Eu morro de medo de quem diz que tem inveja branca de mim. Juro que morro. É aquela coisa de algoz com pena do condenado, sabe? Eu desço a guilhotina no seu pescoço, mas desço me corroendo de remorso. Sai pra lá. Inveja branca é coisa de quem não consegue admitir o próprio mal. Deseja ter o que você tem, deseja tomar pra si o que é você, e ainbda tem a audácia de confessar na sua cara com o cuidado de eufesmimar o crime. “Que inveja branca, amigo”, eles dizem com olhar cândido e coração pétreo. São os piores, pode apostar.
Saber-se capaz de cometer maldades é essencial para não cometê-las. Veja a criança. Ela não sabe que pode matar o peixe se tirá-lo do aquário para que se debata no tapete. Ela tira. Ela observa. Ela mata o peixe. Ela, até então, não sabia de quanta maldade era capaz de empreender. Ela aprende. Só vai fazer de novo se houver gostado da maldade. Quem diz inveja branca é assim: está tirando você do aquário, observado seu fôlego se esvair no carpete e pedindo desculpas – sem, no entanto, te devolver à água.
Eu não sinto inveja branca. Detesto. Eu sinto inveja negra. Corrosiva. Autodestrutiva. Negativa mesmo. Eu sou um ser humano e não vim com filtro de redes sociais instalado no meu cérebro. Aqui na minha cabeça, eu comigo mesmo, tem inveja de sobra. De um monte de coisas. Todas bem pretas e purulentas.
Eu tô no trabalho e vejo a foto de um amigo na praia tomando sua cervejinha de férias. Inveja negra. Eu descubro que um parente ganhou uma herança e não vai mais precisar trabalhar. Inveja negra. Eu vejo check-ins em bares enquanto estou em casa sem dinheiro. Inveja negra. Negríssima. Pretume puro.
Não tenho problema algum em sentir. Sinto amor, raiva, amizade, indiferença, ódio, paixão. Sinto tudo e muito, até torrar o talo do sentir. Inveja é apenas mais um sentimento como outros tantos. Mais um que não me incito a disfarçar colorindo-o de alvor. Inveja branca é pra quem tem medo do que sente.
A diferença não está na cor. Tem amor roxo, amor vermelho-sangue, amor amarelo. É tudo amor. Com todos os defeitos e lucros que esse sentir complexo traz. A diferença é: o que você faz com esse amor? Tem gente que mata por amor. Que se mata por amor. Tem gente que sofre, que aprende, que cresce, que não aprende, que se destrói, q ue se constrói. Tem gente que faz gente por causa do amor, ora bolas.
Com a inveja, nada diferente. Tem gente que fica presa no sentimento, estancada em algum ponto da admiração ao outro, congelada na impossibilidade de ser o que quer. Usa a inveja branca para disfarçar esse estopor. Deve ser difícil mesmo. Mas comigo não. Eu consumo a inveja como combustível – e não vive-versa. Admiro a grandeza do outro, me pergunto se é o que quero, mobilizo a imobilização que a inveja causa. Transformo inveja negra em petróleo. Para me mover.
Inveja branca é invenção de beata que faz macumba pra destruir as amigas. Sorri na igreja dizendo “que inveja branca, querida”, mas quando chega em casa espeta seus alfinetes de crochê num bonequinho com o rosto da noiva da semana. Conheço bem o tipo. Está cheio por aí.
Inveja branca não existe. É inveja e pronto. O “branca” entra só pra tornar socialmente aceita a confissão do inconfessável. Da próxima vez que sentir a tal inveja branca, pare pra pensar. Você é tão mal quanto o resto do mundo. Não me venha com essa de anjinho de apenas uma asa. Você veio com essa terrível capacidade de tirar o peixe do aquário para voyeurizar sua morte. Faça da inveja uma coisa só: o impulso pra ir adiante. É pra isso que ela serve. Negra, branca, verde: não importa a cor se você não souber o que fazer com ela.






