é cantada por Zélia Duncan e por Anelis Assumção, a filha do autor. Minimalista, sutil, tem cara de poema musicado. E que poema! Reproduzo aqui a primeira estrofe: “Em caso de dor, ponha gelo / Mude o corte do cabelo / Mude como modelo / Vá ao cinema, dê um sorriso / Ainda que amarelo / Esqueça seu cotovelo / Se amargo for já ter sido / Troque já este vestido / Troque o padrão do tecido / Saia do sério, deixe os critérios / Siga todos os sentidos / Faça fazer sentido / A cada milágrimas sai um milagre”. Essas frases cantadas com a dor de Zélia e a doçura de Anelis derretem qualquer coração duro.

“Pré pós tudo bossa band” não é memorável, mas é respeitável. Ao não cair na esparrela da mídia, que quase lhe transformou em deusa na época de “Catedral”, Zélia Duncan assumiu cada vez mais controle artístico sobre o seu trabalho. O CD, portanto, tem a cara dela. Nessa época de fabricação de celebridades, é louvável.

PRÉ PÓS TUDO BOSSA BAND
Artista: Zélia Duncan
Ano: 2007
Estilo: MPB
Cotação: 9,0

Post to Twitter

Where am I?

You are currently viewing the archives for novembro, 2008 at PLOG.