O Jornal de Hoje “denuncia” “apologia” ao “homossexualismo” [sic]

Um dia depois de o candidato a presidente Levy Félix Felicis abrir seu aparelho excretor pra revelar sua homofobia, o arremedo de jornal potiguar conhecido por O Jornal de Hoje sai com a seguinte pérola na capa: “Prefeitura de Natal paga R$ 21 mil a artista plástico que promove homossexualismo [sic]“.

A matéria trata o fato de Marcelo Gandhi, renomado artista potiguar, fazer uma exposição sobre homossexualidade como um absurdo. E ainda usa o termo “homossexualismo”, sabidamente em desuso por conter o sufixo ‘ismo” usado apenas para doenças (e nem vou comentar o uso do verbo “promover”).

O tablóide, em tom de denuncismo, foi pedir explicações à Funcarte sobre o prêmio que a exposição recebeu. Como se estivéssemos na Idade Média e fosse um absurdo tratar desse tema numa exposição.

Em suma: o jornal supracitado abriu seu aparelho excretor.

29. setembro 2014 by Patrício Júnior
Categories: TELESCÓPIO | Leave a comment

O SORRISO INVERTIDO

Você chora moldando os olhos em gumes de laranja, espremendo, espremendo, até que todo o sal-suco se escorra dos alvéolos, das pálpebras, dos cílios. Você chora cítrico. O rosto retorcido na lembrança azeda do que causa dor. Até que sobre só o bagaço.

Você não chora escondido. É na rua. É no palco. Assim de repente, a plateia que descubra o motivo. Não berra mas berra, se o berro a considerar for o da alma. É um grito de socorro? É um urra de alegria? Você deixa a lágrima vazar do lar e que lástima, nós pensamos, que lástima não sabermos o motivo.

Você chora sem acusações. Tuas lágrimas não têm dedos.

Você chora afônico, a boca arqueada em curva descendente, esponjosa, desintegrando-se no rosto. Teu choro te derrete. Você tão forte, você tão porto-seguro, você tão diamante ― teu choro te derrete, quem diria. A pele branca se repuxa num arco amargo, o sorriso invertido inclina as maçãs para a inevitável gravidade ― porque é lei, e porque é grave.

Você chora por apenas cinco segundos. E alaga tudo.

Nós não entendemos e te abraçamos. Nós não alcançamos de onde vem o desabafo e nos preocupamos. Aparamos as gotas salgadas, dizemos pra não chorar mais, entendemos que é necessário muito embora cruel. E você para. Assim, descobrindo a cura, você para. Sorri, diz que é bobagem. Vai embora. Nós ficamos olhando você sumir no horizonte de asfalto. Nós ficamos descompensados e descompassados. Nós ficamos com vontade de chorar.

Nós. Eu e meus botões.

14. outubro 2013 by Patrício Júnior
Categories: TELESCÓPIO | Tags: , , , | Leave a comment

Lento

Foto: Andy Barter

 

Unhas, dedos

Pelos, mãos

Punho, sua pulsação

Antebraço, abraço

Bíceps: tensão

 

Ombro esquerdo

Pesca beijo

Direito, aspiração

Clavícula: mandíbula

Pescoço: respiração

 

Dentes, pele

Morderão

Língua sua lassidão

Inspiro seu carbono

Barba, lábios: arranhão ―

 

Adentrar é lento

É densa retenção

Seguimos mar adentro

Imensa exploração

28. agosto 2013 by Patrício Júnior
Categories: TELESCÓPIO | Tags: , , , | Leave a comment

A tal da inveja branca

Eu morro de medo de quem diz que tem inveja branca de mim. Juro que morro. É aquela coisa de algoz com pena do condenado, sabe? Eu desço a guilhotina no seu pescoço, mas desço me corroendo de remorso. Sai pra lá. Inveja branca é coisa de quem não consegue admitir o próprio mal. Deseja ter o que você tem, deseja tomar pra si o que é você, e ainbda tem a audácia de confessar na sua cara com o cuidado de eufesmimar o crime. “Que inveja branca, amigo”, eles dizem com olhar cândido e coração pétreo. São os piores, pode apostar.

Saber-se capaz de cometer maldades é essencial para não cometê-las. Veja a criança. Ela não sabe que pode matar o peixe se tirá-lo do aquário para que se debata no tapete. Ela tira. Ela observa. Ela mata o peixe. Ela, até então, não sabia de quanta maldade era capaz de empreender. Ela aprende. Só vai fazer de novo se houver gostado da maldade. Quem diz inveja branca é assim: está tirando você do aquário, observado seu fôlego se esvair no carpete e pedindo desculpas – sem, no entanto, te devolver à água.

Eu não sinto inveja branca. Detesto. Eu sinto inveja negra. Corrosiva. Autodestrutiva. Negativa mesmo. Eu sou um ser humano e não vim com filtro de redes sociais instalado no meu cérebro. Aqui na minha cabeça, eu comigo mesmo, tem inveja de sobra. De um monte de coisas. Todas bem pretas e purulentas.

Eu tô no trabalho e vejo a foto de um amigo na praia tomando sua cervejinha de férias. Inveja negra. Eu descubro que um parente ganhou uma herança e não vai mais precisar trabalhar. Inveja negra. Eu vejo check-ins em bares enquanto estou em casa sem dinheiro. Inveja negra. Negríssima. Pretume puro.

Não tenho problema algum em sentir. Sinto amor, raiva, amizade, indiferença, ódio, paixão. Sinto tudo e muito, até torrar o talo do sentir. Inveja é apenas mais um sentimento como outros tantos. Mais um que não me incito a disfarçar colorindo-o de alvor. Inveja branca é pra quem tem medo do que sente.

A diferença não está na cor. Tem amor roxo, amor vermelho-sangue, amor amarelo. É tudo amor. Com todos os defeitos e lucros que esse sentir complexo traz. A diferença é: o que você faz com esse amor? Tem gente que mata por amor. Que se mata por amor. Tem gente que sofre, que aprende, que cresce, que não aprende, que se destrói, q     ue se constrói. Tem gente que faz gente por causa do amor, ora bolas.

Com a inveja, nada diferente. Tem gente que fica presa no sentimento, estancada em algum ponto da admiração ao outro, congelada na impossibilidade de ser o que quer. Usa a inveja branca para disfarçar esse estopor. Deve ser difícil mesmo. Mas comigo não. Eu consumo a inveja como combustível – e não vive-versa. Admiro a grandeza do outro, me pergunto se é o que quero, mobilizo a imobilização que a inveja causa. Transformo inveja negra em petróleo. Para me mover.

Inveja branca é invenção de beata que faz macumba pra destruir as amigas. Sorri na igreja dizendo “que inveja branca, querida”, mas quando chega em casa espeta seus alfinetes de crochê num bonequinho com o rosto da noiva da semana. Conheço bem o tipo. Está cheio por aí.

Inveja branca não existe. É inveja e pronto. O “branca” entra só pra tornar socialmente aceita a confissão do inconfessável. Da próxima vez que sentir a tal inveja branca, pare pra pensar. Você é tão mal quanto o resto do mundo. Não me venha com essa de anjinho de apenas uma asa. Você veio com essa terrível capacidade de tirar o peixe do aquário para voyeurizar sua morte. Faça da inveja uma coisa só: o impulso pra ir adiante. É pra isso que ela serve. Negra, branca, verde: não importa a cor se você não souber o que fazer com ela.

01. maio 2013 by Patrício Júnior
Categories: TELESCÓPIO | Leave a comment

Resenha de Lítio na Tribuna (ou: O bem que as palavras fazem)

Acordei embalado pela chuva. Não quero ser excessivamente poético, então vou direto ao ponto: a chuva me deu preguiça de tudo.

Terminei meu novo romance há alguns dias e acordar hoje me fez pensar como essa coisa de escrever não leva a nada. Palavras, palavras, palavras. Meses digitando, redigitando e apagando palavras. Pra quê?

A água descendo pela minha janela e a desesperança de ser eu se espalhando líquida pela minha cabeça.

Aí abro o jornal. Tribuna do Norte, edição do dia 24 de abril de 2013. E no caderno de cultura, na coluna de Carlão de Souza, meu olhar deságua numa resenha de “Lítio”, meu primeiro romance. Aquele “cru, polêmico e indigesto”, lançado em 2005 por um Patrício Jr cheio de esperanças.

Carlão elogiou meu romance. Disse coisas bonitas sobre o livro-desabafo que eu não queria lançar – e que Carlos Fialho, amigo e companheiro na Jovens Escribas, consciente de que o début literário é sempre parto à fórceps, praticamente me obrigou a fazê-lo.

A chuva adquiriu outro sentido. Era choro de alegria. Saí pra trabalhar sorrindo. Palavras, palavras, palavras. Que bom que existem.

Deixo vocês com a resenha de Carlão. E com uma notícia: meu novo romance vem aí. Dessa vez, de parto natural.

___________________

Densidade e lembranças

Carlão de Souza, na Tribuna do Norte

O romance Lítio (Jovens Escribas, 339 páginas), de Patrício Jr., requer fôlego para a leitura. À primeira vista, o catatau assusta, mas se o leitor embarcar nessa conversa de um cara com sua analista, não vai querer sair antes da última página. O livro de Patrício Jr. é denso, repleto de lembranças e com um toque de humor que caracteriza o narrador de ponta a ponta. O cara anuncia que vai cometer suicídio e a analista quer saber o motivo. A partir daí não posso contar muito para não entregar tudo ao leitor, mas garanto que será uma louca viagem.

Aqui vamos encontrar um escritor que vem da mesma geração do autor comentado acima. A geração que viu o cantor da banda Nirvana, um galego chamado Kurt Coubain, meter uma bala na cabeça quando estava no auge do sucesso. Patrício Jr. conhece bem sua geração e sabe descascar a cebola que todos são camada por camada. Para isso ele lança mão de uma narrativa caudalosa. Sendo da geração que cresceu junto com os computadores, essa geração que gosta de ler textos curtos e de forma rápida, fica difícil entender porque ele escolheu esse tipo de narrativa longa.

No final do livro, olhando a orelha da contracapa, obtenho uma pista. Ele diz que escreve compulsivamente. E escreve mesmo. São mais de 300 páginas de um sujeito pensando sua existência e entregando de mão beijada para o leitor todas as suas inquietações. Mas percebi algo. O narrador analisa tudo do ponto de vista de um sujeito comum, nunca se lançando a profundidades filosóficas. Se isso é um defeito do livro, não saberei dizer aqui. Gostaria que o próprio leitor tirasse suas conclusões.

Na segunda parte do romance surge a mulher, outra personagem que tem um desejo estranho: cometer incesto com o irmão. Aí o leitor que se segure na cadeira, porque o que vem não é muito palatável para quem acha que todo livro é para seu conforto espiritual. Nada recomendável para quem se excita com o pornô soft da moda. O narrador pega pesado nas descrições de sexo, drogas e rock’n roll, bem ao gosto da já citada geração. Esse livro rende um bom filme, pode ter certeza.

24. abril 2013 by Patrício Júnior
Categories: TELESCÓPIO | Leave a comment

Jovens Escribas e Clowns de Shakespeare: grande lançamento nesta quinta

O grupo de teatro Clowns de Shakespeare realizou em 2012 o projeto “Escribas em Cena” que tinha como objetivo promover uma experiência com autores locais a fim de incentivá-los a escrever dramaturgia. Foi feita uma oficina com o dramaturgo paulistano Márcio Marciano e os textos resultantes desta oficina foram encenados pelo próprio Clowns e por outros dois grupos de teatro convidados: “Bololô Cia Cênica” e “Facetas, Mutretas e outras Histórias”. Os autores convidados para participar do projeto vieram do coletivo de autores / editora Jovens Escribas.

Além das apresentações realizadas no Barracão do Clowns, ano passado, o projeto também resultou numa publicação patrocinada pela Petrobrás. O livro traz todos os textos resultantes da oficina (escritos por Patrício Jr., Carlos Fialho e Márcio Benjamin), além de relatos da experiência feitos pelos grupos e apreciações críticas de dramaturgos convidados (Clotilde Tavares, Makários Maia e Robson Haderchpek).

O livro será lançado nesta quinta-feira (04.04.2013), a partir das 19h, no Solar Bela Vista, juntamente com outras duas publicações da Jovens Escribas também escritas por autoras teatrais: Clotilde Tavares e Cláudia Magalhães.
Lançamentos conjuntos

Além do “Escribas em Cena”, serão relançados e vendidos a preços especiais na noite de 04 de abril outros dois livros. São eles: “O verso e o briefing – A publicidade na literatura de cordel” de Clotilde Tavares, cujos últimos exemplares da primeira edição estarão disponíveis; e “Paraíso Perdido” (contos) de Cláudia Magalhães que, apesar de já constar no acervo das melhores livrarias de Natal, precisava ser relançado para o público leitor da dramaturga.

Jovens Escribas: homenagem ao Dia do Teatro
O evento também traz à Editora Jovens Escribas a oportunidade de prestar uma homenagem ao Dia do teatro, celebrado no último dia 27 de março. Por essa razão, foram escolhidos os 3 livros em questão para serem lançados.

Parceria com o Solar Bela Vista e o SESI
Este é mais um lançamento da Jovens Escribas no Solar Bela Vista, fruto de uma parceria entre a editora e o SESI, através do Solar. Em maio, será a vez de um livro inédito de Nei Leandro de Castro.

Serviço:
Lançamento dos livros “Escribas em Cena” (Vários autores), “O verso e o briefing” (Clotilde Tavares) e “Paraíso Perdido” (Cláudia Magalhães)
Data: quinta-feira, 04 de abril de 2013
Hora: Das 19h às 23h
Local: Solar Bela Vista (Em frente à Capitania das Artes)
Preço de cada um dos livros: R$ 10,00

02. abril 2013 by Patrício Júnior
Categories: TELESCÓPIO | Tags: , , , , , , , , , , , , | Leave a comment

Do tule ao trapo

Fibra única se rompe:
já deixa de ser tule
o que até então o era

08. março 2013 by Patrício Júnior
Categories: MICROSCÓPIO | Tags: , , , , | Leave a comment

Jovens Escribas começa 2013 com mais lançamentos

16. janeiro 2013 by Patrício Júnior
Categories: TELESCÓPIO | Tags: , , , , , , | 1 comment

Casa de praia

Na casa de praia a gente não reclama do barulho. A mãe fala mais alto que a tia, que fala mais alto que o pai, que fala mais alto que a TV, que alguém manda aumentar porque não está ouvindo nada. Ninguém reclama. Só o tio, de vez em quando, rabugento mesmo em face da brisa. Reclama que o cigarro acabou, que o almoço ainda não está pronto, que o sol está muito forte. Mas ninguém reclama das reclamações do tio. Na casa de praia, temos um tratado de paz.

A pirralhada transforma areia em farofa, serve em baldes coloridos, finge que come manjar. Às vezes come mesmo, vai saber o que se passa na cabeça de uma criança. Aí a mãe de um deles corre pelo seu, manda cuspir, lava com água da torneira. A gente ri. Até o moleque está rindo. No fundo a gente sabe que não vai fazer mal. Areia de praia, bicho de pé, nariz descascado, assadura na virilha: nada que acontece na casa de praia faz mal.

Toca o samba dos mais velhos, o rock dos mais jovens, o sertanejo dos viciados em FM e até a Galinha Pintadinha dos imberbes. O repertório da casa de praia faz os ouvidos oscilarem como numa marola, mas sempre dizemos que bom mesmo é quando está tudo em silêncio. Nessas horas tão raras, podemos ouvir a voz de Deus.

De noite a gente se junta na varanda pra ver a novela em 14 polegadas sem antena externa. Esponjas de aço equilibram-se nas pontas das varetas metálicas como suicidas ao sabor do vento. De vez em quando, a gente se pergunta em silêncio: por que não estou assistindo isso no conforto da minha casa? Aí o vento rodopia pelo punho da rede da mãe, escorrega pela varanda da rede da tia, lambe o chão onde se espalham as crianças e sacode o cabelo de quem está pensando besteira. Pensando em quê mesmo? Já nem importa. A rede balança e a mente se joga.

Na casa de praia, tem que fazer cuscuz, tapioca, pão assado, sopa, bolo de milho e três garrafas de café pro jantar de hoje. Tudo é servido numa mesa grande na varanda e de repente a simples refeição ganha ares de banquete. Um diz que está delicioso, o outro avisa que vai querer mais pão assado, a mãe se apressa em passar mais café. E as redes aguardam solitárias pelo momento em que embalarão as digestões.

De manhã todo mundo acorda ao mesmo tempo, sincronizados que estamos pelo ritmo do mar. Há paredes na casa de praia, claro que há, mas estas pouco adiantam quando a gritaria dos bons-dias se alastra pelos cômodos. O pai reclama da política, o cunhado tenta mais uma vez conquistar o sogro, a neta dissimula o beijo que roubou do primeiro namorado. E a vida vai se construindo como se fosse uma peça de teatro: a casa de praia é a vida ao vivo, sem efeitos especiais, sem edições.

Às cinco da tarde, depois do lanche, sempre tem um de nós que pergunta: vai dormir aqui hoje? É nessa hora que a gente se lembra das nossas casas vazias. É nessa hora que a gente responde “Vou sim”. Com a mesma convicção dos que trocaram de país.

14. janeiro 2013 by Patrício Júnior
Categories: TELESCÓPIO | Tags: , , , , | Leave a comment

A Monotonia da Falta de Rotina

Há quem afirme que moderno mesmo é não ser de ninguém. Dormir com pessoas diferentes todos os dias. Nunca acordar na mesma cama nas manhãs de sábado. Moderno, dizem por aí, é ter várias paixões ― e oscilar entre elas ao longo da semana, sempre deixando espaço para mais. Em verdade, meus amigos, vos digo: não há nada mais careta do que ser assim.

Bom é a mesma pessoa todos os dias. O cansaço de ter que reinventar-se. As artimanhas que temos que criar para surpreender nas segundas, nas terças, nas quartas ― infinitamente, todo santo dia, faça chuva ou faça sol dentro de você. Bom mesmo é descobrir sete mil notas musicais diferentes para entoar “Eu te amo”. Bom mesmo é não poder dar-se a chance de se acomodar.

Quem se joga no lance de vários amores imerge na preguiça de ser sempre o mesmo. Pode beijar sempre da mesma forma, fazer sempre as mesmas carícias, ter sempre a mesma performance. Não precisa melhorar, só manter a média. As técnicas não mudam, mudam os parceiros e parceiras. Quem se joga nessa tem preguiça de evoluir no jogo do amor.

O amor me obriga a testar novos eus. Hoje sou rabugento, amanhã sou compreensivo, depois posso testar meu eu romântico, na quinta talvez seja temperamental. Vamos descobrindo novas maneiras de sermos nós mesmos. Afinal, quem desejaria nadar para sempre em um pires quando há tantos oceanos?
Promiscuidade é preguiça. E quem se entregou a esse vício ao quadrado está se protegendo da dor de crescer. São como crianças obcecadas pela repetição. Mordiscam milhares de lóbulos de orelha diferentes, mas mordiscam sempre do mesmo jeito. Conhecem bilhões de seios, trilhões de coxas, zilhões de barbas: mas fazem sempre a mesma coisa com esses apetitosos nacos.

Vivem imersos no que chamo de Monotonia da Falta de Rotina.

Quando se tem os mesmos seios todos dias, há que se inventar novas formas de tocá-los. Com as pontas dos dedos, com a mão espalmada, com as duas mãos em concha. Os dedos trançados no emaranhado da barba funcionam uma vez. Duas, vá lá. Três, quem sabe? Mas antes do fim de semana, há que se testar outras hipóteses. Cheirá-la, alisá-la, desconstruí-la: quem tem sempre a mesma barba jamais pode deixá-las de molho.

Vivamos a delícia de redescobrir novos lóbulos nos mesmos lóbulos que já possuímos. Deliciemo-nos em novas formas de servir nossos beijos. Mergulhemos nos mesmo corpos de sempre em busca agora de novos corpos. E aceitemos: pra que tantas bocas se nenhuma delas é capaz de dizer “Boa noite, caracolzinho”?

11. janeiro 2013 by Patrício Júnior
Categories: TELESCÓPIO | Tags: , , , , , | 1 comment

← Older posts